quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

A ciência da alma ainda e sempre contestada

Tobias Barreto


  Texto de 1871, deve ser estudado como extensão e aprofundamento do exame crítico da obra Fatos do espírito humano de Gonçalves de Magalhães (internet: http://textosdefilosofiabrasileira.blogspot.com.br/2013/02/fatos-do-espirito-humano.html), especialmente do seu capítulo VIII, onde se apresenta uma elaborada teoria da sensibilidadecuja fonte de inspiração se encontra no espiritualismo eclético defendido por Victor Cousin e Théodore Jouffroy, sendo que deste Gonçalves Magalhães foi aluno assíduo por ocasião de seu estágio em Paris (1833-1837). N. do E.


  • Versão atual baseada na edição de Paulo Mercadante e Antônio Paim (BARRETO, Tobias. Estudos de filosofia. In: Obras completas. Rio de Janeiro: Record/INL, 1990, pp. 136-161).
  • Notas ao final.


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É visível o torpor, e poderia dizer — a inanição completa do velho espiritualismo cartesiano-católico. Negá-lo!?... Só por efeito de fátua ligeireza, ou de cega rebeldia contra a soberana autoridade dos fatos. As doutrinas de Cousin e Jouffroy estão exaustas. As últimas produções dos pensadores, filiados nessa escola, são de uma extrema e lastimável fraqueza.(1)

Não há mister de largo esforço, nem de medir com a vista todo o horizonte do mundo filosófico, para pôr esta verdade a salvo de qualquer dúvida. Basta por ora limitar-me à França, com alguns de seus filósofos, nos tempos derradeiros. Diante de uma vasta literatura, o que há de mais difícil é o trabalho da escolha.

Eu abro casualmente o livro, abaixo mencionado, e leio nele um artigo interessante sobre o estado atual da psicologia, seu método e seus resultados; o que tudo soma uma defesa em regra dos direitos da alma humana. E bem que nesse escrito não se achem resumidas, cristalizadas, todas as razões e alegações habituais, contudo ele ministra uma excelente ocasião para tomar-se o pulso do sistema decaído.

A mesma sinceridade que o caracteriza equivale a um desnudamento do corpo cadavérico de pobres teorias, cuja terminação se me antolha inevitável. Se aí nem sempre deixa-se admirar o filósofo seguro em suas ideias, nunca desaparece o homem convencido, a inteligência vívida e luminosa.

Qualquer porém que seja a simpatia conquistada pelo talento do autor, eu não vejo, e sinto dizê-lo, não vejo que a sua causa possa contar uma vitória de mais. Não é a ciência o que falta ao notável escritor — é simplesmente a razão.

Quem negaria a Lévêque as belas qualidades de um grande e elevado espírito? Entretanto as suas armas se mostram impotentes ante a força superior de uma ciência mais desembaraçada e livre dos prejuízos em voga.

O espiritualismo há de ainda, longo tempo, achar eco no fundo obscuro da ignorância geral. Não é menos exato que a filosofia corre o risco de tornar-se uma coisa pouco séria e indigna de atenção, se persiste em suscitar e resolver do mesmo modo as questões do costume.

I

O autor do escrito que nos vai ocupar é um dos órgãos eminentes da filosofia francesa. Discípulo de uma escola, que defende e representa as tradições cartesianas, Lévêque está convencido do triunfo completo desse sistema.

É para ver o modo sobranceiro por que ele se pronuncia. A crer-se em sua palavra, a doutrina espiritualista oferece todos os caracteres de força e vivacidade: tem resistido aos seus adversários; tem sido fecunda em produzir pensadores e obras importantes.

Mas bem me quer parecer que o autor se paga de uma ilusão. Releva, antes de tudo, advertir que o espiritualismo francês deste século não começou resistindo, porém combatendo. O que interessa mostrar não é se ele deixou de ceder o passo a qualquer adversário; mas se de feito pôde rechaçá-lo do terreno já ocupado.

Em outros termos, e para exprimir tudo de uma vez, é sabido que Cousin dedicou esplêndidas lições à refutação dos sistemas que se lhe opunham. Sabe-se ainda que todos os seus discípulos sempre pugnaram com igual empenho, em prol da mesma causa. Tais são os fatos; o que provam eles? Quase nada. O sensualismo deu-se por acabado? O materialismo convenceu-se de absurdo, e tomou silencioso a direção do olvido? Onde pois os títulos de glória dessa filosofia, que se diz a salvadora do gênero humano?

O que Lévêque chama fecundidade bem se poderia chamar impertinência. Em rigor, o espiritualismo não é uma doutrina fecunda: é uma doutrina fácil. Isto explica a sua abundância e riqueza de produtos. Os pensadores e as obras que surgiram nos últimos cinquenta anos, na pátria de Descartes, são de um alcance muito limitado. O número é prodigioso; mas o fundo é quase nulo e insignificante.

Não cessaram de girar no círculo estreito do senso comum, proclamado, parvamente, juiz irrecursivo em matéria filosófica. Também não me parece prova de vigor e uberdade sancionar os preconceitos correntes, em nome da lógica, mal empregada, e da razão, mal definida.

Não quero porém insinuar que se negue o mérito real de certas páginas, únicas proveitosas, que se encontram nos livros da célebre escola. Pelo contrário; se alguma coisa me pesa, é o ver-me obrigado, no interesse da verdade, ou do que tenho por tal, a ser severo com aqueles, em cujas obras pude haurir, pelo menos a paixão deste gênero de estudo.

II

Quais são presentemente os dados inegáveis da ciência da alma? Eis aí uma questão simplíssima, que, sendo entretanto seriamente resolvida, poria a descoberto as pretensões infundadas da escola espiritualista.

Com efeito, é para admirar fenômeno tão estranho: desde Sócrates até os nossos dias, a consciência humana tem sido interpelada, e todavia as suas respostas ainda não enchem meia folha de verdades. Não basta reconhecer e alegar a existência dos fatos internos. Eu creio que ninguém os contesta como tais. Eles fazem parte da vida: eles são a vida mesma.

Quem foi que já sustentou que o homem não sente, não quer, não pensa?... A questão acha-se longe e muito longe desse ponto.

Lévêque deu-se o trabalho de repetir, por sua vez, que a psicologia é possível, porque ela ocupa-se de fatos evidentes, posto que distintos dos fatos sensíveis. É um defeito habitual a todo espiritualista, o de julgar-se obrigado a não discutir assunto filosófico sem uma introdução de ideias muito vulgares, que não trazem luz para o debate.

Há indícios de que o nosso autor não pegou o problema naquela altura em que o colocaram as escolas crítica e positiva.

O método aplicável a qualquer ciência, incumbida de estudar e explicar uma ordem de fenômenos, se resume em duas operações: observar e induzir. Os fatos da vida interna podem ser observados de um modo capaz de fornecer matéria científica? Para os que afirmam, não há dificuldade em provar que a consciência nos dá o conhecimento do mundo interior, da mesma forma que os sentidos nos franqueiam os domínios do mundo externo. O que em última análise quer dizer somente que a consciência é a consciência. Mas isto é pouco.

Resta sempre a saber se quando o homem se volve sobre si mesmo, para observar-se pensando, encontra realmente o que procura. Carrega-se de sombra o aspecto da coisa desde que no exercício da observação interna não é só o testemunho da consciência que se invoca, mas também o da memória. De ordinário, os psicólogos deixam de lado o que diz respeito a esta faculdade, quando falam do instrumento de suas análises. Entretanto, é a ela que pertence a maior parte da empresa psicológica.

Eu me explico. Para melhor consegui-lo, vou supor que pela primeira vez tento hoje entrar no fundo de minha vida íntima. Lá chego; a quem me dirijo? A consciência me afirma que, nesta hora, eu medito para escrever; que sou eu mesmo que manejo uma pena; que tenho sensações, percepções de vários objetos; que sinto-me vivendo, querendo, praticando um ato próprio... tudo isto agora, no correr de um rápido instante... É dizer já muito; mas nada importaria, se não fosse o auxílio da memória.

Por que meio saberia que sou capaz de sentir dores e prazeres de diversas ordens, e que tenho outras faculdades, nenhuma das quais presentemente, se acha em exercício? O senso íntimo, em si mesmo, é semelhante a um belo céu do sol posto, olhado de repente: veem-se apenas umas quatro estrelas. Porém o número aumenta à proporção que melhor se encara, e após instantes fulguram aos milhões. Tal é o espetáculo dos fatos subjetivos, que a memória traz à tona do lago interior.

Mas ninguém poderia assegurar que ela os revoque inteiramente, com todos os seus primitivos caracteres. Não é tudo. A exata observação dos fenômenos psíquicos tem ainda de adverso uma outra circunstância. O mister da memória não é mais que repetir na consciência a noção de qualquer fato espiritual.

Temos pois o ato simplesmente mnemônico suscitando o ato de percepção interna, relativo a um terceiro ato, que é o fenômeno estudado.

Sobram razões para desconfiar-se deste processo de três graus.

Dir-se-á talvez que se pode de novo recorrer à observação imediata, reproduzindo o fato que se pretende estudar. É este um dos mais cegos enganos em que labora a psicologia espiritualista. Ela deixa-se influir demasiado pela fútil pretensão de também se basear na experiência; quando é isso justamente o que lhe falta, e sempre faltar-lhe-á, para dar aos seus achados uma sanção valiosa.

A experiência, todos sabem, tem por fim verificar que os fenômenos existem — sim ou não — tais e quais nos aparecem. As ciências físicas põem a seu serviço os órgãos dos sentidos; sendo que ainda se lhes achegam aparelhos especiais. Desta vantagem não goza a psicologia.

Por mais que digam os descendentes de Descartes, a consciência não pode dar a última palavra sobre o que realmente se passa no fundo da vida moral.

Não afirmarei, com Augusto Comte, que a posteridade fará da psicologia um assunto de comédia. O que nada teria de estranhável, visto como, depois de Aristófanes, já dera Molière a prova de que também na cena se fustigam as tolices dos filósofos.

Porém há sérios motivos de lançar em dúvida a eficácia do meio empregado para o homem conhecer-se de um modo objetivo e científico. É fácil ao físico, embebido no estudo do mundo corpóreo, assegurar-se de uma lei, por força de experimentos que varrem-lhe do espírito a mais ligeira nuvem de hesitação. Ele tem ante os seus olhos diversas séries de coisas; as quais são o que são, e se mostram desta ou daquela maneira porque tal é a sua natureza, sem o menor concurso da vontade humana.

A posição do psicólogo é diferente. Colocando-se em face do eu nu e solitário, nunca pode tomar a verdadeira atitude de um observador. A razão é clara e simples. Para que a alma fosse decerto um objeto de estudo, seria mister principiar por vê-la em seu estado natural, entregue a si própria, seguindo somente a marcha traçada pelas leis de sua existência. Mas isso fora impossível; e irrisório pretendê-lo.

Porquanto, nesse estado, único em que a alma pudera objetivar-se, o que há de mais saliente é o eclipse mesmo do senso íntimo a quem, aliás, se toma por órgão infalível da observação.

Nem se julgue que o exemplo do sonho seria capaz de derramar aqui luz em contrário. É certo que algumas vezes, durante esses fenômenos, aparece uma sombra de reflexão, protestando surdamente contra aquilo que cremos ver ou sentir. Isso porém serve apenas para atestar que, em tais ocasiões, não há sono perfeito. Quase sempre, a consciência cai no logro; demonstrando em todo caso que ela não passa além de si mesma, que ela é o seu próprio e único objeto.

III

Eu disse que a memória intervém largamente na observação psicológica. Importa acrescentar que a imaginação não é menos aquinhoada.

Não há fenômeno mais vulgar do que ver o psicólogo entrar, como ele diz, no fundo de seu ser, a fim de buscar a base de todo o conhecimento humano. Neste intuito, é natural que ele simule duvidar de tudo, exceto o pensamento. Pelo menos é este o sentido do famoso, bem que estéril, cogito ergo sum.

Tenhamos porém coragem para proclamá-lo desde já: estas fórmulas vazias não aguentam uma análise severa. É preciso dispersar os nevoeiros, que ainda se acumulam nas alturas culminantes da especulação sincera e desinteressada. De minha parte, estou persuadido de que o século não chega a escoar-se de todo, sem que, do seio mesmo da França, se levante um protesto decisivo, absoluto, contra a pobre filosofia de Descartes e seu exagerado imerecido renome.

A dúvida metódica, ensinada por este diretor do pensamento filosófico francês, é o ponto de partida repisado da psicologia atual. Mas não passa de um jogo de palavras, que pôde fazer fortuna através de dois séculos, baldos de senso crítico.

Decerto, o que vem a ser uma dúvida, aconselhada ao homem como regra de direção mental? Admira que os psicólogos professos não tivessem reparado, uma só vez, no dislate do preceito cartesiano.

Não duvida, quem quer, e somente porque o quer. Porém só a vontade é capaz de praticar uma regra que se lhe impõe. Diante desta anomalia, os resultados excêntricos, burlescos, não se fizeram esperar.

Os filósofos, todos crentes, como o geral dos homens, deviam imaginar estados e situações inexistentes. À força de fantasiar combates e terremotos do mundo interior, há exemplos de acabar-se por apresentar a pintura de uma alma especial, que não é irmã da nossa alma.

Ninguém, mais do que eu, rende homenagem ao talento de Jouffroy. Todavia, não me eximo de dizê-lo: este grave pensador enganou-se a si próprio e aos seus compatriotas, naquela viva e trágica descrição da perda de suas primeiras crenças. Raros serão os que não saibam de cor esse pedaço, uma das páginas mais lidas da literatura contemporânea.

Jouffroy nos fala de uma noite memorável, na qual se rompeu o véu que lhe ocultava a sua incredulidade. Como todos os bons poetas, o filósofo não se esqueceu de fazer a natureza realçar o interesse do drama psíquico, pela presença de algum dos seus mais belos objetos. Era a lua meio velada de nuvens e aclarando, por intervalos, as vidraças frias da câmara estreita e nua, onde o filósofo cismava:

“As horas da noite se escoavam, e eu não dava por isso; com ansiedade seguia o meu pensamento, que, de leito em leito, descia para o fundo de minha consciência e, dissipando uma após outra, todas as ilusões que tinham-me até então roubado a vista dela, tornava as sinuosidades interiores cada vez mais patentes e visíveis.”

Busquemos nós agora a substância disto. O pensamento do filósofo não podia, como está descrito, imergir no fundo da consciência, senão sob as formas determinadas, por que ele se manifesta. Um pensamento vago, indefinido, que não é uma série de juízos ou raciocínios e argumentos em geral, ninguém admitirá que tenha força de destruir qualquer ordem de crenças.

Quais foram pois as razões que, perante a consciência de Jouffroy, derribaram naquela noite os prejuízos de sua educação? Por que meios cessou ele de crer nas respostas decisivas que a religião dava às questões pelas quais o homem mais se deve interessar?

O psicólogo romântico incumbiu-se de suscitar, para o futuro no espírito de algum leitor, menos acomodável, a urgência destas perguntas.

Foi ele quem nos disse que as convicções destruídas pela razão só podem ser levantadas por ela mesma.

Ora, a razão tem os seus processos regulares de atacar o erro e mostrar as partes fracas de uma doutrina: chamam-se argumentos. Não se imagina que uma crença, uma opinião, há longo tempo alimentada, possa ser abatida pelos esforços da razão, senão mediante operações intelectuais, capazes de convencer-nos da fraqueza de nossas ideias anteriores.

Aqui está porém o que parece extraordinário e provocador de justas observações. O filósofo, a quem aprouve pintar tão vivamente a derrota do seu primitivo estado moral, não nos deu a conhecer um só, sequer, dos motivos racionais desse grande acontecimento. Ele afirma que a sua razão derrocou as suas convicções de outrora. Quero crer que assim fosse; porém ainda uma vez, por que meios?

Esse pensar irresistível, “de leito em leito se afundando na consciência”, deve significar um trabalho de raciocínio em rebater e afugentar preconceitos. De outro modo, seria uma expressão metafórica e sem alcance, a qual, tão grave assunto, importaria um contrassenso.

Adiante o filósofo assegura que a inflexível corrente do seu pensamento era mais forte que todas as suas crenças e recordações. A despeito de tudo, o exame prosseguia mais obstinado e mais severo ao passo que se aproximava do seu termo, e só esbarrou quando chegou a atingi-lo. “Eu conheci então”, acrescenta o escritor, “que no fundo de mim mesmo nada mais havia que estivesse de pé.”

Mas por que não quis Jouffroy depor nos seus escritos uma parte, ao menos, deste exame poderoso que acabou por extinguir a sua fé? Como se admite uma pesquisa de tal natureza sem um reforço de ideias novas, que o filósofo opusesse às suas primeiras convicções?

Eu bem sei que de um dia para outro se pode perder uma crença, independente de motivos claros e ostensivos. Não é também menos certo que, nesses casos, ninguém nos virá dizer que a sua fé foi apagada pelo sopro de sua razão. Eis tudo.

Concluamos: Jouffroy cedeu ao impulso de uma imaginação mórbida e sombria.

Observando-se a si mesmo, idealizou o estado de dúvida que — cogito ergo sum — impõe, mais ou menos, aos seus ingênuos seguidores. Deste modo chegou a ter-se na conta de um cético perfeito, a quem só restava o prazer de levantar de novo com os dados da razão o que ela propriamente havia derrubado.

A verdade é que o filósofo nunca se achou de fato nesse estado merencório e tenebroso. Tudo aquilo eram raios de fantasia, colorindo tristemente a consciência do psicólogo. Eu não ponho em questão a sua sinceridade. O mais iludido, ou para falar francês, o maior dupe da óptica psicológica foi Jouffroy mesmo. Porém julgo censurável a leveza dos que transcrevem a todo propósito essa página literária, não reparando bastante na inverossimilhança da coisa.

Entretanto era uma questão mui simples e natural: se Jouffroy perdeu a fé, meditando e descobrindo a fragilidade das suas bases, onde existem expendidas as razões que deram nova direção ao seu pensamento? Ninguém há que saiba delas; e é isto o que parece-me digno de nota.

Quando uma vez o bispo Dupanloup recitou aos seus fiéis essa página, que embora Vacherot qualifique-a de imortal, não sê-lo-á decerto mais do que o foram as melancolias de René; quando uma vez, repito, abriu-a diante dos seus fiéis, para dizer-lhes em tom de triunfo: vede como são amargos os frutos da filosofia!, o retórico francês caiu também no maior dos desacertos.

Não viu que a filosofia nada tem de comum com os devaneios românticos de espíritos afetados da doença moral de uma época! O grande prelado exultou em vão; não são esses os verdadeiros frutos da filosofia: ela não é responsável pelos sonhos e delíquios passageiros de uma escola literária.

IV

Com o exemplo referido, eu quis provar que a consciência não é sempre intérprete fiel do mundo interior. Aparece uma ou outra sombra imaginária, que vem alterar os resultados da observação.

Quanto à experiência, que se diz poder ser feita dos fenômenos internos, é ainda efeito de um engano, pouco notado. Não contesto que se possa repetir, em forma de experimento, o exercício de certos fatos ordinários, como o juízo, o raciocínio e outras operações da inteligência. Não contesto que seja possível executar um movimento orgânico, para assegurar-se do império da vontade.

Mas isto é o que se chama experiência psicológica? Tanto valera dar o nome de experimental a uma astronomia, exercida unicamente nos pequenos mundos de papel, com horizontes de latão, ou a uma botânica estudada em flores de cera.

Eu observo, pela primeira vez, o encontro fortuito de dois corpos. São, por exemplo, um ácido e uma base, que reunidos produzem um sal. Este fato me surpreende. Busco vê-lo mais atentamente; e combinando os corpos da mesma natureza, em proporções iguais, obtenho sempre o mesmo resultado. Eis aí a prova real da experiência.

Variemos agora a hipótese. Pela primeira vez também sinto-me presa de um forte entusiasmo, ou de uma cólera estranha. É um fenômeno que passa, ficando apenas na memória alguns vestígios raros, como plumas que uma águia arrebatada deixasse cair com a sua sombra na superfície de um lago. Quero porém observar o fato mais de perto, e sujeitá-lo à força probante da experiência repetida, podê-lo-ei conseguir? Tal é o problema; e firmá-lo nestes termos, únicos razoáveis, é declará-lo insolúvel.

Nem se diga que a psicologia não tem a seu cargo entrar em detalhes sobre pontos isolados, limitando-se ao estudo dos fenômenos gerais. Ninguém concebe uma ciência, dita experimental, que ponha de lado, sob o pretexto de raridade, negócios da sua alçada.

Não sei se a psicologia é bastante modesta para restringir-se a uma simples descrição das potências do espírito; e dado que o seja, creio que mesmo assim não atinge o seu desiderato.

As faculdades até hoje e desde há muito conhecidas terão esgotado as riquezas potenciais da alma humana? Seria admirável haver quem o afirmasse. Porém como penetrar nesses tesouros ocultos, entranhados no fundo da vitalidade orgânica, por meio da consciência?

Já ia-me esquecendo que a filosofia espiritualista não admite estas ideias. Para ela, sendo a alma uma substância unida, mas separável do corpo, a consciência é capaz de observá-la em toda a sua plenitude e essenciais elementos. Nada escapa ao vivo olhar interior, quando aplicado com atenção e persistência. É a crença geral de célebre escola. Mas eu quisera que me dissessem quais são as grandes e fecundas descobertas, devidas a tantos e tão pertinazes sondadores da alma...

Abre-se qualquer dos mais novos tratados de psicologia, e nele encontra-se tudo aquilo que a consciência do psicólogo pôde atestar-lhe sobre as coisas do espírito. Mas... meu Deus, como são poucas estas coisas! Por mais que assegurem, não posso ver em semelhantes quadros psíquicos a exata imagem de mim mesmo. Acho aí apenas a análise incompleta de um número de peças, as quais, sendo justapostas, não fazem uma alma humana.

Saber que temos quatro, ou cinco faculdades, nomeadas tais e tais, em cujo distritos únicos se acomoda tudo o que somos, tudo o que possuímos de mais nobre, como homens... oh!... seria um achado prodigioso, se não fosse um prodígio de ilusão.

Volvamos as vistas para o nosso autor. Segundo afirma Lévêque, a psicologia tem induzido leis e reconhecido causas que são outras tantas verdades adquiridas. Sem dúvida, o filósofo ver-se-ia embaraçado para dar-nos uma prova de tão estranha asserção. Convém que se examine quais são as leis e as causas indicadas pela ciência do espírito.

Seria singularmente burlesco atribuir esse caráter às faculdades que se diz existirem no homem.

Não cabe à psicologia a menor menção de honra por haver descoberto coisa alguma neste sentido. Fora da certeza de uma inteligência e de uma vontade, só há luta, ignorância e controvérsia quanto ao mais. No seio mesmo do espiritualismo, chegou-se a tirar do ser pensante a sensibilidade, para dá-la ao corpo. Ainda contesta-se a força motriz, na qualidade de potência psíquica, distinta da faculdade de querer.

Supondo a ciência da alma uma espécie de contraparte da anatomia descritiva, nenhuma lei pode haver senão no sentido de fazer-se extensivos a todos os espíritos os resultados de observações individuais.

Mas foi a psicologia que primeiro demonstrou que todos os homens têm a mesmas propriedades constitutivas do que se chama — alma humana?

É uma crença vulgar, tão profunda, quanto velha. Nenhum psicólogo pode orgulhar-se de tê-la suscitado, nem ao menos fortalecido.

Aqui tocamos em um ponto merecedor de especial atenção. A pretendida ciência deve ter uma história de sua origem, de sua marcha e seus progressos. As grandes descobertas científicas lembram sempre os grandes homens por quem elas foram feitas. Seria pois mais que muito apreciável que se nos dissessem os mistérios definitivamente revelados na ordem psicológica e os nomes dos seus reveladores.

Não é tão fácil, como talvez se presume, indicar os títulos de glória atribuídos aos Platões e aos Descartes, em virtude de quaisquer achados importantes do mundo interior que tenham, como tais, permanecido no cofre do saber humano.

Não se cria uma ciência — é preciso observar — dando-lhe somente um método e um ponto de partida; máxime quando ambos desafiam e provocam a impugnação. Previno assim que me tragam pela frente o aborrecido je pense, donc je suis, insípida bagatela com que a França, há tanto tempo, tem gasto inutilmente a sua seiva filosófica.

O espiritualismo parece não possuir-se da importância atual da questão, desde que, para resolvê-la, ainda lança mão dos mais pobres argumentos. Nada aproveita alegar que “há fatos invisíveis, intangíveis, fora do alcance do escalpelo e do microscópio, mas, entretanto, reais e observáveis”. Nem também atinge-se o alvo, increpando os adversários por crerem somente no que se vê e no que se toca.

É uma acusação demasiado frívola, que deve ficar esquecida. A invisibilidade da alma pode ser para muitos uma boa razão contra a psicologia, não é porém uma razão peremptória. Acresce que seria hoje baldado vir apresentá-la, quando existem homens sisudos, que não recuam de pensar diversamente. O padre Gratry, por exemplo, chegou a ver a alma dele mesmo; e declarou-o com toda a lhaneza de que dispõe um teólogo e um filósofo, adicionado a um cristão fervoroso.(2)

Acredite quem quiser; o certo é que ninguém deve se arrogar o direito de zombar da visão psíquica do ilustre padre, atendendo que ele tem de seu lado o exemplo de santos, ou ainda melhor o de santas, a quem foi tamanha graça permitida. Só uma coisa nos resta: é pedir ao grande oratoriano, ou a qualquer outro personagem, a indicação dos meios empregados para realizar tão alta experiência.

Bem sei que não é difícil apontá-los. A penitência, a prece, o jejum... em uma palavra, a santificação voluntária... é tudo o que o negócio exige. Infelizmente, não somos todos capazes de pôr em prática este duro noviciato da ciência, como a entendem o padre Gratry e consortes. Iremos sempre beber na fonte impura de uma filosofia mundana os princípios diretores da nossa vida intelectual.

V

Dizia eu que não é por serem invisíveis e impalpáveis que os fatos espirituais estão longe de uma verdadeira ordem metódica. Decerto, seria iníquo atribuir aos adversários da psicologia a leveza de se apoiarem numa razão tão frágil. O que fere a vista, na questão corrente, é a ineficácia do processo. Que importa a realidade dos fenômenos internos, se ela não admite uma observação regular?

Na vida espiritual, o que há de comum entre os homens não se pode inquirir e determinar sem muito erro e muito engano inevitável. Querer achar na consciência do indivíduo o reflexo de todas as modalidades da espécie é uma pretensão quimérica.

A psicologia me parece condenada, por sua natureza, a não ter um voto, sequer, no grande conselho das ciências. Basta advertir que ela é impotente para fornecer os mais simples dados de uma previsão. Ora, uma ciência de fatos naturais, imprevidente, é coisa que não acha apoio na razão de um homem despreocupado.

Essa lacuna, que não tem sido assaz ponderada, opõe um obstáculo sério e, se me não engano, insuperável. A psicologia empírica, a despeito de todas as suas descrições e pinturas do mundo subjetivo, ainda nada pôde levantar que seja tradutível em forma científica. A chamada racional, que faz as delícias dos intelectualistas, não é menos estéril em matéria de aplicação e previdência.

Parece-me cabível aqui mencionar algumas ponderações de um homem assinalado, não menos pelo espírito do que pelo caráter; e ao qual o presente assunto deve uma certa aparência de gravidade, que lhe soube transmitir o notável pensador. Quero falar de Vacherot.(3)

Propondo-se refutar a opinião dos adversários da psicologia, ele abunda em asserções e argumentos que seriam definitivos se Lévêque, um ano depois, não viesse ainda demonstrar, por meio de uma fraca defesa da fantástica ciência, a nulidade radical de todas as defesas anteriores.

“A alma humana”, diz aquele nobre e vigoroso espírito, “a alma humana se observa de duas maneiras: na parte individual e na parte geral de seu ser.”

Não descubro uma razão para semelhante asserto. A escola espiritualista é quem mesmo reconhece a consciência por único órgão de observação interna. “Duas maneiras de observar-se!!...” Ou isto quer dizer dois modos de consciência, duas consciências; ou então nada significa, é uma frase oca e sem sentido.

Vacherot deverá reparar que o duplo ponto de vista de uma parte individual e outra geral em cada homem é apenas uma abstração, já imposta pelo interesse da questão, que se ventila. Sem dúvida, o indivíduo traz na fronte o selo da sua espécie, e deste modo apresenta, por assim dizer, duas faces observáveis. Mas aí mesmo é que reside o germe do erro.

Essas faces que, vistas de fora, são duas, se reduzem a uma só, vistas de dentro. O geral e o particular, o individual e o específico, tudo se unifica, porque tudo se mostra indistinto, sob o único olhar da consciência.

“Quando nossa alma quer estudar uma dessas paixões que enchem a história de sua vida, é preciso que ela espere um estado de calma e de liberdade, se não de inércia ou de indiferença, que lhe permita encarar sossegadamente os fatos cumpridos.”

É possível que me iluda: mas noto nestas palavras um despropósito eminente. Esperar que o fato desapareça, para poder apreciá-lo!... é o cúmulo da extravagância. Tanto valera dizer que o melhor meio de contemplar os raios do sol é fechar os olhos, ou aguardar as sombras da noite.

Não é tudo. Vacherot reconhece o grande papel da memória na observação dos fatos acidentais, que atravessam a vida humana e não formam o seu fundo. Será preciso ainda advertir que, nesses casos, o observador não deve descansar na segurança dos resultados?... Uma paixão que de momento nos surpreende, e de momento se esvaece, nenhum traço deixa na memória digno de ser tirado a limpo.

A lembrança que nos fica de qualquer sentimento passageiro é tão insuficiente para fornecer matéria observável, quanto sê-lo-ia a imagem de uma esquisita avezinha que um naturalista, pela vez primeira, visse passar voando na sombria solidão das selvas. Vacherot não está longe de admitir estas ideias, em relação aos fenômenos transitórios. Quando porém os atos, as paixões, os sentimentos que a alma quer investigar pertencem ao fundo e essência mesma de sua natureza, a coisa muda de aspecto.

“Não é mais a memória que se incumbe de ressuscitá-los, porque a consciência os leva constantemente ao olhar do observador.”

Este modo de entender me parece destituído de razão. Quais são estes fenômenos que formam a essência da alma, e são a todo instante observados pela consciência independente da memória? Se existe no homem alguma paixão que mereça o título de fundamental, é sem dúvida o amor. Entretanto não vejo que o senso íntimo possa encará-lo, quando lhe apraz, e tomar a medida de sua profundeza.

Vacherot afirma que o filósofo não se limita ao mister de analisar, como o romancista e o poeta, esta ou aquela paixão do momento, escoltada de todos os incidentes e circunstâncias pessoais; porém o seu estudo se dirige de preferência ao princípio da paixão mesmo.

“O princípio da paixão!!” — note-se bem! E qual será, por exemplo, na psicologia espiritualista, o princípio do amor? Não consta que ela já o tivesse dilucidado; exceto, se por tal se deve entender aquilo que se designa pelo vago nome de sensibilidade. Isto seria quase irrisório. Ei-lo; por que é que o homem ama? Porque tem a faculdade de amar! Não basta. O amor é um sentimento. Por que é que o homem sente? Porque tem a faculdade de sentir! Haverá quem tome ao sério semelhante tautologia, como outros tantos achados de causas e princípios?!...

Eu julgo imperdoável esta facilidade que tem a psicologia de prometer muito para dar tão pouco. Não sei mesmo como ainda se possa insistir na ideia de uma ciência de tal guisa. O espiritualismo, abundante de afirmações gratuitas, não duvida assegurar por meio dos seus grandes órgãos que a psicologia está viva, e prossegue em sua marcha.

“Tanto basta”, diz um dos mais robustos, para responder à objeção dos adversários. “A despeito das impugnações, a observação da natureza humana se faz de muitos modos, e se produz sob várias formas. As análises dos filósofos, os retratos dos moralistas, as pinturas dos poetas, não são contestados, quer em sua verdade íntima, quer em seu alcance geral, quando traça-os a mão dos mestres.”

Ansiava por chegar a este ponto. É um ótimo estribilho dos defensores da doutrina que combato; releva entrar na apreciação do seu exato valor.

Antes porém de tudo devo observar que não passa de um brinquedo de palavras alegar pomposamente as análises dos filósofos, não se apresentando a mínima prova da importância delas. O ilustre pensador não se esqueceu do seu Platão, além de outros nomeados; creio pois que ser-lhe-ia muito fácil apontar os melhores pedaços da filosofia grega, onde houvesse um exemplar de análise psicológica ainda hoje podendo-nos servir de guia.

É sensível que o filósofo esteja longe de ouvir-me. Quisera ter a audácia de intimidá-lo para abrir-nos uma página — eu digo uma só — de Platão ou Aristóteles, na qual a ciência da alma pudesse contar verdades adquiridas, e não mais impugnadas. Descartes mesmo, interrogado seriamente, não se mostraria menos estéril.

Coisa notável! O grande ascendente do espiritualismo hodierno, sempre admirado, posto que puerilmente, por seus dignos filhos e sucessores, não tira tanto esse renome da sua psicologia, quanto, sobretudo, do caráter de sua metafísica. Aí vai o segredo do fato: a metafísica é uma sorte de poesia carrancuda, que sabe revestir as mais frívolas bagatelas de um ar de seriedade, sombrio e majestoso.

Os homens que nos falam gravemente do Espaço e do Tempo, do Ser, da Causa, do Infinito, do Perfeito... bem que sejam os primeiros em não entender o que eles dizem, todavia tomam aos nossos olhos uma aparência, uns toques de grandeza, que é difícil dissipar.

Não assim, porém, quando em nome do senso íntimo fazem o inventário das riquezas do espírito. Neste caso, surgem os protestos, as negações decisivas; e, o que assaz admira, é ainda a consciência, o juiz para quem se apela.

No que pertence aos moralistas, quero crer que Vacherot não refletiu bastante sobre a natureza do testemunho por eles prestado. Os escritores desse gênero são justamente os que menos se interessam pelas abstrações psicológicas. Eles copiam as fraquezas e misérias humanas, não escondidas no fundo do próprio eu porém de peito aberto às provações, no meio da sociedade cheia de encantos e disparates. Destarte sucede que nos sentimos melhor traduzidos em uma lauda de Montaigne ou La Rochefoucauld do que em todo um capítulo de Adolphe Garnier. Qual a razão?

É que o moralista generaliza os dados da comum experiência e o psicólogo induz, como lei característica de todos, aquilo que mal pôde observar em si mesmo. O mérito do primeiro é tanto maior quanto menos ele extrai da observação de seu ser as cores com que pinta a pobre humanidade.

Tampouco o moralista se preocupa da ciência do espírito, que para ele é um perigo e um defeito degenerar em psicólogo. Assim podemos decerto embeber-nos na leitura de um Pascal; mas é indubitável que a natureza humana se mostra em seus Pensamentos muito acima, ou muito abaixo do que realmente julgamo-la. Esta anomalia provém de que Pascal não observava os homens na variedade dos seus caracteres e das suas ações, porém o homem, isto é, um tipo, segundo o concebia a sua razão em luta com sua fé.

Ainda mais: os moralistas divergem entre si na estimação do móvel natural de nossos atos. Vale dizer que cada um interpreta, a seu sabor, os movimentos da alma, por isso mesmo que ela não suporta uma análise regular. A observação do espírito, que se pratica deste modo, ressente-se de um vício capital: a preocupação de uma ideia favorita. Se assim não fosse, inexplicável seria a distância que separa, por exemplo, um Valvenargues de um Montaigne.

Reconheço, e já o disse, que os moralistas trasladam mais exatamente do que os psicólogos as feições do objeto proposto aos seus estudos. Todavia é mister não esquecer que a ordem de fatos, sobre a qual se exerce a sua sagacidade, ainda não tornou possível a formação de uma ciência.

Máximas, apotegmas, isto é, simples generalizações, mais ou menos plausíveis... eis tudo o que eles nos dão. Semelhantes resultados são insuficientes para figurarem, como noções líquidas e decisivas, no que respeita ao domínio espiritual.

Os poetas e romancistas, é verdade, fazem todos os dias análises variadas de nossas paixões. Dir-se-ia que, aos seus olhos, o coração não subtrai o mínimo segredo, e a consciência deixa ver os seus mais profundos recessos. Nós, porém, que admiramos esses golpes de pincel da mão dos mestres, e aplaudimos, como cópias conformes ao original, todas essas descrições do que se passa na alma de qualquer personagem de romance, não seremos, nós leitores, brincos de algum engano?

Recordo-me aqui de um fato que entra muito bem no círculo de nosso assunto. Certo pintor acabava de traçar na abóbada de uma capela o triângulo simbólico. Eis que chega casualmente um daqueles numerosos julgadores, cujo voto aliás nada aproveita, e questiona o artista sobre a significação do seu trabalho. — O que é isso?... pergunta o curioso. — É o emblema da Trindade; responde-lhe o pintor. — Oh!... tal, qual!... diz com ênfase o pobre homem, que mal se apercebe da impossibilidade do seu juízo e da tolice da sua exclamação.

Ora, pois — quem di-lo-ia? —, nós outros, críticos e amadores, praticamos alguma coisa de análogo, no modo de julgar os detalhes psicológicos em que se deliciam os poetas da paixão.

De efeito, qual de nós não terá batido palmas aos brilhantes quadros românticos de pugnas interiores, que jamais se deram em nossa alma, e que provavelmente nunca dar-se-ão? Basta apenas que o escritor saiba de pronto embevecer-nos na doce admiração daquelas frases místicas, ondulosas, deslumbrantes, que borbulham de uma página de Hugo, Dumas, Balzac, Sand, ou qualquer outro.

Destarte, não é raro ver esses corifeus, perante o leitor ingênuo, destrancarem a consciência tenebrosa de um grande ladrão ou a de um grande assassino. Os que, por falta de experiência, não temos a justa noção do estado moral de tais criminosos, nem por isso deixamos de exclamar: que perfeita descrição!..., que análise acabada de uma alma de bandido, ou de um coração devasso!... É uma leviandade. Quem nos atesta a semelhança? Quem nos garante a exatidão da pintura?

Se não se admite que, em face desses painéis do mundo interno, o que nos impressiona é ainda o ideal, a força criadora do artista, nosso entusiasmo não tem senso. Gostamos de assistir ao espetáculo sombrio de uma alma que se nos descreve, da mesma forma que admiramos as cores horríveis do Inferno do Dante. Em um e outro caso, não há cópia, nem modelo a cotejar.

Se há quem julgue que os círculos alegóricos da Divina Comédia delineiam realmente a habitação dos demônios, pode também achar que, por exemplo, aquelas emoções e ideias tumultuosas de Valjean, diante da figura esplêndida, tranquila, adormecida, do bispo Myriel, são desenhadas ao vivo sobre o original humano.

Causa-nos pasmo o qu'il mourût do Horácio trágico; e Corneille nos parece um psicólogo profundo do íntimo dos romanos, da mesma forma que no Paraíso de Milton se admira a linguagem de Satã como sendo o produto natural de uma espécie de psicologia do diabo!

Não compreendo como se possa qualificar de justas apreciações da natureza humana poéticos inventos, sempre acomodados aos fins do escritor. Sem dúvida, nas classes das “pinturas traçadas por mãos de mestres” não terá Vacherot deixado de compreender uma das obras mais famosas e bem-aventuradas do romantismo francês. Refiro-me ao poema de René.

Seria para estimar que nos dissessem onde estão os grandes fatos revelados, ou ao menos esclarecidos, nesse célebre escrito, que tivessem alargado os horizontes da ciência respectiva. Muito ao invés do que se poderá supor o gênero de elegia, criado pelo autor, tem caído em total descrédito; e a razão descende só de que a obra não reflete seriamente face alguma do espírito humano.

É um produto de capricho, e de um capricho que chamarei psicológico, em virtude das paixões que aí se manifestam; as quais não são de todo vazadas nos moldes naturais da sensibilidade comum.

Nunca pude admitir que René tivesse trazido para o coração uma ordem de emoções, até então desconhecidas, e assim julgá-lo uma escavação mais funda, em matéria de pesquisa interior. Se os sentimentos nele expressos são de um caráter estranho e nunca visto, a geração contemporânea tinha razão de iludir-se, pensando que a sua nascente era a grande alma de Chateaubriand!

Porém hoje nós estamos mais que muito edificados sobre este ponto. Seria admirável que viéssemos ainda fazer menção de René ou outro qualquer fruto do mesmo pomar, como prova de observação psicológica, até nos reinos encantados do romance.

Ainda mais. Quem tiver atualmente o mínimo vislumbre de crítica literária deve saber que, desde Homero até o maior poeta dos nossos dias, o que distingue as criações do verdadeiro artista é o característico da impersonalidade.

Certamente: o que existe, por exemplo, de mais impessoal do que o teatro de Shakespeare? Não se encontra em toda essa vasta coleção de belezas um só traço que denuncie as opiniões, as ideias, os sentimentos próprios do autor. Entretanto se diz que ninguém ainda se mostrou tão conhecedor do coração humano. São duas proposições difíceis de harmonizar, para quem não lança mão de novos princípios.

Porquanto, se os dramas de Shakespeare são variados e perfeitos exemplares do homem, pelo seu lado mais sério, no seu fundo essencial, donde extraiu ele as paixões que deu a tantos entes de feição e índole diversa?... Da fonte de si mesmo?! Seria exato: se tal fonte significa a imaginação.

Mas eu creio que os psicólogos vão mais longe: supõem que a justeza no conhecimento dos afetos psíquicos é devida, em grande parte, à observação que o poeta exerce sobre seu íntimo.

Semelhante parecer é da ordem dos que basta enunciar para refutar. Que se figure, se é possível, o dramaturgo psicologando, inquirindo-se a si mesmo, para bem avaliar o verdadeiro jogo das grandes paixões; e, contudo, sem que fique em suas obras o mais ligeiro indício do seu caráter, da sua maneira de sentir e pensar!... Salta aos olhos o que esta ideia encerra de abstruso e disparatado.

Não é só isto. Em Shakespeare não se nos mostra menos admirável a criação de Julieta do que a de Romeu; nem cremos ver melhor o interior de Otelo do que o de Desdêmona. Ao total, o célebre poeta sai também vitorioso da luta sustentada com este grande enigma que se chama o coração feminino. Tão de perto, e, por assim dizer, tão de dentro, parece compreendê-lo em todos os seus mistérios e infinitas profundezas.

Será isto porém um resultado da observação e experiência pessoal? Julgo que ninguém ousaria afirmá-lo. Nem é mesmo possível recorrer a uma espécie de intuição psicológica para explicar essa grande maravilha. Por maior que seja o esforço genial, não pode transformar ou inverter a natureza das coisas. Ainda quando a ciência da alma oferecesse atualmente mais seguras garantias de exatidão e validade, era forçoso reconhecer esta lacuna: a vida interna da mulher está fora do alcance de nossas indagações.

E ela mesma é pouco apta para dar-nos, sem qualquer exageração, uma história verdadeira de sua subjetividade. Assim como o satélite da Terra, combinando o seu com o andar do planeta, apresenta-nos sempre o mesmo lado; a mulher, subordinada ao homem, deixa sempre ver uma e a mesma face, aquela que é mais vulgar e menos luminosa.

Se há fenômeno e movimentos que pareçam escapar aos nossos cálculos e preceitos de acanhada filosofia, são sem dúvida as curvaturas caprichosas, os ziguezagues mercurianos do espírito feminino. Devem ter a sua lei — eu creio —, mas essa lei não foi ainda descoberta, nem sê-lo-á jamais. A mulher não é o que disse uma vez Proudhon: a desesperação do justo; porém ela há de ser sempre a desesperação do filósofo.

Os que nos comprazemos em apoiar, nos romances e nos dramas, a solução do magno problema, enganamo-nos de todo. Não sabemos discernir o verossímil do verdadeiro. Tal é o erro daqueles que julgam deponentes, a bem da psicologia, as excursões dos poetas nos obscuros domínios da possibilidade indefinida, em busca dos segredos mais recônditos do espírito.

VI

Um só ponto quisera em que me elucidassem, mas este é capital. Como admitir uma ciência da alma que nunca põe-nos em estado de saber, já não digo as causas, porém as simples relações dos fatos? Eu me explico.

O astrônomo sabe, e pode representar-se na imaginação a marcha regular dos fenômenos siderais. O médico sabe que, em presença deste ou daquele sintoma, dá-se na economia um ou outro desarranjo; o qual também lhe é possível figurar na própria mente. Não assim o psicólogo; ele gira em uma esfera tenebrosa, em uma região de espectros e visões inconscientes. Existe mesmo uma ordem de fatos subjetivos, quase quotidianos, dos quais a psicologia não tira o menor partido.

Ninguém há que no livro da sua vida não tenha relido um capítulo mais largo, e dobrado uma página mais bela, donde às vezes ainda trescala vago aroma de pálida saudade. É o capítulo do amor.

Com efeito, quem de nós já não teve a graça de uma hora de delícias, em que primeiro o sereno volver de afetuoso olhar assegurou-nos a posse de uma ventura eterna?! Não obstante, o que sabemos nós outros desses momentos supremos que se possa aferir pela medida do método psicológico? O que nos resta, na memória e na consciência, daquele estado de cego arroubo e quase esvaecimento, no qual nossa alma esmorece, como tocada por uma asa de anjo, ante a pálpebra tremente de uns olhos que nos fitam!?

Os poetas, em geral, arrogando-se o privilégio de ver o invisível sujeitam a uma análise de microscópio os múltiplos afetos, as mais profundas paixões de seus heróis e heroínas. Mas essa análise, que segundo o parecer de muitos encerra tesouros de observação interior, basta um pouco de atenção para descobrir que não passa de uma aberração fantástica.

A literatura francesa que seguiu-se à revolução de julho é um imenso armazém, onde se acham as melhores especiarias deste gosto. O autor de Père Goriot, por exemplo, era mais que psicólogo, era um grande fisiologista, que andava sempre em dia com a dinâmica mimosa do organismo feminino, cujos movimentos mais imperceptíveis ele sabia detalhar na figura dos seus personagens.

Entre outras provas, não revela inteiro conhecimento de uma alma de mãe aquela criação das Mémoires de Deux Jeunes Mariées, aquela mulher singular, admirável Renée, que tuerait volontiers son mari, s'il s'avisau de troubler de sommeil de son fils?! E a descrição minuciosa que da sua savante virginité se compraz em fazer essa ideal criatura, não põe a descoberto a profundeza do autor, em uma espécie de psicologia das moças?!...

Ante os olhos de Balzac, no qual também às vezes se divisa um predecessor de Büchner,(4) até os poros do rosto e os da fronte abrem passagem aos sentimentos interiores. Os corpos dos seus heróis são lúcidos, transparentes, pneumáticos, como dizia Orígenes, que devia ser a carne ressuscitada. O romancista lobriga, através de uma pele alva e brilhante, o jogo das emoções mais sutis.

Eu creio que, a não ser o derramamento materialístico de Balzac, seus romances valeriam para Vacherot como irrefragáveis documentos de magistral investigação psíquica. O metafísico francês tem suas horas de lastimável ingenuidade.

Que bons lhe não parecerão os detalhes analíticos de G. Sand, cujas obras, na sua opinião, são teses filosóficas de alto preço!!? (5) Leoni, Jacques, padre Sophoronius, que foi judeu, luterano, católico, espinozista; a princesa Quintília Cavalcanti, que ocupa-se de todas as artes, fala todas as línguas, sabe todas as filosofias, e conhece a política melhor que os homens de Estado... — que tipos bem ideados e assaz reveladores de fatos naturais, existentes em nossa alma!...

É inútil falar de Lélia, aquela feitura anônima, da raça de Julius, na Lucinda de Schlegel, e a irmã mais velha da Wally de Gutzkow. Blasfêmias e extravagâncias formam o seu conteúdo. Alegar estas e outras produções de poetas e romancistas, na qualidade de fragmentos psicológicos, é o cúmulo do desvario em tal matéria. Nenhum espírito sério deve hoje recorrer a esse gênero de prova, sob pena de passar por quase um néscio, se não tem um nome autorizado, ou por desponderado opiniático, se ele se chama Vacherot.

Eu já o disse: o defeito capital da psicologia, como ciência de observação, é a falta absoluta de dados para se formarem exatas e profundas previsões. O mundo físico, em seu vasto e intrincado arranjo pode sempre causar admiração, ainda mesmo aos espíritos mais cultos; porém não causa espanto.

A ideia da ordem, que é um produto ulterior da inteligência, faz suceder ao primitivo abalo, suscitado pela natureza, o sentimento da harmonia e da razão das coisas. Entretanto, essa ideia não tem tido a mesma força no mundo moral. O espetáculo dos homens, dando a ver, por palavras ou ações, algum novo recanto do seu coração, todos os dias nos assombra. Irrecusável sinal de inteira ignorância, quanto à ordem que reina, e às leis que se executam nos domínios do espírito.

Neste meio, o que tem feito a ilusória ciência? Apenas consagrar um sem-número de erros, e autorizar em seu nome os mais agros rigores, as violações mais cruéis. Diariamente vemos a sociedade, baseada em um suposto conhecimento do homem, arrogar-se o poder de surpreendê-lo no retiro de sua consciência, a fim de assistir a todas as evoluções genesíacas do crime. É destarte que o direito penal decompõe o ato criminoso em elementos sucessivos, partindo da intenção. Manejando os chamados princípios psicológicos, julga ter penetrado na essência da criminalidade. Inúmeras são talvez as vítimas caídas sob tão fátua pretensão dos legisladores e filósofos.

Se há uma razão para explicar por que os cálculos humanos tanto falham, no que interessa às relações sociais, é que as almas nunca chegam a conhecer-se mutuamente, e a psicologia não descobre uma só das leis que determinam a formação do indivíduo.(6)

Não canso de repeti-lo: a ciência do eu implica contradição. Abstraído da pessoa, e do caráter que a constitui, o eu é coisa nenhuma, nada significa. Mas onde estão as induções científicas, feitas de modo que possam garantir nossos juízos sobre a marcha normal da personalidade alheia?

Eu disse alheia; e pudera dizer própria. Todos sabemos, por experiência, que as mais das vezes, o que nos desarranja e nos perturba, no curso ordinário da vida é a ignorância de nós mesmos, da força de nossas paixões, ou da fraqueza de nossa vontade. Não sei qual seja o psicólogo capaz de medir com o olhar da reflexão toda a extensão de seu ser. Não sei quem foi que desceu ao fundo do abismo e voltou trazendo na boca a palavra do enigma.

Entretanto, já lá vão centenas de anos, depois que a ciência da alma trata de constituir-se e organizar-se! Não obstante, é ainda hoje insuficiente para fornecer ao homem uma noção menos ambígua de si mesmo.

Tais são por certo minhas convicções, que me parecem baseadas nos fatos. Com tudo isso, é aqui o momento de advertir que não rejeito absolutamente os trabalhos de observação subjetiva.

Julgo aplicável à psicologia o que disse da economia política um jurista francês: ela não é uma ciência, mas apenas um estudo; e eu diria por minha vez: um entretenimento.

Não contesto se possa adquirir, por este meio, noções mais claras do papel e do jogo mútuo das nossas faculdades. Esse exame de consciência, a que se entregam os psicólogos professos, sem ser de utilidade geral, encerra talvez algumas vantagens pessoais. Pelo menos, o hábito da reflexão é um obstáculo sério dos ímpetos apaixonados.

Os místicos servem de exemplo. Não se leva a refletir continuamente sobre a alma e sua natureza sem acabar por cair-se em uma espécie de torpor e indolência que neutraliza as sugestões sensíveis.

Eu duvido que um pensador, ao jeito de Jouffroy, tenha tempo e disposição bastante para engolfar-se em qualquer doce corrente do mundo exterior.

Sem ironia, apresso-me em declará-lo: o espetáculo de um homem que empalidece de viver sempre atufado no antro escuro de seu próprio pensamento, respirando apenas por minutos o grande ar da vida comum, tem decerto alguma coisa de tocante. Não é uma vocação, que me pareça invejável: é um nobre esforço que se pode admirar juntando à admiração uma sincera pena de não vê-lo empregado em matéria de mor proveito.(7)

VII

Aqui terminaria se me não sentisse obrigado a revistar uma outra questão, discutida pelo autor mencionado no começo deste artigo. Questão de vida e morte para um certo espiritualismo acanhado, o qual diz não poder subsistir, se lhe faltar o apoio de um princípio imaterial, distinto e separável do corpo. Escreve Lévêque:

“É em vão que se reconhece fatos invisíveis, e a possibilidade de observá-los e classificá-los; desde que tais fatos são enviados a um sujeito material e composto, só por isso tem-se cessado de ser espiritualista. O sim ou o não é aqui da maior importância porque, se o princípio pensante e material, composto, divisível, ou, o que vem a ser o mesmo, se não existe alma, a liberdade, o dever e Deus tornam-se frases sem sentido.”

Ora!... Que importa à dignidade do homem e ao caráter do filósofo ser ou não ser espiritualista, pela medida de Lévêque e seus iguais? Estes franceses, discípulos e aderentes de Cousin, têm ideias que causam lástima. É exato que, sem o arrimo de uma alma substancial, a liberdade como eles a definem, o dever como eles o entendem, e Deus como eles o explicam, tudo isso não tem senso.

Porém segue-se daí que o espiritualismo assim compreendido seja a única filosofia digna deste nome, e capaz de fortalecer o pensamento humano? Muito ao contrário, o que há hoje de mais notável, nestas regiões, é o descrédito dessa filosofia popular, nutrida de prejuízos e quimeras. Os seus adeptos não se esquecem de invocar, a todo instante, como prova de superioridade, a força do número, o argumento da maioria. Infelizmente para eles, a verdade não se mede por tão baixa bitola.

Não é o testemunho dos velhos e das crianças, dos fracos e dos ignorantes que pode ser aduzido, para destruir razões de uma ordem mais elevada. Quem dera que os espiritualistas, em muitos dos quais se pode admirar um raro vigor de inteligência, compreendessem melhor as dificuldades de sua posição!... Fora bom que eles penetrassem mais no âmago do assunto, e não trouxessem, ante argumentos de peso, considerações triviais.

Destarte, quando se lhes diz que o espírito individual, separado do corpo, é uma das formas do ideal, sem realidade objetiva; e tanto basta para dar um sentido aos mais nobres impulsos do coração: quando se lhes diz que é inconcebível o exercício de uma função, sem o órgão respectivo, e como tal, o pensamento fora do cérebro, nada é e nada vale, em uma palavra, não pode existir, eles erguem a mais fera gritaria contra a loucura, a imoralidade e até a malvadeza dos seus adversários!

O espiritualismo, dizem, não se curva, nem se dá por vencido diante destas audácias. O homem é um ser pensante; e o pensamento só pode convir a um ente espiritual, o cérebro é uma condição, não é uma causa. A alma se vê e se revê na consciência; ela tem a convicção de não ser um atributo da matéria...

É isto, pouco mais ou menos, o que todos os dias se repete, a fim de sustentar-se velhas teorias estético-teológicas da escola semiplatônica e semicatólica dos filósofos letrados. Quadram aqui perfeitamente as seguintes palavras do Dr. Colenzo: uma causa, assim defendida, não é uma causa perdida?!!

Por minha parte, não vacilo em aceitar os resultados da luta; nem tenho mais dúvida sobre eles. Basta-me, entre outros, o exemplo de Lévêque, o qual ainda se arriscou a manejar as armas do costume, sem atender que elas já não aguentam uma pugna mais animada. E como que adversário!?

O nosso autor parece vangloriar-se de abrir largas fendas na lógica vigorosa de Edmond Scherer, o crítico elegante, eine der hoffnungsvollsten Geister*, como uma vez disse dele o Dr. Dorner. É com esse escritor de primeira grandeza que o ilustre metafísico ousa avistar-se no intuito de tomar-lhe contas de sua filosofia, no que diz respeito à alma individual!...

Lévêque reconhece que Scherer não é materialista, nem positivista, mas que também não é espiritualista, pelo molde de Cousin e Jouffroy importa não desprezar tamanha concessão. Há pois uma maneira de crer no espírito, isto é, no ideal, nos altos destinos do homem, sem volver jamais os olhos para os ídolos decrépitos das gerações passadas. E, posto que Lévêque mesmo tenha dito que só se é espiritualista, sob a condição de não atribuir a um sujeito material os fatos de consciência, eu dou por assentado que se pode sê-lo, a exemplo de Scherer, independente dos dogmas e prejuízo da escola.

É preciso encarar de frente a verdade, ainda quando ela venha transformar os nossos planos e corrigir cruelmente as nossas esperanças. A filosofia, é tempo de proclamá-lo, não possui menos que a religião uma mitologia adequada. Elevar ideias gerais ao sumo grau de realidades concretas; encarnar, dar um corpo exterior a uma série de fantasmas racionais, que cada qual figura a seu modo, é este ainda o mister da metafísica hodierna.

Aqueles que filosofam, os intérpretes professos da consciência e da razão, não são em regra os mais estranhos ao domínio da credulidade vulgar. Todos falamos do nosso espírito, qual de uma coisa que subsiste por si. É uma crença de longa data. Nos grandes órgãos da poesia moderna, sobretudo, a alma é descrita, como se descreve uma paisagem. Dir-se-ia que ela põe-se toda nua, ante os olhos do poeta, semelhante à cortesã grega, em casa do estatuário, para ser apreciada, em sua alvura esplêndida, em suas inflexões divinas.

Os versos de Lamartine são geralmente afetados deste achaque psicomaníaco. É difícil decidir quem mais ocupava o pensamento do poeta, quem se revestia de mais encanto e provocava maior número de apóstrofes — se a sua Elvira... ou a sua alma! Uma não é menos etérea, menos gnômica do que a outra. Para os que, não sendo muito ruvinhosos em matéria de provas, estão sempre dispostos a ver, até no gorjeio matinal das aves, uma demonstração cantada da natureza e atributos da divindade, é descer pouco e descobrir nos carmes de Lamartine e seus apêndices um manancial onde a alma se fortaleça na ideia e na certeza do seu destino superior.

O espiritualismo tem sido omisso em mostrar que a imaginação não penetra na sala de trabalho do entendimento. Fácil então seria sustentar que certas noções, não encerrando a mínima partícula de sonho e fantasia, devem merecer os nossos respeitos. A alma substancial, autônoma, independente do corpo, que se nos dá por uma realidade, entrevista pelo senso íntimo, através de todas as variações fenomênicas da vida, não será também um mito, uma criação análoga aos conceitos da poesia?

Debalde é que se opõem a esta conjetura os suspiros da humanidade, seus anelos infinitos, e não sei que pressentimento de um mundo desconhecido. A questão reside toda aí mesmo. Não se adianta um passo para a sua solução com o apoio dos nossos cismares e visões de imortalidade. Em rigor, não se acha bem dilucidado, se o espírito crê de fato ser imortal, ou somente deseja sê-lo.

Percebe-se de pronto que só posso referir-me ao indivíduo. Quanto ao que se chama espírito humano em geral, esse é sempre vivo e sujeito à lei do eterno desenvolvimento. Mas não é uma pessoa, nem mesmo uma coisa certa e determinada. Ele tende a formar uma soma, quero dizer, a soma de todos os termos possíveis de uma progressão ascendente, cujo primeiro termo deve começar nos obscuros domínios da animalidade; e o último, quem sabe?..., perde-se de vista nos azulados abismos da perfeição sem limites.

Ainda mais: o espírito humano pode ser considerado como unidade ideal e totalidade real. No primeiro caso, só existe subjetivamente; no segundo, ele é, ao mesmo tempo, um fator e um produto. Em cada momento da história, ele vale o resultado de todos os trabalhos e conquistas anteriores. Em cada momento da história, ele está, por conseguinte, sempre armado de novas forças, para invadir o futuro.

O espiritualismo fantástico e meio poético ainda não esqueceu as suas altas pretensões. Causa espanto a singular figura que aí fazem filósofos como Lévêque, no empenho de refutar escritores como Scherer.

Antes de prosseguir devo aqui assinalar um fato digno de ponderação. A crítica religiosa de que Scherer é um nobre órgão apresenta atualmente este caráter subido: ela vai sendo, máxime entre os franceses, não somente uma escola de ciência como também a melhor escola de estilo e de linguagem.

Só por si, já isto seria muito, quando mesmo fosse tudo. Mas é certo que há na brilhante plêiade dos críticos um fundo de admirável filosofia. Bem me parece, portanto, que Huet não teve razão, no juízo que emitiu sobre a escola de Strasburgo, dizendo não encontrar em seus adeptos o vigor filosófico desejável.(8)

VIII

O que há para mim de mais censurável no moderno espiritualismo francês é a falta de um certo senso, que bem se pode chamar o senso dos tempos. Frente a frente com lutadores novos, e que sabem combater por um modo novo, eles não hesitam em recorrer aos argumentos rotineiros, cujo emprego, não basta dizer que é ineficaz, releva acrescentar que é perigoso e prejudicial. Porquanto esses vetustos argumentos, ante olhos mais exercitados, deixam ver as suas fracas junturas e por elas se embebe facilmente o ferro da dialética inimiga.

Admira a sem-cerimônia com que se julga cortar dificuldades mui sérias, invocando o testemunho anacrônico da filosofia cartesiana. É assim que Lévêque, em oposição às ideias de Scherer, não duvida repetir o je pense, donc je suis e crê lançar ao seu adversário uma barreira insuperável.

Vamos ver entretanto com que razões o nosso espiritualista se supõe vitorioso. Diz o crítico atilado:

“O homem não é um corpo, nem um espírito, nem a reunião de um corpo e de um espírito. Não se o pode definir, porque só se define pelo gênero e pela diferença; nem explicá-lo, porque toda explicação consiste em reportar o fato particular a um fato mais geral, e o homem, sendo o termo mais elevado da mais alta série, não pode ser reconduzido a um grupo superior.” (9)

A este modo de expor e de explicar Lévêque chama “um processo lógico de definição”. Como se tal definição não se firmasse na observação dos fatos!? Como se essa definição, sem aliás dar-se por isso, não resumisse o que o homem pode oferecer de real aos olhos da ciência!?

Lévêque se engana. Suas respostas são fúteis: elas não descem ao fundo da questão. É falso que “qualquer que seja a série própria de um ente, se ele pode ser conhecido, possa por isso mesmo ser definido”. Esta proposição, ainda que encerrasse uma verdade em outros casos, tornava-se inexata, desde que se quisesse aplicá-la ao homem.

É preciso que o espiritualismo tenha também uma lógica sua, capaz de justificar tamanhos disparates. Mesmo admitindo, como verdade filosófica geral, que basta uma coisa ser conhecida para poder ser definida, posta uma vez em dúvida a aplicação desse princípio a este ou aquele ente, a pretendida verdade muda logo de caráter, e não legitima argumento algum, porque ela é que primeiro carece de legitimação.

Ora, o que se questiona é justamente se o homem pode ser definido, não obstante poderem ser conhecidos e descritos alguns de seus mais notáveis predicados. A quem, como Scherer, dá uma negativa solução, como Lévêque, é tropeçar e cair em grave paralogismo.

Prossigamos na análise de outras razões, exibidas pelo nosso autor. Por exemplo: ninguém ainda provou a falsidade da equação psicológica, estabelecida por Descartes: “eu penso logo eu sou”, a qual significa: eu penso equivale a eu sou pensante. O filósofo é ingênuo em dar tamanha importância a coisas tão frívolas.

Ninguém ainda provou, é verdade, que fosse falsa a equação referida. Porém o que há de mais notável é que não se faz precisa semelhante prova. Entre esta proposição — eu sou pensante e esta outra — eu sou espírito, isto é, eu tenho uma alma substancial, distinta do corpo, há um espaço ainda não atravessado pelas próprias águias do espiritualismo. Só mostrando a identidade das duas proposições é que se poderia dar o cogito ergo sum como o pórtico indestrutível do templo da filosofia.

Entretanto, contra a pretensão da senha cartesiana, o espírito real, separável da matéria, é sempre questão aberta. Nada importa, para resolvê-la, que o homem possa dizer-se um sujeito, uma coisa pensante. Este sujeito, esta coisa pensante, não é um ser à parte não; é o mesmo homem considerado na totalidade de suas funções intelectuais, como ele é uma coisa senciente, sob o ponto de vista de suas funções sensitivas. Mas se é isto ao certo, o que não admitem os homens da ciência oposta busquemos entrar no fundo de seus raciocínios. Eu disse raciocínios: era palavreado que devia dizer. Eis aqui:

“A alma que tem consciência de si mesma tem pois consciência de um sujeito. Demais, este sujeito possui a faculdade de se conhecer. Por conseguinte a ele compete ensinar-nos o que ele é e se suas faculdades são, ou não, propriedades da matéria. Consultada sobre este ponto, a alma responde que ela se vê tanto melhor, quanto menos ela serve-se dos seus cinco sentidos, que não descobrem em si coisa alguma de semelhante às propriedades da matéria, que ela se sente a mesma ontem, que anteontem e em todos os tempos de sua vida; que finalmente ela é de tal modo uma que de contínuo estabelece a sua própria unidade substancial no meio da variedade infinita dos seus sentimentos e dos seus atos.”

É um pedaço interessante, o que acabo de citar. Subterfúgios envoltos em banalidades — nada mais. A existência de uma alma, tendo consciência de si mesma, como de um sujeito particular, não é esta a questão que se debate? Com que direito pois o filósofo supõe assim tão líquido o que constitui o ponto principal da dúvida? Melhor seria que se partisse de um princípio incontestado, e que o combate se desse em um terreno comum.

Todos nós estamos de acordo em que o homem tem consciência de ser um sujeito pensante. Resta, porém, saber se essa consciência é um grau superior da evolução da matéria, ou é própria e somente própria de um ente unido ao corpo, e ao qual se dá o nome de alma. Quem vem desatar o nó? No entender de Lévêque e seus colegas, é a mesma consciência. "Incumbe só ao sujeito pensante ensinar-nos o que ele é, e se suas faculdades são, ou não, propriedades da matéria." Confesso que mal posso resistir à indignação causada pela leitura de tais futilidades. E a isto é que se chama filosofia?!...

IX

O nosso autor increpa o seu adversário por haver dito que a consciência, sendo um sentimento, não é negócio de vista ou de tato, mas de percepção interna; e assim, nada admira que ela tenha consciência de si mesma como de alguma coisa que difere do corpo. Diz Lévêque:

“Que significam estas palavras: uma consciência que tem consciência de si? Jamais compreenderemos que a consciência exista no ar, à maneira de entidade escolástica. Nosso adversário sabe muito bem o que diz, para ter querido dar a entender que uma pura abstração seja dotada de consciência, de sentimento, de vida, em uma palavra.”

Não viu o digno espiritualista que esta censura lhe cabia em maior escala? Se há uma filosofia onde a consciência tenha todos os caracteres de uma entidade, onde ela seja de contínuo nomeada e invocada a título de coisa real, autônoma, independente, é decerto o espiritualismo.

Não posso pois descobrir o motivo daquele espanto. Sim, a consciência só tem, só pode ter consciência de si mesma. Se ela é a faculdade que o homem possui de conhecer-se internamente na parte superior das funções mentais, por que razão exerceria outro mister? Porque ela nada afirma sobre as funções inferiores da vida animal, inferir daí que existem no homem duas substâncias é o cúmulo do ilogismo e do despropósito.

Muito bem disse Scherer que, não obstante a consciência de sentir diferente do corpo, todavia permanece dubitável se a percepção interna não é, não pode ser um atributo corpóreo. Que responde o nosso autor? Pouco mais do que nada.

“... Ou estas expressões de percepção interna e consciência não têm sentido, ou exprimem uma faculdade de um certo ser, e neste último caso a conclusão precedente se reduz aos singulares temos seguintes: o ente que tem consciência, se sente diferente do corpo; contudo bem poderia ser ele o corpo, do qual difere.”

Ainda aqui o filósofo mostrou-se um pouco desorientado. Não há dúvida de que a percepção interna é faculdade de um ser, mas este ser, note-se bem, é o homem; o qual se sente organizado e vivo, tendo na mais alta região do funcionalismo vital esse poder supremo de conhecer-se diretamente, como sujeito pensante. Em outros termos, e tal é, se me não engano, o que Scherer quis dizer, a consciência é uma faculdade que se presta somente àquilo para que foi criada, isto é, por ela dá-se o conhecimento dos fenômenos mentais; e, deste modo, tudo que está fora de sua esfera torna-se-lhe estranho, e como que de natureza diversa.

Não existe realmente analogia alguma entre os fatos de percepção interna e os que dizem respeito ao corpo, observados pelos sentidos. Mas isto nada infirma, nem confirma. A questão fica em pé. O ser que pensa, e tem consciência, é um todo orgânico, onde se exercem inúmeras funções. O pensamento é uma delas: a mais nobre, a mais sublime, por certo.

Não acho razão de maior pasmo em julgar a matéria organizada, de modo a produzir os fenômenos intelectuais, do que em vê-la dotada de outras capacidades. De ordinário, o que nos faz repetir essa doutrina é um efeito de imaginação grosseira. Quando se fala na matéria, ocorre-nos de pronto uma série de objetos físicos, os mais rudes e baixos que se possa imaginar. Esta mesa em que escrevo; esta pena que manejo; aquela pedra em que tropecei; a poeira que levanto de meus pés..., — tudo isto material — quem poderá admitir que o pensamento brotasse de semelhante argila?!

Ninguém decerto. Porém não fica aí. Sim, a matéria é aquela pedra bruta; é a poeira que suspendo; é a lama em que piso, mas a matéria também é aquela flor que se embala aos anélitos da noite, e, a trinta passos de mim, derrama no ambiente perfumes deliciosos; a matéria também é o rubro lábio feminino, o seio alvo e palpitante, provocador de afetos e paixões; sim, a matéria também é aquela estrela que brilha; é o Sol que flameja; e por que não pode ser a cabeça que pensa?...

O pensamento, costuma-se dizer, só pode residir em um espírito. A razão desta sentença? É o que não se nos dá a conhecer de modo satisfatório. Pelo contrário, todos os argumentos adversos são frívolos, errôneos, incapazes de produzir o mínimo abalo.

Evidentemente demonstrou-o Scherer, e fora de esperar que Lévêque não deixasse de lado, sem resposta, as considerações do eminente crítico. Diz este:

“As provas do espiritualismo se podem quase todas reduzir a uma só: a incompatibilidade absoluta da matéria e do pensamento; mas esta incompatibilidade é precisamente o que está em questão, de sorte que uma tal argumentação constitui um círculo vicioso.”(10)

Que nova ordem de ideia opôs-se a tão grave e decisivo juízo? Nem uma palavra. Se não é que o filósofo entendeu dever guardar silêncio, neste ponto, pela impossibilidade da refutação, dir-se-á que a coisa pareceu-lhe demasiado fraca para aguentar a sua resposta?... Pode ser; porém creio que obraria melhor demonstrando esta fraqueza e prevenindo assim, contra qualquer ilusão, os espíritos menos refletidos.

É debalde que ainda se rememoram os trabalhos de Cousin e Jouffroy, como os que mais se empenharam na sustentação da magna tese espiritualista. Bem sabemos quanto suor de retórica e de eloqüência pingou da fronte do chefe do ecletismo, para elevar ao grau de uma verdade resultante de observação imediata a existência da alma espiritual.

Mas será preciso dizer que o próprio esforço empregado demonstra, pelo menos, a dificuldade da empresa, desmentindo claramente a pretendida imediação?... Onde estão os fortes argumentos que tornaram impossível qualquer dúvida, e permitem aos novos psicólogos falar da imaterialidade da alma como fato indiscutível, evidente?

Não é sem muita razão que se lhes atribui o quererem impor-nos esta sua hipótese, a título de dogma. Que importa que, para prová-la, não se recorra à dedução, porém se tenha o cuidado, como afirma o nosso autor, de excitar nos outros o sentimento da coisa descrevendo com minuciosa exatidão os fenômenos sob os quais a alma invisível aparece?... Que importa, dizemos nós, se tais descrições são contestáveis e realmente contestadas, pelo que trazem de exagerado e de falso?

O espiritualismo francês é um sistema artificial, um filho degenerado da teologia católica. Assaz temos andado no seu piso, e ainda padecemos de suas ilusões. É mister acabar com as reticências e os circunlóquios ridículos. Antes de tudo, e sobretudo, devemos ser sinceros. Não se altera; não se torce impunemente a verdade; tarde ou cedo, ela toma o ascendente; e a inteligência, aliviada do peso dos prejuízos, como um galho tenro de árvore, onde pousava um abutre, procura a posição que lhe é natural.

Os filósofos-sacristães, que se incumbem de conservar bem acesas as velas do altar, que parecem revestidos de sotaina e sobrepeliz, só lhes faltando a tonsura, para serem outros tantos padres pelo coração, devem olhar com espanto para o lado do futuro. Aproxima-se decerto alguma coisa de grave e profundamente extraordinário. É o espírito humano, considerado em suas eminências, que lança ao desprezo o resto dos brinquedos de sua infância. É a queda do último véu que ainda nos oculta muita verdade santa, apenas pressentidas pelos raros eleitos da ciência, cruelmente imparcial como a natureza.

Notas
(1) La science in l'invisible... par Charles Lévêque.
(2) Connaissance de l’âme..., t. I, p. 228 e seg., troisième édition.
(3) Essais de philosophie critique.
(4) O autor de Kraft und Stoff chama o homem — einem wandelnaen Ofen eine sich selbst heizende Locomotive...,* qualifica o coração de ein Pumpwerk...** Em La Peau de Changrin, lê-se coisa quase idêntica: “La volonté est une force materielle semblable à la vapeur: une masse fluide, dont l'homme dirige a son gré les projections.” Igualmente em Birotteau: “La peur est un phénomène, comme tous les accidants életriques.”

*um forno ambulante, uma locomotiva que se aquece a si própria... (T. do E.).

** uma bomba... (T. do E.).

(5) La religion, p. 258.

(6) Estas últimas ideias precisam de um esclarecimento. Achando um pouco arrojada a pretensão com que a psicologia julga poder acompanhar a gênese do delito nos sombrios penetrais da consciência, donde não raro resultam iníquas condenações, nem por isso estou de acordo com a teoria burlesca dos psiquiatras e patólogos do crime, para quem os criminosos em geral são outros tantos doentes, cuja punição é uma barbaridade. Semelhante doutrina, que tende a morrer pelo ridículo das suas exagerações, nunca me teve nem ter-me-á jamais de seu lado.

(7) Como eu já o disse algures, Jouffroy foi uma espécie de Werther, um suicida psicológico. O caráter romântico da sua filosofia se revela até no modo por que ele compreendia a poesia lírica, isto é, como a expressão das queixas da alma humana diante do enigma do seu destino; poesia que vibra com tão melancólica monotonia nas poesias de Byron, nos versos de Lamartine (Mélanges, p 322). É a teoria filosófica do romantismo, como o fizeram, além dos dois mencionados, Leopardi, Lenau, Pushkin, Lermontov e outros: é a Weltschmerz proclamada a única fonte de verdadeira poesia lírica. Um poeta da escola não se exprimiria melhor.

(*) um dos espíritos mais esperançosos... (T. do E.)

(8) La révolution religieuse..., p. 30. Vê-se que me refiro à escola francesa, ali florescente, antes da guerra de 1870.

(9) Mélanges d'histoire religieuse..., p. 184.

(10) Mélanges..., p. 181.

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