segunda-feira, 7 de março de 2011

Autobiografia

Tobias Barreto 


Fonte: BARRETO, Tobias. Vários escritos. In: Obras completas (ed. do Estado de Sergipe organizada por SílvioRomero). Rio de Janeiro: Pongetti, 1926, pp. 293-301. 

06/08/1880 (Escada, PE) 
Ilmo. Sr. Carvalho Lima Júnior

Só agora me é possível responder à carta de V. S. Incômodos de saúde, sobretudo, me obstaram que cumprisse logo e logo esse dever. Espero que desculpar-me-á.

Muita honra faz-me V. S. com o desejo, que diz ter, de conhecer ao certo a minha biografia.

 Sou o primeiro a declarar que é superior, muitíssimo superior ao meu merecimento a ideia que de mim V. S. se digna de formar; mas, uma vez que deseja conhecer-me mais detalhadamente, só me cumpre obedecer, satisfazendo seu anelo.

Já deve saber que sou natural da vila de Campos do Rio Real [atual Tobias Barreto-SE], onde nasci a 7 de junho de 1839, sendo meus pais: Pedro Barreto de Menezes e Emerenciana Maria de Menezes.

Em 1851, depois de concluídos os estudos elementares, em que tive por professor a Manoel Joaquim de Oliveira Campos, fui para a Estância [Estância-SE], onde, em setembro daquele ano (1851) matriculei-me na aula de latim do padre Domingos Quirino, depois bispo de Goiás. Ali estive até fevereiro de 1853, [ano] em que voltei para Campos, onde me demorei até agosto, partindo então para o Lagarto [Lagarto-SE] a concluir o meu latim sob o magistério do padre Pitangueira [José Álvares Pitangueira]; e aí estive a estudar até o mês de outubro de 1854, época em que prestei exame de latinidade na cidade de Maruim [Maruim-SE], perante o então inspetor das aulas Dr. Guilherme Pereira Rabello — para ser substituto na cadeira de latim do Lagarto; mas o inspetor passou-me um título geral de substituto em qualquer cadeira de latim da província.

Com esse título fiquei no Lagarto, morando em casa do referido Pitangueira, a quem substituí algumas vezes e ensinando particularmente primeiras letras — matéria em que foram meus discípulos, entre outros, Nilo Romero e José Dantas da Silveira
[http://historiadelagarto.com/arquivo01/HistoriadaEducacaoemLagarto.pdf].

Era no ano de 1855; eis que apareceu o cólera na província e eu tive de vir, em setembro desse ano, juntar-me à minha família em Campos, onde o mal primeiro aparecera, e estava grassando. Aí permaneci o resto do ano, e o seguinte de 1856, em novembro do qual tirei a cadeira de latim de Itabaiana, em cujo exercício entrei a 21 de janeiro de 1857. Os anos de 57, 58 e 59 estive nessa vila, de onde me retirei em dezembro de 59 para Campos, entrando em janeiro do ano seguinte no gozo de uma licença de seis anos, que me concedera a província, para estudar. Todo o ano de 60 passei em Campos, em março de 61 fui para a Bahia, onde me demorei até dezembro; voltei a Sergipe e estive em Campos até fins de outubro, mês em que parti com destino a Pernambuco, chegando aqui, depois de várias demoras em: Estância, São Cristóvão, Aracaju, Maceió, no dia 1º de dezembro de 1861, trazendo apenas na algibeira (ainda me lembro) 95$000 [noventa e cinco mil réis].

Em março de 63 fui acometido de varíola, e não pude matricular-me, como queria, no 1º ano da Faculdade. Levei todo esse ano a cursar no Colégio das Artes as aulas de geografia e geometria; em novembro prestei exame de 4, e em março do ano seguinte das 3 últimas matérias, matriculando-me no curso jurídico (1864). Por dar mais de 40 faltas perdi o 3º ano (1866), que tive de repetir; e destarte, devendo formar-me em 68, formei-me em 1869 (15 de novembro), ano em que me casara (11 de fevereiro), tendo-me, pois, formado já casado e com filho de poucos dias de nascido.


Aqui importa notar — e para destruir uma certa ideia, geralmente aceita, de que eu me dedicara à Alemanha, por ocasião ou depois da guerra desta com a França — que já no ano de 69, ainda acadêmico, eu começara a fazer estudo de gramática alemã, não podendo, porém, ir muito avante, por causa das ocupações acadêmicas.


No ano de 70 estive em Sergipe, de onde trouxe minha mãe viúva (meu pai morreu em 1867) para esta província, na qual morreu em 1873. Todo esse ano de 70 passei no Recife, cheio de dificuldades e embaraços sobre o gênero de vida que deveria abraçar. Pouco pude, então, cultivar o alemão. Redigi, porém, durante esse tempo o jornal intitulado O Americano, de junho a dezembro. No ano seguinte vim para a Escada, e, entregando-me à profissão de advogado, entreguei-me também de todo ao estudo da língua alemã, na qual nunca tive mestre; sou completamente um autodidata — ou mestre de mim mesmo.


Em 1875 publiquei os meus Ensaios e estudos, que saíram à luz em junho, tendo em meio saído o Programa, e em julho saído o 1º número do jornal alemão Deutscher Kampfer — do qual só puderam ser publicados 5 números.


Em 1876 saiu a minha primeira brochura alemã — Brasilien wie es ist, — e em janeiro de 78 a segunda brochura intitulada — Ein Brief an die deutsche Presse. Em fevereiro de 1879, uma brochura em Português — Um Discurso em Mangas de Camisa.


Na Escada, onde tenho uma tipografia, ainda que não bem montada, tenho publicado os seguintes periódicos: Um Sinal dos Tempos (1874); A Comarca da Escada (1875); O povo da Escada (1876); O Desabuso (1875); Aqui Para Nós (1875); A Igualdade (1877); Contra a Hipocrisia (1879). Do primeiro, saíram só 10 números; do segundo, 5; do terceiro, 3; do quarto, 5; do quinto, 2; do sexto, um e do sétimo, 16.


Os jornais em que colaborei, quando na Academia, foram: O Acadêmico, (1865); A Lúcia, (1867); A Regeneração, (1868); e O Vesúvio (1869).


Escrevi para O Correio Pernambucano artigos de filosofia (1869). No Diário de Pernambuco saiu publicado grande número de meus versos. Para o Jornal do Recife tenho escrito artigos de diversas naturezas. Da mesma forma n' A Província e [no] Correio da Noite.


Tenho inéditos os seguintes trabalhos: 1º - Questões do nosso tempo; 2º - Ares de Pernambuco, um pout-pourri literário; 3º - História da literatura brasileira, durante o 2º reinado.


Em alemão, o seguinte: Rechtsleben und Rechtsstudium in Brasilien.
Não sei, porém, se conseguirei publicá-los.


Os alemães que me têm honrado com as suas cartas são até hoje os seguintes: Wilhelm A. Sellin (Leipzig); Paul Apfelstedt (Düsseldorf); Dr. Karl Keck, um botânico (Berlim); Richard Lesser, Ernst Haynel, Paul Buckow, Robert Schröder, B. Cramer, Friedrich Kuntze, Paul Bachmann, e E. Klotz, estes últimos todos membros do Club dos Kosmophilos, em Leipzig. E aqui importa observar que eu, no meu isolamento, nunca ousei tomar a iniciativa dessas correspondências; elas têm partido de lá.


Deixo de indicar a data em que sustentei tese porque nunca me dispus ser doutor, grau que está hoje muito barateado.


Julgo ter satisfeito, quanto possível, o pedido do meu caro patrício. Resta-me agora agradecer-lhe a importância, que me dá, e assegurar-lhe que sou,
De V. S. amigo — P. Obr. Vor. Cr.
Tobias Barreto de Menezes

N. B. — Também tenho, além dos versos que publicara em jornais, nos tempos acadêmicos, muitas outras produções inéditas, todas do gênero lírico. Nunca senti grandes desejos de publicar livros de versos. Os que possuo, entretanto, dariam para dois ou três volumes.


13/09/1880 (Escada-PE)
Ilmo. Sr. Carvalho Lima

Acusando a recepção de sua prezada cartinha de 25 do passado, antes de tudo, devo agradecer-lhe, ainda uma vez, o interesse que toma pelo conhecimento daquilo que diz respeito a minha pobre personalidade.


Quanto aos pontos, de que me fala, respondo: não me recordo dos dias, mas apenas dos meses e anos, em que concorri com o Padre Felix à cadeira de latim. O primeiro concurso foi em março de 1865; este, sendo anulado pelo ministro, deu-se o segundo, que teve lugar em novembro do mesmo ano.


Não sei a que outro motivo, senão à superioridade do meu contendor, deva eu atribuir o não ter sido nomeado. A não ser essa razão, só posso explicar o fato por infelicidade minha.


Em Outubro de 1867 concorri à cadeira de Filosofia do Ginásio Pernambucano com o Dr. José Soriano de Souza. Não obstante ir eu em primeiro lugar, fui preterido por esse doutor, alegando-se como razão da preferência o ele ser casado e eu solteiro!...


Quanto aos discursos proferidos na Assembleia Provincial, só me recordo dos das sessões de 17 de dezembro de 1878 (preparatória); de 7 de fevereiro de 1879; de 22 de março (sobre a questão do estudo das mulheres — dois discursos na mesma sessão); e de 21 de Abril de 1879.


Os alemães que falaram sobre mim foram: Alfred Waldler, de Leipzig; por várias vezes, no Gartelenlanhe, onde saiu a minha biografia e retrato; no Export, de Berlim; no Magazin für Literatur, de Leipzig.


A Gazeta de Colônia (Kölnische Zeitung) ofereceu-me um exemplar da sua edição semanal, com uma carta, a que eu respondi (em alemão), e minha resposta foi lá publicada com uma introdução assaz lisonjeira.


É o que posso dizer-lhe de relativo ao que deseja saber. Também é certo que, em carta particular a um amigo do Rio Grande do Sul, Ernst Häckel disse que eu “lhe parecia pertencer à raça dos grandes pensadores”.


Entro em tais detalhes só para satisfazer a curiosidade honrosa de meu digno comprovinciano.


Aqui achar-me-á sempre às ordens.
Seu patrício, amigo, obr. e cr.
Tobias Barreto de Menezes

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