quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Discurso sobre o objeto e importância da filosofia

D. J. Gonçalves de Magalhães

Texto de 1838, publicado em 1842, referente à posse da cátedra de Filosofia no Colégio Pedro II por Gonçalves de Magalhães, então nomeado pelo governo monárquico no âmbito de uma política institucional de modernização do ensino médio, segundo o modelo francês da Restauração.


“Podemos afirmar, em linhas gerais, que os primeiros professores do Colégio [Pedro II] são donos de intensa produção intelectual, pois fundaram e escreveram para jornais e periódicos, publicaram compêndios, obras literárias, foram produtores de obras de arte e alguns são considerados fundadores de disciplinas escolares no Brasil.”
(Ana Waleska P. C. Mendonça; Ivone Goulart Lopes; Jefferson da Costa Soares; Luciana Borges Patroclo, A criação do Colégio de Pedro II e seu impacto na constituição do magistério público secundário no Brasil. Texto completo: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-97022013000400011>.


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Senhor,
Quando me deram a grata notícia de que V. M. Imperial se dignava de ir honrar com sua augusta presença a abertura da Aula de Filosofia do Imperial Colégio de Pedro Segundo, julguei que não me seria possível desempenhar cabalmente os meus deveres, e satisfazer a V. M. Imperial se me ali apresentasse animoso só confiado em alguns apontamentos, e no meu fraco talento da palavra, que poderia faltar-me em tão solene ocasião.
Escrevi, pois, este discurso em atenção e respeito a V. M. Imperial; e fora ingratidão da minha parte se eu o não dedicasse agora a V. M. Imperial, que, por assim dizer, me serviu de Musa.
Digne-se V. M. Imperial aceitar benigno a mesquinha oferta que lhe tributa e consagra
O seu reverente súdito.
Domingos José Gonçalves de Magalhães

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Neste lugar de honra, donde devera descerrar seus lábios a sabedoria, venho eu hoje, pela primeira vez, sentar-me, em nome da mais alta, da mais sublime das ciências, para ser o intérprete de seus ditames e mistérios. Aqui, no meio de vós, tendo sobre mim fixos os vossos olhos curiosos, e como que comprimido pela vossa silenciosa atenção, sinto ir cedendo a um justo temor o entusiasmo santo que em meu coração palpitara ao entrar neste recinto, donde já não posso retirar-me sem primeiro dar o espetáculo da minha insuficiência. Uma voz grave, quando severa, que parece murmurar em meus ouvidos, me está agora abalando a consciência, e como que me pergunta: Qual o teu direito, quais os teus títulos para te revestires com as sagradas insígnias do magistério, e te apresentares como guia da mocidade brasileira ao santuário da Razão, onde a custo penetraram os mais alumiados gênios que o mundo há visto, sem que lhes fosse dado levantar o véu misterioso que a mão da Providência estendeu sobre o rosto puro da verdade?… Como! (continua a voz severa) Não vês tu esse exército de filósofos de todos os tempos e de todos os povos debatendo-se reciprocamente com as armas da inteligência, ora entregues aos voos da imaginação criadora, ora dirigidos pelo mais escrupuloso raciocínio, ora confiado na eficácia dos instrumentos orgânicos, ora apoiados na sagacidade da crítica, depararem por fim com um espectro luminoso que pela verdade tomam, sem contudo atingi-la?… Como! Não vês, quando, depois de inúteis esforços, quebrados de fadigas, repousam, cuidando legar às gerações futuras um farol permanente em desobstruída estrada, outros que após se levantam, louvando-lhes apenas o nobre intento, encetam a mesma luta, partindo do mesmo ponto, emaranhando-se nos mesmos labirintos, arrastando os mesmos elementos e erguendo iguais sistemas? Agora, dizei: Qual será a tua missão? De que sistema vens tu ser o pregoeiro, ou de que nova teoria te farás apóstolo?

Certo, Srs., esta voz, que cuido ouvir, é sem dúvida a vossa, como seria a minha, se entre vós eu estivesse, e aqui nesta cadeira outro se apresentasse. É pois mister que eu procure satisfazer a estas questões, e justificar por algum modo confiança que em mim depositou o Governo, quando me escolheu para professor de filosofia deste colégio normal, único em todo o império que oferece à nossa estudiosa mocidade uma educação ampla, variada, completa e sistemática, em harmonia com o atual estado dos conhecimentos humanos, igual, senão superior, à que só nos principais colégios da França e da Alemanha colheria.

Vasto é o campo que se me apresenta para discorrer perante um auditório em que diviso tantas ilustrações; e por maior que seja vossa indulgência para com o jovem professor, vindes julgar-me, eu tremo diante dos meus juízes, receoso de ficar muito abaixo do assunto que, posto pareça escolhido, é contudo, necessário.

Acabo de pronunciar o termo filosofia, cuja significação literal é tão intensa e extensa, que, na sua órbita vasta como o Universo, ficam incluídas todas as ciências humanas e todas as verdades que o tempo nos irá mostrando. Esta significação, que lhe deram os antigos desde Pitágoras, posto que legítima, não podia permanecer entre os seus modernos cultores, que procuraram fixar o seu objeto e circunscrever o seu domínio; a não ser assim, a lhe darmos a mesma antiga significação, não seria a filosofia uma determinada ciência, mas o complexo de todas as ciências, o que excederia a toda e qualquer capacidade humana por grande que fosse, ainda mesmo a de Aristóteles e Leibniz; por outro lado, tantas e tão variadas são as ciências a que se consagra o espírito do homem, que qualquer delas marcha sem dependência de outra, e é mais que suficiente para a nossa curta e afadigada vida.

Entretanto, de comum acordo os sábios, e com eles o gênero humano, reconhecem na filosofia a fonte de todas as ciências, a luz das verdades mais transcendentes, e lhe não contestam a primazia. Ainda hoje ouvimos dizer: A filosofia da física e da química, a filosofia da medicina e da história etc, como se estas ciências, posto que distintas, não pudessem desenvolver-se sem a primeira, como se em cada uma delas houvesse uma parte vulgar e empírica, insuficiente para merecer o título de ciência sem o apoio de outra mais nobre e elevada que lhe serve de guia. Esta maneira de falar denuncia claramente que não há ciência onde não há filosofia, que não há filosofia onde não há razão; e que a razão, só a razão, deve dominar sobre todos os nossos conhecimentos, para que se possam denominar científicos. Daqui se colige que, no exercício da razão, na pesquisa das causas, na explicação própria dos fenômenos está o espírito filosófico. Aquele que se contenta com as aparências sensíveis, com a sucessão dos efeitos e com a ordem de seu desenvolvimento, poderá possuir bastante cabedal para, entre os homens, passar por médico, químico ou físico, mas não bastante razão para se denominar filósofo. Os fatos são mudos e por si só não dão verdadeira ciência, como os títulos e os pergaminhos (digamos de passagem) não dão verdadeira nobreza e saber; com esta diferença que sem fatos bem observados não podemos concluir ou deduzir coisa alguma; porque necessário é, segundo a nossa natureza, que marchem de acordo, e mutuamente se expliquem, os elementos a priori e a posteriori; necessário é interrogar os fatos, descobrir as leis que os regem e indagar as causas: e isto é filosofar.

Esta segunda maneira de considerar a filosofia, que toda se funda no bom emprego das nossas faculdades intelectuais, e no uso da razão em relação aos fenômenos, não é contudo a última. Pretenderam alguns filósofos melhor especificar o objeto desta ciência, e estabelecer uma linha divisória entre ela e as demais. O professor Reid, chefe da escola escocesa, começando por declarar que o conhecimento humano se divide em duas grandes classes, segundo que por objeto tem a matéria e o espírito, as coisas corporais e as intelectuais, coloca na primeira classe as ciências físicas e naturais, e na segunda a ciência do espírito humano, e com esta a gramática, a lógica, a retórica, a teologia natural, a moral, o direito, a legislação, a política e as belas artes; mas não diz claramente que estas constituem a filosofia, nem às primeiras nega o título de filosofia natural; e, indicando a ciência do espírito humano como o laço comum, e a raiz de todas as que não têm por objeto o mundo material, parece vacilar sobre o verdadeiro objeto da filosofia, ou admitir tacitamente a universalidade de sua significação literal e primitiva. Dugald-Stewart, seu sucessor, sem reprovar a classificação do mestre, fundada na diferença das duas grandes realidades, a matéria e o espírito, limita-se a dizer que há um grupo de ciências que mais particularmente se referem à ciência do espírito humano, como à sua fonte comum, em oposição às ciências naturais e físicas, e vacila igualmente no título que melhor lhes convenha, chamando-as ora ciências filosóficas, ora intelectuais, ora morais. Com todo o acatamento devido a estes gênios, de cujas lucubrações me hei aproveitado, ouso observar que, posto pareça bem fundada a divisão das ciências em duas categorias, não vejo razão para que só a uma delas caiba o título de filosófica. Dar-vos-ei uma prova: nas ciências que têm por objeto o homem, quer físico quer moral, não há aí fazer igual distinção, nem dizer: aqui para o que é físico-vital, aqui começa o domínio da filosofia. Tantas vezes tem o médico, no exercício mesmo do seu ministério, de se dirigir ao espírito do seu doente, como o legislador de conhecer a topografia do seu país, verdade esta que não escapou ao gênio perspicaz de Montesquieu, e que, desdenhada, pode ser de funestas consequências. O médico que não for igualmente um profundo moralista e filósofo, não passará de um mero rotineiro, bem comparável a esses pilotos práticos que só servem para abicar o navio no conhecido porto, e nunca para, no alto mar, guiá-los no meio das tormentas que inopinadas se levantam; assim também o legislador e o político, que fazem da sua ignorância nas outras ciências um título de merecimento, estão muito arriscados a cometer graves erros que comprometerão a sorte e a prosperidade do seu país. Suponde, senhores, que se lembrava alguém de transportar para o meio de nós a legislação egípcia ou espartana, e vede a priori quais seriam as consequências.

Um ilustre filósofo dos nossos dias, de quem tive a honra de ser discípulo, Mr. Jouffroy, em um de seus trabalhos sobre a filosofia escocesa, reconhece que a ideia da filosofia não tem sido ainda claramente determinada, porquanto a ideia de uma ciência se resolve na de seu objeto, para o qual tendam todos os seus esforços; que o espírito humano, é certo, tem obscura ideia de uma vasta ciência a que denomina filosofia: qual seja o seu objeto ele o pressente, mas não lhe é dado claramente distinguir, e por isso não tem sido possível formular-se definição que lhe convenha. Mas, se o objeto da filosofia não está determinado, se na sua pesquisa trabalham alguns filósofos, não se segue que igualmente não estejam bem determinados os objetos dos diversos ramos desta vasta ciência. Estão fixos os objetos da psicologia, da lógica, da moral e da estética, demarcados os seus limites, mas a ideia geral e as raias da ciência a que eles pertencem é um problema que não está resolvido. Pretende Mr. Jouffroy ter achado a chave desta dificuldade e da sua resolução. Observa ele neste mundo duas ordens de fenômenos perfeitamente distintos, os fenômenos físicos e os fenômenos intelectuais e morais que, por abreviatura, denomina materiais e espirituais. É por intermédio dos sentidos e no mundo exterior que apreendemos e conhecemos os primeiros; é pela consciência e em nós que atingimos os segundos, porque é só no teatro da consciência que os podemos observar imediatamente: fora daí apenas vemos os efeitos e os símbolos materiais, e não compreendemos a causa desses efeitos e o sentido desses símbolos senão pelo conhecimento que dessa ordem de fenômenos havemos em nós adquirido. Ora, toda a questão científica possível se resolve no conhecimento das leis dos fenômenos de uma e de outra espécie; a questão que acha sua resolução nas leis dos fenômenos materiais é física; a que acha a sua nas leis dos fenômenos espirituais é filosófica, e a que, enfim, para ser resolvida pressupõe ao mesmo tempo o conhecimento das leis de alguns fenômenos das duas ordens, é mista e participa da dupla natureza das questões filosóficas e físicas. Tal é a opinião de Mr. Jouffroy. Discriminadas destarte as duas ordens de fenômenos, extremada a filosofia das ciências físicas, fácil seria o defini-la, se a terceira ordem de questões, cuja solução está dependente do conhecimento das leis das duas naturezas, não nos mostrasse a impossibilidade de uma separação entre a filosofia e as ciências físicas. Podemos distinguir os fenômenos, mas não separar as ciências que mútuo socorro se prestam. Assim, no homem, onde tudo se harmoniza, muitos fenômenos fisiológicos e patológicos seriam inexplicáveis sem o prévio conhecimento das leis do mundo intelectual e moral. Conhecemos, é certo, muitos fatos sensíveis desta oculta e misteriosa relação do físico e moral do homem, não nos é possível separá-los. A inteligência humana, condição de todas as ciências humanas, serve-se de instrumentos orgânicos; na explicação dos fenômenos ou funções destes órgãos uma parte pertence à física animal, outra às leis da vida e outra à psicologia, ciência puramente filosófica, de que com especialidade trataremos neste ano letivo.

Não é só no homem que se observa esta harmonia; todas as mais ciências dependem do espírito humano, que, pela virtude que lhe é própria, adquire o conhecimento das leis e fenômenos físicos e morais, e fica-lhe o direito de questionar sobre a razão de sua existência objetiva. Pelo que acabo de observar, força é reconhecer que, dado seja exata e completa a divisão dos fenômenos em duas categorias, apresentada por Mr. Jouffroy, nem por isso se torna fácil o determinar e circunscrever o objeto da filosofia, e que a esta por muito tempo ainda ficará pertencendo o título de ciência das ciências. Mas não penseis, senhores, que não me conformando eu com as opiniões de tão respeitáveis mestres, fico entendendo que é a filosofia a ciência universal, da qual sejam ramos as ciências físicas e morais. Não, senhores! Se permitis que eu aventure agora meu parecer sobre este título de ciência das ciências, dir-vos-ei, no conhecimento de certos e determinados fenômenos, e das leis que lhes são relativas, cifra-se qualquer ciência humana, mas que a filosofia não consiste só no conhecimento dos fenômenos e das suas leis; pelas leis explicamos nós os fenômenos, mas essas leis têm uma razão na vontade do Legislador Supremo, e uma condição nas leis do nosso entendimento, para que acreditemos na sua veracidade e objetividade.

E o que são essas leis consideradas somente em relação aos fenômenos? Nada mais do que a ordem constante que guardam os fenômenos no seu aparecimento; conhecer uma lei é saber que tais fenômenos se manifestam deste e não daquele modo, e com tais condições, e que a ordem de hoje será a de amanhã e depois. É quanto basta para qualquer ciência. E porventura aí para, e com isso se contenta o espírito humano? Não. Por que as coisas são assim? O que são esses fenômenos em si mesmos? Quem lhes prescreveu essa ordem a que chamamos lei? O que é essa substância sem a qual não podemos conceber a possibilidade mesma desses fenômenos? Donde viemos? Para que vivemos? E para onde iremos? Eis uma nova ordem de questões da maior importância, que o homem julga-se com direito de propor, ainda que lhe faleça a possibilidade experimental para resolvê-las. Ele deixa o mundo sensível que nada lhe responde, e interroga a razão que o esclarece; e o que lhe diz a razão? Que questione quando quiser e sobre o que quiser, que para isso é ele inteligente e livre; que toda a questão tem uma resposta definitiva, que não lhe compete o revelar-lhe, mas lhe dará sua sanção se ele próprio a descobrir. Ávida a inteligência da verdade que tanto lhe importa, recorre a suas faculdades; na imaginação acha uma força criadora; ora, a imaginação não é só a faculdade de reproduzir imagens, nem lhe foi dada só para iludi-la; ela aí se concentra, imagina, compõe, levanta hipóteses e forma sistemas; isso fazemos nós todos e nem podemos deixar de o fazer por mais experimentalistas que sejamos. Depois de Bacon, esse gênio extraordinário, ninguém ousa defender o método hipotético, sob pena de passar por um sonhador metafísico; diríeis que estão as ciências expurgadas de hipóteses e de sistemas; entretanto, não é assim. Se eu não falasse agora a um auditório composto de doutores em todos os ramos dos conhecimentos humanos, se não quisesse evitar uma erudição desnecessária, apontaria as hipóteses, teorias e sistemas que por aí vão em todas as ciências. Basta dizer que não é só nos domínios da filosofia que a inteligência se serve da imaginação.

Ainda mesmo que na palavra filosofia só compreendamos o que nas escolas se compreende, isto é a psicologia, a lógica, a moral e a teodiceia, mesmo assim prima a filosofia entre todas as ciências, sobre todas domina, e se torna de absoluta necessidade ao legislador, ao político, ao médico, ao naturalista, ao poeta, ao artista, e a todo o homem que no meio das maravilhas de Deus sente sua alma abrasada no etéreo fogo do entusiasmo, e elevada nas asas da admiração a essas regiões puras, onde parece ocultar-se a verdade, única e suspirada meta de todas as ciências. Entre todas as criaturas se levanta o homem como a obra prima do Criador, não só pela beleza de suas formas, como pela sublimidade de sua razão; só o homem, sobre esta crosta do globo que habita, procura a verdade e a causa dos fenômenos, e único melhora de condição, enquanto tudo em torno dele obedece a uma prática inalterável; mas esta perfeição é toda moral. O homem físico está sujeito a todas as leis animais, e nasce e morre como todos os seres do seu reino, porém suas ideias participam da imortalidade do espírito que as gera, e vivem passando de geração em geração, formando a grande cadeia da humanidade. A inteligência humana é uma força ativa e livre, cujo centro de gravidade é a verdade que em Deus existe. Deus é pois para a inteligência humana o que o Sol é para o nosso sistema planetário. A primeira verdade da inteligência é a mesma inteligência, como princípio pensante, e condição subjetiva de todas as verdades humanas; daí nasce imediatamente a noção de sua causa, da causa necessária, que é Deus, sem o qual nada se compreende, nada se explica, nem a inteligência a si mesma se entende. Posto que a inteligência pareça desenvolver-se com o corpo, e disto resulte duas ordens de fenômenos morais e físicos, contudo, todos se concertam em um só ponto, porque o homem, considerado na sua totalidade, é a harmonia do espírito e da matéria, harmonia sustentada pela força vital. Quanto mais desenvolver o homem sua inteligência, tanto mais realizará a vontade divina, porque Deus o criou inteligente e livre para conhecê-lo e amá-lo. O homem que, perjuro a esta lei de sua natureza, condena à escravidão sua inteligência, e se vota à inércia, é um monstro na ordem moral; seu castigo neste mundo é a ignorância, a escravidão e o despotismo, e tão criminoso é o escravo como o tirano. Disto se conclui que nenhum dever há mais sagrado para o homem que o de procurar a verdade e de mostrá-la aos outros; nossa consciência nos revela que esta é uma lei da nossa inteligência, e a meta racional da nossa atividade.

A consciência é a firmação da inteligência sobre si mesma, é o teatro da observação interna; sem consciência não existiria o espírito humano para si próprio, e seria como se não fosse, tal como é durante o sono. Por isto já vedes, posto que rapidamente, qual seja a importância da psicologia, da moral e da teodiceia, partes tão essenciais da filosofia. É com o socorro destas três ciências que o legislador pode dar às leis escritas os caracteres augustos de justiça, de bondade e de equidade. Sem moral, a política é uma infâmia, e uma quimera a prosperidade dos impérios, a paz é ilusória, a lei uma zombaria escrita, e a liberdade licença. Oxalá não fizéssemos nós esta terrível experiência! Não sou eu que o digo, senhores, sois vós todos, desde o recinto dos legisladores, desde a cadeira do magistrado, desde os órgãos da opinião pública até o último cidadão, vós todos reconheceis esta verdade que a filosofia altamente apregoa. A moral e a teodiceia perfeitamente se ligam e se abraçam; uma não pode viver sem a outra, e são como duas virgens puras nascidas do mesmo ventre e no mesmo dia; ambas dependem da psicologia, e todas se servem da lógica, que igualmente domina todas as outras ciências. Eu não pretendo agora tecer o elogio da filosofia; seu elogio está feito pela voz constante de todos os séculos. Mas, não cuideis, senhores, que ela marcha tranquila como o baixel veleiro, a quem propícios ventos favoniam; não, senhores; muitos são os trabalhos, muitos os sistemas, muitas as opiniões, mas os resultados não correspondem ainda a tantas fadigas. No campo da filosofia se levantam quatro grandes sistemas a que se referem mais ou menos todas as diferentes teorias, poderíamos compará-los a quatro grandes rios, onde confluem outros menores: são estes sistemas, o sensualismo, o espiritualismo, o ceticismo e o misticismo; eles se encontram na Índia, na Grécia, na Idade Média e nos nossos tempos; encontram-se mesmo em menor escala em qualquer povo civilizado, talvez sucessivamente em todo o homem que seriamente pensa e medita; qualquer de nós terá feito esta experiência: na mesa do banquete, rodeado de prazeres, embriagados os sentidos, é homem sensualista; quando a noite silenciosa o separa do mundo e o pensamento sobre si reflete, renasce o espiritualismo; se procura entrar no âmago das coisas, se o que vê, se o que pensa não convence, eis com ele o ceticismo: se a morte lhe rouba um objeto caro às suas afeições, um pai ou um amigo, e lhe apresenta a espantosa eternidade, ei-lo pagando um tributo ao misticismo. Nenhum destes sistemas é totalmente falso: todos eles acham um fundamento na natureza humana; e, como bem diz Mr. Cousin, o completo absurdo não entra no espírito do homem; é uma virtude do pensamento não admitir nada sem a condição de uma parte de verdade; o erro absoluto é ininteligível, portanto inadmissível e impossível. Estes quatro sistemas meio verdadeiros, meio falsos, são os elementos fundamentais da filosofia. Em outro lugar diz ainda o ilustre chefe da escola eclética da França: “O erro da filosofia é de haver considerado um só lado do pensamento, e de tê-lo visto todo inteiro por esse lado. Não há sistemas falsos, sim muitos incompletos, assaz verdadeiros em si mesmos, mas viciosos na pretensão de conter cada um deles a absoluta verdade que em todos se acha”.

Neste fundamento trabalha o erudito mestre, que me servirá de guia, para reconstruir o edifício da filosofia. Esta filosofia se denomina eclética, única que pode satisfazer as necessidades do espírito humano, e salvar-nos do rigoroso ceticismo, que marcha ao lado de cada um deles como um terrível adversário; e, não contente de lhes mostrar os erros, lhes vai aluindo as bases e destruindo suas mais justas pretensões; e nisto mesmo, apesar de excessivo, nos presta o ceticismo um grande serviço, obrigando o espírito humano a regressar na senda exclusiva em que embicara. Não é o meu intento abalar a vossa crença sobre cada um destes sistemas: fora necessário para isso expô-los agora, um por um, e ir refutando seus princípios e deduções com os argumentos fornecidos pelos contrários sistemas e com as inevitáveis contradições de todos eles; fora necessário um longo discorrer, que o tempo, o lugar e o assunto, me não permitem. De todos esses sistemas, aquele cujas consequências mais pesadas nos tem sido, é sem dúvida o sensualismo, que, pela sua aparente clareza e facilidade, tanto encanta os espíritos que pendem a simplificar tudo, e acham nesta simplicidade exterior uma certa beleza de formas, que anteposta à verdade, lhes impede de penetrar-lhes o âmago: o sensualismo, que, na sua marcha exclusiva, consigo arrasta o materialismo, terrível escolho onde naufragam as mais sublimes ideias e os mais nobres sentimentos do homem; o materialismo, enfim, bem comparável a esse duro monte

De áspero mato e de espessura brava
que Adamastor abraçava pela ninfa dos mares, e diante do qual
Não ficou homem, não; mas mudo e quedo,
E junto de um penedo outro penedo.”

A ninfa é a verdade que os filósofos procuram; mas ah! quantas vezes, como o gigante apaixonado de Camões, abraçam eles o penedo que tomam pelo rosto angélico! E não ficam homens, não; que de tão incompleta análise do homem a síntese não dá o homem como nós o conhecemos.

Que repugnante coisa é o materialismo, senhores! Quando o homem, pela força só de sua inteligência e vontade, de fraco que é, se faz forte e dominador de tantos gigantes organizados; quando, em virtude só de sua inteligência, penetra os arcanos da natureza, mede a extensão das órbitas celestes, a duração do curso dos astros, e descobre, nas leis harmônicas e constantes do universo, os evidentes sinais de um Ser necessário, infinito em sabedoria, em poder e em bondade; quando o homem, enfim, procura todos os meios para distinguir-se e elevar-se acima do homem seu irmão, haver quem pretenda rebaixá-lo à condição do bruto, a quem Deus negou a razão e liberdade! Haver quem ouse convertê-lo todo inteiro em matéria organizada, e reduzir sua inteligência sublime e liberdade a fenômenos e a modificações contingentes dessa matéria inerte por sua natureza! Oh! Que repugnante coisa é o materialismo!

Aqui lhe não daremos quartel. Locke e Condillac, que ainda dominam em nossas escolas, comparecerão aqui diante de Reid, de Royer Collard, de Cousin e de Fichte. Falaremos de Gall e de Broussais, e mostraremos a importância das pretensões frenológicas na explicação das faculdades intelectuais com dependência da unidade e identidade do Eu. Em moral oporemos Kant, Dugald-Stewart e Jouffroy, a Helvetius, a Hobbes e a Benthan. Mas não cuideis senhores, que fugindo de um extremo, caiamos em outro. É uma vaidosa pretensão da ciência o querer demonstrar com razões superiores o que se não pode demonstrar; o que é uma crença inabalável e como um axioma para o homem; e não menos vaidade é o negar o que se não pode provar. O que o espírito humano sem mais provas fortemente acredita não carece de provas para ser crível, nem há provas que destruam esta crença. Assim pois não apoiaremos a existência objetiva do mundo material na impossibilidade que Deus nos engane, por ser incompatível com sua perfeição e bondade qualquer dolo ou malícia, razão esta de tanta força para o grande Descartes, e rejeitada pelo seu discípulo Malebranche, que julgou o mundo melhor apoiado na fé da revelação, o que, segundo a sua mesma teoria, é uma petição de princípio, como dizem os lógicos: nem tão pouco negaremos a sua realidade e existência, como fez Berkeley, tirando todas as verdadeiras consequências dos princípios de Descartes e de Locke.

A verdade é uma, e se apresenta indestrutível e de um só modo, posto que ordinariamente se diga que ela tem duas faces. O caráter único da verdade é de submeter a nossa liberdade logo que a razão a percebe, porque a verdade não é do homem, ele não a faz como deseja, nem a pode destruir: a verdade é de Deus. A opinião ou hipótese é como o remédio, que só se deve tomar na enfermidade, e largar quando se recobra a saúde: mesmo assim, convém critério na opinião que se adota, como no remédio que se toma; o exame livre e desprevenido é pois necessário em todas as nossas indagações.

Assaz fica dito para que entreis no espírito que presidirá os nossos trabalhos filosóficos. Esta declaração vos era devida, senhores, porque sois interessados na educação desta mocidade, esperança da pátria. Tudo o que pude colher em alguns anos de estudo e de meditações, o alheio e o próprio, virei repartir com ela; sim, estudiosos moços, convosco contraio agora uma obrigação difícil e árdua, e que só pode ser suavizada com a ideia de vosso aperfeiçoamento moral. Hoje só vos atormenta o ardente desejo de ilustrar-vos, e o futuro se vos antolha como um sonho de amor, brilhando com todas as cores da vossa imaginação. Um dia entrareis no turbilhão das mundanas coisas, e ser-vos-á um título de glória o haverdes bebido a vossa educação moral e literária no abundante manancial deste colégio: ser-vos-á grata a lembrança deste tempo tão bem aproveitado. Não espereis de mim neste momento que vos anime ao estudo da filosofia embalando-os com promessas da glória que acompanha o sábio na carreira da vida, e extrai seu nome do silêncio da campa; nem que vos estimule coma perspectiva de lugares eminentes, de lucros e proveitos que do estudo vos possam fundir. Todas as honras e proveito do mundo ser-vos-ão fáceis de adquirir com o verdadeiro merecimento, não o nego; mas eu desejo que no mundo entreis bem aconselhados pela ciência, e bem apercebidos de virtudes, para que não vos desacoroçoeis com seus péssimos exemplos e sofismas, para que não digais alguma vez: De que nos servem a ciência e a virtude se tão pouco valor têm elas no mercado da vida! Sejamos felizes; façamos o que os outros fazem. Não, senhores, a verdadeira felicidade não está no gozo de bens precários, mal adquiridos, o sábio não os procura, e ainda menos a troco de infâmias; antes com a modéstia os menospreza, e, como diz o poeta: 

Melhor é merecê-los sem os ter
Que possuí-los sem os merecer”.

A história dos filósofos está cheia destes grandes exemplos de abnegação das coisas mundanas; se não tiverdes bastante heroísmo para imitá-los, preveni-vos ao menos de sublime resignação para que não se vos antolhe como insuportável desgraça a falta desses bens mais transitórios que a própria vida. Ilustrai o vosso entendimento pelo amor da verdade e da virtude, e pelo que deveis a Deus, à pátria, a vós mesmos, e aos homens com quem viveis e que estes deveres vos sejam gratos apesar dos dissabores e dos contratempos da viagem. Espero que minhas palavras frutifiquem e que sirvam meus discursos para roborar os vossos sentimentos de piedade cristã, levantando vosso espírito à contemplação da grandeza infinita de Deus. E se eu adivinhasse que contrário efeito produzissem minhas palavras, desde agora eu condenaria minha boca ao silêncio, e, coberto de vergonha, fugiria do meio de vós.

Para concluir este discurso com um pensamento sublime, direi como Platão: Quem conhece a Deus é verdadeiramente sábio e virtuoso: quem o não conhece é evidentemente ignorante e mau.

Alto e Magnânimo Senhor, dignou-se V. M. I. de vir abrilhantar com sua presença augusta a solenidade deste ato, e de conceder-me assim mais esta ocasião de levantar minha humilde voz aos seus ouvidos; e se já outrora me relevou V. M. o entusiasmo com que de meus lábios dei expansão harmoniosa aos votos de minha alma, no fausto dia de sua gloriosa coroação, releve também agora à linguagem da filosofia alguma liberdade que não só aos poetas é concedida. O monarca, Senhor, está sempre colocado diante do seu povo e da posteridade; o povo quer nele um protetor e amigo, a posteridade um modelo. A história, essa severa mestra e desinteressada conselheira dos príncipes, assaz terá mostrado a V. M., que tanto a consulta, quanto da bondade e sabedoria do rei depende a grandeza e prosperidade das nações, e quanto a glória dos sábios e dos literatos reflete na pessoa do rei, formando a mais bela auréola de sua própria glória e majestade. Assim é que, brilhando o Sol com toda a pompa de sua luz prolífica, parecendo não necessitar de coisa alguma para complemento de sua magnificência, recebe contudo, no matiz das flores, na verdura dos montes, no azulado dos mares, novas provas de sua bondade e soberania; desapareça o Sol, e não terão os olhos que ver, é certo; mas, derrame o Sol profusamente todos os seus raios sobre árido e estéril deserto, tal como nos pinta a mente esses areais da Arábia, e o que terão também olhos que aí ver, sem flores, sem montes, sem águas que reflitam as belas cores de seus raios? A branca areia e o pó obrigarão os olhos a fechar-se. Assim, sobre o reinado da ignorância e da barbárie, rápido passa o historiador fechando os olhos. Esses reis que tiveram a ventura de dar seus nomes aos séculos em que viveram tal dita não alcançaram só com os próprios feitos senão também pelo concurso de grandes homens, que como flores esmaltaram o seu reinado, e de que se eles souberam aproveitar, tirando-os da obscuridade, e favorecendo-os em suas ciências e artes. O verdadeiro merecimento é, muitas vezes, como o diamante que das mãos do lapidário não recebeu polidas e brilhantes facetas; por ele passa o vulgo, e não o vê; feliz de quem o conhece através da crosta natural e pouco lisonjeira; a verdade, como o merecimento, é simples em seu exterior, e teme ser esmagada a cada passo; nem esperam os bons monarcas que ela os  visite sem convite; antes, se a desejam, solícitos e procuram entre os que falam – humilde, baixo e rude, e onde, como diz o Epico, encontram

Da vida o honesto estudo,
Com longa experiência misturado.”


Não prosseguirei para não parecer desmentir, com liberdade de poeta, a timidez de filósofo, dado que V. M., mais que ninguém, a verdade preze. Mas, que faço eu em repetir o que talvez V. M. com regras a si mesmo diga e prescreva, e de que temos agora uma prova visível e honrosa? Glória imortal está reservada a V. M. Imperial; e quando do Brasil todo se levantar uma voz para fazer ressoar no mundo o hino de sua apoteose, não ficará mudo este colégio, que, além do nome de Pedro II, conservará a grata memória de sua proteção e favores.

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