sexta-feira, 11 de junho de 2010

O atraso da filosofia entre nós

Tobias Barreto

Texto de 1872. Versão atual baseada na edição de Paulo Mercadante e Antônio Paim (BARRETO, Tobias. Estudos de filosofia. In: Obras completas. Rio de Janeiro: Record/INL, 1990, pp. 162-179 [1].

Notas ao fim do texto

I
O Sr. Dr. J. Soriano de Sousa tem uma pretensão opiniática incoercível: reagir contra o século e esbofetear a civilização moderna. No empenho de atingir o fim supremo de todos os seus anelos terrestres, o digno doutor tem publicado algumas obras. Enganei-me: são apenas algumas diatribes contra o estado atual da cultura humana.

Nesses escritos, onde a insipidez da forma rivaliza com o vulgarismo do fundo, e dos quais o mais recente[2] vai ser objeto do presente artigo, o honrado professor é sempre o mesmo. Quero dizer, o mesmo espírito incansável no combate das ideias dominantes; o mesmo homem consagrado, por uma espécie de voto monástico, à defesa de princípios evidentemente mortos.

É um trabalho esterilíssimo, sem dúvida, e que não deixa de ter o seu lado burlesco. Divisa-se nele alguma coisa de análogo aos santos esforços dos monges da Tebaida. Eles iam ao Nilo encher cântaros para regar um galho de pau seco, plantado por acinte nos areais do deserto.

Semelhantemente, os livros do Dr. Soriano têm todos os caracteres de uma penitência. Envolve-os o que quer que seja capaz de abrir o céu — atrição, contrição, desprezo absoluto das ilusões mundanas. A isto acresce o mais completo jejum de tudo que alimenta o espírito da época. Daí vem que são tão pálidos, tão magros os pobres livros do venerável doutor.

A ciência dos nossos dias, em qualquer de suas ramificações, uma vez que ela se oponha à Summa de S. Tomás, não acha graça diante do filósofo. “A ignorância”, diz Scherer, falando de L. Veuillot, “é uma das condições do culto do passado. Se Veuillot condena a civilização e a ciência moderna, tem para isso boas razões: ele é muito ignorante.”

Poderei dizê-lo? Tais palavras seriam de todo aplicáveis ao Dr. Soriano, se não fosse a injustiça de emparelhá-lo, de um certo modo, com o beato francês. Este, pelo menos, possui uma língua correta e um estilo atraente.

O professor do Ginásio Pernambucano, ao que parece, crê-se destinado a uma grave missão. É fabricar no Recife o melhor contraveneno das ideias perigosas. Depois de haver-nos mimoseado com aquela compilação indigesta da filosofia de S. Tomás, cuja influência foi nula, deu-nos ultimamente o volume intitulado Lições de filosofia elementar. Sobre este livro, impresso em bom papel e bem encadernado, venho pedir a atenção do leitor.

E antes de tudo importa saber que o livro é dedicado a S. M. o Sr. D. Pedro II, príncipe não só pelo sangue, pelo cetro, mas também pelas letras. Logo aqui o leitor desprevenido há de achar-se em presença de uma novidade.

O principado literário do Sr. D. Pedro II, até nos domínios da filosofia, a cujo estudo não consta que tenha consagrado tempo algum de sua régia vida, é coisa que geralmente ainda se ignorava. Graças, porém, ao Dr. Soriano, fica sendo, doravante, verdade adquirida, ponto de fé inabalável da ortodoxia monárquica. Além disto, bem se pode de antemão ajuizar da ordem das ideias de um homem de hoje, para quem existem príncipes pelo sangue.

Como quer que seja, o Dr. Soriano é de uma grande atividade. Admiro que o seu nome não se ache cercado de maior consideração. Custa mesmo a crer que o ilustre escritor não se visse ainda litografado em uma lauda d’O Novo Mundo. Porquanto, este jornal, demasiado generoso, tomou a peito fazer conhecidas, do estrangeiro, a título de grandezas, as nossas ninharias políticas e literárias. Mais do que ninguém, o Dr. Soriano tem direito de ser ali mencionado. Nem sei também como é possível que o Sr. Pessanha Póvoa, em sua lista de notabilidades pátrias, não se lembrasse do insigne filósofo[3].

Quando disse que admirava não ver o nome do Dr. Soriano rodeado de maior consideração, eu olvidei um fato importante. Como deixar em silêncio a carta do papa, aqui mesmo publicada, sobre o livro de que me ocupo?

Bem que Sua Santidade não tivesse tempo de lê-lo, afiançava todavia que o livro era excelente. Isto pode fazer as delícias de um católico de lei; mas não é próprio de tranquilizar a consciência de um autor.

Não obstante o elogio papal, indeciso e ambíguo, o mérito do livro, quero dizer, o mérito do filósofo é ainda questão aberta. Salvo se querem que a infalibilidade se estenda até o ponto de santificar os maus escritos, com pena de excomunhão a quem ousar combatê-los. Devo crer que não corro este risco.

Segundo me parece, o Dr. Soriano toma por base de suas tentativas um sentimento odioso, anacrônico, anticientífico: a intolerância.

Ele julga prestar com os seus livros um certo serviço à causa da Igreja. É um engano. O sublime paradoxo evangélico da grandeza dos pequenos não tem cabimentos no mundo intelectual. Eu me explico. A virtude, qualquer virtude, é por si mesma grande e apreciável. Fazer o bem, de qualquer modo e em qualquer escala, é sempre um mérito. Isto porém não se dá no que toca à inteligência.

Não basta escrever um, dois, três livros para conquistar o título de escritor. Não basta vir atualmente afirmar, por exemplo, que o tomismo é a verdadeira, a única filosofia, para ser considerado um espírito distinto. Eu bem sei, como se diz, que cada um, na medida de suas forças, leva a sua pedrinha para o edifício; mas, infelizmente, não se trata de erguer, porém de sustentar o velho templo que desaba.

Não basta, em uma palavra, lançar na circulação meia dúzia de ideias velhas, desenterradas do jazigo secular, para se merecer a nomeada de homem instruído. Nem tampouco aproveita a quem quer que seja a insistência na defesa de uma causa perdida. Já se vê que o Dr. Soriano, com seus escritos filosóficos, não presta o menor serviço às doutrinas que professa; e, o que mais lhe deve importar, não se faz por eles notável.

O digno professor, como era de esperar, comunica aos leitores em um largo Prefácio o plano e o espírito de sua obra. É duro dizê-lo, mas é verdade, que logo em princípio se encontraram as mais vivas provas de muita estreiteza mental. Diz ele:

“Naturalismo e sobrenaturalismo”, razão independente e fé humilde, tais são os termos da magna questão debatida na sociedade moderna.”

O ilustre doutor é assaz ingênuo. Ainda julga que a sociedade moderna é teatro das velhas contendas entre a razão e a fé. Não lhe chegou ainda aos ouvidos a notícia de que essa luta não tem mais senso e que “o combate acabou-se à falta de combatentes”? não viu um só instante que um dos termos da questão, como o digno doutor a entende, aquele mesmo sistema, a cuja conta se acostumam pôr os homens que pensam, isto é, o ateísmo, está hoje tão caduco e desacreditado como a própria teologia? Quem é que cuida mais de procurar argumentos para provar a independência da razão? Seria um tolo igual aos que ainda se ocupam de mostrar com textos da Bíblia que o homem não pôde progredir sem uma revelação divina.

O Dr. Soriano está muitíssimo atrasado. Pressente-se que o seu livro é uma repetição de matéria velha e inaproveitável. Porque no meio do triunfo geral da ciência moderna, que chegou a transformar a própria religião, até no que ela tem de mais íntimo e profundo, o seu conceito, a sua ideia; porque nesse meio ainda se levanta uma ou outra voz rouquenha para entoar ladainhas de convento, deve-se inferir que a luta continua? Porque no campo de batalha, depois de uma vitória, ouvem-se os ais dos moribundos e as maldições dos feridos, é concludente que a pugna persiste?

É debalde que o nosso filósofo se esforça por fazer a árvore seca da Idade Média reflorir e frutificar. Essa época morreu. Pode-se-lhe apenas aplicar o hemistíquio de Lucano sobre Pompeu: Stat magni nominis umbra.

Mas o Dr. Soriano não se deixa convencer. Ele tem palavras duras para os que não se curvam ante o velho S. Tomás. Lê-se à página X do seu prólogo:

“Verdade é que ainda os ignorantes e bufões da ciência têm algumas chanças de mau gosto e cediças rabularias com que acometem essa filosofia que ignoram, e da qual, segundo eles, ninguém mais faz caso”.

Qualquer que seja o sentimento de minha fraqueza e a convicção do pouco que valho, não me posso eximir de pertencer à categoria levantada pelo ilustre escritor. Mais de uma vez tenho dito o que penso dessa filosofia, tão elogiada por homens de um espírito mesquinho ou atrasado. Como não aceitar uma parte da honra dada pelo Dr. Soriano aos que ele chama ignorantes e bufões da ciência? Gosto pouco de andar pondo em relevo a minha pessoa, a minha subjetividade, como dizem os alemães.

Todavia, peço a permissão de recordar um fato. Em 1867, quando se deu um concurso para provimento da cadeira atualmente regida pelo Sr. Soriano, já me tinha, dias antes, declarado, e em um exame público, inimigo do tomismo. Não havia melhor ocasião do que essa em que fomos únicos candidatos, para o tomista convencido demonstrar que o seu antagonista era um bufão da ciência.

Não o fez, não pôde fazê-lo. O que ficou em domínio de todos, foi que ambos nós, eu então pobre acadêmico do 3º ano e o Dr. Soriano, já conhecido até em Roma, provamos que éramos néscios, horrivelmente néscios em matéria filosófica. Destarte, arrisco-me a assegurar que a incompetência do nobre professor, para dirigir-me qualquer invectiva, é caso julgado.

Se eu tivesse alguma suposição de que o Dr. Soriano se incomoda com os meus escritos e chega a votar-me algum ódio, desistiria por certo do trabalho empreendido. Suplico-lhe, pois, que não me tenha rancor. O respeito das convicções alheias não consiste em julgá-las boas e verdadeiras, mas só em tê-las por íntimas e sinceras. Eu penso que o honrado professor tem a mania de querer impor-nos as suas opiniões, os seus prejuízos de educação, como verdades indubitáveis e superiores a qualquer análise.

Há uma coisa, sobretudo, que me parece esquisita nos escritos do ilustre doutor. É o seu modo de ser religioso, é a sua religiosidade. Não compreendo, não me posso assimilar essa maneira de exprimir-se com tamanha firmeza e decisão sobre os grandes objetos de nossa eterna ignorância. A metafísica dos filósofos e a teologia dos padres muito há que fizeram fiasco. Para que ainda vir debruçar-se no abismo tenebroso dos problemas insolúveis e não reconhecer enfim que a filosofia hodierna tomou outro caminho?

O Dr. Soriano crê talvez que, falando longamente sobre Deus, sua natureza e seus atributos, bem como sobre tudo que diz respeito à Igreja Católica, põe a descoberto, para se admirar, o vigor de seu senso religioso. É o maior dos enganos. Lembro-me de um belo pensamento de Frederico Schlegel: Dieser ist ein Philosoph und wird, wie der Gesunde von der Gesundheit, nicht viel von der Religion reden, am wenigsten von seiner eignen [Assim como o homem são pouco fala de saúde, o verdadeiro filósofo é o que menos fala de religião e muito menos da sua própria].

Fiquemos por enquanto aqui. No seguinte artigo entraremos em mais funda apreciação.

II

O livro do Sr. Dr. Soriano tem os defeitos comuns a todas as obras onde o autor mal se deixa lobrigar, sempre escondido por detrás de velhas autoridades. É notável que, lendo-se o volume inteiro, com dificuldade se possa descobrir o característico do escritor.

A razão provém de que o Dr. Soriano não é daqueles que pensam por sua própria conta; é um escritor que nunca soube tomar a atitude da dúvida, porque só lhe satisfaz a atitude da submissão.

Não quero entretanto dizer que o lado subjetivo da obra nos seja completamente oculto.

Sob o véu de algumas frases de unção sacerdotal, surpreende-se o homem altamente católico, cheio de apreensões teocráticas e fanáticos rancores. O fundo psíquico do autor é pouco visível; mas o que se chega a ver interessa à crítica e à ciência da alma em geral. Eis o motivo. No meio da efervescência e do bulício das ideias que surgem de dia a dia; nesta contínua dilatação dos pulmões do século, aspirando a largos sorvos os eflúvios aromáticos de jardins ignotos; quando todos cá de baixo vemos ao longe, no alto do monte, para onde caminhamos, erguerem-se brilhantes, em demanda do céu, a ciência e a consciência livres, como as duas torres da Igreja do futuro; no meio de tudo isso um homem da época, irritado contra ela, de punhos cerrados ameaçando a estrela que nos guia, não será um fenômeno digno de estudo?

Para falar sem imagens e mais a sabor do filósofo tomista: de onde provém, como explicar a anomalia de um leigo contemporâneo, que renega afoitamente o espírito hodierno e sente que o mundo inteiro não se transforme em um convento?

Bem sei que muita gente não acha dificuldade em decifrar o enigma. Em tais casos costuma-se dizer que a reação é motivada por vistas de interesse; e, destarte, compreende-se a razão da teima insensata. Eu porém não penso assim. Julgo que não é este o modo mais próprio de ligar o fato à sua lei. Sem dúvida, o interesse é uma grande força, a cuja influência obedecem até os fenômenos da ordem intelectual. Não obstante, não importa reconhecer que tudo não se explica, nem se pode por ele explicar.

A opiniaticidade do Dr. Soriano tem raízes mais profundas. Os seus escritos, é verdade, não põem em clara luz as feições brilhantes de uma viva inteligência; mas também não são unicamente produtos industriais, sujeitos à lei econômica da oferta e da procura. Antes de tudo são os frutos, bem que pecos e tardios, de uma alma de eremita, mau grado seu, atirado no vórtice do mundo.

No estilo, isto é, na ausência de estilo, na linguagem, nas ideias do honrado professor, como que se ouve o gemido surdo de um devoto, carregando o peso de sua cruz. Eu creio, pois, na sinceridade de convicções com que o Dr. Soriano escreve e publica as suas obras.
Porém, a sinceridade, relativa e graduada, única possível e até necessária, como sabiamente opina Ernesto Renan, não exclui, por incompatível, uma certa dose de cálculo e simulação[4].

Nem ousara censurar qualquer largueza de vistas, podendo ao mesmo tempo abranger o céu e a terra, a coroa imperial e a tiara pontifícia... Quando o evangelho nos diz que o homem não vive só de pão, implicitamente admite que os interesses materiais não são de todo desprezíveis. Bem se pode escrever um livro da abundância da alma, com a mais viva dedicação a uma certa ordem de ideias, e todavia tentar, por meio dele, a solução de algum embaraço, não estritamente científico.

O volume do ilustre professor do Ginásio pouco se recomenda pelo seu conteúdo. Escrito com o dogmatismo próprio daqueles para quem a verdade está feita e dita sobre todas as coisas, não tem problemas a resolver.

O que a nós outros parece ainda questionável, é um resultado do nosso desvairamento em que não queremos instruir-nos na Summa de S. Tomás. O nobre doutor dá indícios de quem se admira de não ver abraçada sem contestação e por todos os homens de senso aquela santa filosofia.

Para ele esta ciência não tem, sequer, uma face obscura; tudo se acha, de antemão, resolvido pelo anjo da escola. Em tais condições, sendo nulo o interesse dos leitores, era natural que só restasse de pé e muito saliente o interesse do autor.

A obra que começa por ser dedicada a Sua Majestade acaba por ser submetida a Sua Santidade. Há nisto ao menos uma certa simetria. Fica portanto o livro, a despeito de ser inútil, bem apadrinhado entre o papa e o imperador, “estas duas metades de Deus”, segundo a frase faiscante do poeta de Hernani.

O que deturpa essencialmente o volume do ilustre doutor é a falta absoluta de espírito científico. A sua filosofia tem propósito firme: desprezar, como indignos de atenção, os achados da ciência moderna, máxime os que podem contrariar a teologia escolástica. Nota-se este fenômeno: o Dr. Soriano é um médico e está portanto habilitado para esclarecer o estudo do homem com os dados de outros estudos.

Tinha-se direito de esperar do honrado filho de Hipócrates alguma coisa nesse sentido. Completo engano. Eu desafio a quem quer que seja para me apontar uma só linha do livro, de onde, sem outro auxílio, se possa inferir que o autor é um médico. O filósofo segue o seu caminho já trilhado pelos santos doutores, convencido da vaidade, da miséria, do nenhum valor da própria matéria em que é graduado, desde que ela não se presta a fortificar os anexins latinos da Summa Theologiae. O Dr. Soriano, escrevendo filosofia, não quer graças com as ciências médicas. Se alguma vez se encontra com elas, é só para lançar-lhes um olhar de desdém. Leia-se, por exemplo, o final da página 201 do volume. É admirável que Santo Agostinho e S. Tomás sejam quem faça a despesa dos conhecimentos fisiológicos do nosso autor.

Entretanto, convém advertir que não tenho em vista fazer crer que o livro do Dr. Soriano devia estar cheio de anatomia e fisiologia. O que me parece estranhável é que o nobre filósofo, em tais circunstâncias, não pusesse a seu serviço as descobertas, as soluções mais recentes de ciências que ele professa.

Médico e filósofo! Que feliz coincidência para escrever uma obra viva, toda penetrada do espírito do tempo, com as suas grandes conquistas, as suas vastas aspirações e altos pressentimentos!

Eu não censuraria que o Dr. Sousa se entregasse de todo aos seus estudos prediletos, com exclusão e prejuízos das matérias de seu grau, se estas não tivessem íntimas relações com aqueles mesmos estudos. Quero dizer — a filosofia manejada por um médico deve se mostrar menos pobre, menos frívola e estéril do que a vemos nas mãos do nobre doutor[5].

O que primeiro nos ocorre, quando lemos uma obra de filosofia, é saber se o seu autor compenetrou-se bem do estado da ciência e deu às questões vigentes alguma solução. Por este lado, quem abrir o livro do Dr. Sousa, pode estar certo de que nada encontrará. Melhor será que não o leia, porque ele não satisfaz àquela exigência.

É sabido que, nos últimos tempos, a questão filosófica mais inquietante, se não a de maior alcance, tem sido levantada sobre a própria essência e limites da filosofia. Augusto Comte e a sua escola atiraram para o meio das criações fantásticas a velha metafísica, espécie de mitologia racional, menos poética e mais obscura que a mitologia ordinária. Mesmo na Alemanha, naturalmente idealista, repercutiu algum tanto o abalo da nova doutrina. A corrente hegeliana foi um pouco retardada pela invasão do positivismo. Esta invasão é afirmada por certos fenômenos notáveis.

As obras de Büchner e Moleschott, que se fizeram apóstolos de um materialismo quase extravagante, eu não as tenho decerto como produtos imediatos dessa influência; mas ao menos é provável que, vindo depois, não deixassem de ter em vista o caminho indicado pelo famoso pensador francês.

Outros fatos acusam melhor a feição do tempo. Schiel traduz a Lógica de Stuart Mill, a qual se poderá chamar o Regulamento do sistema de Comte. Haym escreve um livro precioso sobre Hegel, onde o espírito positivo se revela em alta escala. Assim, diz ele:

“die Poesie gleichsam der Wissenschaft” [a metafísica é a poesia da ciência]. “Grosse metaphysische Bauten konnen nur einem esthetisck gestimmten Geschlechte gelingen” [Grandes construções metafísicas são o privilégio das gerações esteticamente dispostas e harmonizadas].

Eu creio que Littré não falaria sobre o assunto com mais calma e segurança. É ainda um alemão, Juliano Schmidt, que, a respeito dos destinos da filosofia em sua pátria e no mundo civilizado, se exprime em termos tais:

“Die moderne Philosophie steigi von ihrem alten Isolirschemel herab und behreiti die Bedeutung der ubrigen Wissenscheften, von denen sie zu lernen die sie selber aber zu orientieren hat”
[A filosofia moderna desce de sua antiga torre de marfim e compreende o sentido das outras ciências, com as quais deve aprender; mas é a ela que incumbe orientá-las].

Isto importa engrandecer o domínio da ciência positiva e deixar no esquecimento sonhos e visões quiméricas, os dogmas decrépitos da pura especulação.

Ora, pois, quem di-lo-ia? — o Dr. Soriano demonstra ignorar completamente esse estado de coisas. O seu livro é de uma pobreza lastimável, pelo que toca a semelhante ponto. Ele nos diz (p. 121) que “a palavra metafísica quer dizer trans naturale, extrafísica”. Que grande novidade! Conta-nos mais o bom do livro a história da formação dessa palavra!

Quem abre uma nova obra, intitulada filosófica, não vai atrás de saber anedotas, porém de aprender coisas mais sérias. Pela história que refere o Dr. Sousa, a respeito do nome da metafísica, poderíamos dizer-lhe: obrigado, meu senhor. Vamos à ciência; deixemo-nos de tolices.

É assim que, depois de nos regalar com etimologias, o venerável doutor acrescenta: “Como quer que seja o termo metafísica prevaleceu até hoje e designa a ciência que trata daquelas coisas que estão separadas da matéria, quer na realidade, quer por simples precisão do espírito.” Não há dúvida: o Dr. Soriano é inteiramente baldo de senso filosófico, ele desconhece que uma proposição, como a que acabo de citar, não indica nem determina objeto algum.

“A ciência que trata daquelas coisas...” É um modo esse de falar a esmo, prodigalizando palavras e economizando ideias. “Daquelas coisas que estão separadas da matéria...” Não bastaria dizer a ciência das coisas imateriais? Mas isto, por demasiada concisão, poderia deixar o leitor em dúvida: era mister deixá-lo em plena ignorância. Dito e feito.

Mas o que vai além do despropósito é a ilação que o ilustre doutor julgou dever tirar das referidas palavras. Continuando (p. 122), ele diz: “Daqui se infere a existência da metafísica.” O filósofo é muito corajoso. “Daqui se infere...”, de onde é que sai essa ilação? Anteriormente se tratou apenas da significação etimológica do termo, do seu modo de formação e de ser a metafísica a ciência do imaterial.

Que fatos são esses de tamanho alcance para deles se inferir que a metafísica existe? E demais: ninguém ainda contestou-lhe a existência. Ao contrário, aqueles que a combatem não se dirigem a uma sombra vã, mas a uma realidade, cuja influência julgam perigosa e anacrônica, porque já teve a sua época e hoje só deve pertencer à história.

O que se questiona não é se a metafísica existiu ou existe; porém é saber se outrora e hoje e sempre, onde quer que ela apareça, pode ser considerada uma ciência; se ela tem um objeto certo e determinado, como as outras; em uma palavra, se ela nos instrui de alguma coisa que não é dado às outras conhecer.

O Dr. Soriano, na ignorância do estado da questão, entendeu responder a qualquer dúvida com esta simples e banal pergunta:

“se há ciências que se ocupam das coisas materiais e sensíveis, por que não haverá alguma que discorra sobre as coisas imateriais e suprassensíveis?”

É incrível que um espírito culto lance mão de soluções desta ordem e pareça ficar satisfeito. Note-se bem: a metafísica não é impugnada por motivos tirados dela mesma, por sua forma, por seu nome; porém somente por seu objeto, por seu conteúdo.

Por isso mesmo que tem a pretensão de discorrer sobre as coisas imateriais e suprassensíveis, ela põe em dúvida o seu caráter científico e o valor dos seus resultados. O imaterial objetivo e concreto é ainda para muitos uma grave questão.

Como pois dar por sabida e inegável a sua existência, a fim de justificar a pobre metafísica? É uma lógica bem singular.

Eu insisto. Os adversários da pretendida ciência deduzem argumentos da própria natureza das coisas que ela tenta investigar, isto é, de sua incognoscibilidade. A metafísica envolve contradição porque vem a ser a ciência do incognoscível, do que não se pode saber, do que, de feito, não se sabe.

Não basta haver uma ciência do mundo físico para criar-se uma outra do mundo suprassensível. Dado mesmo que este mundo exista, como eu creio, ainda assim não fica resolvido que possamos ter dele um conhecimento adequado. E esta é a questão[6].

III

Poucos homens parecem tão estranhos, tão opacos e inacessíveis à vasta irradiação das ideias dominantes quanto o honrado professor do Ginásio.

É para ver e admirar a corajosa indiferença com que ele se pronuncia em relação às questões mais sérias e mais preocupantes da época.

Está dito e provado. A obra que analiso é um livro de filosofia, onde se aprende perfeitamente, se assim posso dizê-lo, a ignorar essa matéria. E não há coisa alguma de chistoso neste modo de falar; é a expressão de uma verdade, claramente revelada em mais de um fato da mesma natureza.

Todas as obras de nossos dias, que trazem o velho cunho católico de uma bênção pontifical, estando em oposição decidida à ciência contemporânea, devem professar, por via de regra, a mais profunda ignorância. É um enigma proposto aos beneméritos da Igreja: excogitar os meios de fazer o espírito humano recuar diante da grandeza de sua própria sombra, envergonhar-se de seus triunfos e volver os olhos atrás.

O Dr. Soriano tem sido infatigável em cooperar, quanto pode, para pôr em prática a palavra da esfinge. Eu lastimo que ele não disponha de maiores recursos, que não possa entrar na luta com mais vigor de talento. Ter-se-ia, pelo menos, um espetáculo mais interessante: o de uma inteligência real que se esforça por encurtar-se a si mesma, a fim de caber no quadro estreito de doutrinas convencionais.

E com efeito não é raro vê-lo em espíritos notáveis. Quem não sente, por exemplo, ante os escritos de um Balmes, um como que esforço de águia que tentasse esconder-se na velha abóbada dos templos arruinados e fazer sua a habitação dos mochos?

Mas o nosso filósofo está longe de maravilhar-nos por esse lado. Não deixa de causar uma certa impressão e pôr em movimento a curiosidade pública o fato extraordinário de ser o digno doutor de quem poder-se-ia esperar uma outra ordem de ideias o campeão titulado de já usadas tolices escolásticas. Todavia, não é lá muito para lamentar a falta de seu concurso na defesa do terreno por nós outros ocupado.

Para não alongar demasiado esta apreciação ao livro do Dr. Sousa, vou concluir pelo exame de mais um ou dois pontos importantes e aos quais ele não deu sequer uma aparência de solução plausível. Quero falar, de preferência, da teoria da indução.

A elementaridade, com que, talvez por excesso de modéstia, se qualifica a obra do ilustre professor, não salva da censura de tratar tão pobremente um dos mais vastos assuntos da filosofia moderna.

Quem consagrou não poucas páginas a velhas futilidades que não têm mais sentido nem valor algum, quem tanto se ocupou de ontologia, falou de ente e essência, de ato puro e ato misto, não era muito que se estendesse um pouco mais a respeito da indução.

O Dr. Soriano revelou não conhecer o fundo e o alcance da questão. E oxalá que tudo fosse isso. Ele mostrou ainda mais que não sabe raciocinar, mesmo sobre coisas para as quais já existem, por assim dizer, argumentos feitos e armazenados.

Tratando de indução, o filósofo pergunta se o raciocínio dedutivo e o indutivo serão essencialmente distintos; se o silogismo diferirá radicalmente da indução. E depois de referir alguns caracteres, por onde há quem responda afirmativamente, assim se exprime:

“Mas se bem considerarmos, veremos que a diferença daqueles dois processos está mais na forma do que na essência. Porquanto é certo que o silogismo, sendo um processo geral de raciocinar, nenhum raciocínio pode ficar fora dele”.

Eu creio que o leitor, por si mesmo, antes de observar-lho, já descobriu o vício radical, o mísero ilogismo dessas frases.

Procura-se saber se o silogismo difere da indução ou se de algum modo identifica-se com ela; o que vale o mesmo que averiguar se qualquer deles constitui um processo geral de raciocínio que possa abranger o outro. Eis que o nobre professor decide que não difere, isto é, afirma que o silogismo constitui um processo geral, porque é certo que o silogismo, sendo um processo geral de raciocínio, nenhum pode ficar fora dele[7].

Bem se pode lamentar que o Dr. Sousa não tivesse aprendido nos livros de sua predileção as regras mais sabidas da lógica rotineira. Deveria poupar-me o trabalho de fazer aqui notar-lhe um erro pueril.

Mas vamos ao fundo. A indução é aí definida — a operação mental pela qual atribuímos a uma espécie o que constantemente temos observado nos indivíduos ou atribuímos ao gênero o que temos constantemente observado nas espécies que lhe são subordinadas.

Será isto exato?

Ficará por este modo bem determinado o que seja a indução? Terá o Dr. Sousa bastante docilidade para admitir comigo que a sua definição é pobre e quase nada esclarece?

Custa pouco demonstrá-lo.

Não bastava dizer que a indução consiste em atribuir-se a uma espécie o que se observa constantemente nos indivíduos. Era mister acrescentar que isto se dava quer na espécie natural, quer na espécie factícia, distinção que não se depreende daquelas palavras citadas.

A faculdade pela qual atribuo, por exemplo, a todos os animais o sentir e o viver é a mesma que me leva a entrar em qualquer hotel de uma cidade estranha para tomar uma refeição, porque creio que todos devem tê-la.

Ora, a espécie hotel não é da mesma natureza da espécie animal; e todavia é uma só faculdade que me fornece aquele juízo sobre ambas. Em qualquer estação de via férrea espera-se um trem à hora certa, com quase a mesma confiança com que se aguarda o nascer do Sol. Em ambos os casos há indução, porque há crença na repetição de um fenômeno constante. E a que ordem de espécies pertence o vapor?

Era para exigir do Dr. Soriano maior desembaraço, maior jogo de conhecimentos na desenvolução dessa matéria. Poderá crer-se que ele ignore até aquilo que tem sido dito por seus irmãos em S. Tomás? Quem não sabe que o padre Gratry escreveu uma Lógica e nela se ocupou da indução com muita largueza, posto que com alguns notáveis disparates?

Parecia justo que o nosso filósofo levantasse e buscasse resolver os problemas respectivos. Nada disto. Para o honrado doutor não há dúvidas nem sombras que perturbem a marcha do seu pensamento. Como que vive engolfado na eterna claridade de uma lâmpada celeste exatamente posta a prumo sobre a sua cabeça calma e refletida.

Entretanto, se espíritos profundos encaram hoje a indução como coisa que muito interessava à filosofia das ciências, com que direito o nosso professor, escrevendo uma obra do gênero, limita-se a dizer-nos pouco mais do que nada?

Se é certo, como está escrito, que o silogismo não difere da indução; que esta, ao contrário, lhe é redutível; pois que aquele se baseia em princípios, em juízos mais ou menos universais; como é que se adquirem tais juízos? Em sua formação já não há um processo indutivo? E neste caso, não se parece girar em um círculo vicioso?

Que nos diz a tal respeito o Dr. Soriano? Absolutamente nada. A velha teoria de verdades primeiras, conceitos racionais e outras frases místicas, de que V. Cousin e seus apêndices encheram os ouvidos de uma geração descuidosa, não vem mais a propósito. Está desacreditada. Faz-se pois necessário descer ao interior do assunto e procurar melhores razões. É justamente o que deverá ter feito o grave doutor para dar-nos alguma coisa de novo e não maçar o seu leitor com antigualhas banais.

No silogismo há sempre um meio, diz o Dr. Soriano, na indução falta esse meio.

Dê-se que seja assim. Mas esse meio deve ser um juízo, e este juízo, mais ou menos geral, sai fora da experiência direta e entra sempre no quadro de uma indução. Sirva de prova a maneira por que o autor quer demonstrar que num raciocínio indutivo vai envolto um silogismo, deste modo formulável:

“A experiência mostra que estas e aquelas qualidades observadas nos indivíduos não procedem do acaso, mas sim da natureza específica dos mesmos, a qual é comum aos indivíduos da mesma espécie, ainda não observados; ora, as leis da natureza são constantes ou as causas físicas são fatais em produzir seus efeitos; logo, os outros indivíduos da mesma natureza sem dúvida hão de ter as mesmas qualidades que têm os que observamos”.

A premissa intermediária — “as leis da natureza são constantes” — é um juízo universal; como foi ele formado? Crer na constância das leis naturais é induzir; e esta indução ainda supõe uma outra, que é a crença na existência dessas leis. A que é pois que se deve conferir a anterioridade, ao silogismo ou à indução? Nem se diga que aquela crença é um fato espontâneo e congênito ao espírito humano.

O assombro que primitivamente o homem experimenta diante dos fenômenos naturais é a viva prova de que ele não tem com a ideia deles nenhuma noção de harmonia das coisas. Pelo contrário, a primeira impressão que experimenta é a impressão da desordem manifestada em tudo que percebe e observa. Quanto tempo não foi preciso para que o conceito de lei se aplicasse aos fatos da natureza?


“A experiência mostra que estas ou aquelas qualidades observadas nos indivíduos não procedem do acaso ou de uma propriedade individual, mas sim da natureza específica dos mesmos.”

Completo engano. A natureza específica dos seres, como objeto de conhecimento, sobrepuja a experiência, e é um produto indutivo.

O filósofo ilude-se. Desde que formamos delas o juízo de não procederem do acaso porém do próprio fundo das coisas, tais e tais qualidades percebidas, a experiência abre caminho e cede o passo a uma nova operação intelectual.

Mais ainda: “a qual é comum aos outros indivíduos da mesma espécie, ainda não observados.” Que profunda confusão! Caiu em cheio. Como sabemos nós que os indivíduos não observados são de natureza comum aos que temos visto, senão por indução? A que pois se reduzem a identidade das duas formas e a preponderância do silogismo?

Se por um lado parece desculpável que o Dr. Soriano tenha errado naquilo em que escritores de alta esfera ainda se revelam meio confusos e pouco adiantados, não deixa de espantar, por outro lado, a insuficiência, a caduquice de suas ideias, quando ele tinha para melhor sustentar-se os largos detalhes e vastas discussões relativas ao objeto.

Não compreendo que alguém, e sobretudo na época presente, venha dizer ao público: eu sou filósofo, e, para justificar tão ousada pretensão, não tenha duas palavras vivas, duas ideias novas, que fiquem fulgurando na memória do leitor.

Ainda é mais estranhável que se aventem questões importantes, mostrando-se ignorar o seu imenso alcance atual, nem ao menos dando-se conta do que há de controvérsia a respeito.

Eu já falei na obra do padre Gratry. É uma lógica mística, de ímpetos poéticos e velhas declamações contra a filosofia e os filósofos. Contudo, nela existe muita notícia útil e de que bem pudera aproveitar-se o Dr. Soriano para dar à sua obra uma cor mais agradável.

Falei do padre Gratry, por ser um autor muito conhecido. Entretanto, é mister não esquecer que há mais de um livro notável, onde se encontra semelhante questão em estado de ser apreciada e compreendida. Basta mencionar o bem pensado opúsculo de E. L. Apelt, filósofo alemão, e unicamente consagrado à matéria particular da indução[8].

O mesmo Gratry parece lisonjear-se de estar de acordo com esse autor; e não obstante, depois da leitura de ambos, achar-se-á que há no fundo da doutrina mais divergência do que harmonia, e é evidente que o filósofo francês não se dedignou de pedir inspiração ao sábio de além-Reno. E não se infira daqui, por qualquer modo, que a citada obra germânica não tenha para mim o menor defeito. Eu a considero ainda maculada pelo prejuízo do apriorismo.

O escritor diz logo no prólogo que Leibniz foi quem abriu à filosofia alemã o caminho da especulação racionalista, e “a força que o seu gênio tem exercido sobre o espírito e o pensamento filosófico racional, Kant mesmo não pôde destruir com a sua crítica da razão” (die Macht, welche sein Genius über den Geist und die philosophische Denkweise der deutschen Nation ausübt hat selbest Kant durch seine Kritik der Vernunft nach nicht zu berechen vermocht).

Parece-me que o autor é uma grande prova da exatidão de suas palavras. Como quer que seja, a luta existe, assaz renhida e muitíssimo fecunda, no domínio da filosofia. Mas o Dr. Soriano desconhece tudo isto. Já não digo que para ele foi em vão que Stuart Mill escreveu seu célebre System of logic. Esta obra, que é sem dúvida o produto mais significativo desse elevado espírito e encerra o que de mais forte e original se tem escrito sobre tal questão, não é de natureza a ser saboreada pelo nosso filósofo.

O extraordinário é que para o ilustre professor seja ainda em vão que Charles de Rémusat, entre outros, escrevesse também um livro interessante e no qual se adquirem proveitosos ensinos do objeto de que se trata. Disse — extraordinário — porque é um livro de geral conhecimento e quase familiar aos alunos e dilettanti de filosofia[9].

Deixo de lado tudo que ainda aqui pudera alegar quanto à ignorância do Dr. Soriano em relação à história, mesmo contemporânea, do problema que nos ocupa. Não acho também cabível tornar aqui patentes as minhas vistas pessoais e tratar de destruir uma para substituí-la por outra teoria. Compreendo o meu papel: quero a ele limitar-me. Nem por isso desisto da ambição que nutro de escrever um artigo especial sobre a indução e os filósofos que têm ultimamente procurado elucidá-la[10].

Valia a pena que o Dr. José Soriano tivesse tomado mais ao sério esse capítulo da lógica. Uma definição que nos desse, bem clara e compreensiva, já seria um mérito louvável. Porém nem isso. A indução vai mais longe do que se supõe. A vida humana, a vida espiritual, é quase toda feita de crenças, quase toda baseada em induções. A nossa própria existência, da qual, segundo a maioria dos filósofos, temos um conhecimento direto e imediato por meio da consciência, é objeto de indução.

Em um momento dado, eu sei diretamente que existo; mas não é esse instante rápido, imperceptível, que me fornece todos os juízos relativos à minha existência. Fora do momento passageiro, atualíssimo, em que me sinto viver, nada posso de mim mesmo afirmar, senão induzindo. Enlarguecei o quadro desta ideia e vós vereis desaparecer o pretendido valor do cogito ergo sum como base da psicologia.

Não admira que não se tenha dado sempre ao estudo da indução a merecida importância. A razão é simples. Como espirituosamente diz Macaulay, se são precisas boas induções para fazer um par de sapatos, não o são decerto para fazer um silogismo. Daí o descuido e a facilidade de errar, nesse sentido.

Não é de pouca monta uma questão de tal natureza que interessa à vida inteira, sob todas as suas relações. A queda dos prejuízos, a destruição dos velhos erros, o assento da moral e da política em melhores fundamentos — quem diria? — estão à espera de uma exata teoria da indução. E seja dito entre parênteses: se os nossos escritores de Direito Público e jornalistas do dia soubessem um pouco mais a filosofia das ciências sociais, como se lhes aplica o método indutivo, não andariam repetindo, a cada passo, mil tolices sobre a Inglaterra e outras tantas sobre os Estados Unidos.

Eu sei que para escrever um artigo de crítica, a sabor de alguns leitores, que aliás não fazem honra, é preciso descer à análise das palavras, abrir o dicionário, mostrar que o autor comete galicismos, neologismos, cinquenta outras asneiras em –ismo, não sendo assim, para eles não há crítica. Penso diversamente. O que mais importa fazer conhecido, quando se analisa qualquer obra, é o seu espírito, é a tendência dominante. Foi o processo que segui na apreciação do livro do Dr. Sousa.

É um livro sem vida, que não encerra uma só coisa aproveitável. Feliz o autor que escrevendo um grosso volume pode ver, depois de passar pela prova da leitura pública, uma ideia sua, eu digo uma só, de pé sobre as ruínas de tudo mais. Assim acontece nos países cultos aos escritores de maior consideração. Verdade é que entre nós tornar-se-ia isto bem difícil.

Os produtos intelectuais são aqui sempre tidos como bons e sem defeito algum, salvo este ou aquele que de antemão se julga ruim, pelo fato de o autor não ser muito simpático e não cair em qualquer extremo: ou andar com o credo na boca, ouvindo missa todos os dias, ou viver à boêmia pelos cafés e restaurantes, falando de poesias e romances. E, pois, do livro do nosso filósofo nada resta: tudo vai-se com o tempo.

Ele não trouxe um óbolo, sequer, para o cofre, ainda tão vazio de nossa literatura[11].

Notas
[1] “O Atraso da Filosofia Entre Nós”, série de três artigos publicados no Jornal do Recife, nos dias 30 de julho, 3 de setembro e 18 de novembro de 1872, fez parte da adição póstuma de Vários escritos, 1900, organizada por Sílvio Romero, e de Filosofia e crítica, 1926, organizada por Oliveira Teles.
[2] Lições de filosofia elementar, pelo Dr. José Soriano de Sousa.
[3] Refiro-me à obrinha Os heróis da arte. Não obsta que fosse destinada ao elogio de artistas. Nela aparecem nomes de pessoas que não o são e, mais ainda, que não têm relação com a coisa. Quem me dera que tudo fosse isso! É sensível que, quando a arrogância dos Srs. Ramalho e Eça de Queirós nos vestiu de trajos ridículos, em quadros traçados pela mão de dois exagerados, viesse o Sr. Póvoa prestar-lhes um documento. Esse moço, que é tido como literato brasileiro, sob a proteção e as vistas do Sr. Porto Alegre, que é ainda mais do que isso, acaba de escrever em Lisboa um complexo de frioleiras. A propósito de dois notáveis artistas nossos, o escrito sem critérios entendeu dever dizer os maiores disparates. Entre outros, diz, por exemplo, que Carlos Gomes é para a música o que foi Maomé para a religião. Dá-se mais claro dislate? Isto exprime coisa alguma, senão que o escritor é insensato? Diz ainda que Roger Bacon e Descartes foram reformadores do método. É um erro de três séculos e meio; devia dizer Francis Bacon. Diz mais: que Ptolomeu amesquinha Mário, que Cícero envergonha Hermógenes... Que é isto? Quem foi esse Mário amesquinhado por Ptolomeu? Quem é esse Hermógenes envergonhado por Cícero? É mister ser idiota para não indignar-se diante de coisas tais. O Brasil é atacado como néscio e sem espírito: eis que lá mesmo, onde o ataque se dá, um moço brasileiro não trepida em sair ao público, para revelar a mais chata estolidez; e isto com ares de inspirado cantor das pátrias glórias! Que saboroso pratinho não deve ser para os Eças e Ortigões a produção do Sr. Pessanha? O jovem escritor sabe de coisas e di-las por um modo que provoca o riso. Por exemplo, este pedaço, a respeito do autor d’O Guarani: “Vem da nossa pátria a notícia de que o governo inglês o encarregou de escrever uma opereta que será uma epopeia cujo assunto é Cromwell, isto é, a vida de um gentil-homem rebelde”. Tal notícia, enviada do Brasil para Portugal, é muito interessante. Não seria bem ridículo se o Sr. Póvoa, que está em Lisboa, nos dissesse: “Acabo de receber dos meus amigos do Brasil um rico presente de vinho do Porto?” Ou se aqui no Recife alguém fosse mimoseado por um amigo de Pajeú de Flores, com mantas de carne-seca e latas de sardinhas? Pois não há diferença entre isto e a notícia de que fala o jovem escritor. Peço desculpa ao Dr. Soriano de haver deturpado o artigo sobre o seu santo livro com esta longa nota a respeito das puerilidades do Sr. Pessanha. Aos amigos e companheiros deste peço também que não me tenham em conta de pessimista. É minha convicção que muito mal nos vai fazendo esse sistema de elogio mútuo do qual são vítimas laureadas os Pessanhas e outros iguais.
[4] Este modo de entender tem mais alcance do que parece. Por ele, eu dou a chave para a explicação de um fato, ou melhor, para reduzir uma anedota aos princípios gerais da conduta humana. Consta que a dedicatória do livro do Dr. Sousa ao Sr. D. Pedro II foi intercalada aqui mesmo em Pernambuco, depois que a obra veio de Paris, onde foi impressa. Seja ou não isto exato, o certo é que o papel em que vem a dedicatória difere do de todo o livro. E como a gente, como por instinto, ou por hábito, está sempre a evocar o velho princípio das causas finais, de que o honrado doutor é partidário, logo e logo perguntaram: Com que fim? Eis que, por felicidade, já estava no domínio público o livro de S. S., que ensina perfeitamente a raciocinar sobre os fins. Aí, à página 140 encontra-se a divisão em próximo e remoto. Facilmente se atinava com o fim próximo, que era mostrar ao imperante a grandeza de um filial amor. Mas o remoto? Foi só virar a página, e por força de outra divisão em fim da obra e fim do operante, achar que a “indicação das folhas é o fim do relógio, e o lucro, o fim do relojoeiro”. Nestes termos foi facílimo raciocinar e dizer com S. Tomás: Si agens non esset determinatum ad aliquem effectum, non magic ageret hoc, quam illud. Atqui doctor Sorianus, professor philosophiae in gymnasio penambucensis intercalavit dedicatoriam imperatori Petro; ergo ille habuit finem, qui est pilhare cadeiram vagam lusitani sermonis in colegio Artium.
[5] Esta ordem de ideias pede uma nota. Porque amo a filosofia, eu invejo as condições científicas, reais ou presumidas, do Dr. Soriano. Um médico filósofo é coisa mais tolerável aos olhos da gente sensata do que um bacharel em Direito. Parece que este só deve se ocupar do que diz respeito ao corpus juris. Se ousa um instante olhar por cima dos muros destas velhas e hediondas prisões, chamadas Correia Teles, Lobão, Gouveia Pinto, etc., ai dele, que vai ser punido por tamanho desatino! O menos que lhe podem fazer é considerá-lo uma espécie de renegado da nobre ciência do jus in re e jus ad rem, com todo o seu acompanhamento de embargos, arrestos e agravos, expressões duras e bárbaras que estão para a linguagem culta dos tempos atuais como o velho xenxém para a moeda de ouro corrente. Como quer que seja, a verdade é que o pobre bacharel, limitado aos seus chamados conhecimentos jurídicos, sabe menos das necessidades e tendências do mundo moderno, sente menos a infinitude dos progressos humanos do que pode ver de céu azul um preso através das grades do calabouço. E o que há de mais interessante é que bem poucos conhecem a estreiteza do terreno em que pisam. Muitos entendem que o ponto culminante da sabedoria está em discriminar os efeitos da apelação, em falar no devolutivo e no imperativo etc., etc., e outras quejandas questiúnculas forenses. Todos os homens que pensam, todas as cabeças bem formadas têm o seu to be or not to be, os seus máximos problemas que absorvem sua meditação. O bacharel igualmente deve tê-los. Quais são eles? Se o leitor inteligente pertence à classe, há de ter-se encontrado alguma vez com colegas, aliás cercados de nomeada, os quais em conversação, tomando de repente um certo ar de profundeza, lhe tenham interpelado: Doutor, você o que pensa sobre este ponto? E quando é de esperar que o ponto seja uma questão do século, uma questão política ou social, religiosa ou filosófica, eis que o nobre interpelante continua: o agravo de petição é cabível em tal caso ou é o de instrumento? etc. São desta natureza os problemas inquietantes do espírito de uma classe de homens cultos! E note-se que propor tais questões só é dado aos hábeis, estudiosos, que querem fazer carreira na magistratura, ou ter um nome ilustre na advocacia. Quem não andar muito em dia leva quinau. Confesso que tenho levado bastantes. Nem é para menos ver-me abarbado em assuntos semelhantes: esta apelação deve ser recebida em um só ou em ambos os efeitos? Tal coisa é fato ou direito? O que bem se parece com brinquedos de meninos: curro, curro, eu entro; com quantos? Sapatinho de judeu, qual de riba, qual de baixo. Confio que os velhos advogados, cuja ciência está aprovada, não se julgarão ofendidos. Eles sabem por instinto a quem é que me dirijo. Eu quisera saber que motivos tem para crer-se superior aos rábulas um bacharel que só sabe tratar de demandas ante o Sr. Juiz do Cível e o Sr. Juiz do Comércio. Alguns ficam logo tão cheios de si que se fazem distinguir por certo chiado na expressão, dando a todos os plurais uma desinência em x: os princípiox, os direitox, os embargox... Ah! Pobre classe, para quem não é um dos menores defeitos o contar-me em seu seio! Verdade é que não sou dos mais inditosos. Porém não tenho vocação para o negócio. E por isso dizia eu que tinha inveja das condições científicas do Dr. Sousa. Dele ao menos não dir-se-á que tem jeito para a filosofia, que pode tornar-se notável na ciência; mas na chicana não corre parelhas com este ou aquele. E a propósito, lembro-me de um fato. Em certo círculo, onde por acaso estava um sertanejo, falava-se dos homens mais salientes da época, e dizia-se que Victor Hugo era um dos maiores vultos, um gênio extraordinário, uma cabeça estupenda... Mas não é capaz, grita o campônio, não é capaz de tocar o baiano, na viola, como Chiquinho, meu primo. Ora, pois, mutatis mutandis, há perfeita analogia: sabe filosofia, mas não sabe chicana; é um grande poeta, mas não toca viola... É preciso que nos convençamos desta verdade: a balança da justiça virou balança de joalheiro, mais própria de pesar ouro do que direitos; não é pois nas suas conchinhas que se podem pesar os grandes cérebros. Ter boa cabeça para propor e vencer demandas, acudindo com toda a diligência aos prazos fatais, ideando meios de torcer o pescoço da pobre lei, e pô-la de rasto para trás etc.... é um mérito, sem dúvida; porém de pouca monta. Não se diz também que esta ou aquela pessoa tem boa cabeça para fazer pipocas bem estraladas? Este mundo é assim: há gente para quem Homero mesmo perderia o esplendor de sua glória, se chegasse a descobrir que o autor da Ilíada frequentara uma escola de sapateiro e nunca teve jeito sequer para arranjar umas alpercatas; há, com efeito, homens desse pensar. Entre voos da águia e as largas passadas do camelo não hesitam em preferir a majestade do quadrúpede, porque em última análise este leva no costado uma porção do necessário e do útil, alguma coisa que faz parte da grande bagagem da vida. Sobre o que vou finalmente dizer, eu chamo a atenção dos homens graves. Duas coisas existem no Brasil que precisam escrever a crítica de si mesmas, reconhecer os seus defeitos, a fim de dar-lhes remédio. São elas o liberalismo e o bacharelado. Sem isso, correm o risco de se nulificar. Pelo lado que me toca, irei fazendo o que puder. Peço de novo desculpa ao Dr. Soriano por esta nota que parece uma extravagância.
[6] Nós temos sobre este assunto um artigo de maior vulto, em que tomamos por objeto de nossas observações a obra póstuma de F. Huet — La revolution philosophique au XIXeme siècle. Em relação à metafísica não nos convenceram as razões do filósofo; e todavia reconhecemos que o livro é de um valor imenso. O Dr. Soriano devia lê-lo; nele aprenderia muita coisa que ignora ou pelo menos finge ignorar.
[7] Obra citada, p. 60. Reforcemos a demonstração do erro com um exemplo. Agita-se a seguinte questão: O beato de batina difere do beato de casaca? Ou a batina é a forma geral que compreende as duas classes? Pela lógica do Dr. Soriano poderá se responder que não há diferença, porque o hábito talar é a forma de todos os beatos. E não seria um horrível paralogismo? Não sei como é possível que este senhor tenha pretensões a filósofo.
[8] Die Theorie der Induction, Leipzig, 1854.
[9] Bacon, sa vie, son temps etc., pp. 307-373.
[10] Este, bem como outros artigos, já escritos ou planejados, formam, há muito, o quadro de um livro que pretendo publicar. Os poucos amigos que me honram e que sabem da validade do meu projeto devem ter já sentido alguma impaciência por não verem logo executado o que tenho prometido. Venho agora confessar-lhes o que, mais do que outro qualquer obstáculo, me tem demorado por tanto tempo. É um medo irresistível que de mim se apodera, ao considerar nos maus resultados práticos que o meu livro pode trazer. Com efeito, neste culto e instruído país, escrever qualquer obra de crítica, onde não se diz, verbi gratia, que o Conselheiro Zacarias é tão sábio como Guizot, tão orador como Royer-Collard, tão publicista como Robert von Mohl etc., etc., e que seria um grande rival dos estadistas ingleses, se não fosse (vede o motivo!) se não fosse a Constituição (que disparate!) e já houve quem o dissesse; escrever qualquer obra de crítica, onde não se diz que o Conselheiro Otaviano é um escritor mimoso (ainda que dele não se conheça escrito algum de importância), é um poeta magnífico (ainda que quase não tenha poesia), é um jornalista de pulso (ainda que nos seus melhores tempos só tenha escrito ligeiros folhetins e bagatelas literárias); é o mesmo para com Alencar, Macedo, Taunay e Machado de Assis; mas, ao contrário, publicar um livro, bom ou mau, em que se tem coragem de exigir dessas e outras notabilidades os títulos de sua nomeada; publicar um livro em que não há reservas pessoais, quero dizer, adulações a pessoa alguma, e que, devendo conter muitos erros, não deixa por isso de encerrar muita coisa nova e estranha aos sábios da terra... dar à luz um livro tal é negócio de fazer hesitar. Nem eu estou criando fantasmas. Basta lembrar o seguinte fato. No ano passado publiquei em O Americano uma série de artigos em que tratei de analisar o espírito de uma obra famosa sobre a natureza e os limites do poder moderador. Posto que não tivesse então concluído o meu trabalho, tenho convicção de haver demonstrado exuberantemente o disparatado da questão e a fraqueza de argumentos de todos que têm a mania de suscitá-la. Era uma coisa simples. Entretanto, é triste dizê-lo; mas é verdade, que tanto bastou para me ter na conta de um orgulhoso, áspero e intratável, que nega a inteligência do ilustrado Sr. Zacarias e outros vultos proeminentes do país... Nós sabemos que Guizot, por exemplo, com toda a sua grandeza intelectual, não escapou à crítica de escritores que lhe descobriram até os erros de gramática. Aos olhos de um Taine as reputações de um Maine de Biran, Cousin, Jouffroy, não pareceram muito respeitáveis, para ele deixar de fustigá-los e lançar-lhes o ridículo. Quem já se lembrou de qualificar de orgulhoso insensato aquilo que é apenas uma prova de independência no modo de pensar? Verdade é que não sou Taine; mas também as pessoas que têm feito o objeto de minha crítica não são Jouffroy nem Guizot. Não há mesmo proporção a estabelecer. Quer do fundo dos vales, quer do alto das montanhas, quando se encaram as estrelas, não há meio de comparação; em ambas as posições a distância é sempre incomensurável. Vejam, pois, se não tenho razão para possuir-me de algum receio. E, todavia, sou um pouco rebelde; em vez de modificar, por conveniência, as minhas opiniões, sinto-me obrigado a revê-las e aprofundá-las. O resultado é que estou mais firme no juízo formado a respeito de certas cabeças de nossa terra, pelo lado da instrução e cultura. Podem considerar-me o que quiserem; não me demovem do propósito encetado. É com efeito para admirar; quem não acha que o Brasil tem tanta ciência como a Alemanha; que os brasileiros são todos gênios superiores, desde D. Pedro II, o primeiro testa coroada do mundo, até Carlos Gomes, o primeiro compositor do universo; quem não diz que nada temos a invejar em matéria de ilustrações e inteligências fecundas fica amaldiçoado e tido na conta de tolo, quando não de malvado. É preciso acabar com este porco e miserável chauvinismo. Quanto a mim, declaro que estou na liça, e dela não sairei sem que me provem que ando errado e muito errado em meus juízos. Que outra ideia posso formar de um país dito civilizado, onde se leva um ano e mais, sem que se veja sair à luz um livro notável, uma obra instrutiva, uma coisa que venha aumentar o nosso parco patrimônio intelectual? Seja como for, o certo é que os fatos depõem contra a louca presunção de sermos um povo culto. A minha questão não é que este ou aquele indivíduo me aplauda; não gosto disso. O meu fim é andar às claras comigo mesmo. E também não se trata de saber se vivo longe ou perto do centro da civilização, se moro na cidade ou na roça. O que se faz preciso mostrar, é se ando em dia com as ideias correntes, se o que digo e o que escrevo está ou não impregnado do espírito do tempo, tal qual ele sopra em mundos superiores ao nosso obscuro mundo. Fora deste terreno, não aceito observações, por me parecerem ineptas e estólidas.
[11] Muito literato da terra tem de ficar admirado de ver classificar como literárias obras de filosofia. Para certa gente, aliás de nomeada, só é literatura verso e romance, e por uma estranha confusão julga-se que poeta e literato são sinônimos. Não há maior despropósito. Literatura, no sentido amplo, no sentido atual, é sinônimo de vida espiritual: é uma estatística aprofundada de todas as produções intelectuais de um país, em uma época dada, ciência, filosofia, poesia, teatro, romance e até música e pintura. Assim se compreende na Alemanha, onde os livros ou tratados de literatura nos dão a conhecer não só Goethe e Schiller, como Kant e Hegel, não só Freytag e Stifter, como Strauss e Baur, não só Beethoven e Mozart, como Cornelius (pintor) etc., etc. Vê-se, pois, como é vastíssimo o quadro literário. No Brasil, ao contrário, ser literato é fazer versos, romances ou dramas, de qualquer quilate que eles sejam... Qualquer moço que não sabe história, porque, diz ele, em seu tempo não se dava no Colégio das Artes; que não sabe filosofia, porque nunca teve gosto pelo Charma; que não avança uma palavra sobre a crítica religiosa, porque é católico de lei; que não sabe mesmo pronunciar-se com desembaraço a respeito das concepções musicais, porque é negócio estranho ao seu mister e ao muito poderá repetir que Carlos Gomes deitou abaixo todos os maestros etc., esse moço, assim bem cultivado, tem coragem de dizer que só sabe e só gosta de literatura... É horrível!

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