sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Fatos do espírito humano - cap. XV

D. J. Gonçalves de Magalhães

Texto extraído da edição mais recente, e crítica, de Fatos do espírito humano (Petrópolis: Vozes, 2004, pp. 347-376).
Notas ao fim do texto.
 

Capítulo XV
Da corporeidade. Causa da permanência na ordem das percepções. Resposta a uma observação de Leibniz. Porque criou Deus os espíritos humanos. O que limita o poder do homem. Da ordem social existente. Possibilidade de qualquer outra ordem social. Conveniência de uma sociedade livre. Tudo se compreende com a liberdade humana. Conciliação da liberdade com a presciência divina. Deus está presente à ordem social. Moralidade dos nossos atos. Motivo das nossas ações. Refutação da teoria do interesse individual. Fim moral do homem. A virtude é mais fácil do que parece. Sentimentos morais. O dever. Imortalidade da alma.
 

Trato de compreender a ordem universal de todas as coisas, e explicá-la a mim mesmo sem hipótese, e não invento para o meu prazer uma teoria abstrata, procurando à força harmonizá-la em todas as suas partes, para dar-lhe essa beleza ideal da unidade, com que aspiram os grandes engenhos a selar as suas obras. Parto de fatos reconhecidos por todos os filósofos das mais contrárias escolas, e por todos aqueles que possuem qualquer conhecimento geral das coisas da natureza; invoco o testemunho de todas as ciências não suspeitas de metafísica e de misticismo; procuro os princípios, as demonstrações e conclusões de todas as teorias as mais antagonistas, o que elas afirmam, e o que negam sistematicamente, e o que sem querer confessam, pela eficácia da verdade, que reluz em todas as teorias, mesmo naquelas que a desconhecem; como brilha a luz através do nevoeiro que a encobre.

Não é por falta de inteligência que deixamos às vezes de reconhecer a verdade, mas por deficiência de atenção, o que depende da vontade; e muitas vezes por um falso preconceito, que nos faz duvidar da evidência só por parecer contrária ao nosso modo habitual de entender, e a certos princípios que fabricamos por uma análise incompleta, e uma indução precipitada. Custa-nos muito no meio, ou no fim da vida, renovar as nossas idéias, como o mudar de linguagem, e reformar os nossos costumes. Assim, não há verdade em ciência alguma, não há fato novo, achado pelo trabalho assíduo de alguns espíritos, que não fosse, e não seja combatido por mil juízos antecipados. Outras vezes, não podendo conciliar fatos que nos parecem contrários ao que sabemos, negamos hoje o que afirmamos ontem, damos agora como causa o que antes reconhecemos ser efeito, ou desacoroçoados duvidamos de tudo; o que também é um erro, porque infalivelmente alguma coisa é verdade sem a menor dúvida para o espírito humano, a começar pela sua própria existência.

Do que até aqui fica demonstrado podemos concluir que este universo sensível é uma reverberação do universo intelectual, que existe no pensamento de Deus, e que se corporiza para nós pelo reflexo das nossas intuições e sensações: que essas sensações não são qualidades de nenhuma substância finita, e atômica, mas simples sinais dos movimentos dos pensamentos de Deus, que por elas se nos tornam sensíveis; do mesmo modo que se nos fosse possível perceber por meio de sensações todos os atos de qualquer espírito humano, eles nos pareceriam movimentos rápidos, e os seus pensamentos nos pareceriam objetos corpóreos.

Se deixasse a inteligência eterna de pensar este universo, ele desapareceria todo em um momento, e dele não ficaria um só átomo.

Os objetos dos nossos sonhos se esvaecem quando se abrem os sentidos, porque, sendo meras reverberações dos nossos pensamentos imitados, só para nós existem quando os ideamos, e nada fora de nós os sustenta, e os percebe; nem lhes pode dar permanência a nossa vontade limitada. Mas sendo este universo sensível um reflexo fora de nós dos pensamentos de Deus, os quais intuitivamente percebemos, esse Ser eterno que o concebeu lhe dá duração, e faz que constantemente nos afete.

A força vital sensível que organiza, e todas as forças, ou leis da natureza, são volições, determinações do Ser eterno; e o que chamamos substância material é simplesmente a vontade de Deus, que sustenta os seus próprios pensamentos, ou criações intelectuais. A verdadeira substância, o verdadeiro e único Ser é o espírito infinito que tudo sabe e tudo pode, e que pensando e querendo, criou todo o universo.

Neste sentido entendo o sublime pensamento de Leibniz falando de Deus:

"Seu entendimento é a origem das essências, e a sua vontade é a origem das existências. Eis em poucas palavras a prova de um Deus único, com suas perfeições, e por ele a origem das coisas"
[1].

Para que possamos bem compreender o que são os objetos que percebemos, e o espaço mesmo em que se eles movem, e como tudo está na inteligência divina, sem existência substancial fora dela, imaginemos agora muitos homens dormindo em uma estância, e todos sonhando diversamente; uns representando cidades; outros, bosques; outros, mares, etc. Todas estas espécies se lhes antolham ao mesmo tempo; e nesse estreito lugar onde os vemos imóveis e dormindo, se movem eles intelectualmente, e viajam por países vastos e diversos, contemplando milhares de coisas que nos são invisíveis; de modo que esses espíritos por virtude própria criam momentaneamente não só as coisas que imaginam, como também o espaço em que elas se movem.

Mas, em vez de ser muitos espíritos humanos que sonham, é um só espírito infinito, uma só inteligência eterna, ou só Deus quem tudo pensou e pensa; e nós, espíritos finitos, percebemos uma parte dos seus mesmos pensamentos, sem intermédio algum; porque todos os supostos intermédios são outros tantos pensamentos de Deus, que percebemos ou concebemos.

Assim é que o espaço mesmo infinito está no espírito infinito que o concebeu, bem como todas as coisas que no espaço percebemos; e esse espaço infinito está na inteligência eterna, não como nós o representamos, mas como em nós está o poder de imaginar, de idear, e de querer.

Não parecerá agora extravagante pensamento se dissermos que o espírito não está no corpo e no espaço, mas sim que o corpo e o espaço estão intelectualmente no espírito, ou perante o espírito.

Nós percebemos o nosso corpo com as mesmas condições que nos servem na percepção de qualquer outro corpo; a sensibilidade que a ele nos prende, isto é, os pensamentos e as sensações que o representam, não lhe dão outro ser, outras qualidades além daquelas que pelas intuições e sensações lhe atribuímos. O nosso corpo está para nós como para ele está a sua efígie refletida em um espelho, onde ele não está realmente; e quando queremos ver o que se acha no nosso rosto, olhamos para o espelho, e aí o vemos. A figura que se nos antolha no espelho nada mais é do que o segundo reflexo da nossa percepção. Se por uma alucinação se apresentar ao meu espírito uma imagem do meu corpo bem diversa da que tenho agora, eu verei no espelho essa imagem presente à minha fantasia, e não aquela que eu reputava antes ser o aspecto verdadeiro do meu corpo; e como o corpo é um efeito de uma série de idéias refletidas por nós, mas não por nós inventadas, qualquer alteração na ordem da sucessão desses sinais produzirá um novo corpo, ou uma nova forma e qualidades.

Se no estado normal o efeito corpóreo das nossas percepções parece o mesmo e real para todos, é porque a série dessas idéias que produzem o corpo, e os corpos, se refletem em todos os espíritos do mesmo modo, tendo elas sido todas pensadas por uma só inteligência suprema.

Lembra-me agora a este respeito uma observação de Leibniz.

"Creio que o verdadeiro critério em matéria dos objetos dos sentidos é a ligação dos fenômenos [...] E a ligação dos fenômenos, que afiança as verdades de fato relativamente às coisas sensíveis fora de nós, se verifica por meio das verdades de razão; como as aparências da óptica se esclarecem pela geometria. Entretanto devemos confessar que não é de supremo grau toda essa certeza, como bem o reconheceu o nosso autor [Locke]; porque não é impossível, metafisicamente falando, que haja um sonho seguido e durável, como a vida de um homem; mas é uma coisa tão contrária à razão, como o seria a ficção de um livro que se formasse por acaso, atirando-se confusamente os caracteres de uma tipografia. De resto, é verdade também que, contanto se liguem os fenômenos, pouco importa lhes chamemos sonhos ou não; pois que a experiência mostra que não nos iludimos nas medidas que tomamos em relação a esses fenômenos"
[2].

Aceitando este reparo de um dos primeiros sábios do mundo como uma objeção, que nos poderia ser apresentada, respondemos, que essa possibilidade metafísica não é contrária à razão; pois que a razão e a experiência mostram que essa possibilidade é o fato, não produzido por acaso, como a hipótese do livro, sem que nenhuma inteligência pusesse em devida ordem os baralhados tipos, mas sim pela unidade da inteligência suprema, que coordenou os sinais que servem aos homens, sinais que em dadas condições lhes apresentam um mundo uniforme e permanente, e em outras condições, quando reproduzidos só pela nossa vontade criadora, nos exibem um mundo passageiro, vário e ilusório.

Se até aqui dissemos alguma coisa que pareça estar em contradição com o que afirmamos neste e no último capítulo, é porque julgamos conveniente caminhar pouco a pouco, e falar sucessivamente a linguagem conhecida de cada ciência que invocávamos em nosso socorro; como quem, subindo uma escada, de degrau em degrau se apóia, até que, chegando ao topo, se mostra na extremidade oposta ao ponto de que partira.

Deixemos agora o corpo, que física e metafisicamente falando sabemos o que é, e tratemos do espírito, e da sua existência em Deus.

É certo que se todas as coisas estão intelectualmente em Deus, e nos espíritos, porque fora de Deus e dos espíritos não há lugar para coisa alguma, de necessidade o espírito humano está em Deus. Mas o espírito humano não é um simples pensamento da inteligência eterna que, sem conhecer-se, se mova por determinações necessárias; que só exista intelectualmente em Deus, ou como objeto para outros espíritos, do mesmo modo que o corpo existe para nós.

O espírito tem consciência de si; na sua inteligência se refletem os pensamentos de Deus; ele procura compreendê-los, delibera, e obra por si mesmo. Essa consciência e liberdade lhe dão uma individualidade real, a posse de si mesmo, e ele diz eu, e realmente existe; e quer o constituísse Deus com o seu próprio ser, quer lhe desse um ser análogo ao seu, de ambos os modos ele se conhece pela sua própria consciência, e se distingue da consciência eterna e universal, bem como da consciência de todos os espíritos seus irmãos. Por essa consciência individual, e por seus próprios atos, é que ele se julga, e é julgado; que goza, ou padece; que se queixa, ou se aplaude; que é virtuoso, ou culpado; não tanto pelo que faz, como pela intenção com que o faz; porque na intenção está a virtude para Deus.

A inteligência divina seria a única e solitária espectadora dos seus belos pensamentos, se não houvesse outras inteligências que os percebessem, e onde eles se refletissem. Incompleta fora sua obra, se tendo Deus pensado a ordem social, e a virtude no meio de todos os contrastes, e seres livres que a executassem, não desse a esses seres da sua inteligência uma existência real, uma consciência própria, e uma verdadeira liberdade.

O fato é que existimos.

Criando-nos Deus para saber e poder, não absolutamente como ele, mas relativamente ao que pusesse à nossa disposição, deu-nos todas as condições essenciais do ser à imagem sua: a duração idêntica, atestada pela consciência e pela memória; a inteligência e a liberdade, e por conseguinte a posse de nós mesmos, e a faculdade de inventar, testemunhada pelas ciências progressivas, e por todas as nossas obras, e pelos sonhos.

O que limita o nosso poder é o corpo animal, essa imagem, esse complexo de fenômenos sensíveis, sujeito a leis necessárias, independentes da nossa vontade, que demanda imperiosamente a nossa atenção, e involuntariamente se opõe às nossas determinações. O corpo não nos foi dado como uma condição de saber e de querer, mas como uma sujeição que coarctasse esse poder livre, de que abusaríamos, chamando-nos à vida prática. Sem esse corpo, sem as relações sensíveis com outros espíritos, e com os objetos pensados por Deus, e postos ao nosso alcance, não poderíamos efetuar as intuições puras de justiça, de dever, de virtude e do belo no meio de todas as lutas da liberdade e da inteligência, de que a história, essa consciência do gênero humano, conserva a lembrança para nosso ensino. Só com esta triste condição poderíamos ser entes morais. Essa é a nossa glória, e o nosso bem. Só tem liberdade neste mundo quem é inteligente; só tem inteligência quem é livre, e obra por si mesmo; e quem tem inteligência e liberdade tem consciência de si mesmo, é de necessidade um ente moral.

Podia Deus sem dúvida criar uma sociedade de espíritos puros, não obrigados a coisa alguma, não sujeitos à menor dor, seres angélicos que vivessem em uma eterna bem-aventurança, só contemplando as maravilhas do seu criador. Mas qual seria o mérito desses espíritos para tanta ventura? Necessita Deus de admiradores inúteis? Pois que se nos apresenta este pensamento, quem dirá que não seja esse soberano bem o prêmio final que nos espera?

Mas voltemos ao nosso estado atual, que só por ele chegaremos a prever o nosso futuro. Concebemos que a vida humana e a ordem social podiam ser melhores do que são; que não estivéssemos sujeitos a tantas aflições e enfermidades; que fôssemos todos bons e belos; que não necessitássemos de tão rudes trabalhos para esta vida transitória; que justas fossem todas as nossas inclinações; que não houvesse ódios e guerras; que Deus mesmo nos governasse. Mas o que seria então a liberdade humana, se estivesse inteiramente subjugada a instintos naturais? Qual seria o nosso mérito, se nenhum obstáculo se nos apresentasse? O que seria a virtude, se a não praticássemos com algum esforço, vencendo as dificuldades e os vícios com que nos opomos uns aos outros? Qual seria a nossa ciência, quais as nossas artes, a nossa indústria, se as necessidades, as privações e as misérias humanas, a que chamamos males físicos e morais, não nos instigassem a uma contínua atividade livre, a um trabalho incessante?

Mas demos que desaparecessem todas as virtudes, e todas as ciências, desaparecendo todas as suas ocasiões, todos os vícios, e todos os males humanos. Mesmo assim essa sociedade de máquinas vivas, pouco mais ou menos como a das abelhas, impossível seria com a inteligência e a liberdade; porque bastariam estas duas condições para que cada indivíduo pensasse, discorresse, e quisesse ordenar as coisas a seu jeito; e cada qual pensando, e querendo operar a seu grado, não haveria acordo, não haveria sociedade, seria a guerra o estado permanente, e viveriam os homens em um estado muito pior do que o atual. Supondo porém uma sociedade de entes sem liberdade, sem virtudes nem vícios, sem bens nem males, todos de acordo e uniformes obedecendo a uma só vontade sempre justa; uma tal sociedade é possível, e talvez exista em qualquer outro sistema planetário; mas sendo também possível uma sociedade de homens livres, que não exclui a outra, nem é por ela excluída, esta sociedade existe de fato no nosso planeta, e dela somos membros, livres graças a Deus, a fim de que sejamos justos por nós mesmos, virtuosos e sábios pelos nossos próprios esforços, e não um rebanho de máquinas, obedecendo cegamente a uma vontade soberana.

Afonso X, rei de Castela, denominado o Astrônomo, não satisfeito talvez com o sistema de Ptolomeu, adotado no seu tempo, que ainda então não tinham aparecido Copérnico, Kepler e Galileu para esclarecê-lo, dizia que se Deus o tivesse consultado quando criou o mundo, melhor o teria ordenado. Se o presumido monarca, apesar da sua ciência astronômica, ignorava com que sabedoria havia Deus regulado o movimento dos astros, mais ignorava ainda a ordem das coisas humanas, e a arte de governar um Estado; porque descontentes os povos, seu próprio filho Sancho IV o expulsou do trono.

Com a inteligência, a liberdade, e a vida futura compreendemos o homem, a ordem social, a virtude e o vício, o bem e o mal; sem a inteligência, sem a liberdade, sem vida futura tudo é obscuro, tudo incompreensível, tudo absurdo no homem, e na ordem social.

Quem nega a liberdade humana cai em uma contradição manifesta; porque, negando-a, prova que sabe o que é liberdade; que quis, e deixou de querer alguma coisa em oposição à outra; que fez esforços para resistir; que pensou sobre os meios de subtrair-se à necessidade; que foi livre na sua resolução, na sua intenção, no seu querer, e que só deixou de executar o que livremente quis, porque a execução depende de coisas estranhas à sua livre vontade. Se esse poder de efetuar fosse tanto como o de querer, imagine-se que ordem haveria neste mundo! Aniquilada estaria a espécie humana, ou seria a Terra um verdadeiro vale de lágrimas. A liberdade de muitos só era possível com algum elemento fatal, que os reunisse, e os harmonizasse; e a coexistência da liberdade e da necessidade prova que tudo foi previsto e ordenado com maior sabedoria que a ordem de todo esse imenso universo. E como de fato existe esta harmonia da liberdade e da necessidade, nenhuma dificuldade temos de admitir o livre-arbítrio, e a presciência divina.

Este grande problema da conciliação do livre-arbítrio e da presciência divina, tão discutido pelos maiores teólogos e filósofos cristãos, tem sido explicado por modos diversos, mas não resolvido. Uns, reconhecendo o livre-arbítrio, negam como incompatível a presciência divina. Outros, julgando impossível que Deus ignore o que os homens têm de fazer, sacrificam a liberdade à onisciência do Eterno. Outros enfim, admitindo ambas as coisas como certas, procuram ajustar as duas verdades, sem contudo satisfazerem completamente.

Eu creio que, reconhecendo-se bem no que consiste o livre-arbítrio, distinguindo-o do elemento fatal e previsto que lhe resiste, e da oposição mesma de todas as vontades livres que se combatem, coordenam e harmonizam perante a razão absoluta e a necessidade das coisas que não dependem da nossa vontade, possa tudo estar previsto, sem que deixem os homens de ser livres.

Para o mérito do homem, para a sua virtude, basta a intenção com que ele livremente faz o que deve fazer, ou se opõe, sem que possa subtrair-se à necessidade: e essa liberdade de resolução, e o seu mérito, são tanto maiores quanto ele ignora o que há de acontecer, e se atribui a determinação e a execução. Pode Deus ter previsto todos os acontecimentos, e para que sejamos livres, para que tenhamos o mérito e a responsabilidade dos nossos atos, basta que não determine ele todas as nossas resoluções e volições, que serão anuladas umas pelas outras, diante da necessidade prevista que ignoramos, e da razão que consultamos.

Suponhamos que não tivesse Deus previsto um acontecimento, uma revolução qualquer feita pelos homens para derrubar uma má administração, e estabelecer uma nova ordem, segundo o seu entender. Determinar-se-iam uns a combater, outros a defender; lutariam, e triunfariam os primeiros pelos esforços que fizessem, pela indústria que empregassem, pelos meios que achassem ao seu alcance. Teriam esses homens obrado livremente, teriam consciência de suas livres determinações, acreditariam que sem eles não se faria a revolução, atribuir-se-iam o resultado, a glória dos seus feitos, e estabeleceriam afinal um novo governo, e uma nova organização dependente das circunstâncias. Seriam livres neste caso os atos desses homens? E por quê? Sem dúvida por terem feito o que quiseram, segundo as suas posses. Suponhamos agora que tudo estava previsto por alguém; teriam esses homens feito as mesmas coisas, obrado do mesmo modo, empregado os mesmos meios, segundo as diversas contingências, seria idêntico o resultado; deixariam eles por isso de ter procedido livremente? Teriam sido cegos instrumentos, por causa dessa previsão que ignoravam, e que não influiu nas suas deliberações e determinações? Cremos que não. Muitas coisas prevemos nós quase como infalíveis, e empregamos contudo recursos imensos para evitá-las, sem que o consigamos. Livres somos nos nossos esforços, e o que há de ser acontece, não por ter sido previsto e determinado, mas como uma conseqüência natural da luta da liberdade contra a necessidade.

Deus está presente à ordem social; ele não a deixou entregue à mercê da vontade caprichosa de alguns homens; ele previu tudo, e deixando toda a liberdade ao espírito humano para pensar e determinar-se como quisesse, obrigou-o pela razão e pelo corpo a conformar-se à ordem providencial dos seus infalíveis planos, para o maior bem das suas criaturas, filhos da sua predileção, em quem reflete os seus pensamentos. Ele saberá premiar a todos, segundo as suas obras, com uma justiça igual à sabedoria sem fim que se patenteia em todas as coisas.

Não podemos deixar de aceitar as condições da nossa existência neste mundo; a razão nos aconselha a conformarmo-nos voluntariamente aos sábios decretos da Providência sempre justa; e a lei da necessidade, representada pelos fenômenos da sensibilidade e pela ordem mais conveniente de todas as coisas, a despeito nosso, nos obriga e arrasta. Se nos revoltamos às vezes contra a razão que nos aconselha, e a necessidade que nos constrange, é porque temos a consciência de que somos livres, senão nem tal pensamento de revolta nos viria. Todos os nossos juízos sobre o bem e o mal, sobre o justo e o injusto, sobre o mérito e o demérito, sobre Deus e os homens, provam essa liberdade; a educação, a moral, a legislação, a religião e a ordem social o provam. Que importa tudo esteja previsto, se essa previsão nos deixa livre a consciência, e ignoramos o que há de acontecer? Não sabemos todos que havemos de morrer? Quem o duvida? Mas a incerteza do dia da morte, em que ninguém pensa, deixa a todos livre campo a mil projetos até o fatal momento. Nós devemos praticar como se nada estivesse providenciado; como se tivéssemos a faculdade de mudar inteiramente a ordem das coisas; como se só de nós dependesse o nosso estado, e outro pudesse ter sido o nosso passado. Essa ignorância do que tem de acontecer nos dá uma inteira liberdade nos nossos juízos, deliberações e resoluções, e perfeita moralidade aos nossos atos. A fatalidade nas coisas humanas não se apresenta como razão e motivo das nossas determinações, senão como um efeito, um resultado delas.

Não compreendemos às vezes as coisas por as considerarmos separadamente, sem todas as suas relações; mas nós vemos que todos os fenômenos, todos os fatos do universo, todos os acontecimentos inteligíveis, e sensíveis se encadeiam admiravelmente, e assim parecem sair uns dos outros, como uma série interminável de causas e efeitos; bem que tudo dependa de uma só causa eterna. Essa razão absoluta de tudo, esse princípio permanente que incessantemente opera, esse poder patente em todas as coisas, essa sabedoria infinita, esse Deus invisivelmente presente a todas as inteligências, e que se revela na imensidade dos mundos, e no modo maravilhoso por que percebemos os seus pensamentos, por tal modo ordenou todas as coisas em relação aos espíritos, que nada deixa de ter uma causa final. Se um ser não pode obrar livremente sem ter consciência de si, sem o conhecimento do que pode e deve fazer, essa liberdade, essa consciência, essa inteligência, inseparáveis, quer altere, quer não altere a ordem das coisas, deve infalivelmente ter um fim previsto e certo. Se essa liberdade dá moralidade ao ato, essa moralidade não pode ser inútil, sem mérito algum, sem servir para alguma coisa.

Com efeito, a consciência de todos os homens liga o prêmio ao mérito e à moralidade da ação livre, e não condena o que obra sem inteligência e liberdade. Se assim julgam naturalmente todos os homens em relação uns aos outros, e a todas as coisas, assim devemos julgar de nós mesmos em relação a Deus; porque ele é a justiça infalível, a verdade mesma, que nos faz pensar deste modo.

Mas como daremos verdadeira moralidade aos nossos atos? Quais os princípios por onde nos devemos guiar nas nossas resoluções? Como homens, como cidadãos, como membros da grande família humana, como criaturas de Deus, necessitando de tudo o que nos cerca, achamo-nos a cada instante em relações diversas, e muitas vezes vacilantes nas nossas resoluções. O que faremos? Deixar-nos-emos arrastar impassíveis pelas circunstâncias, e pela fatal necessidade? Mas ainda assim, levados pela torrente, vamos julgando, resolvendo, aplaudindo a nossa sorte, ou protestando contra ela, e acusando de injusta a ordem dos acontecimentos. A inteligência e a liberdade não se resignam sem esforço a esse fatalismo maometano, mais em palavras que em obras; como não deixa a sensibilidade de produzir a dor, se nos retalham o corpo.

Tomaremos nós por guia a sensibilidade? Procuraremos somente aquilo que nos possa causar prazer, e evitaremos tudo o que nos cause alguma dor, segundo o princípio da escola cirenaica? Mas essas sensações, pelas quais involuntária e instintivamente se movem os animais, não nos impedem que muitas vezes com inteligência e vontade suportemos dolorosas operações para salvar a vida, e mesmo para livrar-nos de algum pequeno defeito que enfeia o corpo, sem arriscar a sua existência, e sem causar-nos a menor dor; e todos julgam que obramos bem, quando suportamos todas essas dores, quando tomamos remédios que nos causam as mais repugnantes sensações, quando nos entregamos a grandes e penosos trabalhos do espírito, ou do corpo, com algum fim qualquer que pareça razoável.

Devemos talvez guiar-nos pelo princípio do interesse individual, proposto pelo sensualismo; motivo tão desprezível à consciência mesma dos que o seguem, que com o título de egoísta infamam quem por ele parece determinar-se?


Esse princípio do interesse individual, bem ou mal entendido, depende de um cálculo, supõe inteligência e vontade, e o desprezo da dor e dos males presentes, na esperança de um maior gozo, e de um maior interesse. Qual é esse maior interesse, que não é o prazer, e o interesse atual, momentâneo? Haverá pois para nós um interesse real e positivo, pelo qual devamos sacrificar outros muitos interesses, os nossos cômodos presentes, e os nossos prazeres?

Qual será esse interesse individual bem entendido, que nos impõe alguns sacrifícios? Será tudo o que quisermos, e o que julgarmos ser da nossa maior conveniência? Se alguém julgar que o seu maior interesse é ser rico a todo custo, para gozar como deseja; se assentar que para isso lhe é necessário roubar pelo comércio, ou por qualquer outro modo, ou matar com todas as precauções um parente, amigo, ou estranho, e ir depois deleitar-se em país longínquo, onde seja considerado e estimado pela sua riqueza; será isso justamente o que ele deve fazer, no seu interesse? Se um pai de família julgar em algum momento de perigo que o seu principal interesse é salvar-se antes de tudo, e deixar sua mulher e seus tenros filhos expostos: é justamente isso o que ele deve fazer? Se um príncipe cuidar que o seu maior interesse, a sua verdadeira glória, consiste em governar despoticamente a seu bel-prazer, sem a menor oposição; e si para sua segurança, assentar de organizar um grande exército, assalariar mercenários, mandar prender e matar os homens inteligentes que não queiram submeter-se à sua tirania, escoltar-se de vis aduladores: fará bem esse príncipe? Assim é que deve obrar? O miserável escritor que, calculando as vantagens pecuniárias e sociais que poderá fruir do seu mesquinho talento, assentar que o verdadeiro é vender a sua pena a um partido, ou profaná-la escrevendo infâmias e calúnias, ou falsas doutrinas que desmoralizem e prejudiquem os homens: fará o que deve, recolhendo o vil salário que esperava? Não haverá pois nem bem nem mal, nem justo nem injusto, nem virtude nem crime, nem belo nem feio, nem útil nem inútil? Será tudo indiferente? Tudo o mesmo? E só será moralmente útil o que parecer a cada um de sua maior utilidade? Quem ousará dizer que sim em sua consciência?

Se há pois alguma coisa verdadeiramente útil, independentemente do prazer e da dor, de toda qualquer paixão, de qualquer vontade, de qualquer cálculo de interesse, há por conseguinte alguma coisa que seja absolutamente boa, justa e verdadeira, que nos impõe o dever de procurá-la por ela mesma, e não pelo prazer ou interesse particular. Temos pois um bem, um soberano bem, que deve ser o fim de todas as nossas determinações, e um dever rigoroso, absoluto de procurá-lo, e de realizá-lo, apesar de todos os sacrifícios, e de todos os cálculos de interesse, sob pena de sermos imorais e corruptos se o não fizermos.

A resolução e a ação serão verdadeiramente morais aos olhos de Deus, e da nossa consciência, quando, reconhecendo nós esse bem, essa verdade, essa justiça absoluta, que é Deus mesmo que se nos apresenta relativamente a todas as coisas, a praticarmos com a intenção única de cumprir o nosso dever, sem outro qualquer motivo, ou qualquer outro fim.

Podemos ser heróis, justos, caridosos aos olhos dos homens, praticando atos de bravura, administrando a justiça, e dando esmolas aos pobres. É quanto basta às vezes para o mundo, que não penetra as nossas ambiciosas intenções, e ainda bem; mas não basta para a perfeita moralidade da ação; e se os homens descobrem que não praticamos o bem por um princípio de dever; que procuramos a glória, a recompensa, a fama, a consideração; eles deixam de admirar-nos, e como a nossa própria consciência, como Deus mesmo, nos dizem: fostes movidos por um sentimento de vaidade, de ambição, e de egoísmo; nada fizestes por dever, e por amor do bem; acertastes nos vossos cálculos, tanto melhor; mas se não acertásseis, ter-vos-íeis arrependido do que fizestes. Se porém tivésseis obrado por amor do bem, qualquer que fosse o resultado, não teríeis remorsos, nem arrependimento, e a consciência vos diria: fiz o que devia, e continuarei a fazer o que devo, qualquer que seja o resultado.

Não se arriscará porém a enganar-se o homem tomando por bom e justo o que na realidade for mau e injusto? Quantos fanáticos religiosos e políticos, quantos ignorantes inflamados por perversos conselheiros, ou por falsos princípios, cuidam cumprir o seu dever, praticando atos repreensíveis e criminosos?

Nós distinguimos a intenção justa, pura de todo o cálculo de interesse individual, intenção que dá o verdadeiro caráter de moralidade à ação, da ação em si mesma, que pode ser boa ou má independentemente do motivo moral que a determina. Considerando separadamente a ação, não duvido afirmar que, à exceção dos casos de rematada doidice, todos os atos dos fanáticos políticos e religiosos, todos os crimes praticados neste mundo não tiveram outra causa senão o cálculo do interesse individual, e paixões egoísticas, e não o motivo puro de dever, com o fim de fazer o bem. Esses criminosos, esses malvados não ignoravam o que é o bem, e quais os seus deveres. Hipócritas, que nem o título mereceis de fanáticos; serpentes, raça de víboras, segundo a frase do Evangelho, que sois como sepulcros ornados por fora, e cheios por dentro de podridões e imundícies; ambiciosos de bens terrenos, que matastes com fogo e ferro, e roubando, e mentindo, negastes a verdade aos homens; dizei, qual foi o motivo dos vossos crimes? Foi o amor do bem? foi algum princípio de dever? Ignoráveis a santa doutrina de amor e caridade, tão recomendada por Jesus Cristo, que vos disse: Meu reino não é deste mundo? Hipócritas! Há porventura a menor conformidade entre os vossos atos infames e a verdade que sabeis e conculcais, e o dever que vos impõe o vosso ministério? Foi o dever, ou o vil interesse individual que vos guiou, e vos guia? Foi o desejo do mando, do poder, dos palácios, do luxo, e das suntuosidades do mundo. Vós seríeis capazes de derramar a impiedade sobre a Terra, de revoltar os homens contra o santo, o honesto, e o justo, se esses sentimentos não fossem nos corações dos homens mais fortes, mais poderosos que as vossas iniquidades.

Que os homens infelizmente obram às vezes por cálculos de interesse, por motivos de prazer, ou dominados por paixões violentas, quem o nega? Mas dará isso moralidade e beleza aos seus atos, e pureza às suas intenções? Ou não somos nós entes morais e sociais? Para que a inteligência e a liberdade? Serão para estar em serviço dos apetites, das paixões, e do cálculo de interesses individuais? Necessitam o corpo e as paixões de um ente moral que como escravo as sirva? Não teremos outros deveres, outro fim senão cuidar cada um no que lhe convém? Será a nossa própria individualidade o único objeto do nosso culto, dos nossos cálculos, e do nosso interesse? Deveremos tudo fazer por amor de nós mesmos? Não, mil vezes não. A teoria do sensualismo e do materialismo é tão falsa em moral como em psicologia, e não somente falsa como princípio, senão também falsa e desmentida pela prática. O homem é muito superior à pintura que dele fazem, e mais fácil a virtude do que parece. Essa moral repugnante dos Helvetius, essa pérfida política dos Maquiavéis, esse abjeto despotismo da força dos Hobbes, são sátiras e sarcasmos à humanidade, e não coisas que lhe convenham. Elas só servem para ridiculizar e embrutecer o homem, deslustrar a virtude, entronizar o vício, e corromper os governos. Não é nos hospitais, e nos pútridos cadáveres que se estuda a natureza humana; ela aí se mostra em parte, mas enferma, corrupta, ou morta.

O homem é antes um ente social, do que individual. Desde o momento em que aparecemos neste mundo até aquele em que o deixamos, a cada instante dependemos e necessitamos da sociedade; nela vivemos, por ela e para ela nos instruímos; todos nela pensam, e trabalham por nós e para nós; como nós por ela e para ela: a mesma razão nos ilumina a todos; a nossa consciência é por assim dizer a consciência da sociedade; e mais vezes a consultamos do que a nós mesmo. A inteligência, a vontade, o amor, a paternidade, a amizade, a caridade, o heroísmo, as intuições puras do bem, do belo, e do justo, todas as ciências, todas as artes belas, todas as indústrias, a saúde e a enfermidade, tudo nos conduz à sociedade, ou dela nos vem, como um fluxo e refluxo contínuo de um só elemento.

O homem é um ente moral, porque é social, e social, porque é moral; as duas relações constituem um só fato. Naturais, ou voluntários, diretos ou indiretos, todos os nossos atos, nós todos para a sociedade nos convergimos; não por um contrato, não por um princípio de interesse individual, mas por uma lei da Providência, pela razão mesma de sermos homens. Nenhum órgão do nosso corpo é feito por si, e para si mesmo; todos são feitos por uma só força vital, e para um mesmo corpo vivo; ainda que pareçam trabalhar separadamente, todos trabalham em comum e para todos. Assim somos nós para a sociedade; ela é o nosso verdadeiro corpo moral.

Podemos dizer que o fim particular do homem neste mundo é merecer na sociedade pela prática da virtude, e o seu fim geral é a perfeição da sociedade pela prática da justiça. Moralmente falando, o ato é bom, justo e belo, se serve para a conservação e perfeição da sociedade; e a intenção é pura e meritória, se tende ao mesmo fim. A intenção é imoral, e sem mérito algum, se o egoísmo, o amor próprio determinou o ato.

Sendo o homem perfeitamente moral, será também perfeitamente religioso, segundo a letra e o espírito do Evangelho, que só nos ensina o amor da verdade, e a prática do bem e da caridade; não por um cálculo de interesse individual na esperança de um prêmio futuro, mas pela firme vontade de obedecer à justiça divina pela sua própria perfeição, quando mesmo não fosse certo o prêmio.

Tudo o que tende à perfeição da sociedade nos moraliza, e nos eleva a Deus; e só ama a Deus quem ama o próximo.

Todos julgam da bondade do ato, porque é o que aparece; e não da intenção, que só é presente a Deus e à consciência. A intenção será pura, e o ato infalivelmente bom, se não nos determinarmos por nenhum motivo de interesse próprio. Podemos pois, quanto à bondade do ato, guiar-nos pelo juízo da sociedade; porque nela brilha a mesma razão que nos aclara. Mas como só é bom o que é verdade, e a verdade é o fruto da nossa inteligência desenvolvida pela cultura de todas as ciências, no meio da sociedade, e com os seus próprios socorros, o dever moral dos sinceros cultores da ciência é comunicar a todos o que eles julgam ser verdade, ainda que ela seja contrária à opinião geral. Mas esse dever lhes não dá o direito algum de impor a verdade por meio da força. A sociedade é livre como a nossa consciência, e livre deve governar-se para que se aperfeiçoe; essa liberdade dever ser respeitada, quando ela não tende ao mal.

Sócrates não duvidou ensinar a verdade, e a morrer por ela sem resistência, apesar de sua convicção, e de ser ela contrária à ordem social em que vivia; e o gênero humano o admira por isso. Mais perfeito e belo exemplo nos deu o Divino Mestre, praticando o que nos ensinou, sacrificando-se por todos, e recomendando aos seus discípulos que pacificamente espalhassem a verdade sem ferro nem fogo. Morramos pela verdade se for necessário; mas não matemos por ela, que não há verdade alguma que nos dê o direito de matar.

O fim moral do homem é o fim mesmo da sociedade, e de todo o gênero humano, o aperfeiçoamento de todos conjuntamente. O único instrumento humano dessa perfeição é a nossa inteligência, que tem por fim a verdade em todas as coisas, o conhecimento do que é belo e justo. Boas são todas as ciências, não só porque nos elevam a Deus, fazendo-nos conhecer as suas obras, senão porque servem à sociedade. Boas são todas as artes belas; porque, procurando realizar a idéia pura do belo, nos despertam esse nobre sentimento que tanto humaniza e aperfeiçoa os homens. Boas são todas as indústrias; porque elas são aplicações das ciências e das artes, e tendem a melhorar as condições da existência humana social; só é imoral o que é feio, injusto e mau, o que nos desvia da verdade e de Deus.

A prática do dever e da virtude, independente de toda a intenção boa ou má, de todos os cálculos do interesse individual, não é tão difícil como parece. O autor de tudo nos indicou todos os nossos deveres com um cuidado incessante, e facilitou-nos com grande profusão todos os meios de satisfazê-los.

O que convém ao corpo nos é anunciado pelos apetites e desejos periódicos, que não dependem de cálculo algum, e cuja satisfação natural nos dão prazeres, e pode dar-nos algum mérito, combatendo-os quando desordenados, e tendentes a embrutecer-nos.

Deixando os apetites e desejos puramente animais, todos os sentimentos morais, que já dependem de um conhecimento do espírito, e que sem essa intuição não seriam sentimentos, nos levam aprazivelmente à sociedade e à prática da virtude, e nos abrem um vasto campo ao mérito, moderando-os pelo conhecimento do bem, e combatendo os sentimentos contrários, que devemos considerar como enfermidades do espírito, como sejam o ódio, a cólera, e o desejo da vingança.

Todos os belos sentimentos morais nos tiram de nós, e nos conduzem à sociedade, particularizando-a pela família, os amigos, os conhecidos, os cidadãos ilustres e beneméritos, e a pátria; e com o bem de todos nos regozijamos! A glória da nossa pátria é a nossa própria glória. Que sacrifícios não somos nós capazes de fazer por este doce nome de pátria! Como palpita o coração do proscrito ao pronunciá-lo! Com que lágrimas de amor e de reconhecimento contemplamos o herói que a defende, o poeta que a canta, e o sábio que a ilustra, sem que o menor cálculo de interesse determine os nossos atos e o nosso juízo sobre o mérito dos cidadãos que a enchem de glória!


Se me perguntarem por que amamos a pátria ainda que ingrata seja, por que amamos os filhos e os amigos; eu não acharei outra resposta senão: é porque é o nosso dever; porque ninguém foi feito para amar-se a si mesmo, mas para amar a todos, e a tudo o que é bom, justo e belo.

Se saímos destes sentimentos que particularizam as nossas afeições morais, e as nossas simpatias; se entramos no domínio da inteligência pura; encontramos o amor da verdade, o amor do justo, e o amor do belo, que nos fazem cidadãos do mundo; e ainda mais nos esquecemos de nós mesmos e dos nossos interesses individuais, procurando a verdade, o justo e o belo, na pátria e longe dela, em todos os tempos, em todos os povos, admirando sem interesse algum Homero, Virgílio, Sócrates, Platão, Aristides, Epaminondas, Marco Aurélio, Rafael, Miguel Ângelo e Washington.

Por este amor puramente intelectual, o espírito de todo se universaliza, e vive mais para contemplar a verdade com todos os espíritos, do que para si mesmo; mais para admirar, do que para gozar; e quanto mais universal e abstrata é a idéia, tanto mais ele é capaz de sacrificar-se por ela. E quais são os gozos egoísticos, os interesses individuais que o espírito procura em troco das privações, dos prazeres sensuais, de tantas vigílias, de tantos incômodos, da pobreza, do desprezo dos homens, e de uma vida toda de sacrifícios, e até da morte? O ser chamado herói, sábio ou poeta? Foi porventura por amor desses títulos que centenares de ilustres espíritos se sacrificaram, e se deixaram flagelar, mutilar, e queimar neste mundo, sem a esperança mesmo que depois do martírio e da morte lhes conferissem esse título, posto em dúvida pelos seus ingratos contemporâneos, e pelos injustos juízes? Não; é porque o homem não foi feito para si mesmo, para amar-se a si mesmo; e por isso está sempre pronto para sacrificar-se pelos outros, por uma idéia, e por tudo o que não é ele, e lhe parece ser o seu dever. Se dissermos ao jovem covarde, que trata de fugir para se não prestar ao serviço da pátria, que ele fará bem no seu próprio interesse de correr os perigos da guerra; que poderá distinguir-se, e merecer grandes honras; ele nos responderá, que bem sabe o que é do seu verdadeiro interesse; que não deseja a glória das armas; que a sua vida é mais preciosa, e que a não sacrificará inutilmente. Mas falemos de seus pais, da sua pátria, do seu dever; e talvez um nobre pensamento acorde em sua alma, talvez palpite o coração do covarde, tinja-lhe as faces o rubor da vergonha, e resoluto venha combater por amor dos outros, e ser herói contra todos os cálculos do egoísmo.

Alguns corações generosos parecem às vezes manifestar sentimentos de egoísmo, lastimando a ingratidão dos seus contemporâneos, como se por amor de vil prêmio os servissem; assim se queixam às vezes os heróis e os poetas. Mas é que a ingratidão é tão feio e injusto proceder que nos revolta, do mesmo modo que a perfídia, ainda que praticada seja contra um inimigo nosso. Reprovamos o iníquo comportamento que nos vexa, e continuamos a prestar-nos aos ingratos. Por que desprezamos o avaro, dado que entesoure para nós? Porque a avareza denuncia a ausência do sentimento do belo, do bem e do justo.

Mas acima de todos esses amores puros da verdade, do justo, e do belo, quando considera o espírito a sua própria natureza, quando medita sobre essa noção de um Ser eterno e necessário, de uma causa absoluta, de um poder infinito unido a uma infinita sabedoria, que reunidas lhe dão a concepção de uma bondade incomparável, e de uma perfeita beleza, que se revela em todas as suas obras; quando ele compara com os atributos infinitos desse Ser a sua própria inteligência tão grande e tão ilimitada, a sua própria causalidade tão forte e tão circunscrita, o seu próprio ser tão real e presente, e tão indefinível; quando ele pela filosofia e a verdadeira religião se eleva a Deus, e o acha por toda a parte, e tudo nele e por ele; o espírito cheio de santa admiração, e de um espanto inefável, em Deus se absorve, esquece-se de sua própria individualidade, e não acha para si outro ser além daquele Ser infinito que lhe deu a consciência; outra inteligência senão aquela que o ilumina; outro poder senão aquele que o dirige; e depois deste êxtase que o purifica, ele volta satisfeito os olhos a este mundo, que então acha perfeito e belo, porque lhe revela a onisciência e a onipotência de acordo para o bem; e na verdade só é belo o que para o bem é feito com sabedoria e poder. E se antes sentia o homem alguma dificuldade, por amor de si, em cumprir os seus deveres; se como forçado cedia; se ainda esperava alguma recompensa do seu sacrifício; se ainda pensamentos egoísticos se apresentavam aos seus cálculos; agora a abnegação de si é completa; já não espera que se lhe apresente a ocasião para fazer o bem; ele a procura, e se esforça para cumprir os seus deveres; e a sua única vontade é sacrificar-se por todos, e conformar-se em tudo com as suas santas leis da Providência.

O egoísmo não é uma lei do espírito humano, nem um sentimento natural; é uma depravação, uma enfermidade, proveniente da ausência do sentimento do dever, ocasionada pelas necessidades factícias do homem, ou das necessidades viciosas do corpo.

Se a vida do homem sobre a Terra é um contínuo merecer; se é um contínuo cumprimento de mil deveres morais, que não têm os animais; se ele deve constantemente aperfeiçoar-se na sociedade pelo conhecimento da verdade, e pela prática do bem, do belo e do justo; esses deveres morais, e a sua própria natureza espiritual, lhe afiançam uma existência além da campa.

É incompatível com a sabedoria, e a infinita bondade divina, que um ente espiritual que tem deveres morais a cumprir neste mundo, para complemento dos altos desígnios do seu criador, seja inutilmente condenado a tantos tormentos morais, a tantos sofrimentos físicos pelos outros, e pelo seu corpo; e depois de alguns anos de dores, de meditações, de trabalhos, de sacrifícios, de edificação e até do martírio, os que cumpriram os seus deveres, e os que não os cumpriram, os bons e os maus, os justos e os injustos, os tiranos e as vítimas, voltem todos a um mesmo nada.

Se por um acaso incrível, ou cega fatalidade, existisse toda esta ordem universal, toda esta harmonia prodigiosa, intelectual, moral e física; ainda assim, por esse mesmo acaso, por essa mesma cega fatalidade poderia ressurgir o ser que pensa em qualquer parte deste imenso universo, e os bons e os maus terem destinos diferentes. Quando mesmo a consciência da nossa individualidade, e a memória dos nossos atos fossem meros fenômenos sensíveis de uma substância qualquer, simples, ou organizada, essa mesma consciência individual, essa mesma memória poderia reaparecer em qualquer porção dessa substância, como para nós renascem as sensações; e essa consciência, em qualquer parte que revivesse, poderia achar-se em melhores, ou piores condições, em relação aos seus atos passados, e ao bem, e ao mal de que se acusasse.

Que impossibilidade há nessa duração e imortalidade da consciência individual? Não me conheço eu hoje o mesmo que era há quarenta anos, tendo crescido o meu corpo, e tendo-se renovado continuamente de modo tal que não há nele uma só molécula com que veio à luz do dia? Por que não poderei eu, psicologicamente falando, existir quando a outros olhos parecer este corpo sem mim? Quando por falta de um órgão não possa o espírito dizer aos que prantearam em torno deste espólio: Eu aqui estou, liberto pela morte desse fantasma, sobre o qual ainda chorais!

Por que não poderíamos nós ter existido no seio de Deus, ou mesmo neste mundo, como o supunha Pitágoras, antes de revestir-nos do corpo atual? Por que não poderíamos ter perdido a memória dos nossos atos passados, a fim de livre e meritoriamente cumpramos alguma missão? Lembramo-nos porventura do que fizemos nos primeiros anos desta vida transitória? Nós vemos uma criança nos braços maternos, ou ensaiar jubilosa os seus primeiros passos sobre a terra, e temos por esse modo a certeza que pelo mesmo estado passamos. Mas quem se recorda dos seus primeiros esforços para caminhar e falar, dos seus primeiros discursos, das coisas que viu, das dores que padeceu na sua terna infância? Entretanto que vida tão agitada e tão cheia de comoções como a da criança? Que impossibilidade há pois que, por um sábio desígnio da Providência, tenhamos perdido a lembrança da nossa passada existência?

Este mistério que cobre o nosso estado anterior é igual ao que envolve a origem do gênero humano, e ao esquecimento da nossa puerícia, apesar de vê-la reproduzida em nossos filhos. Mas decerto não começou o gênero humano por um casal de crianças, produzidas uma vez por acaso pela terra, e lançadas aí à toa em bravio bosque, entregues à sua inexperiência, e abandonadas ao que acontecesse. Nós subimos com os anais dos povos ao nebuloso Oriente, esse berço inescrutável da espécie humana, e deparamos com as ruínas de todos os elementos de uma civilização gigantesca, e não descobrimos essa barbaria, esse fabuloso estado selvagem que vemos no meio de nós, no meio da nossa incompleta civilização; como ramos secos de uma árvore frondosa, caídos por terra ao pé do tronco, ou arrojados para longe por um cataclismo. E além não passa a história da humanidade. A civilização é filha da civilização; eis tudo o que sabemos; do mesmo modo a inteligência é filha da inteligência. Esse esquecimento do passado, e a dúvida sobre o futuro são tão providenciais como toda a ordem do universo. Que impossibilidade há pois que recobremos um dia essa memória completa dos diversos períodos da nossa vida inteira? Falo como filósofo, trato da simples possibilidade, e não acho razão alguma que a isso se oponha; não vejo nisso dificuldade alguma; e prescindindo de todas as provas psicológicas e morais, já expostas em seu favor, esta concepção é certamente mais clara, mais inteligível, mais razoável, mais filosófica do que a de uma matéria atômica, que tudo produz sem intenção, sem nada saber; mesmo a inteligência, mesmo a crença da existência de Deus, sem que haja Deus; mesmo a religiosidade, e a esperança de uma vida futura, sem que haja razão para isso.

Comédia horrível seria este mundo; uma ilusão sem causa este universo; a existência humana uma zombaria do nada, e tudo mentira, se não houvesse um Deus justo e bom! Os malvados teriam razão por um mero acaso; não haveria verdade e justiça nem na Terra, nem no céu! Tranqüilizemo-nos! O que é absurdo não pode ser verdade. Deus existe; e o espírito humano é imortal com a sua consciência.

Notas
[1] Essais sur la bonté de Dieu, la liberté de l’homme et l’origine du mal I, §7º. 
[2] Novos ensaios IV, II, §14.

Nenhum comentário: