segunda-feira, 18 de julho de 2011

A filosofia no Brasil

Sílvio Romero

Aos 135 anos da conclusão da obra (julho/1876).
Texto atual baseado na edição original publicada em 1878, cotejada com a edição de Luís Washington Vita (José Olympio, 1969).
Notas ao final do texto.



Nota Inicial
O título deste pequeno ensaio talvez excite um sorriso de mofa em alguém que saiba qual o estado do pensamento brasileiro, qual a contribuição que o Brasil tem levado ao movimento científico da humanidade. Todavia, há sério naquelas palavras. Eu quero justamente ocupar-me da filosofia no Brasil, desejo indicar a evolução desta matéria neste país.

Parece-me que, até em razão do pouco caminho que os diversos ramos científicos têm feito entre nós, à crítica incumbe o dever de traçar a resenha do terreno por eles percorrido.

Da ideia exata do pouco que temos feito é que, na hora atual, devemos tomar novas forças em busca de um ar mais puro, atrás de um futuro melhor.

Seria vantajoso que cada um, na espera de sua especialidade, inquiridas as causas de nosso atraso em matemática, astronomia, física, biologia, filosofia, examinasse o que, nos diferentes ramos da cultura humana, havemos produzido e, destarte, habilitasse o espírito nacional a formar uma mais exata consciência de seu temperamento.

É possível que algum cantor das pátrias glórias vocifere contra o engano que, a seus olhos, aí fica de nosso pouco valor nas ciências enumeradas. Mais calma, e mais atenção: como autor destas linhas não duvido, antes acredito, que tenhamos homens habilitados em alguns daqueles distritos do saber.

Afeito, porém, a contar somente com aquilo que se manifesta no mundo objetivo, inclinado a só discutir o observável, só aos produtos da imprensa se dirige a minha nota. Não contesto, por exemplo, que entre os habitantes, de origem nacional, do vasto Império americano alguns existam que se achem em dia com as evoluções últimas da filosofia; não me repugna acreditar que algum abade possa, entre nós, existir que sinta sobre os ombros o peso de uma cabeça de filósofo. Bien puede ser. São fenômenos, contudo, que não vêm à luz, e a crítica nada sabe das ciências hermeticamente aferrolhadas. Tratando, pois, dos filósofos brasileiros, dirijo-me somente aos escritores da respectiva ciência entre nós. É um tentame de análise que talvez, um dia, possa estender a outros ramos do saber neste país. Temos mister destas pequenas monografias.

Além de outras, tão insignificantes que não poderiam aqui entrar sem de todo manchar as páginas que se vão ler, que eu saiba, só as obras dos seguintes autores reclamam atenção: Mont'Alverne, Compêndio de filosofia; Eduardo França, Investigações de psicologia; Domingos de Magalhães, Fatos do espírito humano; Patrício Muniz, Teoria da afirmação pura; Soriano de Souza, Lições de filosofia elementar; Pedro Américo, La science et les systèmes; L. P. Barreto, As três filosofias; Visconde do Rio Grande, O fim da criação; Guedes Cabral, As funções do cérebro; Tobias Barreto, Ensaios e estudos de filosofia e crítica e Brasilien wie es ist in literarischer Hinsicht betrachtet.

Destes é que nos vamos ocupar.

Agora, uma palavra sobre a série de publicações com esta iniciada.

Entrado, há oito anos, para a vida pública da imprensa, pareceu-me acertado fazer a resenha dos meus escritos disseminados pelos jornais e periódicos das províncias do Império em que tenho residido e, corrigindo-os e afeiçoando-os a uma nova forma de publicidade, dá-los à luz. Distribuídos em duas ordens, filhas dos dois ramos de manifestações intelectuais a que me tenho dedicado, a poesia e a crítica, devem eles formar as seguintes brochuras, de maior ou menor volume, que irão aparecendo sucessivamente: A filosofia no Brasil, Cantos e contos do povo brasileiro, A literatura brasileira e a crítica moderna, Páginas de crítica, A poesia contemporânea e Cantos do fim do século, O poema das Américas, A caaba de um sonhador.

Nestas projetadas publicações hão de aparecer capítulos inteiros nos livros de crítica, e cantos inteiros nos de poesia, de todo inéditos. Foram, porém, escritos no período prenotado, e entram plenamente no domínio da primeira fase da vida literária do autor.

No processo de revisão, agora executado, nenhuma só ideia foi abandonada ou simplesmente refeita ou ampliada. Oriundos de uma preparação preliminar, um tanto rigorosa, todos esses escritos se apresentam de novo firmados na mais inteira sinceridade, e visando, como dantes, o alvo que o autor não esconde: uma renovação literária entre nós.
Rio de Janeiro, Julho de 1876

I

Pode-se afirmar, em virtude da indagação histórica, que a filosofia, nos três primeiros séculos de nossa existência, nos foi totalmente estranha.

As dissenções e lutas dos pensadores desses tempos não mandaram um eco só até cá. Os trabalhos de Bacon, Descartes, Gassendi, Leibniz, Espinosa, Malebranche, Berkeley, Locke, Hume, Condillac, Wolf e Kant foram, em sua época, como inexistentes para nós! O fato é de uma explicação mui clara: o abandono da colônia e, ainda mais, o atraso da metrópole, para a qual aqueles nomes passaram desapercebidos, fornecem a razão do fenômeno. Nos três séculos que nos precederam nem um só livro, dedicado às investigações filosóficas, saiu da pena de um brasileiro. É mister avançar até ao século presente [XIX] para deparar com algum produto desta ordem e, neste mesmo, é preciso chegar até aos anos posteriores àquele que marca-lhe o meado para que a coisa seja uma pequena realidade.

O primeiro livro que nos requer um exame é o pobre Compêndio[1] de Fr. Mont'Alverne. Aparecido em 1859, depois da morte de seu autor, são-lhe os trabalhos dos Drs. Eduardo França e Domingos de Magalhães anteriores; fora, porém, escrito em 1833 e deve, assim, reclamar a prioridade crítica[2].

Por seu professorado, mais do que por seu livro, granjeou o nosso franciscano a fama de grande filósofo. Em 1848 foi, numa sociedade literária, solenemente proclamado, diz um de seus biógrafos, genuíno representante da filosofia do espírito humano no Brasil.

Este título, um pouco extravagante, era a confissão geral; aos louros de orador Mont'Alverne juntava os de filósofo. Ele próprio, segundo o testemunho de seus coevos, sentia que muito pesava o seu merecimento de pensador. Consta que o orgulho, por essa crença, teve entrada em seu coração. A glória de pregador, ele a não desejava mais do que a de filósofo e teólogo. Ei-lo que nos diz, falando de suas lutas de eloquência ao lado de seus rivais:

“O país sabe quais foram meus sucessos neste combate desigual; ele apreciou meus esforços e designou o lugar a que eu tinha direito entre os meus conterrâneos; pertence à posteridade o sancionar este juízo. Arrastado pela energia de meu caráter, desejando cingir todas as coroas, abandonei-me com igual ardor à eloquência, à filosofia e à teologia, cujas cadeiras professei, algumas vezes simultaneamente”.[3]

Este pedaço vale uma psicologia; ele manifesta a toda luz o estado mental de seu autor. Essa junção, que pareceu-lhe tão natural, e também aos seus contemporâneos, da eloquência com a filosofia e a teologia, é-nos hoje uma exata extravagância; é-nos inaceitável. Que as duas últimas no todo se repelem é atualmente uma dessas verdades de fato que ninguém, a não ser um desses encarcerados da ignorância, ousa mais contestar. Amigas aparentes e depois irreconciliáveis rivais, hoje uma delas é uma ruína nociva sobre que a outra passa impávida.

A filosofia e a eloquência igualmente se repugnam; em toda a história de ambas só dois homens nos mostram em que esse consórcio foi possível: Fichte e Cousin. Mas Fichte foi um grande orador longe de seu mister de ideias, em circunstâncias mais do que anormais, na hora suprema das agonias da pátria. O patriota ofuscara o pensador. Diante de seu país vencido, humilhado, rudemente retalhado, bem se compreende a metamorfose: de um filósofo um Tirteu!

Quanto a Victor Cousin, ele foi grande orador, porque nada menos foi do que um filósofo. Foi um espírito desnorteado, um literato que errara o seu caminho[4]. O orador deve ser um homem de imaginação, de uma linguagem pronta, veemente e ruidosa; deve ser dotado em larga escala da faculdade de sintetizar os fatos e reproduzi-los com brilho. São qualidades opostas às do filósofo, cujo espírito há de ser perscrutador e analista, cujas forças mentais devem, o mais possível, aproximá-lo da realidade sem ruído e sem fulgor. Fr. Mont'Alverne, entretanto, supunha aquela junção natural e indispensável à sua gloria. O digno franciscano iludiu-se em demasia; se algum sussurro causou em torno de sua cadeira, o deveu, sem dúvida, à sua eloquência e não à segurança de seu pensamento e de sua cultura. A publicação de seu livro, no mesmo ano em que Darwin deu à luz a sua A origem das espécies, longe de aproveitar-lhe, foi-lhe grandemente prejudicial.

À vista de tal documento a figura do célebre brasileiro torna-se tão mínima que, quase, escapa-nos das mãos. Mont'Alverne morreu em 1858, aos setenta e quatro anos, mas cegou em 1836 aos cinquenta e dois. Nesta última idade já devia ter ele atingido, desde muito, o máximo grau de tenção e profundeza de seu pensar. Daí por diante só fez decair. Devêmo-lo julgar até esse tempo, e quanto ao mais, deixar o velho pregador dormir tranquilo sobre os louros de sua facúndia. O seu livro foi meditado e escrito no período indicado de progresso e entra, no quadro da análise.

Este brasileiro tem sido apregoado, em seu país, um homem de gênio. Tal juízo é simplesmente um absurdo; a ciência de hoje não admite mais esta categoria de indivíduos no velho sentido em que ligava-se àquele predicado. O gênio era uma entidade humana bastante parecida com os gênios da poesia e da fábula; desprendido da realidade e das circunstâncias exteriores, escapava a pressão do meio físico e social; era um espírito a mover-se livre num mundo à parte. Tinha o condão de maravilhar-nos de lá com as suas revelações. Estas ideias caducaram; rimo-nos hoje delas; a humanidade procede por evolução; tudo em sua marcha se acha concatenado e sujeito à lei do desdobramento. Lyell refutou a teoria revolucionária em geologia, Darwin a baniu da biologia e Comte da história.

O gênio, no velho sentido, desapareceu como uma quimera; todavia, ainda é costume assim apelidar a inteligência ultrafecunda, capaz de elevar-se acima dos prejuízos correntes e abrir uma era nova e novos destinos para a humanidade. O distinto franciscano distava imenso dessa altura; prova-o o seu desditoso Compêndio, onde ele manifesta-se escravo submisso das vulgaridades e ridicularias da filosofia de seu tempo entre nós. Digo entre nós, por já ter ela, então, na Europa produzido alguns daqueles grandes monumentos que são a glória do espírito humano neste século [XIX]. Já Kant, Hegel, Schopenhauer, para não falar de outros, na Alemanha; Hamilton na Inglaterra; Quetelet e o próprio Comte na França; Romagnosi na Itália; haviam revirado o terreno das velhas ideias em todos os sentidos, e eram acompanhados por uma plêiade brilhante de jovems escritores que vieram a ser depois os primeiros vultos dos últimos tempos.

Mont’Alverne não entreviu, não cismou, ao menos, em tais sucessos, para permanecer um discípulo subalterno de Condillac por via de seus mais ínfimos sectários: Genovesi e Ponelle!

Aí mesmo, porém, ele foi acanhado e estéril; o patrimônio recebido, ele o não aumentou de um ceitil. Esta sentença é verdadeira, e não é difícil prová-la. Depois de Lamarck, Oken, Saint-Hilaire, Broussais, Cuvier, Rostan, Lyell, em todos os mais interessantes ramos das ciências naturais, já terem praticado verdadeiros prodígios, ao lado dos grandes filósofos acima lembrados, um nome como o de Cousin, era, então, capaz de alucinar o franciscano orador! Estas palavras são suas:

"Vê-se, pois, que o meu sistema é o sensualismo; mas depois do aparecimento do idealismo, o sensualismo não se pode manter seguro nos seus domínios exclusivos. Todavia, ambos estes sistemas ofereciam erros que os seus sectários se lançavam em rosto mutuamente. Um destes gênios, nascidos para revelar os prodígios da razão humana, se levantou como um Deus, no meio do caos, em que se cruzavam, e combatiam todos os elementos filosóficos, empregando a extensão de sua vista, e sublime compreensão, reconstruiu a filosofia, apresentando as verdades, de que o espírito humano esteve sempre de posse (!!). Os sistemas exclusivos foram proscritos por Victor Cousin. O sensualismo e o idealismo, a escola de Locke e a filosofia escocesa deram-se as mãos; e a razão pura de Kant sentando-se no lugar da reflexão de Locke, ofereceu os verdadeiros elementos do espírito humano, as legítimas fontes das ideias, e resolveu os mais difíceis problemas da psicologia, que dividiam o mundo filosófico. Felizmente, para mim, a teoria das forças e da atividade da alma, das sensações, da atenção, baseando-se no elemento idealista, apartaram-me bastante da escola sensualista. Mas a teoria da reflexão e da origem das ideias oferece o lado vulnerável do sensualismo. É o que demonstrou Cousin na sua análise do Ensaio sobre o entendimento humano de Locke, e em outras obras. O sistema sublime de Cousin apenas é conhecido no Brasil, e por desgraça, seus trabalhos filosóficos ainda não estão completos, e nem impressas, ou conhecidas aqui as suas obras posteriores. Eu forcejarei entretanto por aproveitar o que ele tem feito e restaurar com ele o sistema filosófico".[5]

Virchow fala algures de pregadores que, para saudar aquilo que eles julgam uma novidade, ostentam um luxo incômodo de palavrões; se mais um exemplo fora preciso para confirmar-lhe o dito, aí estava este longo inventário das excelências de Cousin que deixei transcrito. Esta passagem foi pensada em 1833; o ecletismo nasceu e morreu sem que houvesse recebido o menor influxo de vida provindo de Mont'Alverne! A filosofia não foi restaurada por um espírito da têmpera de Jouffroy, e como sê-lo-ia pelo nosso compatriota, que ostenta-se, no pedaço acima grifado, nada mais do que um retórico de mau gosto para quem Cousin foi um gênio que se levantou como um Deus no meio do caos dos elementos filosóficos?! E tudo isto para quê? Para revelar as verdades de que o espírito humano esteve sempre de posse!

Parece uma ironia; mas o nosso orador era sério e falava convencido; o seu critério de filósofo é que era demasiado franzino. Um homem, dito de enorme inteligência, que foi testemunha dos grandes acontecimentos e mutações históricas, que assinalaram os últimos anos do século passado [XVIII] e os primeiros deste [XIX], no velho e novo mundo, vir-nos, depois da revolução de julho e da evolução do hegelianismo, dar tão frágeis provas de seu modo de julgar, nada menos foi do que aquilo por que se o tem querido passar; nada menos foi do que um filósofo.

Vir, depois, repito, de Lamarck, Bichat, Broussais, Saint-Hilaire, já nos tempos em que os trabalhos de Rostan e Lelut, sobre a patologia física e mental, os de Quetelet, sobre a física social, e os de Comte, sobre a política positiva, iam aparecendo, ostentar-se tão inanido de ideias é coisa que pouco sabe honrar. Eu não esqueço que o pretendido pensador brasileiro era um sacerdote; isto, porém, o não inibia de revelar-se mais profundo e investido de outras armas. Michelet disse uma vez de Littré que ele era um grande lexicógrafo, um notável gramático, um distinto fisiólogo, mas não um filósofo e um historiador. E o que diremos nós outros do insigne franciscano, cujas qualidades oratórias, aliás não muito fecundas, eram um empecilho para o desenvolvimento normal de suas faculdades de observação?

No seu tempo grande já era a reação contra as miragens da metafísica, como bem provam os escritos decisivos dos pensadores lembrados, e ele decorava-se ainda com o burel teológico manchado pelos remendos metafísicos dos discípulos de Condillac.

Então, a par da reação católica contra os princípios revolucionários, realíssimo era o movimento antimetafísico, mais profundo e mais significativo, ainda que menos ruidoso. Os espíritos pensantes sabiam disso, exceto Mont'Alverne, que não se alistou em nenhum dos lados dos combatentes. O recente escritor italiano Nicola Marselli no-lo diz: 

 “É verdadeiramente curioso observar que, quando se fala do movimento intelectual na França e na Itália, posterior a 1815, frequentemente se destaca a corrente que desfraldou a bandeira neocatólica ou neoguelfa em oposição ao radicalismo revolucionário, e não se tenha na devida conta uma reação antimetafísica. Esta, com menor brilho mas com mais solidez doutrinária, desenvolvendo-se paralela e surdamente, preparava a demolição de bem mais altas personagens que não fossem os ídolos terrenos da corrente católica. Quis salientar isto para mortificação daqueles que tiveram a ingenuidade de acreditar que, após 1815, o espírito europeu pudesse voltar, tivesse voltado à Idade Média, sem se aperceberem nem dos princípios revolucionários ocorridos no corpo dos novéis guelfos, nem desta reação física e positiva que, no campo dos estudos morais, manifestou-se por volta de 1830”.[6]

O que se dava na França e na Itália, passava-se também na Alemanha e na Inglaterra. Não digo que o escritor tomasse parte na reação antiteológica e antimetafísica; era muito exigir dele. Entrasse, ao menos, na pugna neocatólica, conhecedor do terreno, e manejando princípios mais seguros. Nem isto o fez; onde, pois, os seus títulos de glória?

Assim me exprimindo, pareço acreditar que o célebre orador é ainda hoje festejado como filósofo; felizmente noto que ninguém mais o lê e raros se lembram dele. Na luta pela vida o Compêndio do franciscano foi atirado à margem, se não devorado pelo esquecimento, e o pensamento nacional passou-lhe adiante.

Não devo fazer uma análise detalhada do desventurado livrinho; fora chicanar com a antigualha; basta-me indicar seu espírito dominante, suas tendências vitais. Seu autor pertence a essa geração que, jovem e robusta no tempo de D. João VI, entre nós, tomou parte nos acontecimentos da Independência, e figurou nos tempos do primeiro reinado. É um coevo de Cairu, de José Bonifácio, de São Leopoldo, de São Carlos e tantos outros que ainda não passaram pelo crisol da crítica imparcial e competente. Então o ensino filosófico era um amálgama de Storkenau e Genovesi, esses nomes desconhecidos na história do ensino público dos povos cultos! Uns restos estropiados de Locke e Condillac, reduzidos a figuras mínimas pelos discípulos e comentadores, e algumas laudas enganadoras, brilhantes pelo estilo e frágeis pela análise, de Laromiguière, tal o seu conteúdo.

Tudo isto decorado, não para perscrutar o enigma do homem e do universo; sim, para limar a argúcia e secundar a loquela. Depois, mais alguma vulgarização das obras de Maine de Biran, que não teve contraditores por não ter quem o lesse, segundo diz Taine, e de Victor Cousin, que sacrificava o pensamento por amor da frase, como no-lo declara Renan, trouxe a propensão e finalmente a queda completa para o ecletismo espiritualista francês. A esta fase pertencem Mont'Alverne e os seus continuadores: Eduardo França e Domingos de Magalhães. Tão pobre, tão insalubre foi o alimento que lhe forneceu a cultura de sua pátria, em seu tempo; tão ingratas as influências a que teve de ceder, que a crítica sente-se com impulsos de o absolver.

Abramos o Compêndio para melhor lhe apreciarmos a têmpera; não o abramos a esmo; deve ser no ponto em que o filósofo julgava-se mais seguro. Já vimos que ele supunha ter uma teoria especial sobre as forças e a atividade da alma, graças à qual apartara-se alguma coisa do sensualismo que lhe ensinaram. É onde devemos apreciá-lo.

Chamo a atenção do leitor para o estilo bárbaro, e as tergiversações de pensamento que se deparam na lauda que vou copiar. Respondendo a uma objeção contra o sistema do influxo físico de Euler sobre a união da alma com o corpo, diz-nos: 

“Esta máquina maravilhosa, à qual está unida minha alma foi feita para ela; porque é esta máquina, que põe em valor todas as suas faculdades. A grande composição da máquina não apresenta, pois, uma oposição real com a simplicidade da minha alma, porque se fosse real a oposição, como as duas substâncias poderão unir-se, e reciprocamente obrar uma sobre a outra? Eu suponho, como se vê, que a impossibilidade do influxo físico não é demonstrada, eu julgo ter boas provas para mostrá-lo; é o que passarei já a fazê-lo. A máquina só obra por seu movimento, este movimento anima todas as suas peças. Eu ignoro a natureza inteira do movimento; mas sei, em geral, que ele é uma força que se aplica ao corpo, por a qual o corpo obra. Não é, logo, a matéria da máquina o seu verdadeiro agente; é a força que a anima. Uma força física, porém, qualquer que ela seja, é em se indeterminada, e não poderia dar-se por si mesma alguma determinação particular: para que ela produza certos efeitos, convém ser aplicada a um sujeito por uma certa maneira, em uma certa ordem, segundo certas proporções, e uma certa direção. O sujeito a quem se aplica a força, que eu considero, é o cérebro; e é a sua organização, que regula as determinações particulares da força, e a faz convergir para um certo alvo. Este alvo ou este fim é excitar na alma as sensações ou percepções correspondentes às modificações da força que as faz nascer. Esta força é necessariamente um ser simples, porque a ideia que tenho desta força não pode ser decomposta em outras ideias (Este porquê é soberbo!). Eu não posso decompor esta força, assim como não posso decompor o sentimento que tenho do meu eu. A força de que se trata parece-me sempre uma, simples, imaterial. Eu ignoro profundamente (É verdade!) como esta força se aplica à maquina organizada, a que minha alma está imediatamente presente; mas eu tenho a mais perfeita certeza de que esta força aplica-se, e obra nela; e eu contemplo seus maravilhosos efeitos [...] Eu não conheço a natureza íntima da minha alma, assim como não conheço a de qualquer outro ser; mas eu tenho as melhores provas de que minha alma é um ser absolutamente simples, e dotado de uma atividade que lhe é essencial. Minha alma é, pois, uma força, e esta força é suscetível de uma multidão de modificações diversas. Ela é tão indeterminada em si, como qualquer outra força, não pode dar-se por si mesma determinações particulares, assim como não o pode a força que anima a matéria. Esta força, que constitui o meu eu, recebe, pois, suas determinações do corpo organizado, a que ela está unida, ou, para falar mais exatamente, a alma recebe estas determinações da força que anima este corpo e esta recebe as suas determinações das forças inerentes aos corpos ambientes [...] Eu estou certo que o corpo não se move por si mesmo, o movimento não decorre, pois, imediatamente da natureza própria do corpo; ele deriva, pois, de alguma coisa exterior ao corpo (!!), e se esta coisa fosse também matéria, onde encontraria eu a causa do movimento?”.[7]

Certamente tudo o que aí ficou transcrito parece muito longe de ter sido escrito por um gênio.

Através de toda aquela repetição de palavras e de consequências esdrúxulas, eis um rico espécime de filosofia híbrida, inconsistente e banal, incapaz de agradar a qualquer dos partidos que dominam hoje o campo da ciência. Não satisfaz à filosofia católica, porque, sem o querer, reduz a alma humana a uma força, como outra qualquer, exatamente qual o faria um mau discípulo do filósofo de Kraft und Stoff [8], que, ao invés do mestre, acreditasse na pluralidade das forças; não convém à ciência, porque os contrassensos ali formigam às dezenas. Faz do movimento um quid imaterial separado do corpo e a que é junto não sei por quem; anima todos os seres de forças igualmente imateriais, isto é, aviventa a natureza pelo mesmo modo por que o faria um politeísta. O franciscano mal tinha saído do período fetíchico; o céu da filosofia estava em trevas para ele; dos grandes astros, que então fulgiam, não enxergou um só; seu telescópio incendiou-se nos brilhos de Cousin. Nem, ao menos, conheceu Biran, ao que parece. O que diriam dele espíritos como um Helmholtz, um Trémaux, sectários convencidos e vitoriosos do dinamismo universal?
O filósofo ingênuamente lastima não conhecer a realidade em si, das Ding an sich, segundo a expressão de Kant.

Sua doutrina das forças lembra certa época da história da ciência em que todos os fenômenos inexplicáveis eram oriundos de forças. “Cada um dos fenômenos cósmicos era, em falta de coisa melhor, atribuído a uma força, palavra vaga, que se liga tanto à escolástica, quanto à mecânica, e que ocultavam no fundo a ignorância dos físicos sobre as causas reais dos fatos que observavam. O peso, o calórico, a eletricidade, etc., eram outras tantas forças. Quando havia embaraço para explicar um fenômeno, inventava-se uma nova força: força de contato, força de presença, força catalítica e não sei quantas mais”[9].

Mont'Alverne curvou-se submisso a este expediente cediço e inaproveitável. Vejamos um outro.

II

O Dr. Eduardo Ferreira França publicou em 1854, na Bahia, dois volumes sobre psicologia[10]. O digno médico foi também um discípulo do sensualismo francês dos primeiros anos deste século [XIX], e passou-se para aquela reação espiritualista, superficial e palavrosa, inaugurada pelo professor, mais parlante que profundo, Royer-Collard e continuada por Cousin e seus discípulos.

Não creio que seja mister uma discussão preliminar sobre essa fase passageira da história da filosofia para bem compreender-se o espírito do trabalho do escritor baiano. Basta lembrar que o tempo da Restauração em França foi o período das efusões e desvarios do romantismo. Já sepultada na Alemanha com Schiller, Goethe, Wieland, cujas obras já eram clássicas, a romântica em França de 1815 até muito depois de 1830 trouxe o país mergulhado em sonhos. Era a reação; mas a reação mórbida, a reação pelo passado, pela Idade Média, com todos os seus encantos factícios, com todos os seus erros perigosos. Era o anacronismo buscando ser uma lei da história; era a tentativa de um desmentido à evolução lógica dos acontecimentos humanos. Compreende-se a multidão de preconceitos desenterrados e revestidos pela línguagem brilhante dos sonhadores. A luz espalhada pela Enciclopédia, apesar de fraca, incomodava, e era preciso a pagá-la; o brilho de Cabanis, apesar de um pouco embaçado, causava receios, e era mister ofuscá-lo. Daí a glorificação do passado em ódio ao presente, o entusiasmo pela Idade Média em prejuízo da Revolução. A filosofia não havia de deixar de seguir o impulso que levavam a religião e a arte. E como tinha de fazê-lo? Restaurando o espiritualismo a título de verdade de todos os tempos firmada no senso comum; fazendo um apelo à história e pretendendo descobrir a verdade sempre de posse do espírito humano e apenas ofuscada pelo exclusivismo dos sistemas. E este o sentido do ecletismo, que, por sua vez, já pertence à história. Hoje é possível julgá-lo com segurança. Foi uma filosofia incoerente e pretensiosa, inimiga da observação e da experiência, uma sortida no campo do absoluto, divinizando o homem por meio da razão impessoal. Entretanto, a filosofia que tem por dogma a relatividade de todas as coisas, mudando de método e reforçando os seus princípios, continuava surdamente a acumular os achados e a fortalecer a verdade.

Obcecados pelo ruído das frases, e pelos aplausos das turbas, os hasteadores da nova bandeira, os partidários da escolástica ressuscitada, nem deram por ela. É assim que se explica o fenômeno de um homem como Victor Cousin publicar uma dezena de livros em que nos fala da verdade eterna, mas onde parece que só ele e sua gente existiam no mundo filosófico de seu tempo, e onde não se vê passar, nem de longe, a sombra de alguns dos grandes vultos que lhe cresceram ao lado, e acabaram por ofuscá-lo. Além da escola não havia ciência; o Dr. Eduardo França filiou-se a ela, renegando a outra. Diz-nos em seu Prefácio:

 “Imbuído nas ideias da escola, chamada sensualista, entusiasta de Destut de Tracy, aponto tal que só procurava conhecer e estudar os obras dos sábios, a que ele dava preferência, tornei-me um discípulo do materialismo, e estava convencido de que ainda havia além da matéria, e que o espírito era uma simples função de um órgão. Li e reli muitas vezes as obras do filósofo célebre que me serviu de mestre; só sentia prazer em ler obras, cuja doutrina se assemelhava à sua, e as outras me desgostavam e pouca atenção me mereciam. Tendo, porém, de abandonar esses estudos para me entregar àquele, que tinha por fim dar-me a profissão de médico, deixando de ler os filósofos, não deixei de pensar sobre o objeto de que se ocupavam. Materialista, encontrava em mim um vazio, andava inquieto, aflito até; comecei então a refletir, e minhas reflexões me fizeram duvidar de muitas coisas que tinha como verdades demonstradas, e pouco a pouco fui conhecendo que não éramos só matéria, mas que éramos principalmente uma coisa muito diferente dela. Procurava nas minhas reflexões examinar o que eu era na realidade, observava que muitos fenômenos não eram explicáveis pela única existência da matéria; e assim progressivamente fui examinando as minhas opiniões, até que, passados alguns anos, e tornando ao estudo dos filósofos, fui lendo aqueles, que ao princípio me haviam desgostado, e encontrei um prazer indefinível, e o profundo Maine de Biran contribuiu especialmente para esclarecer a minha inteligência”.[11]

 Este pedaço é um eco rouco e débil da célebre confissão de Jouffroy, distanciado enormemente da página fulgurante do romântico francês pelas agruras de um estilo incorreto. Raro foi, até certa época, o eclético que se não julgou obrigado a abrir os recessos da alma para fazer-nos revelações de lutas e descrenças, que, graças à sua filosofia, acabaram por apaziguar-se.

Este espetáculo, pouco edificante, era um filho da fé, que procurava salvaguardar-se; uma filosofia, pouco segura, firmada em frases e transações, dava lugar a essas queixas de confessionário. A ciência era para ela uma questão de sentimento; devia respeitar os prejuízos da educação. Jouffroy, é verdade, diz que perdera os seus, mas que segurou suas convicções religiosas ao influxo de seus achados de psicólogo. A ninguém é hoje dado mais enganar-se com sua confissão, depois que a crítica mostrou que aquilo não passou de um achaque romântico, como tantos outros da época.

Eduardo França andava inquieto, aflito até… depois o profundo Maine de Biran, que começou estoico e acabou místico, apaziguou-lhe o espírito! Deixou Destut deTracy por este último. Parece que o digno baiano não leu a obra de Taine, que apesar de ter conhecimento exato de quanto escreveram os ecléticos, continuou a ser condillacista; o nobre médico não leu Os filósofos clássicos da França no século XIX. De outro modo, teria notado a figura mínima de Maine de Biran, que só distinguia-se por sua obscuridade, ainda mais realçada pelo abuso de expressões bárbaras e enigmáticas, que o tornam de uma leitura escabrosa e fatigante. França herdou-lhe esta reuma. Só para significar uns dois ou três fatos, mui simples, da psicologia, dá-nos este dicionário abundante: motilidade, motividade, locabilidade, modificabilidade, efetividade, afetividade, receptividade... e quejandas descobertas em ade. A obra do insigne médico bem indica que teve ele por mestre o festejado metafísico francês, o primeiro de seu tempo, como o chamou Cousin, juízo, que, por certo, não é dos mais apropriados para elevar um pensador. Todavia, aquele livro é muito mais digno de ler-se do que o de Mont'Alverne, e até o do Sr. Gonçalves de Magalhães; encerra uma boa porção de fatos e experiências, bebidos nas obras de escritores de medicina, de incontestável valor. O espírito que o anima é uma combinação binária: ideias dos ecléticos franceses, máxime de Ad. Garnier, e de fisiologistas dessa escola dúbia que pretende harmonizar o espiritualismo com as exigências da biologia, sobretudo de Longet. O seu autor é um trânsfuga do velho sensualismo metafísico que, cumpre notar, dista imenso da filosofia monística, do realismo científico dos nossos dias.

Apreciemos o seu trabalho no ponto em que o escritor se quer mostrar um pouco original, no capítulo em que trata da locabilidade. Para ele é esta uma faculdade pela qual conhecemos o nosso próprio corpo. O filósofo reduz o homem a uma alma recôndita, remota, a tal ponto distinta do corpo, que este correria o perigo de confundir-se com um outro corpo qualquer, se aquela não tivesse uma faculdade especial que o vem salvar de um completo esquecimento. É o requinte da espiritualidade!

Os psicólogos exibem, às vezes, argumentos verdadeiramente irrisórios. Dizem, por exemplo, que nós distinguimo-nos de nosso próprio corpo, porque cada um de nós diz: meu corpo, e não se confunde, pois, com ele!!

Este fato, vulgaríssimo, é um resultado do hábito, que, igualmente, nos permite dizer no mesmo rigor: minha opinião, minha ideia, meu pensamento, minha alma... É uma ingenuidade lançar mão de recursos tão ínfimos. Mas vejamos os motivos em que se estriba o filósofo para estabelecer a sua faculdade:

“Para conhecermos distinguindo-a da percepção exterior, para conhecermos que temos um corpo próprio, não precisamos da ação dos sentidos: privados de todos os sentidos exteriores, ainda saberíamos que temos um corpo, e que existe além do eu, um não eu”.[12]

Eis aí; o médico filósofo considera o seu corpo coisa tão externa a si mesmo que fantasia um poder especial de sua alma para descobri-lo, por uma espécie de favor. É um triste resultado do velho dualismo estabelecido no homem. A intuição de hoje repele esta anomalia. O conhecimento de nós mesmos, o sentimento de nossa própria individualidade, existindo separada do mundo exterior, isto é, sem confundir-se com ele, não é um dado de uma potência especial do espírito, que não passa de uma hipótese; é uma consequência do jogo mútuo de todas as nossas faculdades, é uma condição, direi até, do exercício normal de todos os nossos órgãos. Outra coisa não é a vida. A ideia da personalidade, a noção adiantada da pessoa, é um dado posterior da ciência do direito, ou da prática do mundo; a ideia de corpo é também um achado de uma ciência respectiva, ou da experiência de todos os dias. No sentimento puro e primordial de nós mesmos não entram estas distinções, feitas a bem de certas teorias; ele é uma afirmação da individualidade no seu todo indistinto, que vem a ser o nosso corpo com todas as suas funções, entre as quais a mais eminente é a de pensar e conhecer-se[13]. Se é certo, como dizem alguns, que podemos perder um braço ou uma perna e continuar a ser nós mesmos, não o é menos que podemos perder uma ou mais ideias e até o uso de uma faculdade, continuando a ser nós mesmos. Onde a diferença? O argumento do psicólogo é lastimável. Sem os sentidos externos, diz-nos, ainda saberíamos que temos um corpo. E admirável! Eu não sei a que ficaria reduzido intelectualmente um homem a quem faltassem, desde a origem, todos os sentidos externos; é esta uma hipótese que não deve ser concebida. Admitindo, porém, a extravagância do baiano, é muito dubitável que o seu homem, sem sentidos, pudesse conceber a noção de um corpo e ter o conhecimento do seu próprio. Concedendo-lhe também este último requisito, ainda assim o seu argumento nada prova contra a percepção exterior. Porquanto, se é certo, como ele supõe, que, privados dos sentidos externos, saberíamos que temos um corpo, não deixa de ser verdade que, se fosse possível sermos privados dos interiores, conservando os outros, teríamos igual conhecimento: “Com os sentidos externos só conheceríamos as partes externas do corpo, as internas seriam para todo o sempre ignoradas”[14]. A consequência que tira o filósofo é um pouco exorbitante. Sim; pelos sentidos externos conhecemos somente o exterior de nosso corpo, porém como nosso próprio e não como estranho, e já isto é suficiente para o nosso desideratum. E, depois, o conhecimento de nossos órgãos interiores não nos é fornecido pelo seu próprio jogo, que nos é, na maioria dos casos, inconsciente, e sim pelas revelações de uma ciência peculiar, ou pela prática da vida. As funções do meu pulmão, de meu coração... são-me desconhecidas pela consciência, e só lhes sei da existência, ou porque no meio social ouvi descrições a seu respeito, ou porque as li nos livros de medicina. O Dr. França devia ser mais ponderado para não mostrar-se tão iludido. Ouçamo-lo ainda:

“A localização externa, aquela que se faz em alguma parte da extensão exterior de nosso corpo, aquela que indica a situação respectiva de cada uma destas partes, é essa a que requer a ação dos sentidos exteriores, e nosso corpo seria assim conhecido e definido, como qualquer outro corpo exterior, sem termos ciência de que é nosso”.[15]

O médico baiano começa o seu estudo sobre a locabilidade pretendendo separá-la de todas as outras potências do espírito, e estabelecê-la como um poder independente. Agora já nos vem dividir a localização em interna e externa, esta pertencente à percepção exterior, e a outra à consciência!

Não desejo emaranhar o leitor nas vacilações e inconsequências do psicólogo; apreciemos a força de suas palavras transcritas: “nosso corpo seria conhecido como qualquer outro corpo externo, sem ciência de que é nosso”. É falso.

Por ocasião de qualquer sensação externa localizada, temos conhecimento de nosso corpo como próprio e seria impossível que assim não fosse, quando é nele e por ele que sentimos. Essa localização, que o escritor denomina interna, e que diz ser da consciência, o é muito menos do que a externa, e é muito menos capaz de fazer-nos conhecer o nosso corpo do que esta, porque, em última análise, sendo ambas resultado de sensações que sentimos como nossas próprias, e em nosso próprio corpo, o jogo dos órgãos internos é, em sua quase totalidade, inconsciente, como já o disse. Como, pois, pretender que a interna é capaz de excitar em nós tal conhecimento e a outra não? Qual a razão disto? Não a vejo. As sensações, sob o domínio da consciência, têm um igual valor no organismo são, e, se alguma diferença deve aqui ser feita, há de provir em desfavor da opinião do nosso autor. Decerto, feito o balanço, as localizações internas são menos aptas para fornecer o conhecimento de que tratamos do que as outras, visto que a sua energia é mais vaga e quase indistinta.

Eduardo França esqueceu-se um pouco de sua fisiologia; Küs vem demonstrá-lo. Depois de dividir as sensações gerais em localizadas e não localizadas, diz-nos o distinto professor de Estrasburgo:

“As sensações gerais não localizadas (sentimentos ou sensações internas) são bem interessantes para o estudo de um médico: uma das mais curiosas do ponto de vista de suas manifestações patológicas é o sentimento de nossa existência; esta sensação em geral passa desapercebida pois ela é habitual e constante; pela mesma razão que o moleiro não percebe normalmente o ruído de seu moinho”.[16]

O sentimento, pois, de nossa própria existência, aos olhos da fisiologia, é uma sensação geral não localizada, veja-se bem, e nós sentimo-nos viver como corpo. A espiritualidade é uma abstração, oriunda de um ensino tradicional, que se não firma nos fatos. Ela vai ficando decrépita e esquecida; caro fossilis, na frase dos naturalistas.

A bem pouco se reduz, diante do fisiólogo notável que ficou citado, a localização interna tão preconizada pelo professor da Faculdade de Medicina da Bahia. As sensações internas, em geral, não são localizadas. O nosso autor entende que a sua faculdade deve executar o seu ofício total interna e externamente. Ora, percebe-se que ela é impotente para o que foi criada, porque só nos revela o conhecimento das partes internas do corpo em raríssimos casos, e sobre as externas deixa o campo livre à percepção. Vê-se, afinal, que para bater o pretendido pensador baiano é bastante tomar assento no seio de sua própria escola, sem ser preciso pedir as armas a uma ordem superior das ideias em nossos dias.

III

Os Fatos do espírito humano do Sr. Domingos José Gonçalves de Magalhães apareceram em Paris em 1858[17]; o autor, hoje titular, é um poeta de algum merecimento; como filósofo só tem esta obra de valor não muito avultado[18]. O poeta entrelaça aos voos, um pouco amortecidos, de sua imaginação tiradas de sua metafísica; o filósofo exibe-nos provas de uma poesia rançosa nas páginas do seu livro[19]. Na história dos dois domínios intelectuais em que se exercitou não há de fazer uma figura muito eminente, como à mania patriótica tem querido parecer. O Sr. Magalhães é um romântico e um espiritualista católico. Dotado de pouco vigor de imaginação, não tem brilhos de estilo; pouco profundo, não devassou seriamente nenhum dos segredos da ciência. Seu melhor livro de poesias é de 1836; ele balbuciava então, as primeiras palavras de um sistema literário já decadente, e cujos corifeus já eram vultos da história.

Quando apareceu, como filósofo, era coisa para surpreender a todos, que o supunham alheio às especulações sérias, e que deviam ter notado a sua incompetência para as graves questões.

Em todo o caso, ele é sempre um anacronismo e um dos fatores de nossa pequenez intelectual. Foi sempre um homem de meias medidas: meio clássico e meio teólogo, com pretensões a espírito moderno. Hoje segue a diplomacia, esta ciência do que há de mais anticientífico: as cavilações.

Os Fatos do espírito humano, com ares de um quadro da filosofia de seu tempo, são uma veleidade. O autor, que, desde muito, vivia na Europa, devendo estar em dia com a ciência de então, e afirmando estar, afigura-se-nos ali muito débil. Seu livro é uma cantilena declamatória onde não se depara com o método científico nem com a segurança e elevação das ideias.

Como é que o Visconde de Araguaia — há tão pouco tempo! —, com a pretensão de aventurar-se em novas teorias, “tratando de todas as grandes questões da filosofia; expondo os sistemas mais acreditados e aceitos; refutando os que lhe pareciam contrários aos fatos e procurando, por um modo diverso do que o fizeram outros, resolver com a maior clareza que lhe foi possível algumas dificuldades”[20], mostra-se tão enormemente atrás dos grandes pensadores então já vulgarizados?!

Se a lei suprema porque deve a história julgar dos homens e escritores, é aferi-los pelo grau de desenvolvimento da época em que floresceram, claro é que o Sr. Magalhães não sai engrandecido da operação da crítica. Não passa de um discípulo de Mont'Alverne desenvolvido por Cousin. Diz ele que ouviu a Th. Jouffroy em Paris; não parece... Quanto dista do pensamento profundo e do estilo sóbrio do insigne eclético! É um escritor vulgar, sem elevação de ideias, sem firmeza de doutrina, sem finezas de análise, sem habilidade na forma. Gira num círculo de raio tão curto, a ponto de não ter enxergado os grandes astros que hão ilustrado o nosso século. Todos os nobres espíritos que esclareceram com sua luz a Alemanha, a Inglaterra, a Itália e a França em nosso tempo, e que em 1858 os rapazes inteligentes dos colégios já conheciam, o Sr. de Araguaia os não refere, e, todavia, vem dizer-nos que expõe as teorias mais acreditadas e segue a filosofia que mais exalta o espírito humano!!

Como todo o romântico desconsolado e impertinente, ele insulta o nosso século; mas é porque o não compreende. Já é tão cediça e inaproveitável certa maneira de insurgir-se contra o seu tempo que até um escritor de mínima estatura deve fugir de repeti-la: é desse apelo para o materialismo industrial, e outras momices da espécie que falo. O nosso autor a emprega como quem está às voltas com uma novidade. Publica o seu livro, que trata de verdades morais, porque “não falta quem cure dos interesses materiais; quem com escritos os aconselhe, com discursos os apregoe, com obras os promova, com vantagens e lucros excite a cobiça a procurá-los, e não será ele de mais no meio de tanto materialismo industrial!”[21].

Vê-se, por esta passagem sermonática, que o Sr. Magalhães, como todos os pequenos poetas, é pouco escrupuloso em repetir as antigualhas desprestigiadas.

O hegeliano Vera, sem dar-se aliás por grande escritor, para fugir à vulgaridade, cai no extremo oposto também criticável: “não quero ser o censor de meu tempo, porque eu também sou de meu tempo”, disse ele. A escolher entre os dois extremos, antes este último, com todos os seus prejuízos, do que a choraminga banal dos companheiros do Sr. de Araguaia. Fazem estes uma impressão ainda mais incômoda do que a dos otimistas estólidos que nos andam, a cada instante, a falar nas maravilhas da época. Por falar ocasionalmente no professor de Nápoles, ele vem a propósito para medirmos por ele o nosso filósofo.

Este é um eclético ferrenho, como Vera é um hegeliano fanático; entretanto, que distância não vai entre a vasta coleção de obras do espirituoso italiano e o livro magro do pesado brasileiro? O napolitano abre francamente luta com os mais notáveis pensadores que são adversos ao seu sistema. Schopenhauer, von Hartmann, Strauss, Darwin, entre tantos outros, sofreram-lhe os golpes; e, se as suas razões quase sempre não são das mais nutridas, o ridículo que joga aos contrários é sempre bem aproveitado. No brasileiro há ainda mais fraqueza científica, e, de todo, anda ausente o espírito.

Tenho pressa em desvendar a sua pobre exposição da sensibilidade, o que ele chama de teoria nova. O seu livro começa por uns capítulos onde o autor trata de generalidades da filosofia, como ele a entende, e discute, inspirado em Cousin e depois dele, os sistemas de Locke e de Condillac. Recuando até ao capítulo VIII, seja-me dado estudá-lo aí. É onde se acha a sua nova teoria da sensibilidade; os novos achados de nosso autor são muito interessantes. Consistem nisto: ele é um duodinamista, como tantos outros; admite duas entidades imateriais no homem, a alma com o pensamento e a vontade, e a força vital, que se encarrega da vida, e a que ele atribui a faculdade de sentir. Nesse último ponto é que supõe-se original; todos os mais assertos seus confessa implicitamente que são velhos na história da filosofia. Não é muita coisa, e, se soubermos que Ahrens, no seu Curso de psicologia publicado em 1835, já emitira aquela doutrina, a pretendida novidade se reduz a nada. Tal foi; Ahrens admitia que o corpo tem como sua a sensibilidade, além de certo conhecimento que lhe é próprio e para o qual o espírito nada contribuiu. Ao corpo por se pertencem, segundo o célebre publicista hanoveriano, a sensibilidade e a imaginação, “distinta do eu, a qual pode crescer no cérebro, e o espírito perceber objetos que ele não produziu, ou para os quais cooperou fracamente”.

O Sr. Magalhães não contesta o papel importantíssimo dos nervos e do cérebro na produção das sensações; mas para ele estes órgãos são instrumentos de um princípio superior. Qual é este? A alma, respondem os espiritualistas em coro. É a força vital, responde o filósofo-poeta, folheando as páginas do livro esquecido de Ahrens. De todos os obstruidores do terreno da ciência são os mais perigosos sectários, como o nosso autor, dessa tríade no homem: um corpo, uma força vital e um espírito. O corpo alimenta-se, a força vital vive, e a alma pensa e quer. É o requinte do regime teleológico ou dualístico no homem e no universo.

O nosso compatrício, inclinado ao idealismo e ao misticismo, como veremos, julga que é muito grosseiro e mundano a alma sentir, como já foi-lhe por alguém ponderado, e atira esse pesado encargo para o seu companheiro terrestre — o princípio vital.

O vitalismo é uma doutrina bifronte e incômoda; o animismo é mais lógico; ambos desaparecem confusos diante da concepção de Rostan[22]. O autor dos Suspiros poéticos, que, apesar de médico, dá mostras de não conhecer este distinto colega, é bastante teólogo; meio politeísta, delicia-se em admitir as entidades. Não acredita na unidade absoluta da força e da matéria. Nem, ao menos, é do número daqueles, que julgam-se forçados a abandonar a entidade teológica alma, como se exprime Herzen, e contentam-se com a outra, espécie de soberana imaterial, que preside aos fenômenos vitais[23]. Não, ele só está satisfeito com ambas. É teólogo e também metafísico. Não entra no plano deste trabalho o estudo do que seja a vida; não temos, pois, que apreciar o quanto é inadmissível a concepção de Barthez e Lordat, tão plenamente admitida pelo poeta dos Cantos fúnebres. Fugindo ao prazer que dar-me-ia a análise das ideias de L. Rostan, aceitáveis com algumas reduções, e, sobretudo a oportunidade de combater a invectiva de Littré contra os que consagram a doutrina de que a vida é uma transformação das leis físico-químicas[24], concedamos ao escritor brasileiro a existência de um princípio vital, distinto e independente do corpo e da alma e vejamos os motivos por que lhe atribui o privilégio da sensibilidade. O digno filósofo em 1858, como certamente ainda hoje [ver a nota 18], estava no ponto de vista de Jouffroy em 1830, quando escreveu a memória sobre a Legitimidade da separação entre psicologia e fisiologia.

O autor, apriorista, não sente-se muito obrigado a provar as suas asserções; eis a segurança com que estabelece a premissa de sua argumentação:

 “A existência de uma força imaterial que organiza o corpo é tão incontestável como a existência de um espírito que pensa, e que não tem consciência de ser ele quem organizou o seu corpo, e quem opera no interior dos órgãos dele”.[25]

 O obscuro pelo mais obscuro... A existência na Terra de um diplomata da Lua é tão incontestável como o é no interior de nosso globo a existência do inferno, que não tem consciência de ser ele quem ergueu-lhe na superfície as montanhas!

Enfim, concedido: existe o que o filósofo quer. Ouçamo-lo ainda: “A sensibilidade está na força vital. É essa força que se modifica e produz a sensação que se apresenta à nossa alma”[26]. Esta proposição era uma grande novidade; cumpria ao pensador prová-la, e por que não fazê-lo, quando,“infelizmente em favor do que digo não posso citar a opinião de nenhum filósofo antigo ou moderno; todos de comum acordo atribuem à alma a sensibilidade”?[27] Ele pretende justificar a sua descoberta, e devemos apreciar, um a um, a força de seus argumentos: 

 “Se a sensibilidade estivesse na alma inteligente e livre, de cada vez que ela se lembrasse de uma sensação a sentiria de novo, como de cada vez que se lembra de uma concepção a concebe de novo; mas se lembra de uma dor, ou de um cheiro, ela não os sente de novo; e quando se lembra de uma cor, não a vê, e só a representa em um objeto qualquer percebido por ela”.[28]

 Já foi ao filósofo demonstrado, por um dos seus críticos, que este argumento é futilíssimo, nada vale. Prova de mais, porquanto a prevalecer o seu dito, fora mister despojar também a alma humana da vontade! Decerto, quando nos lembramos de uma volição passada, a não queremos de novo.

Mas isto não basta; preciso é dizer ainda, ao autor de Olgiato por que é que, ao lembrar-nos de uma concepção, a concebemos de novo, e o mesmo se não dá com a sensação. Não é necessário pedir auxílio a uma ordem científica superior para fazê-lo. Pois não viu o filósofo que, sendo, segundo ensina a sua própria escola, a memória uma faculdade intelectual, uma vez que evoca fenômenos do entendimento, está dentro do círculo a que pertence, e aquilo que reproduz aparece em seu caráter primitivo? 

Por outros termos, quando a memória se exerce, em tal caso, é sobre fatos pertencentes à ordem intelectual, e estes se apresentam como são, isto é, como ideias. Outro tanto não se dá quando se exerce sobre fatos que pertenceram à sensibilidade ou à vontade. Neste caso, ela ressuscita só aquilo que é de sua alçada, a ideia da sensação ou da volição, e não estas em se mesmas. O Sr. Magalhães queria que ela fosse adiante e ressuscitasse os próprios fenômenos de uma esfera estranha, isto é, queria que nós todos fôssemos uns alucinados! A razão fisiológica do que acabo de referir o nobre poeta devia conhecer. Devia saber que nos fenômenos da memória não se agitam as partes do cérebro onde trabalham a sensibilidade e a vontade. 

Só a fraqueza deste primeiro argumento do nosso escritor dispensava-nos de ir adiante. É, porém, necessário prosseguir e examinar os outros motivos que alega. 

“O engano dos filósofos, que fazem da passividade de sentir uma faculdade da alma humana inteligente, provém de que a alma parece ter consciência das sensações e imediatamente senti-las. Mas a consciência de uma sensação nada mais é do que a consciência da percepção de alguma coisa acompanhada de sensação”.[29] 

O Sr. Magalhães é médico e eu não quero dizer que ele se enganou. Não pretendo defender os direitos da alma humana; no terreno da fisiologia, porém, contesto que não haja consciência das sensações, e sim somente das percepções que as acompanham.

Existem sensações perfeitamente conhecidas pela consciência, que não lhe trazem a percepção de coisa alguma; a sensação de dor, por exemplo, na maioria dos casos.

O digno médico deve conhecer o estado, que os fisiologistas denominam hipocondria, no qual até as sensações gerais não localizadas tornam-se patentes à consciência, sem todavia, trazerem a percepção de objeto algum.

Mas nem é preciso recorrer a um estado patológico para patentear o engano dos Fatos do espírito humano.

Basta recordar que a sensação especial de cheiro, em muitos casos, não nos refere a percepção de um objeto. Podemos sentir o aroma de uma flor sem que a vejamos e saibamos qual ela seja. A percepção é que nunca se dá sem a sensação, que se pode executar sem aquela.

Até em casos mórbidos a percepção vem acompanhada de seu inseparável apêndice. Nas alucinações dá-se a percepção sem objeto exterior, mas sempre seguida de sensações, quaisquer que elas sejam. São até estas as falsas sensações que originam as falsas percepções, ou alucinações psicossensórias. A que reduz-se, à vista disto, a argumentação do Sr. Magalhães? Ele nada provou, 1imitando-se a afirmar gratuitamente. Repitamos-lhe que as sensações, até pelo órgão da ciência livre, são declaradas ato da consciência, ainda que esta última tenha sido, até agora, inexplicável em sua intimidade.

É um Resultado da irritação do tecido nervoso; é quanto se pode afirmar. Diz Huxley: 

“Nós podemos classificar as sensações, as emoções, as volições e os pensamentos na categoria dos estados de consciência. O que vem a ser a consciência de um ato que se passa em nós, ignoramo-lo. Como acontece que um fenômeno tão notável, qual a aparição da consciência dos atos se mostre como o resultado da irritação do tecido nervoso, nós não podemos conhecer, nem mais nem menos do que a aparição dos Djins quando Aladim sopra a sua lâmpada. E, depois, todos os fatos últimos da natureza acham-se no mesmo caso”.[30] 

É esta a verdade das coisas, é este o respeito da ciência, quando manejada por espíritos da têmpera do insigne naturalista-filósofo.

O Sr. Magalhães, mil graus abaixo do ilustre experimentador, recusa à consciência o conhecimento da sensação, sem dar, para tanto, prova séria.

Custa-me até a compreender como lhe pôde entrar no pensamento a possibilidade de ter-se a consciência de uma percepção sem, ao mesmo tempo, haver a da sensação que a origina. Seria bom que o filósofo fosse mais explícito neste ponto.

Depois de acabar o capítulo VIII de seu livro, como o tinha começado, por uma série de banalidades, o autor passa ao capítulo IX, onde exibe o seu mais famoso argumento. As ninharias com que abriu aquele capítulo são umas inoportunidades sobre a ordem dos sentidos exteriores no tocante ao auxílio que eles prestam à inteligência; as com que o fecha são umas objeções que, finge, se lhe farão, e às quais responde antecipadamente.

A principal consiste nuns considerandos sobre uma experiência de Flourens.

O autor simula que alguém lhe diga: os belos achados do naturalista francês, que tanto apreciais, achados com que provou que se a um animal tirarem-se os dois lóbulos cerebrais, ele perde todos os sentidos, deixa de ver e de ouvir; perde todos os instintos; não sabe mais defender-se, nem abrigar-se, nem fugir, nem comer; perde enfim toda a inteligência, toda a percepção, toda a volição, toda a ação espontânea; estas belas experiências vos são contrárias, porque requerem também para o animal uma inteligência além da faculdade de sentir, uma percepção, uma livre vontade e consciência, e, portanto, uma alma, que se serve do cérebro, como instrumento[31].

É esta a objeção a que tem de responder.

Parece que estamos assistindo a um dos saraus filosóficos, que tinham lugar no Rio de Janeiro no tempo da mocidade de nosso autor, e que são por ele tão elogiados na sua biografia de Mont'Alverne[32]. Ali o velho franciscano fazia proezas e o poeta da Urânia, ainda em embrião, discutia se os animais têm alma! Belos tempos de nossa ignorância em que o palavreado tanto nos preocupava!

Infelizmente ainda hoje não andamos melhor avisados, e o tão encomiado pensador se nos revela tal qual foi e será sempre.

O filósofo sofisticou; pressentiu que a fisiologia cerebral lhe é adversa, e, para quebrar o valor da oposição, pejou-a de consequências, aos olhos de sua gente, absurdas, para sair-se assim vitorioso. Ninguém, a não ser algum desassisado, iria das experiências de Flourens concluir que o animal tem liberdade e alma, quando, em todo o caso, no próprio homem são ambas, liberdade e alma, questão aberta, e a ciência não parece muito disposta a reconhecê-las. Não é tal a conclusão que se deve tirar daquelas premissas para ir-se ao encontro do Sr. Magalhães.

Basta concluir que os animais, sem alma, têm uma inteligência, como têm uma sensibilidade, coisa que ninguém, a não ser o poeta fluminense, atreve-se mais hoje a contestar; basta, sobretudo, concluir que do cérebro depende a sensibilidade, como dele depende a inteligência.

O Sr. Magalhães fantasiou argumentar com algum pobretão de ideias para melhor levar-lhe vantagem. Ora essa, Sr. Visconde!

Veja bem o autor de Antônio José: a questão hodierna, já decidida, sobre os animais não é se eles têm, ou não alma, e sim em que grau têm inteligência e quanto, e como, distam do homem. Para o insigne e inestimável Haeckel os animais superiores têm todas as propriedades, que nós outros nos obstinamos a chamar espirituais, por consagração da língua, propriedades que só diferem das do homem quantitativamente e não qualitativamente[33].

O nobre visconde é bastante atilado para conhecer a diferença dos dois pontos de vista.
Prossigamos.

Nas primeiras páginas do capítulo IX os Fatos do espírito humano encerram o seu mais vigoroso argumento. Aquiles vai sair a campo. Ei-lo:

“Para que uma coisa se distinga de outra é necessário que ela não seja a coisa mesma da qual se quer distinguir. Nada se distingue de se mesmo, senão daquilo que não é ele”.[34]

É esta a proposição erigida pelo filósofo em princípio geral, e que serve de maior ao seu arrazoado:

“Ora, se o eu fosse sensível e recebesse a sensação como uma afecção, ou modificação sua, ele não se distinguiria dela, ele seria a sensação mesma, como bem disse Condillac; não teria por conseguinte percepção alguma; e mil sensações diversas que nele se sucedessem iriam passando, e ele, modificando-se de sensação em sensação, seria sempre a última, sem distinguir-se de nenhuma”.[35]

Tudo isto não se dá; o eu se distingue das sensações, logo elas lhe não pertencem. A tanto queria chegar o argumentador in barbara.

Eis um resultado esdrúxulo da metafísica; o motivo de tais e tão crassos enganos é a apriorística noção de causa que tem o nosso pretendido grande autor.

Diz que nós não nos distinguimos de nossas afecções; que uma nossa ideia somos nós mesmos pensando; uma nossa volição somos nós mesmos querendo...

Certamente não nos podemos distinguir de nossas afecções, se por distinguir entender-se, como o quer o Sr. Magalhães, separar-se no todo, formando existências e substâncias à parte.

Esta, porém, não é a verdade das coisas; abstratas, e até concretamente, eu me distingo de minhas ideias e volições, como me distingo de minhas sensações. Sim; minha intuição do mundo e da realidade admite perfeitamente que eu me distinga, por exemplo, da ideia que formo do Aimbire do Sr. Magalhães. Tanto é isto verdade que, desaparecida a ideia, eu ainda persisto tão integralmente como dantes.

Não se compreende por que o nobre autor abre uma exceção em desfavor das sensações; destas o eu se distingue; do mais não, segundo ele. Por quê? A resposta não é capaz de tranquilizar a qualquer. O eu, espécie de entidade metafísica, se distingue das sensações, porque as objetiva, diz o brasileiro!

Ora, outro tanto não se dará com a volição e a ideia?! Será certo que estas também se não objetivam? A ideia que forma o nosso diplomata do seu vulto de gigante, que “entre os seus marechais ordens ditava”, não estará objetivada? A ideia coxa que, como poeta, fantasiou do vencido de Waterloo não o terá sido nunca? A vontade que tenho de que o Sr. Magalhães reforme sua doutrina não o estará também?

O filósofo devia ter sido um pouco mais seguro.

Neste declive da espiritualidade ele vai direto ao misticismo, e nos últimos capítulos de seu livro assegura-nos que não temos certeza da existência real do universo, e que pensamos nele, porque é um pensamento de Deus, que no-lo comunica, com a mesma arte e pela mesma forma por que o magnetizado percebe as ideias que vão pela mente do magnetizador!

Esta recente transformação da visão em Deus do padre Malebranche, acho-a tão mirrada que a não julgo digna de um exame.
Vamos adiante.

IV

Na história do desenvolvimento espiritual no Brasil há uma lacuna a considerar: a falta de seriação nas ideias, a ausência de uma genética. Por outros termos: entre nós um autor não procede de outro; um sistema não é uma consequência de algum que o precedeu.

É uma verdade afirmar que não temos tradições intelectuais no rigoroso sentido. Na história espiritual das nações cultas cada fenômeno de hoje é um último elo de uma cadeia; a evolução é uma lei: seja a Alemanha o exemplo.

Na história da música Gluck, Haydn, Mozart, Beethoven sucedem-se por necessidade do desenvolvimento da arte; um é a continuação progressiva do outro. Na evolução filosófica Kant dá Fichte; este dá Schelling, e, por uma razão imanente ao sistema, aparecem, ao mesmo tempo, Hegel e Schopenhauer. Hartmann é um corolário, como o são Büchner e Moleschott, e como o foram Strauss e Feuerbach. Em todos os ramos intelectuais a lei se acha aplicada.

Neste país, ao contrário, os fenômenos mentais seguem outra marcha; o espírito público não está ainda criado e muito menos o espírito científico. A leitura de um escritor estrangeiro, a predileção por um livro de fora vem decidir da natureza das opiniões de um autor entre nós. As ideias dos filósofos, que vou estudando, não descendem umas das dos outros pela força lógica dos acontecimentos. Nem, talvez, se conheçam uns aos outros na maioria dos casos, e, se conhecem-se, nenhum aproveitou do antecessor, com a exceção, que já foi feita, para o Sr. Magalhães. São folhas perdidas no torvelinho de nossa indiferença; a pouca, ou nenhuma, influência que hão exercido sobre o pensamento nacional explica essa anomalia. Não sei que relação lógica haverá entre o Dr. Tobias Barreto e o padre Patrício Muniz; um leu São Tomás e Gioberti e fez-se teólogo e sectário apriorista do absoluto; o outro Schopenhauer e Hartmann, depois de haver lido Comte e Haeckel, e tornou-se um crítico imbuído da grande ideia da relatividade evolucional e um tanto impregnado de salutar pessimismo. Que laço os prende? Não sei. É que a fonte onde nutriram suas ideias é extranacional. Não é um prejuízo; antes equivale a uma vantagem.

O cosmopolitismo contemporâneo, de que, pela força das conquistas comerciais, partilhamos também um pequeno quinhão, traz à humanidade destes resultados: espíritos vivazes de nações toscas e atrasadas, arrebatados pela rápida corrente das grandes ideias, que fecundam os povos ilustres da atualidade, deprimidos os pátrios prejuízos, conseguem alçar a fronte acima do amesquinhamento geral, e embeber-se de uma nova luz. Vejo nesse fenômeno uma exceção aberta à lei da ação do meio social, que às vezes é mesquinho, em prol da civilização que irradia noutra parte. A luta pela cultura consegue afinal triunfar até entre os povos sistematicamente atrasados, como o nosso.

Os filósofos brasileiros não se prestam, repito, a uma classificação lógica, filha das leis que presidem ao desenvolvimento dos sistemas, não existindo estes aqui. Forçado a apresentar uma, ela seria em três grupos:

a) escritores educados sob o regime do sensualismo metafísico francês dos primeiros anos deste século [XIX] e que passaram para o ecletismo cousiniano;
b) reatores neocatólicos filiados às doutrinas de Gioberti e Rosmini, ou às de Balmes e Ventura;
c) e afinal espíritos que se vão emancipando sob a tutela das ideias de Comte ou as de Darwin. 

Nem mais nem menos, eis os grupos em que se podem distribuir os autores que constituem o objeto deste ensaio. Oxalá que alguns deles, lançadas as suas vistas para o Velho Mundo, descortinassem lá sempre os guias da ciência moderna! Às vezes os resultados desta viagem mental são bem pouco proveitosos. É um exemplo a obrinha do padre Patrício Muniz: Teoria da afirmação pura[36].

O ilustre padre, português que tem vivido desde muito no Brasil, pertence à segunda classe dentre os seus colegas de filosofia, como os três já analisados pertencem à primeira.

Apreciemos o valor das ideias do nosso pregador. Ele é um teólogo escolástico, mas um teólogo que leu Kant, e tem um certo respeito a filosofia alemã, apesar de só a conhecer por intermédio dos franceses. Em seu sentimento benévolo para com os alemães distancia-se algum tanto de Gratry, para quem Hegel não passava de um mau sofista!

Ouçamos o português-brasileiro. Diz ele, censurando o ecletismo de Cousin e discípulos: 

“Ao progresso de uma teoria panteística, preparada com aturado estudo por Kant e desenvolvida por Fichte, Schelling, Hegel e Krause, opor o arremedo de um sistema sem unidade de princípios, sem nexo, nem consistência, era uma puerilidade; e explicar o ecletismo pelo ceticismo, quando a necessidade de ciência levava o pensamento a conceber a negação da realidade, era uma tentativa anacrônica. Com efeito, apesar do talento de Damiron, de Jules Simon, de Emile Saisset, a escola de Cousin tem feito uma figura muito apoucada ao lado do panteísmo alemão. Pode-se dizê-lo, o panteísmo ficou em pé e só ante as aspirações a ciência”.[37] 

Esta crítica à escola de Jouffroy, apesar de muito repetida, e este elogio à de Kant, ainda que vulgar, merecem ser consignados por terem sido feitos por um padre e um padre do Brasil.

Quanto atraso, porém, dali não transpira! Em 1863 ainda o nosso pequeno filósofo supunha que em face da metafísica alemã, que encheu os primeiros quarenta anos deste século [XIX], só existia o espiritualismo francês! As imensas ruínas, desde muito, acumuladas no Além-Reno por críticos, naturalistas e filósofos ele as não enxergava.

O empenho de Patrício Muniz é combater o sensualismo e também o panteísmo; para este duplo mister ele vai buscar as suas armas na Idade Média. A teologia católica, em suas mãos, reveste-se de uma sobrecasaca emprestada pela metafísica moderna; mas deixa bem ver a batina... O todo é grotesco. O filósofo padre-mestre se julga, entretanto, muito adiantado e seguro. Os seus esforços, segundo a sua própria expressão, para desenvolver a filosofia no catolicismo são um serviço real a pátria! Seu livro é consagrado a Nossa Senhora e dedicado ao Sr. D. Pedro II. Não sei como tão harmoniosa lhe pareceu esta junção.

O padre transpira todo no escritor; estas palavras são suas:

“A filosofia desenvolvendo as relações do finito e do infinito, necessariamente da religião é que tira a sua premissa; e querer a religião sem revelação é querer o espírito humano desenvolvido sem ensino exterior, é não conhecer a humanidade. Se, pois, o desenvolvimento da razão resulta de um ensino externo, se este ensino é a tradição católica da revelação divina, está claro que a razão tem de desenvolver- se à luz da revelação; e a filosofia é antes de tudo o desenvolvimento científico do dogma [...] Acusam-nos os racionalistas de querermos submeter a filosofia à teologia. Nós não submetemos a filosofia à teologia; o que fazemos é harmonizar as ciências submetendo-as todas à realidade. Mas talvez ainda se nos pergunte: Quereis retrogradar para a escolástica? Não, não queremos retrogradar para a escolástica, queremos progredir nela. Isto é um bem, isto é uma necessidade”.[38]

Estes trechos revelam bem claramente a intuição do nosso autor; é um crente nas relações do finito e do infinito, um sectário neste ponto de Victor Cousin de quem tanto desdenha; é um reacionário da Idade Média, um neocatólico ao gosto de Rosmini, de quem não tem a profundeza, e de Donoso Cortez, de quem não tem as cintilações de estilo. Patrício Muniz é um pensador muito medíocre, e um orador nas mesmas condições, apesar de já ter sido, não sei por quem, uma vez apontado como o sucessor de Mont'Alverne, o que, aliás, não é honra, porque o franciscano também era pequeno. Como este, não é lido; sua pequenina brochura está completamente esquecida. Seus votos em prol do desenvolvimento científico do dogma são uma extravagância, que em rigor lhe não pertence, e que se recusa a um exame sério; seu anelo por caminhar na Idade Média é a crassa impertinência de sua escola, e não merece uma refutação. Pobres reacionários baldos de ciência e de critério!

O panteísmo lhe merece tanta repugnância, como o materialismo; e, todavia, não será muito difícil mostrar que o nosso padre é um perfeito panteísta. Sua metafísica deve ser estudada no ponto em que ele a julga mais forte, no estudo da natureza da inteligência, onde procura subtrair-se às influências deletérias dos sistemas modernos.

Antes disto cumpre mostrar alguns espécimes de sua linguagem de charadista. As teses seguintes e suas divisões são muito apreciáveis:

“O relativo é a dedutibilidade do positivo.
Esta dedutibilidade é concreta ou discreta, isto é, dá-se em um só concreto ou em muitos concretos.
O relativo concreto é a definição, ou explicação, ou determinação do concreto.
O relativo define o concreto quando é a análise da identidade do concreto em se mesma; neste caso ele é confirmativo.
O relativo explica quando ele e a análise das noções contidas na unidade concreta; neste caso ele é explicativo.
O relativo é determinativo quando ele analisa a compreensão das noções de um concreto no seu princípio afirmativo.
O relativo dentro de um concreto é sempre uma análise; pois é a possibilidade de distinguir como concreto o que é objetivamente idêntico.
O relativo discreto é a aptidão do múltiplo para a síntese do pensamento.
O relativo discreto é compreensivo, comparativo, limitativo e negativo.
O compreensivo é a afirmação constituída discretamente no princípio de causalidade.
O comparativo é a identidade formal na multiplicidade da afirmação.
O limitativo é a afirmação discreta no múltiplo.
O limitativo é absoluto ou relativo.
O absoluto é a afirmação discreta do definido e do indefinido.
O relativo é a afirmação discreta do múltiplo definido.
O negativo é a afirmação discreta do subjetivo e do objetivo”.[39]

Irra! Desculpe-me o leitor esta transcrição tão fastidiosa; é preciso fazer compreender toda a riqueza estéril do filósofo tonsurado. Foi com estas horribilia verba que a metafísica por tanto tempo empeceu o progresso da ciência. Os sondadores do absoluto, dos quais é o nosso um dos mais ínfimos imitadores, tinham a gíria da obscuridade. Empolado o verbo, a frase enigmática, tinham eles, a seu ver, todos os sinais da profundeza. E aquilo que deixei acima está um pouco escoimado das escórias das páginas da Teoria da afirmação pura. Deixaram-se ali a ortografia bárbara do autor, e as teses, divisões, corolários, provas, lemas e escólios que a acompanham.

O padre Patrício é difícil de refutar, porque é difícil de ler. Hegel disse, creio que em sua Lógica, que para ser-se bom dialético e pensador faz-se mister ter-se sido espinosista. O filósofo holandês procede pelo método dos escólios e lemas, tão apreciável na geometria. Opino diversamente ao ilustre alemão no modo de seguir o seu conselho. Dado que seja de necessidade o emprego daquela ginástica para a agilidade do espírito, ele deve ser ministrado somente como exercício. Nas obras sérias, resultantes da madureza do pensamento, aquela tática não deve aparecer. Convenho em que submetamo-nos a ela como preparação; em público aqueles aparelhos não devem ser mostrados, como se devem retirar os andaimes depois de pronto um edifício. O padre Patrício exibe-se carregado de proposições, temas, hipóteses e corolários... Tant pis.

Vejamos os fundamentos de sua teoria.

Firma-se neste princípio: “o pensamento não é uma autonomia; mas uma reprodução da substância”. Desta base escolástica deduz-se a sua doutrina. Sim; o pensamento não é uma autonomia, como bem proclama o filósofo; mas simplesmente porque é uma função. Disto é que ele se esqueceu. Em 1863 ainda escreve como se esta doutrina não estivesse ganha para a ciência. O pensamento, diz ainda o autor, é uma reprodução da substância; não sei bem qual o sentido que ali se quis prender à palavra reprodução.

Se o filósofo quis falar de reprodução do sujeito, o termo é mal empregado e consequências, que lhe são desfavoráveis, podem dali deduzir-se. Se quis significar a reprodução do objeto, iremos ter à teoria das ideias imagens, ao sensualismo, que ele tão santamente esconjura. Mas, ei-lo que tropeça no panteísmo e acaba por submergir-se nele. 
São Tomás não o valeu.

Este fraseado é significativo: 

“Quando conhecemos, o que acontece? Reproduz o nosso pensamento as fórmulas e as condições do objeto conhecido. Eu penso num homem: o meu pensamento desenha a estatura e as feições deste homem; e, ao mesmo tempo, quando digo que ele existe, o ato do meu pensamento é uma definição da existência incluindo esta imagem. Tanto é verdade ninguém desconhecer este caráter do pensamento, que vulgarmente se diz estar no pensamento a imagem ou a forma do objeto. Mas esta forma há de ser forma de uma substância; e aqui não temos senão duas: o sujeito e o objeto; ele não é a forma do objeto, porque essa está no objeto mesmo; logo é forma do sujeito (sic) idêntica à do objeto (sic)”. 

É patente; isto é uma glosa da célebre proposição de São Tomás: “Conceptio intellectus est similitudo rei intellectae et in eadem natura existens; quia in Deo idem est intelligere et esse”.

O Dr. Patrício cita estas palavras que chama admiráveis.

Quando disse que não sabia bem o sentido que o ilustre padre-doutor liga ao termo reprodução, fi-lo propositalmente; estava certo que ele próprio me viria justificar. Em o seu trecho, último citado, ora diz que é a do objeto, ora a do sujeito idêntico ao objeto. Ora bem; no primeiro caso vai rolar no materialismo, e no segundo perde-se no panteísmo. Não é mister ser águia para tirar estas conclusões. Ambas são evidentes. Quanto à última, por exemplo, cego será quem não compreender a legitimidade deste raciocínio: 

“se em Deus o pensamento é a reprodução de sua própria substância, sua ideia do universo é a reprodução de um objeto idêntico a ele mesmo, e o universo vem a ser Deus, e Deus vem a ser o universo”. 

Temos aí o duplo panteísmo de Espinosa, que sacrifica Deus ao mundo, e o de Hegel, que procede inversamente. O padre Patrício, estribado no Anjo da Escola, deu-nos a soberba síntese de ambos.

Avalie-se agora a força de pensamento de um escritor que se apresenta de lança em punho para combater os falsos sistemas da filosofia moderna, e cai, ferido na sua própria arma, logo aos primeiros passos que dá.

Julgo inútil continuar a análise de um tal pensador e muito dispensável apreciar a sua nova teoria da sensibilidade, que, para ele, se confunde metafisicamente com a inteligência e a vontade. Proposição tão enorme, aos olhos dos sectários do espiritualismo, que lhes deixo a tarefa de estigmatizá-la.

Não deixo, porém, de lembrar uma passagem em que o padre-escritor mostrou-se até mal informado de autores que cita com a pretensão de os refutar. É quando, falando em Jouffroy, refere uma sua definição de filosofia, a qual o francês não deu como tal. São estas as palavras do célebre professor: 

“O que é, pois, a filosofia? É a ciência daquilo que não se tornou ainda objeto de uma ciência; é a ciência de todas essas coisas de que a inteligência não conseguiu os meios de conhecer inteiramente; é o resto da ciência primitiva total; é a ciência do obscuro, do indeterminado, do desconhecido”.[40] 

Diz o padre Muniz que isto é uma sátira! Ora, ninguém, que haja lido a notável memória sobre a Organização das ciências filosóficas, donde foram aquelas palavras extraídas, as tomará por uma definição, quando é certo que o nobre pensador confessa que aquele modo de julgar fora uma fase mórbida e seu espírito, passada em 1822, e que, no tempo em que escrevia, tinha, desde muito, desaparecido. É, portanto, aquele trecho impróprio para com ele julgar-se das ideias do filósofo francês, um dos maiores de seu tempo, como no-lo testemunha Laurent, e incontestavelmente o único vulto eminente do ecletismo.

E, ainda quando Jouffroy tivesse permanecido naquele ponto de vista sobre o objeto e a unidade da filosofia, não vejo um motivo sério para o repelir; porquanto de tudo o que produziu o seu espírito aquela doutrina sobre a ciência, que tão brilhantemente professou, vem a ser, a meus olhos, a obra prima, apesar do filósofo a ter abandonado.

Sim, a filosofia foi a ciência primitiva geral, que, de dia em dia, foi perdendo o seu domínio pela organização das ciências particulares. Outra, no fundo, não foi a célebre crítica de Comte, que, de todo separou as diversas ciências da filosofia; dela expulsou a teologia e a metafísica e acabou por considerá-la uma generalização de todos os nossos conhecimentos. A análise de Jouffroy foi, a certos respeitos, mais completa, porque importava o aniquilamento final da filosofia, futuro para que vai caminhando. Não longe está o tempo em que todos os diversos aspectos do universo e da humanidade terão, cada um, sua ciência particular e própria, nada ficando para a pretendida rainha da inteligência.

A síntese de todas não será mais uma ciência à parte, e sim um simples recurso do espírito, praticável em todas as circunstâncias. A isto o padre Muniz chama uma sátira! Suas censuras a Jouffroy, segundo a expressão de Huxley, não valem o papel sobre que foram escritas.

V

Existe ao norte deste Império [o Brasil do séc. XIX] um fenômeno curioso: um lente de filosofia em Pernambuco, um médico, um jornalista, um ultramontano, que escreveu umas compilações de São Tomás[41]. Não sei que escritor satírico já teve tentações de compará-lo a Veuillot; mas refugiu diante desta ideia, recordando-se de que o francês tem um belo estilo, uma forma brilhante para encobrir o carunchoso de seu pensar, e o nosso douttor-lente tem uma língua pesada e ilegível. É Veuillot sim; mas trajado ao padre Antônio Pereira, se é que não desmereço o valor deste vigoroso espírito aproximando-o, por qualquer forma, do professor do Ginásio do Recife.

O nosso filósofo, não sei como se dá, ao mesmo tempo, este nome a Aristóteles e a Leibniz, a Espinosa e a Kant e ao... Dr. José Soriano, o nosso filósofo, aqui há uma lacuna da língua, tem singularidades de pasmar. É um autor impertinente que nenhum vácuo deixaria no quadro da literatura brasileira, se nunca tivesse aparecido. Ele aí figura para acanhamento nosso. É certo que ninguém o lê, a não ser, em mínima escala, os seus discípulos de colégio, nos quais não raro, percebe-se um riso, quando pegam no enorme bacamarte, que se intitula Compêndio de filosofia ordenado segundo os princípios e método do Angélico Doutor.

Os pobres estudantes têm um como sentimento de haverem entre as mãos uma espécie de halitério antiglacial, mais insignificante, por certo, do que o animal geológico, porquanto este, ao menos auxilia os sábios no estudo zoológico, e o livro do Dr. José de Souza a ninguém auxilia. São 700 páginas votada ao atraso e encadeamento da mocidade! Ali respira-se um ar abafado, a Inquisição do pensamento irrita e molesta. Ou aceita-se tudo, o que seria a vitória do erro e da decrepitude, ou tudo se repele. Nada existe a analisar. Um livro cadáver não se discute; a filosofia não é um anfiteatro anatômico.

O Dr. José de Souza disse uma vez que o Visconde de Araguaia, autor dos Fatos do espírito humano, é um bom poeta, mas mui medíocre filósofo. E o tomista brasileiro, que deve ser classificado muito abaixo do nobre titular, o que ficará sendo? O que ficará sendo o indigesto compilador de teologia, o espírito mefítico e importuno, enclaustrado na Idade Média? O recente doutor belga por Lovaina não se arrogue; ele é incompetente para julgar quem não lê por sua cartilha, quem nunca abriu as horripilantes Lições de filosofia elementar, por exemplo. E este autor é lente por exclusão de Tobias Barreto, o ilustre corifeu do germanismo entre nós!!

Basta um só espécime para mostrá-lo tal qual é, e julgá-lo com segurança. Eis aqui uma galhardia:

“É impossível negar à alma a propriedade de refletir, de voltar-se sobre si mesma. Ora, se a alma não é espiritual, mas extensa, não poderá refletir, porque aquilo que é extenso não pode perfeitamente voltar-se sobre si mesmo. Suponhamos uma folha de papel. Dobrando-a para formar uma carta, nunca uma mesma parte volta-se sobre si mesma, mas sempre uma sobre outra; de sorte que dobrando-a de novo a primeira forma desaparece para ser substituída por outra, em virtude da nova disposição que tomam as partes. Pelo que se a folha de papel, por impossível, tivesse consciência, no ato de refletir jamais seria cônscia de sua primeira modificação. Ora, a cada qual atesta a própria consciência que a sua alma pode completa e perfeitamente voltar-se sobre si, e pela reflexão ilustrar as suas modificações, as quais longe de desaparecerem pelo ato da reflexão, tornam-se pelo contrário mais vivazes e constantes. Portanto a alma não pode deixar de ser espiritual”.[42]

Eis o que bem se poderá chamar uma penca de disparates; não sei o que mais se deve admirar: o chatismo das ideias ou o chulismo da forma. Qualquer espiritualista mediocremente sensato hoje teria recuado diante de uma defesa tão esdrúxula de seu sistema.

Primeiramente, o garboso tomista é muito ingênuo em supor que tem definido a reflexão, dizendo que ela é o poder que tem o espírito de dobrar-se sobre si mesmo...

Não vê que esta linguagem é uma metáfora, e uma metáfora tirada justamente da ordem das coisas materiais? Da matéria é que se pode dizer, sem figura, que volta-se e dobra-se sobre si mesma.

Aquela especiaria da folha de papel, não deixando os vestígios das dobras que sofrera, é no todo original...

Ouvi a um espirituoso chamar aquilo filosofia da goma elástica, porque esta é a matéria que dobra-se sem deixar vestígios, voltando à sua primitiva posição. Ora, o filosofista devia melhor estudar as propriedades dos corpos, e melhor conhecer a sua alma, para não andar a dizer despropósitos que servem somente para depreciar o seu país.

Que ideia faria do ensino neste Império o estrangeiro verdadeiramente ilustrado que lesse aquelas gentilezas? It is a shame.

Mas boa ventura é ser-se sectário de São Tomás; aprendem-se coisas, que tornam a gente feliz nesta Terra.

O nosso professor, defendendo, nas suas Considerações sobre a Igreja e o Estado, com a toda e pequena força de que dispõe a intolerância religiosa, atribui a doutrina contrária ao racionalismo subjetivista, cujos sectários não têm, ao menos, o mérito da novidade[43]. Oh! como é galante o Dr. José de Souza falando de novidades! Deixemo-lo em paz.

VI

Abandonado este espírito árido e intratável, para quem, como para Teodoro de Beza, a liberdade de consciência é um dogma do diabo, libertas conscientiae diabolicum dogma, respiremos um ar mais puro nas páginas de La science et les systèmes do Dr. Pedro Américo[44]. O livro do pintor paraibano, apesar de pouco elevado, é um cimo diante dos escritos do médico de Pernambuco[45].

O Dr. Pedro Américo goza, entre nós, da fama de grande pintor. Quero supor que esta nomeada em parte é bem fundada. Apesar de não ver o seu nome citado e aplaudido pelos novíssimos críticos da arte, que tenho podido consultar, o que não deixa de gerar certa desconfiança, não me atrevo a aventurar uma palavra sequer sobre o seu mérito ou demérito na qualidade de confrade de Rafael. Não é que não tivesse a coragem de arrostar com os resultados do meu juízo, se, porventura, ele houvesse de ser desfavorável a essa atual glória Brasil. O motivo de minha abstinência é peremptório: não conheço os trabalhos do nosso pintor; os seus quadros mais elogiados, nunca tive o prazer de os ver.

É como crítico e filósofo que vamos apreciá-lo. Neste caráter é muito pouco conhecido pelo nosso público. Não é isto uma pecha. O deixar um escritor de ser conhecido pelo público brasileiro não é um desfavor; nada importa. Os mais elevados espíritos do século atual lhe são quase totalmente ignorados.

É o que se dá pela China.

O pintor paraibano não se deve lastimar por este olvido da parte de seus compatriotas. O seu trabalho, apesar de ser-lhes dedicado, é escrito numa língua estrangeira, e para estrangeiros. Foi primeiro publicado, no mesmo ano, sob o título De la liberté, de la méthode et de l’esprit de système dans l’etude de la nature, como tese para a aquisição do grau de docteur agregé da Universidade Livre de Bruxelas.

O ilustre autor parece conhecer o estado de abstenção em que se tem conservado o seu país, quanto às questões agitadas no Velho Mundo. Logo nas primeiras palavras de sua brochura se lê:

“Se este livro tivesse sido escrito no Brasil faltar-lhe-ia cor local, pois de cada uma das questões por mim abordadas com certo desenvolvimento nenhuma foi tratada do ponto de vista nacional; também quem o ler sem pensar no fato de que a situação moral e intelectual da Europa difere muito da nossa, o achará, sob muitos aspectos, um tanto vazio e desprovido de sentido”.[46]

Estas expressões significam uma verdade geral: a situação intelectual e moral brasileira difere muito da europeia. Mas não vejo que as questões científicas precisem ser tratadas sob um ponto de vista nacional, nem devam ter uma cor local para não deixarem de ser vazias de sentido. Se a cor local, que tanto preocupa certa classe de poetas e pintores, pode ser um atributo peculiar à sua arte, o mesmo se não dá com a ciência, que tem um caráter cosmopolítico e universal. Em 1869, quando o digno doutor pela Universidade Livre de Bruxelas se exprimia por aquela forma, alguns dos sistemas, que se gladiavam diante do velho público europeu, já eram conhecidos por poucos adeptos brasileiros. De então para cá, graças à cooperação de alguns espíritos juvenis, as coisas têm muito mudado de aspecto, e na própria imprensa diária, e na tribuna das conferências públicas algumas das últimas lutas hão sido debatidas ante espectadores nacionais. Para não citar outros fatos além daqueles de que me hei de ocupar no curso deste ensaio, ninguém dirá que As três filosofias do Dr. Luís Pereira Barreto, O fim da criação, do Visconde do Rio Grande, As funções do cérebro, do Dr. Guedes Cabral, e os Ensaios e estudos do Dr. Tobias Barreto não sejam nutridos das ideias perigosas que dividem o pensamento europeu, e não revolvam totalmente o velho e podre terreno em que dormitava a ignorância pátria.

O autor regozija-se da candura de seu país; para este é felicidade, a seus olhos, seu desconhecimento do que vai pelo antigo continente:

“Graças a Deus, nossa pátria jamais assistiu a essas lutas do fanatismo contra a liberdade [...] como também jamais provou a ação dissolvente do materialismo positivista”.[47]

Estas palavras, que parecem pronunciadas por algum abade francês, ou belga, inquieto pelo futuro de seu país, se contaminá-lo o espírito do tempo, não abonam muito a previsão do nosso filósofo.

Três anos não eram passados, e a corrente das ideias europeias nos invadia, e, até na política, ateava-se a chamada Questão Religiosa. Eu não cairei no irrisório disparate de comparar a grandeza e seriedade das atuais questões debatidas no Velho Mundo com as imitações cômicas que elas vão tendo entre nós. Assinalo apenas a ingenuidade do pintor em crer falar de coisas desconhecidas aos seus patrícios, e, mais ainda, espanto-me diante de sua alegria por nos não ter ainda visitado o materialismo positivista!

Sim, este país não foi ainda, senão em mui diminuta escala, agredido pelo materialismo positivista, o que é uma felicidade aos olhos do nosso autor; mas, em desabono seu, vive triturado pelo materialismo moral, o materialismo dos costumes, cuja expressão mais hedionda são as cenas torpes de nossa escravidão; vive minado pelo materialismo social, o materialismo civil, cuja degradante efígie se estampa nas cenas de piratagem de nossa política!

Desde já cumpre apontar os méritos da brochura do autor d’A Carioca.

O mais eminente é, sem dúvida, certo espírito de liberdade, que ressuma daquelas páginas. Em um país como a Alemanha ou a Inglaterra não importaria este fato uma qualidade assinalável. O espírito de liberdade é ali endêmico à atmosfera intelectual. Todos os bons espíritos comungam no altar das grandes e úteis ideias. É fenômeno ordinário. Em países de pouca cultura, como o nosso, assoberbados por caducos e pestilentos prejuízos, onde o pensamento surge curvado, como as frontes de onde emana, o espírito de liberdade antolha-se-me como uma auréola que abrilhanta a face do escritor. Pedro Américo, como poeta, sente entusiasmo pelas nobres conquistas da ciência, e se pronuncia contra os aferros da fé. Nas páginas deste opúsculo é a primeira vez que tenho de assinalar este digno impulso dos nossos tempos, e rendo-lhe bem alto o preito de que é ele merecedor. Estas palavras devem ser consignadas:

“Constitui erro atacar, ainda hoje, a neutralidade da ciência em nome da religião ou da Bíblia, e o ensino livre em nome da fé. A religião aspira preparar o homem para a vida futura, a ciência os prepara para a vida presente. A Bíblia ensina dogmas que nem a experiência nem o raciocínio conseguiriam demonstrar; a física ensina o mensurável no espaço e no tempo, ou então aquilo que a razão descobre como certo numa série de fenômenos. A teologia não admite discussão e se impõe à consciência como soberana autoridade; a ciência, ao contrário, supõe o livre exame e a plena liberdade de julgamento. A Igreja exige, para fundar a paz universal, a submissão absoluta de todas as consciências às decisões dos concílios; para a ciência, ao contrário, a verdadeira unanimidade é a que dá origem à evidência: esta unanimidade reinará sempre entre os homens que, com a plena independência de sua razão, e após amadurecido exame, concordam sobre os mesmos pontos. As autoridades eclesiásticas podem inquirir das consequências de uma verdade, e assim proibir seu ensino nas suas escolas; as universidades laicas, ao contrário, devem ensinar sem reserva a solução científica de um problema qualquer, ainda que esta solução pareça se opor às nossas mais caras crenças”.[48]

Esta passagem exprime um pensamento hoje vulgar e cem vezes repetido pelos escritores do tempo. Escrita por um brasileiro, malgrado os seus defeitos de estilo, evidenciados pela impertinente repetição do ao contrário, merece justos encômios por ser um brado de insurreição.

Outro mérito, e nestes cifram-se quase todos, do pequeno escrito que analiso, vem a ser uma qualidade oriunda da que ficou apontada: certo entusiasmo pelas artes e pela natureza, que também trasborda do conjunto de todo o trabalho. O autor, aliás, por outros produtos tem revelado tão nobre propensão.

Em La science et les systèmes nota-se uma certa desarmonia entre o título da obra e o seu conteúdo. Afigura-se ao leitor que ele tem diante de se uma indagação filosófica sobre a ciência em geral e os diversos sistemas, que a têm trazido dividida. Não é assim; lidas as 166 páginas, quase nada mais se há percorrido do que notas biográficas sobre alguns grandes artistas, como Miguel Ângelo e Rafael, ou sábios, como Galileu e Newton. Os traços biográficos consomem quase todo o trabalho. O autor dá preponderância ao que diz dos artistas e das artes; é certo que com o alvo de provar que a liberdade artística se constituiu primeiro, e que foi ela que fundou a libertação da ciência. Neste opinar vai certa dose de engano. Basta lembrar que os fundadores do genuíno método científico, Galileu e Bacon, não foram artistas. Mas é no fundo mesmo das coisas que deve ser procurada a raiz do engano do nosso pintor. Cheio de entusiasmo por sua arte, é natural que seus estudos históricos tenham versado de preferência sobre os anais dela, e de suas congêneres. De tal sorte, vendo o ideal naquela esfera ter atingido, desde épocas mui remotas, um grau elevadíssimo de perfeição, ao passo que a ciência jazia acanhada e incorreta, não trepida em proclamar que às artes se deve a fundação do verdadeiro método científico.

Falando da Grécia, diz:

“Reflitamos sobre este fato, estranho e espantoso que, desde a descoberta dos admiráveis monumentos da arte grega, os pintores, os escultores e os anatomistas de todos os países, quase que unanimemente os declararam inimitáveis. Mas, se o friso do Partenon, o Zeus Olímpico e tantas outras obras-primas permaneceram superiores a todos os esforços feitos para os igualar, ao passo que a filosofia natural dos gregos, ideal e sublime, parece reduzir-se cada vez mais aos olhos das gerações modernas, é porque a arte construiu seu ideal sobre a natureza, enquanto a filosofia construiu a natureza sobre seu ideal”.[49]

O motivo dado pelo célebre pintor não me parece categórico; poder-se-ia perguntar-lhe: mas por que os gregos, nas artes, fundaram seu ideal sobre a natureza, e, na filosofia, a natureza sobre o seu ideal? Seu livro não no-lo diz. É mister descer até ao íntimo mesmo das duas esferas de manifestações intelectuais.

Foi o que o Dr. Pedro Américo esqueceu. A arte se nutre principalmente de sentimento e imaginação, que para tomarem um voo sublime e fecundo, basta acharem-se de posse de organizações bem formadas e diante de um céu majestoso. Foi o que se deu na Grécia. Às qualidades brilhantes de sua raça os gregos juntaram o espetáculo de seu país e de seu céu encantador. A arte brotou e cresceu admiravelmente.

A ciência não é assim; exige observações e experiências aturadas e rigorosas. Nutrindo-se principalmente de raciocínio, precisa de tempo e do labor de muitas gerações. Eis porque a arte grega foi tão profunda e sua filosofia mais acanhada; eis por que uma se constituiu primeiro, e outra ainda hoje está em caminho de formação. Ainda assim, não é possível contestar aos gregos a glória de lançadores dos primeiros fundamentos das ciências. Basta lembrar o nome, nunca assaz aplaudido, de Aristóteles.

Entremos na parte mais séria do livro. Qual a filosofia do nosso autor? Ele pertence à parte liberal do ecletismo francês, é espiritualista, sectário da razão inerrável, um pouco refratário à teologia. Suas vistas históricas são tiradas de Michelet e Quinet, estes dois fundadores da escola histórica francesa da simetria e da declamação.

Depois de Mommsen e Gervinus, Lazarus e Buckle; depois mesmo de Thierry e Laurent, é muita ingenuidade andar a repetir os palavrões de Michelet e Quinet, como demonstração dos acontecimentos humanos. Quem não percebe a grande transformação por que hão passado, nos últimos trinta anos, os estudos históricos, depois da vulgarização da parte crítica do socialismo e do positivismo, e, sobretudo, depois do triunfo definitivo da ciência religiosa alemã e da doutrina de Darwin?

O Dr. Pedro Américo ainda nos vem citar destas gentilezas pedantescas de Quinet:

“Semelhante a Jeová (falando de Rafael) que desenha com o dedo sobre o globo as praias dos oceanos, ele traça igualmente o desenho da história no oceano dos tempos: a figura encantadora do demônio enrolado na árvore da ciência, as migrações dos povos, o sonho de José, as primeiras cenas do Evangelho, os poetas de todas as escolas reunidos de todos os pontos do tempo à sombra da árvore do Parnaso; os filósofos sob o pórtico de Atenas; em sua face a disputa dos doutores da Igreja e o dogma que brota da hóstia. Esta consagração de todos os tempos, de todas as sociedades no fundo do santuário, é a cidade de Deus mais vasta, mais tolerante do que a de Santo Agostinho; é a história mais universal do que a de Bossuet, que, muitas vezes, a comprime na sua alma de padre, é o livre espetáculo da vida divina no tempo, é o fieri fecundo da eternidade sobre as muralhas do Vaticano”.[50]

Todo este encadeamento de frases ocas e de metáforas gigantescas é trazido para provar a universalidade do gênio e dos trabalhos do pintor de Urbino!

O Dr. Pedro Américo o repete com ares de quem está demonstrando um fato duvidoso e acaba por consegui-lo. O seu livro revela bastante fraqueza filosófica. Logo em princípio exibe-nos uma Introdução sobre a definição da ciência, certeza, probabilidade, indução, observação e experiência... Não fez mais do que dar a milésima edição das vulgaridades da filosofia do senso comum bebidas nos compêndios franceses e belgas. Todo aquele trabalho sobre fatos e ideias, “bastante triturado nestes últimos tempos”, como no-lo declara, é para afirmar que “a evidência é, pois, o critério da verdade; sem evidência não há certeza, e sem certeza a ciência será sempre impossível”.[51]

Sentem-se ímpetos de retrucar ao digno pintor: “Eh! Monsieur, pourquoi tant de travail? Ça n'en vaut pas la peine!”

É sobre a indução e o método em geral que se revela todo atraso e incompetência do insigne esteta brasileiro. Nem, ao menos, dá indícios de conhecer o System of logic de Mill, publicado desde 1843. É sabido que este distinto positivista inglês prestou o grande serviço à ciência de revelar o laço que une a indução à dedução, e produzir, assim, a harmonia entre o método dos antigos e o dos modernos. Stuart Mill explicou a dificuldade caraterística do silogismo, provando que, no fundo, toda dedução é uma indução, pois que não passa do desenvolvimento da operação indutiva, ou, por outros termos, não é mais do que uma análise dos detalhes ou casos particulares entrevistos, mas não claramente separados, na proposição geral, que serve de maior. Esta explicação teve por consequência, segundo no-lo afirma Bain, produzir na lógica uma total revolução[52].

O nosso autor fantasia que a ciência moderna está toda eivada de empirismo, e gasta o 4° e último capítulo de seu livro, quase exclusivamente, a castigar-lhe os desvarios, e a proclamar a soberania e as excelências da razão. Ele é partidário do método dito racional.

Ora, isto é hoje um ponto de vista anacrônico; a ciência de agora, em suas eminências, nas mãos dos nobres sectários do realismo naturalista das escolas inglesa e alemã, nada tem de empírica.

Ficava bem a um Cousin o acusar a Lamettrie, ou a Helvécio levianamente daquele defeito. Mas vir o Dr. Pedro Américo dizer-nos seriamente que Comte, Littré, Büchner e toda a coorte de sábios e filósofos, que ilustraram os últimos tempos, não hão praticado um exato e verdadeiro método... é singular! Uma das glórias até destes grandes pensadores é terem cumprido as regras de Stuart Mill, e consagrado o acordo do método de Bacon com o de Aristóteles. A filosofia, por eles tratada, não oferece mais daquelas cenas que tanto a atormentaram em algumas das épocas de sua história. As controvérsias sobre o predomínio deste ou daquele processo não nos preocupam mais, ou o não devem, pelo menos.

Indução e dedução são ambas indispensáveis e aplicadas com critério. É o que se dá com o método chamado racional, e o experimental. Não há mais espírito algum, por pouco que seja versado em assuntos científicos, que recuse estes dois processos. Formam uma só e mesma coisa. Temos chegado a esta fórmula: “experiência sem raciocínio e raciocínio sem experiência nada são, para nada valem”.

No primeiro caso, a ciência se reduz a um empirismo chato e detestável, e no segundo, perde-se nos achaques histéricos do a priori.

A que se aplica o método racional exclusivo? Se é às verdades ditas contingentes e relativas, então se confunde com o experimental, porque para outra coisa não serve este; se às verdades chamadas primeiras e axiomáticas, então é inútil, visto que estas são intuitivas e evidentes. Não precisam de um método para serem descobertas.

Alega-se a matemática e a astronomia como o domínio exclusivo do método racional. Quanto à primeira, o seu regime nada tem de absoluto, bastando recordar os trabalhos de Gauss, Bolyay e Lobatschewski, que despiram-no de tal caráter, construindo uma geometria fundada em suposições contrárias às de Euclides. Quanto à outra, a experiência não pode ser dela banida, e a isto se devem as brechas por Bouchporn e Tremaux abertas no sistema de Newton.

A que se dirige a pura experiência empírica? Percebe-se que ela nada pode, fracionando a inteligência humana, e aleijando-a na indagação da verdade.

Nem pode-se, em rigor, conceber e levar a efeito experiência alguma sem, ao mesmo tempo, raciocinar.

O Dr. Pedro Américo perdeu seu alvo; o empirismo de homens como Comte, Darwin... só existe em sua imaginação. Mas eu bem percebo o alcance de considerar-se a experiência como empírica e grosseira, e imaginar-se um processo que receba o belo nome de racional.

O autor deve, sem dúvida, ter ouvido o belga e impertinente Tiberghien. Este senhor entende que a ciência humana ficou enclausurada nos trabalhos de Krause; como Ahrens, seu mestre, não dá um só passo sem ressuscitar uma passagem do velho e esquecido alemão. Esta gente é, como os espiritualistas de França, toda enamorada das excelências e prerrogativas da razão. O nosso [autor] aí se inscreve.

Para ele e companheiros a inteligência humana é uma coisa curiosa de estudar e contemplar. É um reino encantado, como os dos contos populares, onde uma fada prodigiosa decide, em última instância, das questões pendentes. Abaixo dela jazem prostrados pobres e diminutos vassalos que nada podem fazer sem seu socorro e proteção. É o último requinte do dualismo!

Além de uma alma e um corpo, de uma força vital e outra intelectual, de uma vida vegetativa e outra consciente, temos nós outros, no entendimento, a inteligência propriamente dita, e a razão!

Esta última tem privilégios extraordinários. O Dr. Pedro Américo é categórico:

“Proclamam-se os homens especiais como sendo os únicos capazes de decidir sobre as questões referentes à certeza. E esta, sobre quem repousará? Em que acreditaremos nós, e quem daqui por diante sustentará o mundo? Somente a Razão. Sua força, seu poder soberano, sua infalibidade desde que se encontra em presença de todos os fatos necessários para proclamar as sentenças, eis a maior descoberta de todos os tempos, a única que o homem não mais pode dispensar”.[53]

Nada aí falta para a apoteose da fada sublime, nem a letra maiúscula no princípio de seu nome!

A maior das descobertas de todos os tempos um abusão que tem feito andar às quedas a filosofia com todas as extravagâncias dos aprioristas!

Em 1869, justamente no ano em que o nosso filósofo proclamava a infalibilidade da razão e a chamava a maior descoberta de todos os tempos, como se a razão fosse coisa para ser descoberta, qual uma ilha ou uma cadeia de montanhas, naquele tempo o autor deste ensaio escrevia e publicava as palavras seguintes:

“A razão é, como o cristianismo, uma espécie de Proteu; é tudo, tudo justifica e tudo combate. É um princípio, uma força com suas concepções puras, o senso do absoluto para uns; não é autônoma e independente, mas uma simples face do entendimento para outros. Tida por impessoal e eterna, o é também por mutável e personalíssima. Dir-se-ia que os filósofos não conhecem a arma com que jogam; são como lutadores que se chocam em noite escura com frágeis achas, julgando brandir heróicas espadas. Nada há que mais revele o tom retórico do ecletismo francês do que a sua concepção da razão impessoal. Falais em nome de uma autoridade, de um princípio, que o infinito imprimiu na alma de todos eterno e luminoso, e como tanto errais? Como tantas são as contradições da metafísica que a trazem confusa e desacreditada? É preciso um pouco menos de orgulho e de contrassenso; a filosofia é uma ciência de vitupério; as ciências naturais são mais sinceras. Deixem tombar na poeira esses cânticos de divinização humana, esses idílios louvaminheiros de razão imortal que exalam bem pesado ridículo. Convencido de sua dignidade natural, o homem não quer mais suportar fantasmas que sua inteligência repele. Não possui essa razão de luzes infinitas porque infinito é coisa que ele não sabe o que seja; não acredita nessa bajulação metafísica, não se julga divino, porque, se em nome dessa mesma razão negais tantas vezes a Deus, como lhe quereis conferir este título? Toquemos a realidade. Temos sim o poder de conhecer as coisas; podemos exigir da natureza que nos revele os segredos, e da história que nos ensine a pensar; podemos interrogar o íntimo nosso por que se agita, mas não passa daí. A razão, esse Deus que alguns têm adorado, parece, no exagero em que o empregam, um nome pomposo com que o amor-próprio se decorou. Não passa da simples aptidão do homem para conhecer; não é mais do que a inteligência humana com todos os seus enganos e vacilações, com todas as suas dúvidas e desatinos. Se pretendem agora dar esse nome nem mais nem menos do que a esta inteligência, sabe-se então o que ele exprime e pode ser bem aplicado. Se continuam a concedê-lo à faculdade de julgar das causas primeiras e últimas, é absurdo, porque estas causas nos escapam e tal faculdade não existe”.

Há oito anos, assim me expressava totalmente em desarmonia com o nobre paraibano, que não conhecia, e com os sectários, como ele, da infalibilidade individual de cada homem. 

Tratando-se do desenvolvimento da filosofia neste país, não pareceu-me fora de propósito esta citação pessoal, restando-me pedir ao leitor perdão por este fato não muito de acordo com os hábitos públicos dos escritores. Como se vê, aquilo é um eco da queda do velho erro antropocêntrico; eco que me retumbou no espírito pelas doutrinas de Comte de que eu era então sectário decidido. Não conhecia Darwin; este conhecimento ainda mais confirmou-me naquele modo de julgar.

Continuemos.

É, como ficou mostrado, numa ideia falsíssima do que seja a razão que o nosso escritor vai buscar as bases para os seus ditos sobre o método.

É ainda uma consequência dela o modo ligeiro e pouco sério por que trata o materialismo.

Esta palavra tem o grande inconveniente de prestar-se a um mau sentido; por isso os sábios alemães, como Büchner e Haeckel, por exemplo, propõem o nome de realismo científico, ou monismo filosófico[54]. Como quer, porém, que se adote a velha e clássica expressão, deve convir-se que ela não tem o sentido que se lhe dava no século passado [XVIII], e muito menos se confunde com o materialismo moral. Muito ao longe. Só os estúpidos e os ignorantes de tudo quanto se tem escrito no mundo da ciência poderão em tal acreditar.

O autor nos fala de severidades póstumas que, com um pouco de prudência, se poderiam evitar, e que são o justo castigo das opiniões exclusivas que rejeitam os fatos sem aprofundá-los[55].

É justamente a sua posição diante dos nobres propugnadores do monismo atual. Se ele, como filósofo, houvesse de chegar a uma mui remota posteridade, teria de sofrer das mesmas severidades póstumas que sofreu Leibniz, repelindo o sistema de Newton.

Não aduz um só novo argumento contra a ordem de ideias hoje mais defendidas. Tudo quanto apresenta já foi mil vezes repelido como insignificante, ou como nulo. Ei-lo que nos diz:

“Se existe no mundo uma situação contraditória do pensamento, um estado inexplicável da consciência, é a do sábio que se julga juiz da opinião alheia, negando a razão. Nenhuma desarmonia me parece mais completa, nenhuma discordância mais profunda, mais estranha, mais dolorosa”.[56]

Ora, aí está a refutação da sombra, do nada, se é que o nada merece uma refutação.

Quem disse ao nosso doutor que alguém nega a razão? O que fazem os pensadores, a quem ele se dirige, é contestar àquela faculdade o caráter de independência e infalibilidade, a atitude de poder supra-humano que os partidários de nosso pintor lhe querem atribuir. Aqueles até conservam o nome; para dá-lo, porém, a uma coisa um pouco diferente; a verdadeira, contudo.

Neste terreno o nosso filósofo pouco mais produz do que declamações. Aí temos uma:

“Eh! Vós que desvendastes os segredos do mundo sensível, elevando-vos das coisas passageiras, contingentes e fugitivas, os fenômenos, para o fato imóvel e necessário, a lei, só tendes sentidos!”[57]

O leitor poderia exclamar, se ele também tivesse tentações de falar em francês:

“Bah! Ele se dirige a fantasmas! Quem disse que o homem não tem mais que sentidos? Ninguém, a não ser que seja um inepto filósofo materialista que o senhor pintor de Figueiredo e Melo imagina refutar com vantagem”.[58]

O autor não abraça o materialismo por duas razões capitais:

1ª) “jamais conseguiu ele formular contra o livre-arbítrio alguma demonstração evidente e completa”;
2ª) “existem certos fatos, decisivos a nosso ver, certos caracteres eminentes do pensamento que parecem absolutamente inexplicáveis na hipótese materialista; tais são, por exemplo, a identidade pessoal, atestada pelo fato do raciocínio, da memória e da responsabilidade, e a unidade do pensamento, atestada pelo juízo e pela comparação”.[59]

É evidente que o Dr. Pedro Américo não é bastante lido no que, já no tempo em que escreveu sua tese, circulava na Inglaterra e na Alemanha sobre filosofia. Ele não conhecia então Spencer e Bain, por exemplo, cujos principais trabalhos já eram de vulgar notícia na França e na Bélgica, onde o nosso patrício tem, por vezes, residido. Diz que nunca se formulou nada de positivo contra o livre-arbítrio... Primeiramente, cumpre ponderar-lhe que não é um atributo especial do materialismo científico a negação em absoluto da vontade livre; depois, para não citar outro nome a não ser o de um grande espírito do país, onde o Dr. Pedro Américo defendeu teses, e que era de supor que conhecesse, eu o envio para a Física social de Quetelet.

É verdadeiramente espantoso que o nosso digno patrício tenha vivido na Bélgica, e, na qualidade de naturalista, qual declara sê-lo, não tenha notícia dos trabalhos de Quetelet, um homem que com Laurent são os únicos daquela nação que merecem uma justa nomeada europeia.

Quanto ao segundo motivo formulado contra a verdade, e tomado ao pobre livrinho de Janet sobre o materialismo contemporâneo, a identidade pessoal, eu o julgo tão nulo que só faço ao escritor duas ligeiras perguntas: Estará bem certo o digno brasileiro de que nos fatos intelectuais que se sucedem no homem, e constituem a sua personalidade, há perfeita identidade, ou simples permanência dos caracteres essenciais?

Por outro lado, esta permanência não será também uma verdade aplicável às qualidades da matéria que o constitui? “É verdade a dificuldade.”[60]

Não me quero despedir do digno escritor, que por seu pincel é, na hora atual, uma das celebradas glórias do Brasil, sem dar-lhe toda a atenção que nos merece. O seu estilo reclama uma nota. É bem verdade o dizer-se que raramente dois grandes talentos nas artes se acham reunidos. Este cultor da plástica é um prosista; seu estilo é frouxo e palavroso. O leitor inteligente julga-lo-á por uma passagem. Falando de certa classe de filósofos, exclama:

“A natureza lançou aos vossos pés incomparáveis tesouros, criações sem-número, confusamente, sem ordem, sem harmonia, sem unidade: coube a vós separar, agrupar, classificar, rejeitar, escolher, julgar, e, agora, negais a faculdade soberana que separa, classifica, julga e escolhe! Mais ainda: a verdade estava escondida e coube a vós torná-la palpável por meio da demonstração; presa à Terra, gota refrescada que gira em torno de uma estrela, mísero como um ponto, vós criastes o telescópio e passeastes vossos olhos ávidos de ciência pela profundeza dos espaços ilimitados; vítima de ilusões dos vossos olhos, cristes a matemática, ciência da certeza, e calculastes vossa ilusão, espectadores por um instante, suprimistes os séculos, desmentistes a sucessão dos fatos, e ides contemplar, pela imaginação, a formação dos sistemas e a ruína dos mundos, a combinação e o movimento primitivo dos átomos, a separação dos globos, a sublevação das montanhas, a aparição da vida e a transformação dos organismos! Em verdade, não sois menos incompreensíveis que Fídias ou Milton, se eles tivessem sustentado que o homem não tem imaginação; não sois menos que um juiz que negasse sua própria consciência”.[61]

As observações que aí ficam sobre o Dr. Pedro Américo, na sua qualidade de filósofo e escritor, não afetam a sua reputação de rei do pincel, se realmente ele o é. Se o nome do magno pintor, por seus trabalhos, que não tenho a felicidade de conhecer, como já o disse, chegar a uma mui remota posteridade, parece-me certo que nos raios de sua glória não se contará um só devido ao seu mérito como pensador.

Ora, é por este lado que o tenho apreciado. Rafael também deixou escritos; mas ninguém deles hoje se lembra diante de seus quadros.

VII

Falta-nos agora apreciar os quatro espíritos brasileiros de mais saliente cunho neste século [XIX]. Estamos em boa companhia; minha pena não deve mais agitar-se trêmula sobre o papel; ideias amigas lhe darão suave curso.

O Dr. Luís Pereira Barreto, médico paulistano, é o primeiro que o leitor vai ver passar ante olhos. Sua obra[62], a julgar pela data do primeiro volume, deve ser estudada antes dos Ensaios e estudos de filosofia e crítica do Dr. Tobias Barreto de Menezes, divulgados um ano após. Esta não é, porém, a razão da antecedência que lhe é dada. O motivo da época desapareceria, ponderando-se que os ensaios filosóficos do último escritor, antes da tentativa de reuni-los em volume, saíram impressos em jornais e periódicos de Pernambuco desde 1868.

Na ordem cronológica o Dr. Tobias, como escritor, é de fato anterior ao Dr. Pereira Barreto, ao Sr. Visconde do Rio Grande, e ao Dr. Guedes Cabral. Devia vir antes. Como, entretanto, a evolução do sergipano tem sido complicada e longa, e como, sobretudo, na ordem do desenvolvimento das ideias, acha-se atualmente além dos três apontados, não deixa de ter fundamento deixá-lo para o fim.

O Dr Pereira Barreto é um comtista ferrenho que, como o mestre, quer até reformar o calendário[63]. O Dr. Guedes Cabral e o Sr. Visconde do Rio Grande são darwinistas pronunciados, que supõem, talvez, para sempre encadeada a verdade nas dobras do seu sistema.

Não serei eu que venha desdenhar das inapreciáveis vantagens que trouxe à filosofia a doutrina de Augusto Comte, o primeiro espírito francês deste século[XIX]. Há, porém, na grande obra do insigne pensador ideias completamente inaceitáveis e perigosas para a ciência.

Outro tanto, não serei eu que desconheça as nobres e salutaríssimas verdades que Darwin e Haeckel atiraram ao mundo; antes lhes rendo inteiro culto. Mas, em todo caso, o darwinismo tem ainda um pequeno lado sistemático, e contra os sistemas, isto é, contra a prisão simétrica da verdade deve a ciência premunir-se.

Valiosíssimos foram os serviços prestados por tão notáveis escritores do Velho Mundo, apreciáveis são os trabalhos dos seus adeptos brasileiros; mas compreendo, em prol da filosofia, um modo de ver e de julgar superior aos sistemas, um espírito crítico e científico, que, aceitos os fatos demonstrados por Comte, por Darwin, por Pouchet e por outros, os utilize, rejeitando as hipóteses improvadas e a regularização caprichosa da verdade.

O Dr. Tobias Barreto parece tender para este escopo; eis porque, na ordem lógica, deve ser colocado num ponto superior da escala da evolução.

Peguemos o livro do distinto paulistano.

As três filosofias devem ser três volumes; possuímos os dois primeiros: Filosofia teológica e Filosofia metafísica.

O seu autor, ao que parece, não quis fazer mais do que um trabalho de popularização; os volumes, que temos, são um apanhado da doutrina positiva; são claros e regulares. Ali, porém, não há originalidade alguma; o médico brasileiro cingiu-se por de mais aos seus mestres, e copiou-lhes até bons pedaços, como, com razão, já lhe foi censurado.

Existe, em compensação, grande cópia de vistas e juízos seguros e aproveitáveis no modo de encarar o autor as coisas do Brasil, o que é assaz meritório.

Por este lado é que pode ser estudado; a análise deve ir tocar no que é próprio, no que é individual ao autor. Não quer isto dizer que inauferiveis e estupendas descobertas fossem agora, pela vez primeira, desvendadas ao público brasileiro sobre a nossa história intelectual e política. Deve ali de preferência ser meditado, repito, por ser aquela a parte especial do livro, cuja face geral é melhor ser consultada nos grandes mestres da escola, e neles ser julgada. Esta última parte obriga, porém, a atenção, antes de passar-se à outra.

Eu disse, algumas linhas atrás, que a doutrina de Augusto Comte trouxe inapreciáveis vantagens à filosofia, mas que no grande todo depara-se com ideias inaceitáveis e perigosas para a ciência.

Tal é. O positivismo é um fecundo sistema, no caso de alguns outros que têm havido. Por mais que se esforcem os seus discípulos, na hora atual, para, colocá-lo ao nível dos últimos avanços do espírito, é sempre verdade que o grande edifício já nos fica pelas costas. Vamos para adiante. Julgo-me, seja dito de passagem, com plena isenção de espírito para apreciá-lo; outrora seu sectário, na ramificação dirigida por Émile Littré, só o deixei quando livros mais desprevenidos e fecundos me chegaram às mãos. Comte só foi largado por amor a Spencer, a Darwin, a Haeckel, a Büchner, a Vogt, a Moleschott, a Huxley, e ainda hoje o lado inatacável, aquilo que sempre restará de sua brilhante organização filosófica, me prende completamente.

O positivismo é um dos grandes sistemas de filosofia que, neste século, tem sofrido mais desajuizadas censuras. As críticas infundadas, os esconjuros e anátemas lhe têm vindo de muitos lados. Em regra, porém, é possível dividir-lhe os adversários em duas categorias: os oriundos da ignorância e dos prejuízos teológicos e metafísicos, e os firmados na ciência despreocupada. Entre os primeiros contam-se E. Poitou, Ad. Franck, Guizot, Secrétan, L. Reybaud; em o número dos segundos avistam-se os sete sábios acima lembrados.

Esta distinção é capital.

Se daqueles os golpes não são muito para temer, não sê-lo-ão igualmente os ataques dos últimos? É o que uma análise sincera, ainda que rápida, pode bem demonstrar.

Dizia Stuart Mill que dois modos capitais têm havido de julgar-se a obra de Augusto Comte: achar boa a organização e maus os detalhes, ou, vice-versa, reconhecer um grande número de ideias de detalhe como profundas e como mau julgar o grande todo.[64]

O insigne pensador inglês inclina-se para este último modo de pensar. Não me parece bem acertada semelhante distinção; no majestoso Cours de philosophie positive há defeitos e acertos no plano geral; há defeitos e acertos nos detalhes.

Entre os úteis serviços prestados por Comte à filosofia destacam-se, a meu ver, os seguintes:

A excelente classificação das ciências, superior às propostas por Ampère e por Spencer. O grande pensador classificou-as pela ordem natural, a ordem do desenvolvimento. Três são os princípios fundamentais de tal trabalho: 1º) os fenômenos se desenvolvem na ordem de sua complexidade crescente, e de sua generalidade decrescente; 2º) cada ordem de fenômenos, exigindo induções que lhe são próprias, só pode tornar-se sistemática sob o impulso dedutivo resultante de todas as ordens menos complicadas; 3º) as ciências mais especiais e mais complexas requerem não só as verdades das ciências mais simples, como também seus métodos[65]. Firmado nestas bases, o sábio francês classificou as ciências em matemática, astronomia, física, química, biologia e sociologia. Tudo é bem deduzido; há, porém, aí um pequeno defeito de detalhe. Comte desdenhou inteirame um dos trabalhos psicológicos e estabeleceu um hiato entre a biologia, como ele a encarava, e os estudos sociológicos. Foi levado a este passo pelo modo anticientífico por que foi tratada até seu tempo a ciência dos fenômenos cerebrais.[66]

De igual anátema feriu ele a lógica, a economia política e a medicina. Entretanto, estas ciências, evitando, cada vez mais, os processos e aberrações metafísicas, vão tocando no terreno dos fatos positivos e se constituindo em aproveitáveis estudos. Pelo que toca à psicologia em particular, os progressos da psicofísica não permitem mais um semelhante abuso[67].

A ideia de sujeitar a filosofia aos fatos demonstrados pelas outras ciências, elevando-a ao caráter de ciência geral, incumbida de preparar a intuição do mundo, o que é um resultado da classificação, que o leitor já conhece, é um não menor título do sistema que analisamos. Ficaram, assim de uma vez por terra os métodos a priori, os fatos improvados, as conclusões arbitrárias, e a filosofia, sob a tutela das ciências de observação, pisou no solo das verdades demonstráveis.

A declaração devia, porém, ter sido mais formal e completa, indicando como alvo supremo, para onde vamos caminhando, a supressão futura de semelhante ciência, por inútil. O estado atual de fracionamento de nossos conhecimentos exige esta recapitulação de todos eles, como um estudo à parte. É de esperar que o progresso permita esta síntese sem as dificuldades, hoje existentes, e sem o recurso indébito a uma má organização científica particular.

É também um grande mérito do positivismo o ter abraçado, e ajudado a desenvolver e a propagar, os quatro princípios fundamentais do monismo contemporâneo: a relatividade, a imanência, a evolução, e a unidade dos seres. Estes elementos indispensáveis à ciência de nossos dias não foram descobertos por Comte. Ele os aceitou e é, por isso, um benemérito do pensamento livre[68].

Mas o que é altamente duradouro e inapreciável na obra do reformador vem a ser a sua lei da história, a lei dos três estados: teológico, metafísico e positivo.

Esta classificação é de todo o ponto superior à de seu mestre Saint-Simon e à proposta por seu discípulo Émile Littré.

Têm-lhe feito críticas que, em geral, pecam pela base, e se acham de antemão refutadas no grande Curso. As duas principais são: que os três estados ainda hoje coexistem, e não são, portanto, sucessivos; também que, sobretudo, em alguns países não se pode aplicar a tríade histórica.

Guizot, o historiador e parlamentar francês, patrocinou com incrível leviandade a primeira destas censuras[69].

O próprio Comte estranhou semelhante disparate. O fato da coexistência limitada desaparece diante da verdade do predomínio deste ou daquele estado.

A outra objeção vemo-la repetida pelo próprio Wyrouboff, colaborador de Littré.
Segundo o ilustre russo, aquela grande lei histórica não tem aplicação para alguns povos, como os orientais, e a sua própria nação[70].

Parece-me que o moscovita errou seu tiro; as considerações históricas de Comte se referem ao que ele chamava a nossa civilização ocidental. Um exame, além disto, aprofundado das sociedades orientais não se recusa a provar que elas hão vivido em pleno estado teológico, apenas perturbado por algumas tendências evidentemente metafísicas.

Da lei dos três estados se deduz logicamente a guerra, respeitosa aliás, que é aberta contra os processos das duas filosofias anteriores, e a preconização, nunca assaz aplaudida, do método e tendências positivas.

Estas qualidades constituem o lado inatacável do sistema; por aí ele se prende e se confunde com o realismo científico contemporâneo, e é plenamente aceito pelos últimos corifeus do pensamento.

Tem, porém, graves pecados, que agora cumpre desnudar. No que possui de fecundo, vemo-lo patrocinado por Mill, Buckle, Spencer, Bain e Büchner, nobres pensadores a quem os fanáticos e maus discípulos de Comte, em sua degeneração, ousam, não poucas vezes, taxar de metafísicos!

Ouçamos o Dr. Luís Büchner. Depois de falar dos desvarios da teologia, diz-nos:

“A metafísica é, sobretudo, falsa e má nas aplicações à religião, à filosofia, à ciência, e aos atos ordinários da vida. O emprego que dela se fez outrora pode ser explicado e justificado pelo fato de corresponder a um estado infantil e embrionário da inteligência humana. Esta fase está hoje completa. Neste sentido pode-se, como praticou o filósofo francês Augusto Comte, designar os tempos passados como estados da ciência teológica e metafísica, que devem ser considerados como épocas de transição para chegar ao nosso tempo de filosofia positiva”.[71]

Entre os erros do positivismo, a meus olhos, destacam- se dois capitais; duas falsas apreciações, que importam, ao mesmo tempo, duas graves injustiças: o considerar o espírito crítico como um dado da metafísica e o perdurar em tachar o materialismo de errôneo e igualmente pertencente a esta fase anterior.

O primeiro destes enganos é fácil de mostrar. O espírito crítico não é uma doutrina, nem uma filosofia. Ele coexiste sempre ao lado do sistema predominante de ciência em um tempo dado. É assim que junto ao politeísmo derrotou o fetichismo, incorporado ao monoteísmo matou a doutrina politéica. Junto à metafísica bateu a teologia; aliado ao positivismo destroçou a metafísica. O espírito crítico é uma necessidade permanente e fundamental do pensamento, é uma condição da luta pela vida na esfera das ideias.

É ele que, na hora atual, apenso ao materialismo, despede sérios golpes à ortodoxia comtesca. Sem dúvida, houve uma crítica, e ainda ela existe, puramente metafísica, do mesmo modo que houve uma totalmente teológica. Mas é preciso distinguir entre a crítica e o espírito crítico; este permanente, indispensável e indestrutível, e aquela sujeita, por sua vez, à lei dos três estados.

Hoje a crítica deve ter um caráter positivo, e todo o trabalho de Comte o prova de sobejo. Sem o espírito crítico não poderia ele ter feito uma tão notável revolução no modo de considerar a história.

Deste erro capital apontado se deduz a falsa ideia do filósofo sobre a luta na vida; seu sonho da criação de uma autoridade central do pensamento moderno, que lhe trouxesse a paz.

Como autor de um sistema de reação contra os desmandos e dissenções metafísicas existentes em seu tempo, o francês quis podar a ciência, declarando fora de seu alcance bom número de questões. Foi levado também a pretensões gratuitas[72].

De seu falso modo de julgar o espírito crítico decorre também evidentemente o modo leviano por que seus discípulos falam da crítica histórica e religiosa alemã. Para eles, com o nosso Pereira Barreto no centro, foi o mestre que instituiu o modo honroso de tratar o passado na história!

Cumpre que se desconheça totalmente a ciência crítica de Além-Reno para avançar juízos daquela ordem. Os homens de cultura sabem todos, exceto os positivistas, que a ciência mitológica, religiosa, e histórica nas mãos dos Creuser, dos Bauer, dos Ottfried Müller, dos Ewald, dos Strauss e dos Mommsen era toda respeitosa e admiradora do passado, muito antes de lhe haver chegado aos ouvidos o nome de Augusto Comte. O voltairianismo do século XVIII, havia muito, estava batido e reformado, quando o comtismo apareceu.

O outro, e mais terrível, erro do sistema está em repelir o materialismo, sob o pretexto de metafísica.

Não deixa de causar certa impressão fortemente cômica ver um epígono, como o Dr. Luís Pereira, chamar a homens como Darwin, Haeckel, Moleschott... os mestres da ciência europeia, de metafísicos!

Este epíteto, aliás, nada exprime, sendo por eles próprios atirado de uns contra os outros. O positivismo está muito longe de ser uma doutrina compacta e, por seus adeptos, seguida sem contestação. Há entre estes profundas e insanáveis divergências.

P. Laffite, que dirige o grupo dito ortodoxo, chama a Littré e consócios de metafísicos... Afinal, os discípulos de Comte não sabem mais o que significa tal palavra[73]. Eles se estão dilacerando.

Um fato é para assinalar-se: ao passo que a doutrina darwínica e o materialismo em geral contam tantos e tão grandes vultos na atualidade, o positivismo, sistema truncado que degenerou em teologia com a sua Religião da Humanidade, só um espírito de primeira ordem até hoje conta: o próprio Augusto Comte.

É verdade que, às vezes, os sectários do decaído sistema pretendem chamar para seu lado a Spencer, Hoocker e Huxley, além de Mill, Buckle e Bain, que, noutras ocasiões, repelem como des demi-positivistes[74]. Mas é uma leviandade. Cumpre não conhecer a fundo os trabalhos de tais autores para nutrir semelhante ilusão. É sabido o célebre dito de Huxley sobre o sistema: “é um catolicismo, sem o elemento cristão”.

Ouçamos mais de perto as acusações formuladas pelos comtistas contra o materialismo. Para isto abramos o livro do Dr. Pereira Barreto, que tem estado até agora fechado.

Disse Michelet uma vez que pelos livrinhos de Littré não se conhecia bem o vulto respeitável de seu mestre. Ainda menos ficamos a conhecer o grande homem pelas compilações do médico de Jacareí. Em todo o caso, escutemo-lo. Diz ele, falando do sistema que repele:

“A sua matéria eterna, princípio de todas as coisas, é uma hipótese tão indemonstrável como a da existência de Deus; a ciência não possui meio algum de saber o que é essa matéria e confessa simplesmente a sua ignorância em tudo quanto diz respeito à esfera extra-experimental”.[75]

Primeiramente é espantoso ouvir da parte de um positivista a condenação do emprego de hipóteses, quando Comte escreveu uma tão bela página sobre o uso das hipóteses plausíveis[76]. Ora, que a matéria é indestrutível, é uma hipótese não só plausível, como demonstrável. Basta lembrar que em suas indefinidas manifestações, que estão ao alcance do estudo humano, ela sempre se transforma, nunca se aniquila. Não creio que o nobre médico ignore a lei da transformação e da persistência das forças. Em segundo lugar, ainda mais espantoso é vir-nos repetir que “a ciência não possui meio algum de saber o que é a matéria”! Neste caso, queimem-se todos os tratados de física e química, de que Comte fazia tanto apreço, e não falemos mais em classificação de ciências.

A observação e a experiência ficam sem base e sem alcance, condenadas, como estão, a priori, e irremediavelmente, a nada revelar da matéria. Os positivistas, neste ponto, são muito ingênuos. Inimigos do a priori, têm também o seu. De antemão já se sabe que com a matéria é perder tempo... Ora, deixem-se disto!

Às vezes, mudam de linguagem e declaram que a matéria se pode conhecer, mas não a matéria em si. Neste caso, recorrem a Kant, e empregam uma de suas sutilezas metafísicas. A isto já se respondeu vitoriosamente. Está hoje provado que a coisa em si, das Ding an sich, é um contrassenso. Diz-nos o ilustre Moindron, tratando desta objeção:

“Jamais semelhante objeção pode legitimamente ser feita. Moleschott, Büchner [...] que ignoravam ainda Augusto Comte disseram que faziam da matéria em si, e do princípio do materialismo e da ciência atual, a indissolúvel união da força e da matéria bem como sua persistência implicaria a negação, se não fizessem antes de tudo ressaltar o quanto esta expressão matéria em si é vazia de todo sentido”.[77]

A pretensão de que o conhecimento da matéria é extra-experimental nada é menos do que uma extravagância.

Dado mesmo que fosse verdade semelhante alegação, o próprio positivismo poder-se-à vangloriar de não admitir um só dado extra-experimental?

Parece que não; bastando ponderar que ele aceita a bela hipótese de Laplace sobre a formação de nosso sistema solar, hipótese não verificada experimentalmente[78].

Augusto Comte, como Schopenhauer, foi vítima de indisposições filhas de sua má fortuna social. Daí certas avançadas contra a medicina, contra os estudos que têm por objeto o pensamento, e seu rancor ao espírito crítico e ao materialismo. Ele não pôde ver se é verdade que existiu já, e ainda existia em seu tempo, um materialismo superficial e metafísico, semelhante forma de pensar ia, de dia em dia, adquirindo novas forças e tornando-se puramente positiva. Para este grande resultado foram tendendo constantemente as ideias e os trabalhos filosóficos desde os fins do século anterior. Na Alemanha, Inglaterra e França o movimento das opiniões científicas veio caminhando para o estabelecimento do realismo materialístico de nossos dias. Hume e Kant, que são os primeiros abaladores do velho edifício metafísico, Bichat e Broussais, por seus trabalhos de fisiologia, Hamilton, Comte e Mill, por seus esforços para rechaçar o absoluto do homem e do universo, têm os primeiros assentos entre os fatores do grande resultado.

Destarte, o positivismo, tal qual no-lo ensinam os seus próprios adeptos, longe de ser, como pretendem, a filosofia definitiva, não passa de um estado preparatório da verdadeira fase materialístico-positiva. Não é sem razão que já se lhe tem, por vezes, notado esta contradição: professar a doutrina da evolução e do progresso e julgar-se, todavia, a última palavra da ciência humana!

Ouçamos ainda o Dr. Pereira Barreto.

Fazendo a apoteose do seu sistema, diz-nos isto:

“Não tendo por método senão o método das ciências particulares, e, como estas ciências, não indagando senão a lei, o como e jamais o porquê das coisas, não pode senão sorrir quando vê os materialistas, acossados pelos espiritualistas, procurando penivelmente explicar a razão por que a matéria, arranjada em substância cerebral, produz o pensamento”.[79]

Eis aí alguma coisa de que o materialismo não se ri, porque sinceramente lastima, sinceramente tem dó de semelhante cegueira. Quem disse ao Dr. Pereira de Jacareí que o materialismo busca o porquê das coisas? Abra o digno dilettanti filósofo a mais popular das obras do Dr. Büchner, o grande renegado materialista, e traduza comigo algumas de suas palavras. O ilustre médico alemão, bem como Haeckel, como já o disse, repele a denominação ambígua e cáustica de materialismo, que pode ser tomada num sentido metafísico e inconveniente e busca substituí-la pelo nome de realismo, que se limita a procurar a verdade relativa, e a conhecer simplesmente os fenômenos sensíveis. Escreve ele:

“Em razão desta tendência, nós não podemos conhecer o porquê, mas tão somente o como das coisas; as leis descobertas por tais meios são as únicas que nos revelam a explicação dos fenômenos. Tudo isto basta para mostrar quanto é falso e superficial o juízo daqueles que designam sumariamente toda a tendência, que hoje preside à ciência e à filosofia, pelo nome de materialismo, expressão de desprezo, de sentido vago e diversamente interpretado. Cada autor antimaterialista liga-lhe um sentido, e supõe tudo haver dito quando o emprega. A ciência, em filosofia positiva, não é nem idealista, nem materialista, porém realista; estuda os fatos e busca conhecer-lhes as relações, sem importar-se com um sistema qualquer preconcebido e invariável, nem com esta ou aquela tendência. Os sistemas, em geral, não podem conter toda a verdade, mas somente metade dela, e, pois, prejudicam as investigações, impondo-lhes um alvo fixado de antemão”.[80]

São palavras para desorientar um positivista, como o Dr. Pereira Barreto. Elas revelam três fatos capitais: que existe um modo de crer na filosofia positiva muito diverso do da seita comtesca; que a ciência de hoje foge dos sistemas, rejeitando a expressão materialismo, não porque abandone as suas doutrinas, mas porque o termo pode ser explorado, como o foi pelo médico de São Paulo, e, finalmente, que o realismo monístico, ou filosofia positivo-naturalista de Büchner só inquire do como e não do porquê das coisas.

O nosso autor devia ser um pouco mais ponderado e indagar do estado atual das questões para não se expor tão facilmente. Uma coisa é para notar, que tem sido bastante descuidada pelos positivistas do Brasil. Logo que divulgou-se o sistema de Comte no grande mundo europeu, máxime na Inglaterra e na Alemanha, todas as cabeças ávidas de luz, e influenciadas pelo realismo científico, o examinaram e aceitaram francamente tudo que lhes poderia auxiliar na grande obra. Foi o que fizeram Mill, Buckle, Spencer, Büchner e Vogt, naqueles dois países, e Gabelli, Vilari e Marselli, na Itália, os quais são tão uníssonos em celebrar as eminentes qualidades do filósofo francês, quão firmes em repelir-lhe os desacertos. Destarte, o novo modo de pensar teve no positivismo um poderoso auxiliar. Na luta pela vida assimilou-se os bons germens do Cours de philosophie positive, e caminhou adiante, desprezando as peias sistemáticas. Não assim os sectários obcecados, como o Dr. Barreto. Estes permanecem terríveis, intratáveis, irreconciliáveis no meio do alheio triunfo, e apenas, de perto em perto, deixam ouvir o ridículo esconjuro: são metafísicos!! Não pode haver mais inglória posição do que a destes fanáticos de nova espécie, que só devera ser rechaçados pelo riso de Molière.

Um exemplo frisante da anomalia em que se colocaram presenciou, não há muito, a ciência europeia. É sabido por todos os bons espíritos que as ciências particulares, com o seu constante progresso, vão tomando o terreno da velha filosofia, que não passa hoje de uma generalização.

É sabido mais que a força e segurança das genuínas ciências está na ausência de sistemas. Em matemática, por exemplo, não há duas doutrinas sobre as teses demonstradas. Para um ideal aproximado vão tendendo todas as mais organizações de conhecimentos humanos. Foi no meio de tão salutares influxos que apareceu a fecundíssima doutrina de Darwin no horizonte do pensamento como um astro benfazejo. Nomes já feitos, reputações já firmadas na Inglaterra e na Alemanha, os dois países privilegiados da vasta cultura, não duvidaram em aceitar a nova teoria. O mais gigantesco dos movimentos científicos deste século [XIX], sabe o leitor como o positivismo francês o recebeu? Desenterrou a velha praga da metafísica e jogou-a na face do pensador britânico!

Eis a linguagem inconveniente do Dr. Pereira Barreto:

“A filosofia positiva há muito que se pronunciou sobre a ideia primeira de Lamarck, e não aceita senão a escala abstrata dos seres; assim encarado, o darwinismo é uma hipótese científica perfeitamente legítima, que recebe uma esplêndida confirmação por parte dos testemunhos históricos. E, mesmo sob o ponto de vista concreto, encontra igualmente o mais sólido apoio na medicina e, com particularidade, na cirurgia. Mas o darwinismo ultrapassa os limites da investigação natural e procura a causa primeira da vida: desde então torna-se um vão sistema de filosofia metafísica, como exuberantemente o demonstrou o seu ilustre rival, Agassiz”.[81]

Este pedaço é tentador: “O positivismo, há muito, se pronunciou”. Está parecendo com o palavreado dos padres: a Igreja se pronunciou, Roma locuta est. “Aceita somente a série abstrata dos seres”. E por que também não a concreta? Fora bom que o nosso autor fosse um pouco mais explícito, para se lhe dizer que o darwinismo, há muito, também já se pronunciou sobre as ideias últimas do positivismo, e declara-lhe que, numa ciência concreta, como é a biologia, o vir-se falar em série abstrata é, pouco mais ou menos, um contrassenso. “Mas o darwinismo ultrapassa as condições da investigação natural e procura a causa primeira da vida” Aqui se oculta um pouco de ignorância e não pequena.

É falso que a doutrina transformista procure a causa primeira da vida, no sentido que lhe dá o nosso médico. Se este leu Darwin, há de ter visto que o profundo naturalista-filósofo aceita o fato da vida sobre a Terra, sem se pronunciar sobre a sua origem. O sábio inglês foi de uma prudência a toda a prova. Não é este, porém, o lado mais palpitante da insciência de que falei. Está no próprio conceito do que seja uma causa primeira.

Os positivistas têm um espantalho; a todo o propósito estão a bradar: isto é uma causa primeira; é uma causa final! E responde então o coro uníssono com o conhecido estribilho: é metafísica!

Se o nosso doutor leu Haeckel deve ter visto na soberba lição 13ª da Natürliche Schöpfungsgeschichte que este insigne pensador, que, aliás não guarda a prudência de seu mestre neste ponto, não procura a causa primeira da vida, no sentido metafísico desta expressão. Recolha-se o nobre positivista e reconheça que as causas primeiras, que estão além da investigação humana, são as transcendentais, ou teleológicas, e não as imanentes ou monísticas. Esta distinção é essencial. Contra as primeiras é que Comte fulminou o seu anátema, que o Dr. Luís Pereira quer estender, talvez, até às segundas, e com que razão? Qual o motivo por que não havemos de indagar das causas dos fenômenos, quando estes são experimentáveis, e suas causas são neles procuradas, e não no mundo das fantasmagorias?

“O darwinismo é um vão sistema de metafísica...” Palavreados desta ordem, de que, todavia, o Dr. Barreto não tem a responsabilidade, porque os achou feitos em Littré e confrades, perturbam a serenidade do crítico. O que é verdade felizmente é que eles próprios não se entendem sobre o que seja a metafísica. O jovem escritor francês, por vezes citado, Z.-Moindron, tirou a limpo este ponto. Ouçamo-lo em parte:

“Mas o que entendem pela metafísica? Littré, adotando a definição de Janet, — quem quer que pensa e reflete sobre as origens das coisas é metafísico — escreve algures: ‘A metafísica pede à psicologia a construção de ideias a priori sobre a constituição primeira e última das coisas; o valor destas ideias a priori repousa sobre a hipótese de que o que foi concebido no espírito existe efetivamente nas coisas, e tem, para falar a línguagem da escola, uma realidade objetiva’. Sendo isto dado, é difícil acreditar-se que Littré tenha podido confundir os materialistas com os metafísicos, quando ele próprio os acusa, noutros lugares, por haverem introduzido nas ciências superiores o método empregado nas inferiores, e por usar, por exemplo, dos dados físico-químicos para destruir as entidades ainda existentes na biologia”.[82]

Outro tanto, custa a crer que venham agora confundir os transformistas com os metafísicos sob o fútil pretexto, oriundo da confusão das ideias, de que eles procuram a causa primeira da vida!

Os positivistas fazem muito alarde de haverem, eles sós, deitado por terra as concepções a priori, onde gostam de compreender todos aqueles que os desagradam. Entretanto, um olhar lançado na história vai descortinar a morte daquelas ideias iniciadas em Hume e Kant, adiantada em Comte, mas irremediável justamente neste salutar sistema de Darwin de que os ferrenhos discípulos do grande francês tanto desdenham. O Dr. Tobias Barreto, que tem em muito maior escala do que o médico de Jacareí o justo conhecimento dos sistemas filosóficos dos tempos modernos, assim se exprime nos concisos e belos períodos seguintes escritos em língua alemã:

“Nenhuma pessoa culta deve, hoje em dia, ignorar que o dogmatismo da filosofia mais recente foi rompido por Hume, cuja crítica inexorável Kant fez em escala ainda maior e mais profundamente. Assim, é maravilhoso verificar quanta admiração tais verdades triviais possam provocar entre nós. Com efeito, muito antes de ter Augusto Comte, o fundador do positivismo na França, expulso o absoluto de suas posições para o país das quimeras, Hume tinha já derrubado todas as construções metafísicas. E desde então é, como diz Hermann Hettner, geralmente reconhecido que o ato genial de Hume representa uma das reviravoltas mais decisivas do pensamento humano. Foi também a dúvida do grande filósofo escocês na justificação dos juízos sintéticos em geral, que se tornou o estímulo e o ponto de ligação para as profundas análises de Kant. Este mesmo confessou que foi a influência de Hume que o despertou de seu sono dogmático. Impressionantes e sérias palavras estas, como que esculpidas em mármore, e que concluem a Investigação sobre o entendimento humano do admirável cético. Diz ele: ‘Quando percorremos as bibliotecas, perseguidos destes princípios, que devastação deveríamos fazer! Se tomamos em nossas mãos um volume, de teologia ou de metafísica escolástica, por exemplo, perguntemos: Contém algum raciocínio abstrato acerca da quantidade e do número? Contém algum raciocínio experimental acerca dos fatos e coisas existentes? Também não? Pois então atiremos à fogueira, já que não pode conter senão sofística e ilusão’. Com efeito, é isto uma posição profunda e magnífica”.[83]

São palavras de um cultor do realismo científico, tão inimigo da teosofia e da metafísica, quanto das impossibilidades fanáticas que combato.

Destruamos mais algumas destas; temos aqui uma. Diz o Dr. Pereira Barreto:

“Ao passo que o espiritualismo está condenado, para ser lógico, a não conceder senão uma mui exígua influência ao papel da educação, o materialismo, pelo contrário, transpondo a verdade dos fatos de observação, ousa proclamar que toda a conduta do homem é mero e inevitável resultado da educação que recebeu. Este é incontestavelmente o mais alto ideal a que a sociedade possa aspirar; a filosofia positiva o aceita, sem contudo deixar de reconhecer que há nele grande exageração... O materialismo não toma em consideração as predisposições naturais, congênitas ou adquiridas, não atende à pressão do passado nem às mil circunstâncias biológicas e sociais, que podem influir de um modo deplorável sobre o caráter moral do indivíduo”.[84]

Semelhantes palavras afirmam dois fatos: que o materialismo contribuiu por sua influência para proclamar- se a excelência da educação, a eficácia que dela pode auferir a sociedade; que vai nisto grande exagero, porque ele não atende às influências do passado e às da natureza. Dificilmente se encontrará consignada com maior segurança a incapacidade positivista. Para ter ganho de causa contra o naturalismo materialista, fantasia que este não atende às predisposições congênitas ou adquiridas dos indivíduos.

Não há maior engano. O leitor au courant dos avanços da ciência, já deve ter notado a inverdade ali contida. Ignora, por acaso, o autor d’As três filosofias que a doutrina da seleção tem duas ramificações: a seleção natural e a artificial? Não sabe que a primeira atende a todas as inclinações da natureza, sendo só a segunda que se dirige à educação?

Ser-lhe-à desconhecido que uma das grandes leis do transformismo é a hereditariedade, não passando a adaptação às circunstâncias de lei auxiliadora da luta pela existência?

Pelo contexto de seu livro o nobre escritor revela andar um pouco alheio às investigações da escola de Darwin. De outro modo, não viria galantear-nos com a triste lembrança de que o materialismo não atende às impressões da natureza. É até uma das melhores glórias da doutrina da seleção o ter dado toda a importância às influências de tal ordem.

Neste ponto não creio que deva estender a minha demonstração. Qualquer dos tratados dos grandes mestres da escola é abundantíssimo em fatos demonstrativos do muito que o Dr. Luís Barreto anda iludido. Ele, ao que parece, conhece e julga o sistema pela lacunosa exposição que dele fez Quatrefages, bem como conhece Schopenhauer pelo livrinho de Dumont!

Mais um traço característico. Diz o nosso escritor:

“Compreende-se deste modo que para o materialismo a questão cifrando-se apenas em uma símples insuficiência de instrução científica (?), é lhe fácil preencher a lacuna e incorporar-se no positivismo”.[85]

Ninguém os entende. Ao princípio o autor d’As três filosofias, repetindo pedaços já muito conhecidos de seus mestres, dizia que o magno engano do materialismo era querer saber demais, indo além da experiência; agora já lhe falta instrução científica! Isto é característico, sendo dito pelo pequeno círculo de onde parte. O materialismo, com as profundíssimas alterações que sofreu em seu método e resultados, não precisa incorporar-se ao cadáver do positivismo. A parte viva e imorredoura deste sistema, há muito, ele se lha incorporou, e não faz disto mistério. Como doutrina despreocupada e sã, não repele os auxílios que lhe possam vir deste ou daquele lado. Não tendo em vista constituir-se em sistema e mostrar-se adversário do progresso, não trepidou em apoderar-se das luzes que lhe trouxe o insigne Comte. Mas renegar os seus princípios essenciais para voltar atrás, parece uma ingenuidade o exigir-se-lhe. Se eu não temesse cair em igual descuido, aconselharia ao positivismo que, se não quer definitivamente morrer, comprometendo o seu fundo de verdade, deixe a sua teimosia e volva-se para o realismo. Só isto o pode salvar. De seu falso modo de encarar a este último nasce um de seus maiores erros: o perdurar em repelir a verdade de que a vida seja um resultado da combinação das leis físico-químicas.

Ainda ele tem, por outro lado, certas veleidades teômanas, instituindo uma religião da humanidade.

Moindron o desculpa neste ponto; julgo, porém, que deve aí ser feita uma redução, ensinando-se apenas o respeito aos grandes benfeitores do gênero humano, sem haver, todavia, nisso a mais leve sombra de religiosidade. E este respeito é o que de fato já existe praticado por todos os espíritos esclarecidos. O darwinismo, destruindo o velho erro antropocêntrico, andou muito mais bem avisado do que o comtismo com a sua criação religiosa, tendo o homem por alvo.

De tudo o que fica dito perceberá o leitor que me não anima o mais leve sentimento de oposição ao velho sistema que em outros tempos professei. Por amor da verdade, fui levado a abandoná-lo; vejo, porém, que, deixados certos prejuízos, ele é a verdadeira filosofia. Suas leis da história são imorredouras. O que lhe cumpre é alijar-se da má bagagem que o desvirtua, e não contrariar a marcha do pensamento contemporâneo de que foi um dos mais poderosos instituidores.

Antes de passarmos à parte especial da obra do Dr. Pereira Barreto, não deixo de notar um pequeno equívoco que comete a propósito de Strauss. O moço filósofo rende profunda homenagem ao gênio incomparável do célebre crítico. Não saberei assaz aplaudir a tão sincera manifestação, e deixo-a consignada por ser altamente meritória para o nosso autor.

David Strauss é realmente um dos maiores apóstolos da verdade; seu nome deve figurar entre os de Comte e Darwin, formando o belo triunvirato do século XIX. Mas aqui mesmo eu vejo uma prova brilhante do lado fraco da doutrina positiva. O distinto exegeta alemão, que coloco na companhia dos dois chefes dos maiores sistemas de nossos tempos, em sua velhice, quando despediu-se de seus sonhos, de suas vacuidades metafísicas, foi para inclinar-se para o seu companheiro da direita, foi para render homenagem ao darwinismo. Era a maior glória a que podia aspirar o sábio inglês!

Por que o mesmo não fazem os sectários de Comte?

O Dr. Pereira Barreto diz que o autor da Vida de Jesus se fez positivista... Sim; mas pelo modo por que o são Haeckel e Moleschott, pela adoção do materialismo científico. É prova disto o belo livro: Der alte und der neue Glaube.

Cheguemos agora à parte mais original d’As três filosofias: as aplicações aos acontecimentos do Brasil. Poucas linhas serão bastantes para revelar o enorme serviço que ao nosso país fez o digno escritor. Recomendo instantemente a leitura das suas páginas relativas a nós. São, no 1º volume, a “Carta aos Srs. Senadores Jobim e Godoy”, e o artigo “Uma Palavra aos Políticos”; no 2°: o Prefácio e o artigo “Aos Legistas”.

O autor ensina que o Brasil tem atravessado uma penível Idade Média, e tem vivido atufado num pélago de teologismo; agora é que vai passando à fase metafísica. Nossa história, a seu ver, é nenhuma; começou na guerra com o Paraguai, e só tem produzido dois fatos de algum interesse: a libertação do ventre escravo, e o conflito religioso. Sobretudo ele se insurge contra a inclinação de nossos homens de letras em geral, quando na oposição, ou quando de cima, a atribuir os nossos males ao governo, sem conhecer que este é sempre uma dádiva da nação, que deve ser a primeira a regenerar-se pela ciência, emergindo da ignorância em que tem estado afogada. Neste sentido suas notas e conclusões são excelentes. É um dos lados fecundos do positivismo o de suas aplicações à história. Empregado com critério pode produzir trabalhos força da History of civilization in England de Thomas Buckle, apesar de Littré chamar a este, com visível menosprezo, um semipositivista, como já ficou notado[86].

O imortal Buckle professa que o governo é, quase sempre, uma força de conservação, e de dificuldade ao progresso social, é verdade; mas que está sempre em equação com a índole e as qualidades do povo. Sem este reformar-se, impossível é aquele mudar de rumo[87].

O Dr. Pereira Barreto é franco com os seus patrícios; aí vão algumas de suas palavras:

“Não temos tradições, não podemos ter senão momices dos partidos europeus. A história pátria começa de ontem: é a sua primeira página a emancipação do ventre proletário; a questão clerical a segunda; e a Guerra do Paraguai o seu sombrio discurso preliminar. Podemos dizer, portanto: ambicionar avidamente o poder; conquistá-lo; perdê-lo; retomá-lo; fazer leis, quando a ciência não as faz, mas sim as descobre; tecer louvores eternos a uma constituição fossileia; remendar, e traçar círculos na areia como o paisano do Danúbio, não é por certo conservar; é simplesmente surpreender a boa-fé da nação. Por outro lado, indignar-se, insurgir-se contra os retrógrados, amaldiçoar tudo quanto nos legou o passado, fazer fogo de pelotão sobre os áulicos da monarquia, para no dia seguinte ir deitar-se aos pés do mesmo amo, não é por certo progredir, é confessar-se impotente, e tão somente deixar transluzir o despeito [...] Já estamos fartos de diplomas, e o que precisamos hoje, é menos ouropel na frase e mais positividade de método na doutrina. Os nossos avós resgataram com a vida as liberdades, que nos legaram; e o feudalismo ressurge disfarçado sob uma pele de carneiro. Está já, ou vai ser breve, eliminada a Igreja; resta a Academia com seu hirsuto aspecto de emperrado maquinismo.
 Das Pergament, ist das der heiligen Bronnen,
Woraus ein Trunk den Durst auf ewig stillt?
Erquickung hast du nicht gewonnen,
Wenn sie dir nicht aus eigner Seele quilt.
(Goethe, Faust)
 O ensino oficial constitui e constituirá sempre, ao mesmo tempo, uma sementeira de turiferários, que com o excesso de incenso asfixiam a alta administração do Estado, e de descontentes incuráveis, que, incapazes de renderem oportunamente o devido preito ao mérito real, dilaceram a sociedade e perpetuam a anarquia. O ofício social das Academias limita-se, salvando apenas as legais aparências mentais, a vender, só àqueles que os podem comprar, esses diplomas bastardos, que servem de carta de entrada aos lucrativos empregos e às funções de ostentação [...] Apesar de o Brasil ter visto brotar no seu solo uma escola de progressismo, é prudente por enquanto não nos jactarmos ainda muito do progresso; deixemos a outros países os sonoros substantivos, e cuidemos em atravessar, o mais rapidamente possível, a nossa pesada Idade Média [...] Em política, a metafísica brasileira atingiu o seu ápice, quando pelo seu órgão, o mais autorizado, formulou O Libelo do Povo. Os acontecimentos subsequentes não tardaram a demonstrar que esse apocalipse do desespero social, não só não fez adiantar um passo a questão, como ainda poderosamente concorreu para o desequilíbrio mental e moral das novas gerações, que se acharam em frente de um exemplo da mais inaudita deserção. Que os verdadeiros crentes na marcha do progresso nada percam, entretanto, de sua fé perante abortos desta ordem. Não é um único indivíduo que é o responsável moral pelo exemplo indicado; é uma doutrina, é uma escola inteira, é todo um sistema de concepções, que, desconhecendo profundamente o caráter social dos nossos tempos, não possui outra solução para os males do povo senão o absoluto dos seus remédios políticos [...] Não precisamos declarar que não culpamos partido algum em especial por este estado de coisas; não fazemos mais do que recusar o nosso placet ao título de progressistas que assumiram particularmente os liberais brasileiros, quando, ainda há pouco, desconheceram totalmente o verdadeiro caráter da evolução, humana, negando-se ostensivamente a subscrever em favor da raça que nos serve”.[88]

Todos estes trechos são do primeiro volume d’As três filosofias nos lugares indicados. O segundo nos oferece também algumas passagens caraterísticas. Ei-las:

“A metafísica brasileira ainda se acha no primeiro grau da escala evolutiva do espírito; resta-lhe franquear muitas barreiras dificeis e sucessivas para se aproximar do terreno científico [...] Toda a nossa agitação social se reduz a um perpétuo ataque contra as pessoas [...] Por um resto de aderência às crenças sobrenaturais, ao indefinido das convicções, ao maravilhoso, todos esperam que, mudando-se as pessoas, as coisas mudarão, como por encanto, para melhor [...] O conflito religioso, que de novo se levanta candente e pejado de sinistras consequências, ameaçando a nossa paz interna, comprometendo a vitalidade de nosso crédito e invalidando aos olhos do estrangeiro os nossos títulos de povo civilizado, não pode esperar só do governo a sua solução. O governo não tem competência para tomar a iniciativa em problemas desta ordem. É seu dever sagrado, se quer ser probo e honesto, limitar sua ação à estrita observância da marcha da opinião nas camadas mais cultas da sociedade, e sancionar com firmeza a tendência preponderante indicada pela fria observação dos fatos. Não pode entrar em seu papel a tarefa de reformar as opiniões. Esta augusta e solene missão só cabe inteira e exclusivamente à filosofia [...] Esperar que um povo ignorante e fanatizado nos dê suas simpatias, quando se trata dos interesses da outra vida, não é só uma utopia, é uma exorbitância de psicologia. O povo não se move, porque ele está com Frei Caetano, e não conosco. Quanto a nós, não temos esperança senão na geração que hoje nasce, e, isso mesmo, se soubermos desde já aproveitar as duras lições do presente”.

Subscrevo todas estas palavras, que não poderia por demais elogiar, salvo um pequeno descuido do ilustre nacional. É quando ele diz que a pátria metafísica tocou ao seu ápice no pobre panfleto, O Libelo do Povo, e, noutro lugar, declara que ela deu apenas o seu primeiro passo. Aí vai uma pequenina contradição. A verdade é que este país está ainda mergulhado no mais pavoroso teologismo, apenas perturbado por algumas arrancadas metafísicas de pura imitação, de pura cópia do que vai pela Europa. Destarte, a sua Constituição Política, o seu Código Criminal, e suas leis orgânicas, por parte do governo; seu Libelo do Povo, suas Cartas de Um Solitário, suas Cartas de Erasmo, o seu Estado e a Igreja de Ganganelli, por parte de alguns espíritos da oposição, são suas avançadas no domínio da metafísica, além de alguns dos pequenos escritos filósoficos que tenho apreciado no correr deste trabalho.

O que há de mais exato nos pedaços escritos pelo Dr. Pereira Barreto, em um estilo um pouco vivaz, e que expuz aos olhos de meus leitores, vem a ser a segurança com que ele absolve em parte o nosso mau governo, inculpando também o triste povo, e as classes ditas ilustradas do país pelas misérias que nos deprimem. São verdades que nossa imprensa oposicionista de todo desconhece, ou finge ignorar. Seu proceder não dá aqui lugar a dúvidas. Entretanto, alguns espíritos desabusados, por vezes, têm condenado tão terrível cegueira. A 7 de junho de 1874, antes de divulgadas As três filosofias, em um pequeno periódico da província de Sergipe, no fervoroso da lide religiosa, tão desfrutável em algumas de suas fases, eu publicava estas palavras, que servem para mostrar que das províncias é que poderemos esperar qualquer tentame proveitoso de emancipação, e não da asfixiante e mortífera atmosfera da nossa tão desprestigiada Corte:

“Sempre é um falso e injusto empenho o atribuir todos os achaques de uma nação à conta de seu governo. Há sido este, entre nós, o método empregado, aquele que reúne os aplausos frequentes dos rotineiros do dia. Entretanto, é o seu erro volumoso e bem exposto aos olhares de todos. É uma dádiva das ideias doutrinárias de que a política de uma nacionalidade é coisa que se fabrica a sabor de experimentadores. Este absurdo está, há muito, inutilizado pela ciência dos competentes. Os estragos de um país não podem correr somente por conta dos que o dirigem; bem como a vida nacional, em todas as suas manifestações — políticas ou sociais —, não é só um produto daqueles, e sim um resultado de suas próprias aptidões imanentes. Não é que, como alguns, neguemos todo o valor à iniciativa que possa vir do alto. Estes são uma nova espécie de aprioristas para quem todos os fenômenos da existência de um povo estão, de antemão, marcados por sua natureza mental. Para nós parece ser um achado, estabelecido pelos debates destes e de seus adversários, que a política em algumas de suas linhas, em alguns de seus traços mais gerais é matéria amoldável em mãos de estadistas hábeis; mas que o lado particular, íntimo, e, por assim dizer, pessoal da vida pública só é determinado pelas forças que ela mesma conta para sua evolução. Todos os desenganos, pois, e é este o ponto a que anelávamos chegar, todas as decepções que haja o país de saborear no correr da lide que atravessa, ele não deve por à conta de seus agentes, eliminando-se, destarte, da porção de responsabilidade que lhe cabe. Lembra-nos a expressão do hegeliano Vera, criticando de Strauss: ‘não quero ser o censor de meu tempo, porque eu também sou de meu tempo’. Sem receio da aplicação que possam ter as palavras do filósofo àqueles que dizem mal de seu país, sendo eles também de seu país, julgamos que o italiano enganou-se algum tanto. É uma razão de mais para sermos acoimados de veracidade quando profligamos nosso tempo ou nossa pátria, porque não podemos ser tomados por suspeitos. Falamos contra nós mesmos pela força suprema da verdade. Digamo-lo, portanto, francamente: o povo brasileiro, por seu viver histórico, e por todas as máculas que atualmente desfiguram-lhe o semblante, é um povo medíocre, sem alto arroubamento moral, que não deve ter a pretensão estéril e infantil, de exigir o impossível para si. É uma nação sem cultura, eivada de caducos prejuízos, que tem a habilidade de criar problemas epígonos justamente próprios para serem resolvidos por seus estadistas pigmeus. Uns e outros se compreendem e se completam. O país está envolto em sombras. Pode-se-lhe aplicar o estigma teológico de Job: Et circumdedit eum Deus tenebris. Estadistas e povo estão em equação adequadíssima”.[89]

É ainda uma ligeira citação pessoal reclamada pela natureza deste escrito.

Para assinalar, porém, e estigmatizar, como merece, a profunda miséria de nosso abatimento teológico, a ignorância, sem nome, que nos estraga e deprime, vou cumprir o penoso encargo de denunciar aos pouquíssimos espíritos independentes e ilustrados, que mourejam desconhecidos no vasto corpo deste país, os seguintes fatos, que todos se resumem num só, isto é, em nossa profunda ineptidão atual.

O Dr. Pereira Barreto, com a publicação de sua obra, recebeu da imprensa e de grande parte do público brasileiro os mais grosseiros e injuriosos epitetos, se é que com alguma coisa de pior não foi mimoseado. O Dr. Guedes Cabral, da Bahia, com a aparição d’As funções do cérebro, foi religiosa e patrioticamente atassalhado pela imprensa fradesca, foi pateado nas ruas pela canalha assalariada, segundo sou informado, e viu-se compelido a retirar-se para uma povoação de Sergipe, por lhe não ser possível obter, na sua capital de província, a clientela que, na qualidade de médico ilustrado, tinha direito de esperar.

O Dr. Tobias Barreto, por causa dos seus Ensaios e estudos, foi pública e particularmente insultado por alguns malsins que teve de chamar à responsabilidade, além de inúmeras descomposturas e caricaturas infames que sofreu pela imprensa.

O pequenino autor deste opúsculo já foi metido em processo por uma Faculdade de Direito, por declarar, em uma defesa de teses, ser uma ignorância o desconhecer-se que, nas altas camadas da ciência atual — a metafísica está morta! — e, por este fato, preterido, duas vezes, de tirar uma cadeira de filosofia, que foi dada a um pobre anônimo.
Por estes fatos, ajuize-se do grau de cultura que dirige o nosso governo, nossa imprensa, e nossas Academias... e do imenso serviço prestado a este país pelo benemérito Luís Pereira Barreto.

VIII

O volume a ser analisado[90] apareceu, não há muito, no Rio de Janeiro, sem declaração do nome do autor. O anônimo, porém, dizem ser o Sr. José de Araújo Ribeiro, Visconde do Rio Grande, nosso antigo ministro junto ao governo francês. Este boato parece bem fundamentado, pois acompanhava cada um dos volumes expostos à venda uma tira de papel manuscrito com a firma do digno visconde. Este, ao que tenho podido saber de sua biografia, é um legista, um homem formado em direito, como se diz vulgarmente, e um membro mudo do senado brasileiro. Não é sem propósito que lembro estas duas qualidades do ilustre titular.

O autor d’As três filosofias, que foi objeto do capítulo antecedente, fazendo ao nosso código criminal mui acertadas censuras no que toca ao seu artigo que veda o questionar-se sobre a imortalidade da alma e a existência suprema, declara que tal proibição só pode dirigir-se aos médicos e engenheiros, os únicos, no país, que, pela natureza de seus estudos especiais, se acham em estado de elevar-se a essa cultura do pensamento.

Não serei eu que conteste a grande instrução de nossos médicos e engenheiros[91]. Cumpre-me, entretanto, ponderar que, na lista dos filósofos do Brasil, encontro um só tipo pertencente, ao que parece, àquela última classe, o Dr. Pedro Américo, ferrenho espiritualista, e, dos cinco médicos aí contados, três, os Drs. Eduardo França, Domingos de Magalhães e Soriano de Souza, são mais espiritualistas que a própria espiritualidade, mais sectários da imortalidade do que esta mesma o seria.

Por outro lado, os dois escritores filósofos pertencentes à classe dos legistas, o Visconde do Rio Grande e o Dr. Tobias Barreto de Menezes, são não só dos mais originais e profundos como dos mais despreocupados dos aferros da educação.

Não envolve isto a defesa do bacharelado brasileiro, a que por minha vez pertenço, cujas péssimas condições cientificas sou dos primeiros a proclamar, e cuja reforma se me antolha indispensável. Os pátrios legistas, em sua quase generalidade, são a nossa classe mais perigosa, por enfatuada e ignorante. Só podem correr parelhas com os seus irmãos de cultura, os membros do nosso clero. Nutridos do espírito frívolo da baixa literatura que cultivam nas Academias, e de chatas antigualhas dos juristas lusos, ei-los que proclamam a sua pobre jurisprudência a mais sublime das ciências, e fazem da retórica a sua arma de combate![92] A essa classe inculta, e desnorteada por não sei que falsa intuição do mundo e da humanidade, devemos, em grande parte, o nosso desconchavo político e o nosso abatimento social. Onde quer que ela tenha predominado, o mesmo se nota, em maior ou menor escala. Não é sem razão que se pode indicar como uma das causas das desordens públicas da França e da Espanha aquela preponderância, ao passo que o sossego e grandeza da Alemanha e da Inglaterra se devem em parte ao grande peso que ali têm os naturalistas.

O jurista brasileiro, ou seja ele um doctor Joannes a Regulis, ou um doctor Mater Galla, é um ente hoje desclassificado, e que reclama urgente transformação. Aquele que se levanta acima do nível comum, o faz exatamente, irremediavelmente rompendo com as tradições e posturas de sua classe. É-lhe mister fazer tabula rasa da pobre cultura que lhe inocularam nas Academias para aproximar-se das ideias e da ciência do tempo. É preciso, em suma, ser uma espécie de renegado. A outra qualidade do Sr. Visconde do Rio Grande, a de membro mudo do senado, vem, de alguma sorte, confirmá-lo. O nobre senador nunca tomou parte nas discussões teológico-metafísico-retóricas do nosso parlamento, e o que iria ele lá dizer? Apaixonado pelas ciências físicas e naturais, com uma intuição mui diversa da dos nossos legisladores parlantes, o que poderia ele em face da facúndia de um Zacarias, ou de um Cândido Mendes?

O que é certo é que o nobre visconde ia passando despercebido, e talvez — por que não dizê-lo? — passando por medíocre, porque nunca falou!... O caso é grave neste país. Ser deputado ou senador e não orar... é demonstrativo sinal de fraqueza ou de ignorância. Todo o parlamentar de bons quilates tem sempre o que dizer...

Mas vamos ao conteúdo d’O fim da criação. Em rigor aqui não devia ocupar o meu leitor com esse notável livro; o seu objeto é pertencente às ciências naturais inorgânicas, máxime à geologia, ficando-lhe alguma coisa ao longe as especulações filosóficas. Como, todavia, ali leem-se boas laudas sobre a teoria científica do universo, e como a filosofia, estudo geral, abarca hoje todos os domínios, não é fora do assunto consagrar, nestas páginas, ao livro do preclaro senador um pequeno capítulo.

Bem se compreende, portanto, que nos devemos de preferencia deter ante o que nele tem um caráter geral, isto é, diante daquilo que mais de perto nos interessa.

A obra se divide em duas partes; nestas estão espalhadas observações e estudos de ordens diversas, de fisionomia mais ou menos especial, estudos e observações dirigentes a provar os dois alvos principais do autor. Estes se reduzem à afirmação de que o planeta sobre o qual habitamos vai sempre crescendo no curso das idades geológicas, e à negação da célebre teoria de Laplace.

O lado positivo me parece bem fundamentado; a face negativa da obra é que não deixa de ser permeável por mais de uma juntura.

Antes de tudo convém advertir que não devemos formar do Sr. Visconde do Rio Grande a ideia de que seja ele um sábio; é apenas, nas ciências, um diletante, mas um diletante consciente. Apesar de ter muito lido e meditado, ele não fez observações próprias, estudos inteiramente seus e originais. É um erudito em ciências naturais, ramo dos conhecimentos humanos onde mais vale a própria indagação do que a leitura. Para prová-lo, basta ponderar que em todo o grosso volume de mais de 650 páginas, com que brindou as nossas letras, só um pequeno, e, devo dizê-lo, insignificante achado seu é exposto aos nossos olhos. Este mesmo não é uma descoberta; vem apenas provar que o nobre visconde, como naturalista, nem ao menos tem viajado, indo pouco além de seu jardim as suas indagações. O fato a que me refiro é assim exposto em seu livro:

“Nas areias nimiamente conchíferas da nossa Praia Vermelha, de que tenho alastrado o meu pequeno jardim, encontrei uma Astarte sulcata inteiramente semelhante à dos calcários carboníferos; uma Avicula que aparentemente não difere da Posidonimya Beckeri dos carboníferos inferiores, e um Cerithium tal qual a Murchisonia gracilis descrita por Sir Charles Lyell como pertencente aos terrenos cambrianos”.[93]

Não obstante só dispor de uma erudição de segunda ou terceira mão, o nosso autor revela, em todo o seu escrito, uma grande tensão de espírito, e um elevado senso crítico. Grandes méritos deixa ver em seu livro; os principais são: o ser franco sectário do darwinismo, como no-lo mostra no cap. XIV[94]; o dilucidar com vantagem muitos pontos obscuros da geologia brasileira[95]; o demonstrar suficientemente o fim principal que se propôs[96]. A tudo isto junta-se ainda a clareza da exposição; o trabalho é metódico e o estilo do escritor simples e chão.

Estas qualidades são bons predicados, e raros neste país. Quem suporia, por exemplo, que no senado brasileiro, classe que não brilha muito pela sua ilustração, tínhamos um sectário inteligente e adiantado das ideias de Darwin, nome que muitos ali não pronunciam sem primeiro se benzerem?

A tese do Sr. Visconde do Rio Grande é, já o disse, provar o crescimento da Terra. Para isto, ele aproveitou-se de quantos argumentos teve à sua disposição. O ar atmosférico, direta e indiretamente; os resíduos vegetais e os animais são as suas provas prediletas. Mas não é o simples crescimento terrestre que ele advoga; dá também ao planeta, fundado em Stanilas Meunier, uma vida própria e sui generis[97].

Devo declarar que estas ideias não são novas. Quanto à primeira o nosso próprio autor confessa que não fez mais do que desenvolver certos pensamentos esparsos em alguns escritores, que cita, e tirar a consequência de premissas ensinadas pela geologia. Aquela ideia não era, todavia, por todos aceita, nem demonstrada diretamente nos tratados da ciência. O serviço prestado, neste ponto, pelo nosso titular foi o dar corpo àquele pensamento, e revesti-lo de roupagens capazes de afrontar a discussão e análise.

A ideia de vida própria, não só da Terra, mas de todo o mundo, tem sido advogada em mais de um período da história da filosofia. Além de Meunier, ainda agora, sob os nossos olhos, o célebre escritor e sábio belga J. Delboeuf ensina que todo o universo é dotado de sensibilidade e inteligência, como o é, e pelos mesmos títulos, de extensão e movimento. Em todos os seus tratados é a ideia exposta e sustentada. Suas afirmações são categóricas. Escreve ele: “Para nós, já dissemos diversas vezes, cremos que desde seu nascimento o mundo reafirma tanto a inteligência quanto a matéria e o movimento”[98]. Ainda ultimamente, foi mais preciso: “O universo, em seu estado inicial, reafirma portanto, ao menos em germe, a sensibilidade, a inteligência, a liberdade, pelo mesmo título que reafirma a matéria e o movimento”[99].

Os que conhecem a evolução filosófica da atualidade sabem que o novo pessimismo alemão de Hartmann admite e proclama na Philosophie des Unbewussten, que toda a matéria, que existe, é ornada de vida, sensibilidade e inteligência, em estado inconsciente no universo, e consciente no homem. E a reação filosófica de Hartmann não é nada para ser desprezada, quando vemos um homem, como o Professor Adolf Lasson, de Berlim, assim se exprimir a seu respeito:

“Quem estivesse disposto a descrever a atual situação dos estudos filosóficos na Alemanha, não procederia desastradamente se passasse em revista as correntes favoráveis ou contrárias a Eduard von Hartmann, tomando como ponto de partida e como critério suas obras. Apesar das apreciações divergentes sobre o valor efetivo e sobre a validade permanente das opiniões esposadas por von Hartmann, quase todos sentiram a necessidade de confrontar o seu próprio pensamento com a filosofia do inconsciente, que desfruta na ciência filosófica posição relevante. Inclusive aqueles sem posição definida também sentem a tentação de ouvi-la no tocante a este problema que empolga muitos espíritos. Disto resulta um rico conjunto de vozes e, neste concerto, todas as opiniões e tendências filosóficas vêm à luz como que imbricadas. É sempre agradável a verificação de que pelo menos uma pessoa sabe que está sendo ouvida por todos”.[100]

Não levarei, por necessidade de plano, o meu leitor às provas detalhadas das asserções do nosso naturalista. Seria embrenhar-nos em pura geologia. Concordemos com ele em conceder certa vida e crescimento ao planeta, pois que, entre outras verdades, já sabíamos ser o crescimento um resultado da existência do éter, e que a Terra vai, por meio das rochas, sugando, diariamente, da atmosfera notáveis quantidades de água e de ar.[101]

Não se pense, porém, que o espírito de nosso escritor está isento de qualquer exageração. Ao contrário.

Ele, por contradição com a filosofia monística de Darwin, é ainda um finalista. O título mesmo, um pouco extravagante, de seu livro o mostra.

O fim da criação, ou a natureza interpretada pelo senso comum... Mas qual será o fim, o destino da criação?

O autor não nos fala do universo em geral; mas com a Terra ele é claro; seu fim é crescer. Com as plantas e animais e o homem ele é também terminante; o seu fim é contribuir para aquele interminável crescer. Ouçamos a linguagem franca do Sr. do Rio Grande. Depois de falar largamente sobre a alimentação das plantas, diz-nos:

“Pelo que respeita à matéria da nutrição, os animais se dividem em herbívoros e carnívoros, segundo os alimentos são vegetais ou animais. A nutrição animal, que consiste em os animais se devorarem uns aos outros, se nos antolha à primeira vista, uma vez que eles foram dotados de sensibilidade, como uma lei excepcionalmente cruel, que muito se afasta da usual e notória benevolência com que o Supremo Autor de todas as coisas regulou a criação dos seres organizados. Nem creio que caiba na nossa inteligência explicar a dureza de semelhante lei, sem recorrermos à consideração de que os dois reinos orgânicos não existem senão para condensar a matéria com que contribuem para o engrandecimento da Terra. Com efeito, não será senão tendo-se em vista este grande fim, cuja importância predomina sobre as conveniências dos animais, que poderemos compreender a lei de que se trata, e que chegaremos mesmo a convencer-nos de que, desde que o animal alcança o seu maior crescimento, que é quando pode fornecer maior soma de despojos, tem preenchido o seu destino, e convém que cesse de viver para dar lugar a outros”.[102]

Isto pelo que diz respeito às plantas e animais; quanto ao homem, depois de falar de suas dádivas diretas, aí vem o ultimatum a seu respeito:

“Mas a contribuição principal da espécie humana ainda não é a que consiste na sua própria carne e ossos, mas na carne e ossos dos muitos animais de que ela promove a reprodução para sua nutrição e serviço, na grande cópia de frutos que semeia e colhe para se e para esses animais, e na quantidade também considerável de plantas têxteis que cultiva para delas se servir. Tudo isto reunido forma uma imensa massa de ar condensado, que sem cessar o homem espalha pela face da Terra, sem parecer estar em consciência de que esta é a sua principal, se não a única missão neste mundo”. [103]

Já se vê qual o fim do homem, e de suas indústrias. Mas eu não quero ser injusto com o digno visconde, deixando de mostrar toda a extensão de sua lógica. A nossa própria civilização tem por fim aumentar a crosta do planeta. Escreve ele:

“A nossa vida moral ou espiritual, que se nos afigura talvez como razão determinante de nossa existência, desaparece inteiramente com a morte, e de ordinário antes da mesma morte, como se fora um sonho, não ficando de real e positivo senão o nosso cadáver, essa porção de ar condensado que a mesma natureza nos constrange a entregar-lhe sem maior tardança [...] Portanto, criando o homem racional e ao depois civilizando-o, não parece que a natureza tenha tido outras vistas senão as de aumentar a massa dos despojos orgânicos”.[104]

De tal modo, até a inumerável quantidade de livros que a civilização vai espalhando, aí contado também O fim da criação, tem por único objeto essencial contribuir para o aumento da crosta terrestre! O livro concorre duplamente: por se, de modo direto, com suas páginas rotas, e ainda mais apurando a civilização, cujo alvo acabou de ensinar-nos o Sr. Araújo Ribeiro. Eis a que se reduz a nobreza do desenvolvimento filético da humanidade; mas eis também até onde pode chegar um sectário das causas finais!

Aplaudo, com força, que o nobre brasileiro tenha concorrido, com sua doutrina, para derrubar o velho erro antropocêntrico, e a conter as nossas veleidades de grandezas, que não nos cabem. Aplaudo, ainda, que tenha demonstrado com vantagem a sua tese predileta; lastimo, porém, que um espírito tão lúcido e perspicaz ainda vá tropeçar nas velhas asperezas das finalidades.

Como observador e como darwinista, devia contemplar e determinar os fatos sem envolver-se em conjeturas e possibilidades.

O fim da criação... Quem disse ao escritor que houve uma criação, e quem lhe autorizou a designar-lhe um fim? Ele aí não procedeu como filósofo. Antes de passar além, quero fazer justiça a um predecessor do digno visconde. Conheci, e muitos dos meus colegas podem atestá-lo, em Pernambuco um lente de geografia, adjunto a uma Faculdade de Direito que ali existe, que, durante uns bons trinta anos, ensinou pontualmente a teoria do crescimento da Terra, muito antes do Sr. do Rio Grande. Os argumentos do bom lente, hoje jubilado, é que não eram dos mais convincentes. Ele tinha como prova principal a Rua Direita da cidade do Recife, cujo calçamento está hoje alguns pés acima do nível do chão das casas. Os rapazes não deixavam de tomar boa dose de divertimento com o sério e um tanto ratônico doutor... Mal sabiam eles que o senador do Império, ex-enviado junto à corte de França, o Visconde do Rio Grande traria, e com razão, anos mais tarde, igual argumento tirado de algumas cidades, como Jerusalém, por exemplo.

O velho lente triunfou; ele está justificado. Tratando deste assunto, quis render um preito ao seu critério e à sua sabedoria...

O nosso autor nem sempre se mostra inteirado dos modernos avanços praticados nas ciências que cultiva. Muitos fatos novos, ele os não refere por desconhecê-los, ou cala-os por conveniência. O leitor paciente pode convencer-se comparando certas páginas d’O fim da criação com alguns artigos publicados em revistas europeias[105].

Mas toquemos a face crítica do livro, e a mais interessante para nós. É aqui que o Sr. Visconde do Rio Grande nem sempre se mostra munido de razão.

Ele julgou necessário banir a hipótese de Laplace para melhor firmar a sua doutrina do crescimento terráqueo.

Os seus argumentos, nesta parte, não honram muito a sua sagacidade. Me parece que não havia precisão de repelir aquela célebre cosmogonia que dá conta dos mais interessantes fenômenos de nosso sistema planetário, e que é a única que pode justificar as próprias ideias do honrado senador.

Procedamos por partes e cautelosamente.

Suponho no leitor o conhecimento da notável doutrina evolutiva do universo, ou teoria cosmológica dos gases, entrevista por Herschell, em seus estudos sobre as nebulosas, formulada por Kant, e desenvolvida por Laplace. Aquele que a não conhecer, nem a puder ler na Allgemein Naturgeschichte und Theorie des Himmels, e na Exposition du système du monde, pode vê-la exposta e criticada na Natürliche Schöpfungsgeschichte de Ernst Haeckel, ou no Cours de philosophie positive de Augusto Comte. Estes dois últimos filósofos e sábios a desenvolvem com magna clareza e Comte até a auxilia por novas considerações[106].

A exemplo do Sr. visconde, me dispenso de expor a afamada hipótese.

Pesemos a sua crítica.

Releva, antes de tudo, notar que a defesa, que vai ser feita da doutrina cosmológica dos gases, não importa a confissão de verdade inabalável contida nessa teoria, quando é certo que os seus próprios autores são os primeiros a dá-la como uma simples hipótese, mais ou menos plausível. O que deve sobressair de nossa análise é o nenhum fundamento das ponderações do escritor nacional.

É no capítulo primeiro de seu livro que ele se avista com a doutrina que deseja combater. Acompanhemo-lo passo a passo.

Começa por insinuar que:

“a Terra é dotada de uma vida própria, e se nutre como os indivíduos organizados, e que deve como estes indivíduos crescer de volume, colhendo nas regiões do espaço, por intermédio de sua atmosfera, a matéria necessária à sua nutrição e crescimento”.[107]

Já atrás concordamos em conceder à Terra certa vida sui generis e o crescimento. Importa porém, agora, advertir que o nosso geólogo parece fazer depender sempre da vida da Terra o seu aumento, de modo que seja este indefinido. Aqui anda grande confusão de ideias; lembro ao nobre senador que viver não é sempre crescer. As plantas e animais que são os dois reinos orgânicos da natureza, e os dotados de vida a mais perfeita, nem sempre crescem. Há um período em que o crescimento estaciona. Tudo nos leva a crer que igual sorte está reservada à Terra. Dados astronômicos e geológicos concorrem para prová-lo. Creio que o Sr. do Rio Grande, para ser coerente, deve estender a todos os corpos do firmamento o privilégio que deu à Terra. Neste caso, o único verdadeiro, ele deve saber que existem alguns astros que têm, como aquela, uma atmosfera, e outros que já a tiveram, não a possuindo mais. O que prova isto? Que o crescimento naquelas grandes massas tende a estacionar; o que, de todo o ponto, se coaduna com o sistema de Laplace. Ao contrário, sendo o calor da Terra e de todos os nossos planetas oriundo do Sol, como não deixa de reconhecer o próprio autor, e nem a hipótese de Kant o contesta, e tendendo o astro central a esfriar, como também o declara, é evidente que, crescendo sempre e indefinidamente os planetas, estes viriam a romper, antes de tempo, a harmonia do sistema, contra os votos expressos do digno visconde.[108]

Ele não deu por esta dificuldade, e vai com o seu crescer constante até proclamar, contra todas as provas geológicas, que o nosso globo virá ainda a ser uma estrela dotada de luz própria.

Para ele, a luz é um privilégio da grandeza, e espera que a Terra lá chegue um dia. Não se contesta que a luz seja um atributo da grandeza; o que é preciso é entendê-lo habilmente, como o faz a teoria que combate. Sim, a luz é um predicado da grandeza, quer dizer: tanto maior foi a massa do planeta destacado do núcleo primitivo, quanto por mais tempo conservou a luz própria. Mas não antecipemos ideias.

Referindo-se ao laplacismo, diz ainda o nosso autor:

“Essa história antiga da Terra que admite a existência de uma nebulosa incandescente, de que se formou a mesma Terra, não deve ser recebida como história, mas antes como um mito que faz retroceder a nossa ciência, para nos pôr a par dos filósofos gregos quando imaginaram causas finais, a fim de por elas explicarem os fenômenos que não compreendiam”.[109]

Confesso que ainda não percebi o laço existente, aos olhos do Sr. José de Araújo Ribeiro, entre a teoria cosmológica de Kant e a doutrina das causas finais. Tal ligação suponho não existir. Tanto mais firmado permaneço nesta conjetura, quando vejo essa bela explicação mecânica do mundo adotada e robustecida por Comte, o formidável adversário das causas finais. E se alguém incompetente existe para fazer semelhante increpação, é justamente o Sr. Visconde, genuíno finalista, como já vimos.

Não creio ser mais preciso provar esse estado do seu espírito; quando o seja, aí vai um trecho que o demonstra: “Cumpre-nos presumir que se os astros andam em perpétuos giros deverá isso ser para preencher algum grande fim, como é o da sua nutrição e desenvolvimento”[110]. Não é pouco; mas o que excede a toda a expectação, neste sentido, é que, exatamente no lugar em que censura a célebre teoria de finalista, o escritor fornece-nos um irrefragável documento de sua perturbação filosófica.

Falando, por sem razão medir o calor cósmico primitivo pelo que se nota nas combinações feitas na Terra, da dificuldade que teria a primordial massa gasosa em conservar, por muito tempo, a sua alta temperatura, declara que este não é ainda o maior embaraço da teoria, “mas sim em descobrir de onde é que proveio essa temperatura, que mantinha volatilizada toda a matéria de que se formaram os planetas. Laplace que se ocupou desta teoria, e lhe deu uma forma científica, nada diz a respeito da origem ou causa de tão extraordinário calor; e os autores que se lhe seguiram e abraçaram as suas ideias, têm guardado o mesmo silêncio a esse respeito”[111]. Isto é que fora naufragar no golfão das causas primeiras e finais. Se Laplace o tivesse feito, não seria digno dos encômios de que é credor. Não houvera dado a Bonaparte a sua célebre resposta. Mas o nosso Visconde mostrou-se ali um pouco ingênuo. Deve-se-lhe recordar que em mecânica monística não tem o calor uma causa teleológica ou transcendente. É um resultado do movimento. “Dificuldade de conservar o calor”, e donde teria ele provindo?!! Por que dificuldade, se é certo que as grandes massas gasosas estavam sujeitas às leis cósmicas do movimento, atração e repulsão? Por que não saber-se a origem do calor, quando as propriedades da matéria são suficientes para explicá-lo? Aquelas dúvidas me parecem um pouco díssonas, sendo apresentadas por um homem que acredita existir grande cópia de calor nos espaços, calor que nutre e aviventa, a seu ver, todos os astros. Donde teria também este provindo?

É preciso, porém, sem muita delonga, acompanhar o Sr. Visconde. Ele nos os vai mostrar a raiz de seus preconceitos, que são também os seus enganos. Escreveu ele:

“Segundo esta teoria, que não é ensinada pela geologia, porque lhe não pertence, mas que é filha de conjeturas de alguns sábios, o nosso globo em vez de ir crescendo, como me proponho sustentar, vai pelo contrário diminuindo de volume, à medida que suas partes se contraem pelo resfriamento”.[112]

Bem claramente inteligível; o digno escritor impugna a doutrina evolutiva do universo, porquanto julga por ela dever a Terra ir diminuindo, o que lhe convém que não passe em julgado. Seria desmantelar a sua teoria predileta.

Primeiramente, é para observar que não é coisa averiguada que a passagem de um corpo do estado líquido ao sólido acarrete-lhe uma diminuição relativa de volume. Existe quem pense de modo diverso. Certo autor procurou demonstrar que a atividade vulcânica da Lua era devida unicamente ao crescimento de seu volume produzido no momento de sua solidificação. Um sábio de Viena da Áustria, o Professor Tschermack, sem contestar-lhe a asserção do crescimento do volume lunar, e, ao invés a aceitando-a, nega-lhe apenas a relação entre este fato e o da atividade vulcânica daquele satélite. “Se esta ideia fosse justa dever-se-iam obsevar algumas vezes as manifestações eruptivas e a formação das crateras na superfície do gelo, pois a água, ao congelar, passa por um crescimento de volume”[113].

Tschermack consigna, pois, o acréscimo do volume da Lua, passando do estado líquido ao sólido, e também o da água, quando se congela. Estabelecida, assim, a dissidência entre o sábio alemão e o nosso diletante, não vacilo em pronunciar-me, na falta de dados individuais, pelo primeiro. É um nome muito mais acreditado no mundo da ciência.

Bem se vê, entretanto, que, também por este lado, a teoria de Kant, longe de opor-se às ideias do nosso compatriota, muito as favorece. Onde, então, a necessidade de repeli-la? Não é tudo; em segundo lugar, dado como provado que a Terra diminui de volume, à medida que se vai solidificando, ainda assim a recusa da parte do autor d’O fim da criação, carece de fundamento. Porquanto, aquela diminuição deve ter lugar por um encurtamento do raio terrestre operado pela mesma forma por que se pratica o decrescimento do raio de uma laranja que murcha, o que não impede que sobre a crosta do planeta se deem novos aumentos de camadas. Um fato não exclui o outro. Nada impede que o grande volume decresça, por uma espécie de murchar lentíssimo, ao mesmo tempo que, pelos meios indicados pela geologia, sua crosta se altere para mais. Sendo diversos os agentes, e contrários por natureza, nada obsta a conceber-se a oposição dos seus resultados. Sou propenso até a enxergar nestas duas ações contrárias, na hipótese que avanço, a harmonia de duas forças, ou tendências que se contrabalançam. Assim mais se perpetua o equilíbrio geral do sistema.

O Sr. do Rio Grande só porque concebeu uma ideia, que não passa de desenvolvimento de asserções de muitos escritores, nutriu a tentação de dar com a grande construção de Kant e Laplace por terra. E, todavia, grandes sistemas e grandes verdades se têm edificado, antes e depois deles, que podem todos buscar naquela notável teoria um apoio de mais para o seu estabelecimento.

Nada há mais belo na história das ciências do que apreciar a insigne harmonia que reina entre as leis gerais astronômicas formuladas por Kepler e Newton, o sistema universal do éter de Fresnel e Bouchporn, a doutrina geológica evolucional de Lyell, o sistema genealógico de Lamarck, a teoria da seleção de Darwin e Haeckel, as vistas positivas da história de Comte e Spencer, nada há mais belo, digo, na história das ciências do que contemplar a insigne harmonia que reina entre tantas e tão profundas especulações e a teoria evolucional do mundo do filósofo alemão e do astrônomo francês.

Esta grande intuição universal é um dos mais nobres presentes feitos pelo século passado ao atual. E nenhum dos fundadores das grandes teorias se julgou em indeclinável obrigação de impugná-la. Por supô-la contrária às suas convicções, não devia tê-lo feito o nosso Visconde, quando nela, ao invés do que pensa, aprofundando-a, podia encontrar grande arrimo. Por meio dela é que a doutrina do crescimento terrestre pode tomar um assento seguro no conselho das ciências. Se me não iludo, as duas observações que tenho feito, uma relativa ao fato do crescimento dos astros ter um natural paradeiro, e outra de seu aumento, que chamarei externo, ser contrabalançado pelo encurtamento, que se pode chamar interior, se me não engano, estas duas notas são de natureza a garantir, pela hipótese de Kant, a doutrina defendida pelo naturalista brasileiro.

Este, para invalidar as ideias que combate, mostra preferir-lhes as vistas de Boutigny, que não passam de uma nova edição da medíocre cosmogonia de Buffon.

Depois, falando de Guillemin, comete um errinho, que não deve passar sem observação. Escreve:

“O mesmo Guillemin, quando trata especialmente do Sol na sua citada obra Le ciel, nos diz igualmente que este astro é verossimilhantemente o pai comum de toda a família dos astros que gravitam em roda dele, e que em épocas imensamente afastadas da nossa, saíram de seu seio em forma de anéis nebulosos”.[114]

Isto é dito por oposição à ideia de Laplace; mas quem há aí que ignore que é também o que ensina esta? Quem há aí que não saiba que a grande cosmogonia é extensiva a todo o universo, primitivo caos gasoso, na frase de Kant, caos que se foi, por certas leis matemáticas, dividindo em enormíssimas nebulosas, uma das quais formou o nosso sistema? Não compreende o digno Visconde que desta, que é hoje principalmente representada pelo astro central, é que foram saindo todos os planetas em forma de anéis nebulosos?

A grande massa gasosa em seu movimento rotatório, à medida que se ia dividindo, ia conservando-se, como enorme núcleo, no centro regulador, que devia reter os novos planetas. Que outra coisa é ela senão a origem do Sol, seu principal descendente, e que lugar, astronomicamente, ela ocupa senão o deste? Sim, o Sol é o pai comum de todo o nosso sistema planetário; ele é o representante direto da primitiva nebulosa, que se multiplicou por fissiparidade. É o que ensina a doutrina que defendo. A belíssima experiência de Plateau, que o Sr. Visconde passou por alto, dá uma prova material e palpável do que tenho afirmado; ela é um bom argumento a favor da hipótese.

Depois daqueles considerandos, o senador passa a fazer um histórico da teoria ígnea do universo, que confunde com a gasosa, e, depois de citar alguns nomes, chega a Herschel e Laplace. Até nas vistas históricas foi ele infeliz, porque esqueceu o nome do genuíno autor da doutrina, o filósofo crítico alemão, Immanuel Kant, que a formulou desde 1755. Afeito, como todos os nossos, a ler só os franceses, cometeu tão flagrante injustiça, que pesa, porém, como uma inexatidão.

Antes de passar a diretamente refutar os argumentos em que se estriba a teoria kantesco-laplaciana, ele observa que os sectários desta dão à Terra uma crosta estimada em dez a vinte léguas de espessura, o que é de uma tenuidade insustentável em relação ao volume terrestre[115].

Esta pequenina objeção tem pouca procedência, quando é certo que outros seguidores da doutrina atribuem aquela crosta uma grossura muito mais considerável.

Vejamos o Visconde avistar-se, face a face, com os argumentos adversos, e de que modo ele sabe vitorioso.

As provas que vai refutar, a seu ver, são três: o achatamento do globo nas regiões polares; o calor crescente na crosta da Terra à medida que se desce da superfície para o interior; a existência, finalmente, dos vulcões.

A oposição feita ao primeiro argumento se reduz a dizer que atento o grande volume terrestre, os achatamentos polares são insignificantes, e que, além disto, o simples movimento de rotação é suficiente para explicar o fenômeno[116]. Bem claro é que o autor não nega o fato de ter o nosso planeta a forma elíptica; quanto a julgar a elipsidade pouco pronunciada, é uma ponderação tão frágil que pouco valor merece da parte de quem analisa a sua crítica.

O poder só por se o movimento de rotação do planeta explicar-lhe as depressões dos polos, me parece um pouco difícil de conceber, na hipótese de ser ele um todo sólido e extremamente compacto. Demais, a célebre experiência de Plateau, de que já falei, derrama aqui muita luz. Envio para ela o Sr. do Rio Grande.

Cita, neste lugar, alguns autores que combatem, como ele, em prol da mesma negação. Entre outros, lá vem o nome de Liais, o autor pouco festejado do magro livrinho A supremacia intelectual da raça latina, o que nada confirma, nem infirma; porquanto também é sabido que os grandes espíritos que se chamaram Leibniz e Huyghens não aceitaram a teoria da atração universal de Newton, tão geralmente acreditada depois, e que foi o objeto de motejos daqueles dois notáveis homens.

Quanto à prova tirada do calor crescente da crosta terrestre, e que se demonstra pelas minas, poços artesianos e fontes termais, a crítica que combato ainda se ostenta mais débil e prevenida.

O autor não contesta o fato, e nem o explica; contenta-se com dizer, em substância, que os estudos a respeito não são tão gerais e profundos que nos habilitem a tirar uma conclusão segura[117]. Não basta. Qual será, então, a causa do fenômeno que não pôde negar? Ele parece convir com o Barão de Cuvier que é o Sol unicamente que aquece a Terra. Neste caso, é fora de dúvida, que a progressão do calor deveria dar-se em ordem inversa, isto é, tanto mais intenso, quanto mais próximo à superfície.

É o que não se nota.

O terceiro e último argumento, o da ação dos vulcões, ainda menos foi refutado.

Tudo o que se lhe opos reduz-se a duas afirmações principaes: que as matérias sabidas dos vulcões são as mesmas conhecidas no exterior da Terra, não podendo, portanto, ser provindas do seu centro; que as erupções, se viessem de tal origem, deveriam ser ainda mais consideráveis do que são. Ao primeiro asserto basta replicar com a grande verdade estabelecida pelos maiores sábios do século, e proclamada com júbilo por Tschermack:

“Quando Howard, Klaproth, Vouquelin, Berzelius tornaram conhecida a composição química elementar de um grande número de meteoritos, para logo percebeu-se que os elementos simples que entram na composição destes corpos são idênticos aos dos que abundam na crosta terrestre. Já tinha, anteriormente, Chlada reconhecido a natureza planetária destes maravilhosos produtos. A ligação dos meteoritos e dos planetas fez presumir que os outros corpos celestes são igualmente constituídos pelos elementos de nossa Terra. As investigações de análise espectral, inauguradas por Bunsen e Kirchhoff, tornaram evidente o fato pelo que diz respeito ao Sol; as observações de Secchi, Huggins e Miller sobre os espectros das estrelas fixas tornaram provável a opinião de que o universo inteiro é constituído pelos mesmos elementos”.[118]

E o Sr. Visconde se admira de que os vulcões lancem lavas que provam o fato! Mas, dirá ele, às vezes algumas crateras expelem resíduos vegetais e animais, que não vêm, por certo, do centro em fusão.

E quem jamais o disse? Estes sedimentos são oriundos da parte da cratera que atravessa a crosta terrestre. É claro, e não faz-se mister largo esforço de compreensão para vê-lo, que a mesma parte sólida da Terra contribui também para as lavas; pois não se admitte que a porção do solo, que foi removida pelo furo vulcânico, e todas as que lhe são adjacentes não sejam abaladas pela erupção e não entrem em concurso com Ela.

Tenho pressa de findar. O capítulo, que se encarrega de repelir ideias, que bem aproveitadas seriam de grande auxílio ao escritor, que aprecio, é de todos os do livro o mais franzino. Removido ele, e alguns senões espalhados pela obra, já apontados com magna imparcialidade, e mudado o título dela para A Terra e seu crescimento, estudo de astronomia e de história natural, ou outro qualquer que lhe possa mais convir, o trabalho do Sr. Visconde do Rio Grande ficará sendo um dos escritos mais notáveis publicados neste país.

Na enumeração das provas em que se funda o sistema de Kant e Laplace o autor não foi completo, ainda que pareça ter sido sincero; deixou de indicar muitas outras argumentações em que aquele se firma. Entre estas não lhe era lícito esquecer: a oriunda da distribuição do calor na superfície da Terra, calor que foi muito mais intenso em passadas idades geológicas; a de terem as águas, por uma evolução natural explicada pelo sistema, ocupado outrora toda a face terrestre; a das submersões e levantamentos que se têm dado na crosta do planeta, etc. Afinal, a moderna explicação do vulcanismo cósmico muito auxilia a doutrina. Os astros são todos sujeitos a passar pela fase de Sol, de Terra e de Lua e todos por um momento vulcânico. Isto confirma as nossas ideias. Diz Tschermack: “Pensando neste todo de fenômenos, quem tiver no espírito a teoria de Kant sobre a semelhança de desenvolvimento dos astros, será levado a pensar que os corpos celestes propriamente ditos não são os únicos expostos a tais modificações. Admitirá facilmente que o vulcanismo é uma manifestação cósmica, no sentido de que todos os astros atravessam uma fase vulcânica em seu desenvolvimento”[119].

O nosso Visconde, às vezes, recorre aos embaraços da geologia para chamar a adesão às suas ideias. Ninguém contesta o quanto resta ainda a fazer àquela ciência para tornar-se de todo positiva; mas, por outro lado, ninguém nega o como ela pode tornar-se acanhada quando dirigida por um espírito sistemático.

Basta o exemplo de J. C. Southall, querendo provar que “a recente origem do homem é ilustrada pela geologia e pela moderna ciência da arqueologia pré-histórica”, segundo o próprio título de sua recente obra. O nosso Visconde não precisa ser impertinente para ainda ser proveitoso o seu livro.

IX

O Dr. Domingos Guedes Cabral é um moço formado em medicina pela Faculdade da Bahia em fins de 1875. Escolheu para objeto de sua tese inaugural o espinhoso assunto As funções do cérebro[120], a que deu uma resposta de acordo com as ideias do naturalismo filosófico mais acreditado em nossos dias. Era a primeira vez que um doutorando ousava fazer ouvir, em documento público, no recinto de uma de nossas tristes Academias de Medicina, o brado da ciência emancipada. A tese foi repelida, substituindo- a o seu autor por outra: Qual o melhor tratamento da febre amarela? Entretanto, a mocidade acadêmica reagiu, a seu modo, fazendo publicar o belo trabalho do jovem baiano.

As funções do cérebro são um livro interessante; são um apanhado ligeiro e claro de algumas questões momentosas discutidas sobre o grande órgão.

O autor apadrinha-se com nomes conceituados, e, à luz de muitas citações, chega ao alvo que se propôs.

Conquanto não tenha ele entrado largamente nos mistérios de psicologia fisiológica, o que, aliás, nos promete noutro livro O cérebro e a alma; conquanto, sobretudo, não tenha aparecido no debate com armas próprias, nem tenha levantado o véu de muitas dúvidas que se prendem ao assunto, ainda assim a sua obra é uma grande novidade para o nosso público, e é digna de apreço. É uma boa resposta que se pudera dar ao último livro do Sr. Visconde de Araguaia A alma e o cérebro, que não passa da décima edição, com alguns apensos, do livrinho de Janet Le cerveau et la pensée[120a].

Eu disse que o médico brasileiro não apareceu ao combate com armas próprias, e é uma verdade; não se encontra no seu trabalho uma só experiência sua, uma só descoberta que lhe devesse a luz. Não canso de assinalar este defeito capital de nossos livros de ciência; não passam de compilações, e oxalá que muitas delas não fossem indigestas! Nós outros não temos experimentadores.

Ainda há pouco, na Inglaterra, foi promulgada uma lei proibitiva, em certos casos, dos processos de vivissecção, como no-lo informa Carl Vogt[120b]. Entre nós não haveria necessidade de tão esquisita maravilha no meio das maravilhas de nossa legislação. Meros repetidores, os nossos bons savants dispensam as severidades dos pietistas.

Ainda mais cresce de ponto tão séria lacuna, se de um especialista tem-se o direito de esperar alguma coisa de seu próprio tesouro, e se as funções do cérebro são o que há do mais incerto em fisiologia.

Quando vemos um homem como o professor Charcot, à força de experiências próprias, auxiliar a doutrina das localizações cerebrais por meio da anatomia e fisiologia patológicas, e encontrar completa negação por parte de um outro como Browm-Séquard[120c]; quando vemos um como Delboeuf atacar Luys e escrever em A psicologia como ciência natural: “A fisiologia do cérebro é a mais obscura de todas as partes desta ciência; diz-se o nome: não se conhece, por assim dizer, nada sobre este órgão”[120d]; quando tudo isto se dá, não creio que se faça uma obra muito durável em compendiar teorias e achados alheios, sem a respectiva contraprova, teorias e achados que podem tombar por terra de um dia para outro.

O nosso autor abraça, com força, a teoria de Lewes sobre a nova interpretação da célebre descoberta, por tanto tempo tão acreditada, de Charles Bell a respeito dos nervos sensitivos e motores[121]. Pois deve saber que o próprio Lewes, assinalado por tão aturados e fecundos estudos sobre a matéria, assim se exprime em relação à grande obra de Ferrier The functions of the brain:

“O livro do Dr. Ferrier é, sob vários aspectos, uma obra importante. Cheio de fatos de experiência e de deduções teóricas, escrito com clareza e com vigor, ele contribui em grande parte para o nosso conhecimento (ou para a nossa ignorância) das funções do cérebro. Não tomem por epigrama o meu parentêse: nossa ignorância pelo que toca às funções do cérebro não dá lugar a uma só dúvida, e nós próprios a entretemos, aceitando como verdades indiscutíveis os conhecimentos adquiridos, o que nos impede de investigar por outras direções”.[122]

Difícilmente poderia o leitor encontrar umas palavras mais adequadas ao nosso caso. Temos o sábio Lewes, autoridade na matéria, declarando que um livro de uma outra autoridade contribui para a nossa ignorância sobre o magno assunto, e protestando contra os pretendidos conhecimentos adquiridos que impedem as futuras investigações... O que diríamos do livro do médico baiano, despido de experiências e de altas pesquisas?

Bem se vê que o não devemos tomar por mais do que vale, isto é, um resumo claro, e, para nós, útil por se opor de frente à misera e mesquinha psicologia que se ensina, com aplauso do governo, em nossos pobres colégios...

O autor, disse eu ainda, não entrou plenamente nas questões de psicologia biológica, o que seria de maior interesse para o nosso assunto. Ele pouco refere no tocante a esses problemas. Entretanto, vai fazendo enormes progressos o que os alemães chamam a psicofísica. Ainda alguns trabalhos, como o de Hermann Lotze, Psicologia médica, e, em parte, o de J. Delboeuf já citado, têm determinadas veleidades espiritualistas. É uma desvantagem. O ponto de vista da ciência do homem deve hoje em dia ser superior aos velhos sistemas.

Quando nos dirigimos ao estudo da natureza, não levamos uma ideia preconcebida; vamos investigar fatos, e nada mais.

As ciências físicas e naturais não são nem materialistas, nem espiritualistas. É o que se há de fazer com o homem; deve ser ele abordado pela análise no intuito de descobrirem-se fatos, sem preocuparmo- nos com a velha mitologia metafísica. Quanto ao nosso autor, ele é franco em repelir o antigo dualismo do homem, e vejo nisso um motivo para o elogiar. Escreve ele:

“Se o cérebro, quanto ao seu volume, quanto às suas dimensões, à sua forma, ao seu desenvolvimento, à sua composição histológica e química, esta na razão direta, marca, acentua, gradua, por assim dizer, a inteligência; se com o exercício intelectual esse órgão se desenvolve, obedecendo destarte a uma lei fisiológica comum a todos os órgaos; se esse exercício se embaraça, se dificulta, se impossibilita com acidentes que sobrevêm à sua textura ou às suas imprescindíveis relações; que obstinada cegueira, que pétreo sistematismo faz que se duvide ainda um momento de que esse órgão seja o agente do fato intelectual, de que seja produto seu, exclusivamente seu, o pensamento? Pois quando a anatomia comparada com seus contrastes, a química com seus aparelhos, a fisiologia positiva com suas experiências, a patologia com suas inequívocas observações, nos vêm acordes todas dizer: mais apto é ao pensamento o animal que melhor cérebro possui; sem certos elementos, que mais concorrem no homem, o pensamento é impossível; o cérebro desenvolve-se com o uso; sem ele não há pensamento; o desarranjo cerebral traz o desarranjo intelectual, etc.; há ainda por ventura quem de ânimo são e calmo trepide à beira vertiginosa desta profunda verdade? Se o cérebro fosse um mero instrumento, é verdade, como todos os instrumentos, daria tanto melhores resultados quanto mais perfeito fosse; mas guardar-se-ia então aí essa proporção indeclinável, essa graduação fisiológica em toda a animalidade, em cujo topo somente, entretanto, em cujo último degrau apenas, dizem os metafísicos, há a soberania privilegiada da alma imaterial em que deve residir o pensamento? Se o cérebro fosse um mero instrumento teria, é possível, necessidade de conter tais e tais princípios químicos; mas a que viria então que esses princípios, que nada têm que ver com a alma imaterial, existam em maior cópia nos seres onde mais desenvolvida é a inteligência, nomeadamente o homem, onde, aliás, para que tantos elementos químicos, desde que dispõe de um princípio exclusivamente seu? Se o cérebro fosse um mero instrumento, muda já aqui um pouco a questão, como todos os instrumentos, longe de desenvolver-se devera gastar-se com o uso: como explica-se, porém, que ao contrário se desenvolva, obedecendo à lei comum fisiológica, da mesma forma que se desenvolve o bíceps no antebraço do obreiro? Se o cérebro fosse um mero instrumento, finalmente, como explicar que, ao passo que íntegro continua a funcionar umas vezes, a despeito das lesões parciais, quando se trata do princípio substitutivo fisiológico torna-se imprestável, outras vezes, sob o domínio de lesões que rompem apenas o seu mecanismo? Essa alma psicológica é então coisa bem extravagante! Não! Paciência, senhores metafísicos! A alma espiritual pode ser utilíssima, imprescindível mesmo; Mas lá fora, em vossos tratados, na economia de vossos cálculos, de vossas previsões; cá, na economia do homem, no cérebro colocado sob o escalpelo da experimentação, nada, absolutamente nada, tem que ver, é inteiramente inútil”.[123]

Salvo certo tom declamatório e certo ar de absoluto que transpira desta página, ela deve ser consignada, não tanto pela sinceridade, como pela coragem do escritor. Ele é um dos que ousam dizer o que pensam; é um benemérito do espírito nacional. Quisera-o, por sua vez, ver inteiramente desafogado de quaisquer liames sistemáticos, descrevendo os fatos e elevando-se às leis, sem tombar para um ou para outro dos lados da velha rotina. Ele, por certo, propende para o vasto realismo científico, onde não existem doutrinas e teorias e onde só estudam-se as relações e tiram-se as consequências.

A grande força da nova tendência está em não serem os seus resultados filhos das preocupações, mas corolários fatais de princípios demonstrados. Não importa isto meramente uma precaução do espírito científico; é também uma necessidade do método positivo que só admite afirmações naquilo que se puder provar.

A psicologia, estudada à luz da fisiologia, nada ideve fazer mais do que investigar as condições em que se produzem os fenômenos mentais, suas relações entre se e com os fatos estranhos, fugindo das essências, das causas recônditas e inacessíveis. Nada de afirmações prematuras; não para dar ao espintualismo algumas esperanças de vida; sim para preparar-lhe desastrosa e irremediável morte.

Pareço esquecer-me que devo dar a conhecer a suma do trabalho do nosso autor.

Pelo que ficou transcrito, bem se compreende a que nobre doutrina foi prender ele o seu pensamento. De acordo com grande parte das ideias que advoga, é que já eram mui correntes no mundo da ciência antes do baiano pegar a pena, não vejo haja mister abrir debate onde pouco haveria a refutar.

As funções do cérebro são um apanhado inteligente, como já disse, de alguma coisa do que de proveitoso se há escrito sobre o assunto. Na parte filosófica o autor se apegou principalmente a Büchner, Moleschott e Luys, adjuntos a Taine e Bain. O livro trata principalmente dos seguintes objetos: cérebro e sensação, cérebro e movimento, cérebro e pensamento, cérebro e sentimento. A estes juntam-se, secundariamente, outros, como: as localizações das faculdades intelectuais, origem das ideias ditas morais, e a questão das paixões e do crime.

Ouçamo-lo sobre esta. Depois de estabelecer, em geral, que as paixões são a perversão dos afectos, e denunciam um desarranjo orgânico, assim se exprime:

“Não compreendemos que, em pleno uso fisiológico de seu cérebro, possa o homem perverter seus sentimentos. As paixões são moléstias. Vede: aqui, e figuraremos casos dos piores, é um ambicioso, que, enjaulado nos varais de ferro de sua cobiça, procura a todo o transe saciar a agrura cruel de sua sede de riquezas. Esse desgraçado um mau dia, calcinado mais e mais pela ânsia de sua agonia tenebrosa, pega de uma clava e esmaga a alguém que lhe disputa a posse de uma riqueza. Malvado! — exclama a sociedade —, coração de fera que deve gemer eternamente no fundo duma masmorra infecta, senão expiar de uma vez sob o cutelo sangrento do suplício! Mas a ciência? Que faz aí a ciência que não interroga aquele organismo, antes que a lei inexorável interrogue aquela consciência? Que faz ela que não vai antes estudar aquele réprobo da sociedade, que pode entretanto não ser mais do que uma vítima de se mesmo? Que faz ela aí de braços cruzados, que não procura descortinar na trama de seus órgãos o segredo daquele ato que a lei vai ignorante e injustamente talvez punir? Quem nos diz que aquele prurido impaciente e minaz que fazia referver a mente àquele desgraçado no anseio cruel da cobiça, não era antes o efeito de uma desordem circulatória, de um desarranjo qualquer, tendo por sede talvez um ponto capital da grande máquina humana em seu principal aparelho? Quem nos diz que uma simples compressão, que uma partícula insignificante mesma, deslocada do equilíbrio normal, não seja a causa primordial, o agente único de tão tristes efeitos? Não se obra mal senão porque mal se sente, porque mal se pensa. Todo o ato, verdadeiramente, é filho de um movimento cerebral. Obra-se porque pensa-se. Esta a verdade. Ora, se vemos que um simples afluxo, diremos melhor, uma quantidade mínima, relativamente, de sangue introduzido nos vasos do cérebro, excitando-o de certo modo, faz que se desorganize a mecânica intelectual, produzindo tal ou tal aberração, que razão haverá para não admitir-se que tal ou tal desorganização nas chamadas faculdades afetivas, e portanto que as paixões sejam, por sua vez também, a consequência de um desarranjo circulatório, de um vício acidental dando em resultado uma irritação correspondente no órgão central do sistema nervoso? O cólera, por exemplo, que engendra tantos atos maus, a sua maioria, por assim dizer (porque, bem raciocinado, a razão deve ser da maioria dos crimes acha-se afinal neste excesso de sentimento) o cólera que outra coisa é mais do que uma superexcitação cerebral. Parecerá talvez a muitos que essa superexcitação é consequência, e não causa do fenômeno; mas então, como explicar-se que, nas mesmas condições, agitados pelos mesmos motivos, dois indivíduos revelem fenômenos distintos? Uma frase que a um passa despercebida, traz imediatamente no outro um estado hiperêmico do cérebro? Responder-nos-hão por ventura com as idiossincrasias? Mas idiossincrasia não é mais do que uma palavra inventada para o que não se conhece. E é isso que não se conhece que instistimos para que se procure conhecer. Supondo um indivíduo que toda a sua vida houvesse procedido dum modo regular, irrepreensível mesmo, pautando-se escrupulosamente pela moral. Esse homem, numa má hora, recebe um insulto que fere atrozmente sua dignidade. Qual o primeiro fenômeno que a fisiologia ali iria surpreender, se bastante se apressasse para naquele mesmo instante examinar o seu cérebro? Certo que encontrá-lo-ia pelo menos hiperemiado. Supondo mais agora que, travado de razões com seu agressor, chega esse homem ao apuro, à dura contingência de matá-lo. Então, quando a sociedade alça-lhe já o braço sobre a fronte a imprimir-lhe o estigma candente, e que portanto não deixa mais tempo a ninguém de interrogá-lo em suas funções, quem nos diz que a ciência não iria reconhecer ali um grau adiantado daquela hiperemia, que, congestionando o órgão, abolisse temporariamente a ação intelectual, e portanto entregasse o desgraçado ao puro domínio, ao império brutal das forças orgânicas? Quem nos diz que não houve ali uma loucura passageira? Bem, conceder-nos-ão talvez muitos casos: mas aí, dirão, trata-se de caso violento, rápido. E os crimes com premeditação? E essas monstruosidades tão longamente amassadas aí pelo coração de tanto perverso? É fato, não há dúvida, há seres humanos que ruminam por dias e anos, friamente, como se diz, na calma do silêncio e do ódio, os meios sinistros de uma vingança. Mas, quid inde? — não há aí também homens que gastam anos a ruminar, não uma ideia assassina, mas uma ideia banal? Um matemático, por exemplo, um belo dia não se apresenta dominado por uma ridícula utopia que o tiraniza, se possível for, muitos anos? E por que, então admitir- se para ali uma causa diversa da que se atribui aqui, quando em ambos os fatos não há senão um vício do cérebro, ali produzindo o ódio, aqui a utopia; ali pervertendo a inteligência, aqui os afetos? O maníaco que leva anos a concertar improficuamente planos de banalidades não terá, não é lógico que tenha, porventura no jogo funcional de suas ideias, um desarranjo análogo ao que faz que o assassino leve a concertar também friamente a sua vingança? Partimos, já o dissemos, deste princípio: Não há ação verdadeiramente tal que não seja o fruto de um exercício intelectual, de um pensamento. Ora, desde que num cérebro enfermo, permanente ou temporariamente enfermo, o pensamento se perverte, se desorganiza, ou se impossibilita, que há por ventura aí de estranho em que as aberrações se pronunciem deste ou daquele modo, aparentemente irreconciliáveis, deste lado produzindo uma ideia banal, daquele uma ideia assassina? Por que razão se há de num caso chamar mania matemática, como em Worse, e não no outro mania assassina, como em Troppmann? Não são casos excepcionais que citamos; são as leis gerais que estabelecemos. O ambicioso que fareja a pista das riquezas, até varar a quem lho obsta na lâmina de um punhal, não o faz senão porque tem um vício na estrutura ou no mecanismo do órgão do pensamento, senão porque pensa, é obrigado a pensar, que vai direito ao seu fim, à sua felicidade; da mesma forma que o maníaco que a todo transe quer que o chamem de sábio está persuadidíssimo, é obrigado a pensar que a isto tem realmente direito. E esse quer que é que os obriga, como quiserem chamá-lo, é a moléstia, sempre, só a moléstia. O mesmo com o vingativo que ceva por anos a sangrenta vingança. Esse desgraçado tem por sua vez o cérebro pervertido, enfermidade que o leva a pensar que só matando seu adversário pode limpar a sua chamada — honra. Honra! — a sempre cruel, a sempre pavorosa esfinge das convenções sociais! A ignorância mesma não será também até certo ponto uma moléstia, uma verdadeira astenia? O ignorante é o homem em que se não exercitaram convenientemente, totalmente os elementos do cérebro: há aí portanto uma verdadeira astenia do órgão, que provém da falta de material conveniente para aquela função orgânica. As impressões que são, como vimos, a matéria prima do pensamento, debalde forcejam por ativar aquela máquina que se oxida à míngua de óleo — esse óleo precioso do ensino que lubrifica as molas e tanto perlustra a inteligência do homem. Desde que não há completo, perfeito jogo de imagens, não há pensamento: e como desde que não há pensamento não há ação verdadeiramente dita, segue-se que o ignorante, como a criança em que se não desenvolve o cérebro com o ensino, é um ser irresponsável, um homem com o cérebro incapaz de funcionar. E um ser nestas condições é incontestavelmente um doente. Doente que não tem febre nem frio, nem convulsões, nem dores; mas um hemiplégico talvez da inteligência, um desgraçado que sofre do que se poderia chamar, e que se chamará talvez um dia — paralisia moral. E fica o mísero entregue só à potência que faz mover o músculo, ao domínio bárbaro da substância branca... Fica a força muscular; fica o braço, que já não tem mais um senhor a obedecer; fica a besta, o tigre, a fera! Mas, então, se nos objetará: se dais à ciência, à medicina propriamente o cuidado de curar esses enfermos, que a filosofia espiritualista teima em chamar seus, como explicar os curativos operados por ela, porque é ela que, como base das leis, abre as portas das masmorras a sepultar os culpados? Não é real que muito perverso se tem regenerado nas penitenciárias? Se o mal está no corpo, e não no espírito, continuarão, como explicar que, sem aplicações medicamentosas, entregue o criminoso, só, no fundo duma masmorra, ao látego inexorável de sua consciência, ele se restabeleça, por que se purifica? É bela, mas tem o defeito da miragem essa objeção; sedutora, mas falaz. Dizei-nos: o louco, o maníaco, o alucinado, a quem a medicina toma nos braços hoje e guarda por longo tempo, sob o olhar previdente e solícito da higiene, no silêncio calmoso, no recolhimento agradável, na agitação branda e deleitável dos novos hospícios, dizei-nos, esses infelizes que aí jazem às vezes por longos anos, quando lá um dia se erguem reentrados no jogo normal de suas aptidões cerebrais, — quem os curou? A filosofia? A religião? Certo, que a ciência! — só a ciência, a medicina prática, que habilmente soube combinar os meios de que dispõe. Ora, que razão há então para não admitir-se que o longo e frio silêncio duma prisão atuando mais e mais sobre o cérebro, dê em resultado a sua volta ao exercício normal? Depois, esses criminosos são apenas doentes temporários. E quereis a prova daquilo? É que não rara vez, a maioria delas, é o lado contrário que se observa: os criminosos reclusos saem das masmorras três vezes piores. E então, aí, como explicar esse movimento regressivo, pela tal consciência psicológica, se esta, dizem, é um tribunal igualmente austero, igualmente implacável para todos, e que, conseguintemente, iguais efeitos devera produzir em todos os culpados? Como, se a consciência é a mesma para todos os homens, neste desperta o-arrependimento, e naquele não! É que o fato é outro seguramente. Os criminosos não se curam todos porque: primeiramente, obedecendo à lei das desigualdades orgânicas, nem todos os organismos são igualmente aptos para reagir do mesmo modo contra as causas morbíficas. Vemos que, em idênticas circunstâncias, dois indivíduos atacados da mesma moléstia, num o organismo reage e opera-se a cura, ao passo que no outro a terminação é pela morte. Em segundo lugar, e é preciso notar bem para isto: além das desigualdades naturais, nem todos os criminosos dispõem dos mesmos meios de reação; o que quer dizer, nem todos estão, pela sua capacidade e desenvolvimento intelectual, igualmente aptos a reagir por si mesmos, entrando na realidade de seus deveres pela porta da reflexão. Vimos que o ignorante é um paralítico da inteligência; e são eles que constituem a grande massa dos criminosos. Daí vem que poucos se regeneram; e estes poucos são ordinariamente os mais aptos a sentir e a pensar. Em terceiro lugar, finalmente, é que os regimes penitenciários postos em prática geralmente, e com especialidade (com pesar o dizemos) em nosso país, estão longe de corresponder às vistas terapêuticas com que a medicina os iria empregar. O estado imundo, infecto, insalubre, anti-higiênico das prisões, reunindo todos os elementos contrários à regularização da saúde, só serve para exacerbar o princípio que alimenta a moléstia, qualquer que ele seja, para azedar mais as paixões, para derrancar mais, e mais fazer fermentar os ódios e os rancores, e, portanto, para predispor cada vez mais o indivíduo à perpetração de novos delitos. Trar-nos-ão certamente por aí a questão da imputabilidade. Destarte, dir-nos-ão, acabais com a autonomia, com a imputação dos atos, com todas as prerrogativas da consciência humana, e portanto, tendes destruído as leis filosóficas, rasgais os códigos, abris as prisões, proclamais o domínio absoluto do crime e com ele a subversão social. Mas, antes de tudo, é, já o deixamos entrever, uma impertinência essa consciência como a querem por aí, como entidade psicológica; o que em nada contradiz, em nada implica a moral, nem a nobreza do homem. Assim, vejamos se há aí realmente abolição dos preceitos morais do indivíduo. O homem obra aí fatalmente, sim; e sob uma fatalidade inexorável, porque é a fatalidade orgânica: mas, nem por isso menos mérito lhe vem de conhecer e depois conjurar os efeitos dessa fatalidade, do que lhe proviria do triunfo uma opção. Porque o homem é doente, segue-se que não conheça que o é, e que não deva portanto procurar o mais possível voltar ao seu verdadeiro estado! Está nos próprios deveres da conservação pessoal. E neste caso, deixa por ventura o homem de ser louvável? Indigno de louvor é aquele que, conhecendo-a, trabalha pela sua ruína. A responsabilidade dos atos está, intrinsecamente, no conhecimento deles, preponderando as condições extrínsecas dos meios de fazê-los ou evitá-los. Sob o império das paixões, pois, isto é, dominado por causas orgânicas que impeçam de bem funcionar o seu cérebro, o homem obra sem responsabilidade; não porque dormite-lhe a consciência imaterial, mas apenas porque não se lhe presta o cérebro ao pensamento, e portanto ao conhecimento do ato. O homem obra, pois, patologicamente: nada mais. Estão por terra as leis filosóficas? Mas, quem já ousou proclamar os direitos de inviolabilidade das ciências, das velhas ciências principalmente, num século, sobretudo como o nosso, em que uma grande escola pujante e viril se levanta, a escola da filosofia da natureza, a plantar por toda a parte o reinado das ideias positivas, ante as quais rui por terra o carunchoso edifício das cosmogonias teogonistas com todo o peso da filosofia das espiritualidades, que o sustém? Acaba-se com os códigos? Mas, quem já fixou o ponto, em que se devem extremar a medicina e a jurisprudência? Quem já demarcou precisamente até onde vão os domínios territoriais de uma e até onde devem recuar os direitos da outra? Abrem-se as prisões? Mas, quem há aí bastante ousado para afirmar que o homem, individualmente, lucra, as mais das vezes pelo menos, alguma coisa sob o regime das prisões? Quem pode, em bom senso crítico, dizer que as conversões que por ventura se operam, essas chamadas por aí enfaticamente — regenerações penitenciárias—, dão-se pelas masmorras? As masmorras!... Ah! Se esses monstros falassem, por suas bocas sinistras quanta luz não se escaparia, talvez, através das blasfêmias e do desespero suarento dos culpados, luz que muita sombra iria dissipar na ciência do filho de Cós! Também os loucos passaram antigamente por criminosos responsáveis; e não está hoje reconhecido que esses infelizes são apenas enfermos? A Antiguidade queimava-os: era então a suprema expiação. Foi preciso que a queixa dos humanitários despertasse a ciência para que ela arrebatasse o facho assassino às mãos da lei. Segundo as investigações de um ilustre profissional, o Sr. Saure, sobre as causas da alienação mental nas prisões, há a maior analogia entre os alienados e uma certa classe de prisioneiros composta de seres de uma organização sensivelmente viciosa. Julga esse autor que seria mais prudente e humanitário colocar uma parte da população das prisões nos hospitais dos loucos. Quais são, porém, quais devem ser pelo menos esses desarranjos orgânicos e funcionais que determinam as paixões? Quais os pontos de seleção patogênica no aparelho cerebral? Qual a natureza histológica, o desequilíbrio funcional em semelhantes afecções? Não o sabemos; cremos mesmo que ninguém ainda o sabe, como não o sabe no idiotismo, como não o sabe propriamente na loucura. Em todo o caso, o que nos quer parecer é que a circulação representa nisto um papel importante, assim como as relações simpáticas dos outros órgãos, nomeadamente o estômago, conquanto para a loucura admitisse Pinel exclusivamente a causa inicial no cérebro, dando como consequência essas perturbações viscerais simpáticas. São tão pronunciados, porém, aqui os efeitos produzidos pelo desarranjo desse órgão sobre o cérebro, tanto se fazem aí sentir as diversas maneiras de ser do aparelho digestivo, que hoje parece caminhar a ciência para o estabelecimento de um princípio que dirá: ‘Dize-me o que comes, e eu te direi como pensas’, e que nós ampliaremos ainda: ‘e eu te direi o que fazes’. Se não é ainda um fato comprovado, é pelo menos uma presunção muito legítima, filha da observação, e que não deve pecar por passageira, — que as ideias refletem até certo ponto a cor do estômago. Ora, que estranho é que se dê o mesmo para com os atos? Se há ideias que trazem a cor da bílis, que estranho é que haja atos que tragam a cor do sangue ? Estas ideias vão a muitos parecer absurdas, paradoxais a outros tantos, e quiméricas ao maior número, merecendo talvez de alguns um filaucioso ridículo. Não nos incomoda, porém, isso: sabemos em boa hora ainda o destino destas coisas. Alguém, por mais insignificante, ou obscuro, é possível que tenha talvez, como nós, a esquisita lembrança de estudá-las. Entretanto, atiramo-las aí. E resumamo-las: Não há, parece-nos, ações más, mas apenas ações patológicas, verdadeiramente. Um delito é o efeito de um pensamento incompleto ou vicioso, que é por sua vez o parto de um cérebro viciado. O mal filosófico é apenas uma enfermidade. A moral, e com ela o direito, devem ceder alguma coisa à patologia. Ao que a sociedade chama um perverso, ao que os códigos chamam um criminoso, a ciência chamará um dia apenas — um doente. No que o catolicismo vê muita vez uma influência de inspirações infernais, a influência do diabo, no que o espiritualismo vê sempre a impossibilidade de manifestação do eu, a ciência verificará um dia que não há mais do que um desarranjo
anatômico, ou um desvio da ação fisiológica. Os exorcismos, as penitenciárias, os patíbulos cederão lugar à mão sábia do médico e à droga farmacêutica. E as tais chamadas compassivamente pelo espiritualismo moléstias da alma terão entrada plena e franca no puro domínio da medicina prática. Então, felizmente para os desprotegidos (que são sempre os criminosos), felizmente para os ignorantes, felizmente para a humanidade enfim, essas monstruosidades jurídicas, esses pavorosos escândalos sociais — as masmorras, a grilheta e o cadafalso — substituir-se-ão pelas casas de saúde, pelos hospícios de caridade, pelos cuidados carinhosos, solícitos, sábios, perscrutadores e humanitários da ciência. A humanidade lá chegará um dia, esperamos”.[124]

Possam estas instrutivas e generosas palavras ecoar aos ouvidos dos legisladores como o brado plangente dos desgraçados, e o aviso salutar da ciência, que, em vez de pedir o castigo, aconselha o ensino; em lugar da prisão prescreve o livro!

Entretanto, o meu dever de crítico ordena-me que proteste contra o sinal de novidade que o ilustre médico parece ligar às suas ideias.

Certamente, entre nós e para nós, elas são uma grande originalidade, que os nossos filósofos e fisiólogos acadêmicos e oficiais nunca se elevaram àquela altura. Na Europa culta, porém, mais de uma vez têm elas sido advogadas. Não é mister ir muito longe para vê-lo; é suficiente ler os últimos capítulos da Fisiologia da vontade do italiano Herzen.

A lembrança deste autor me leva naturalmente a pronunciar-me, de relance, sobre a questão da vontade livre, implicada, aliás, na passagem reproduzida do autor baiano. Herzen contesta, com todo o fundamento, em nós, a liberdade do ser e do querer, reconhecendo uma certa e mínima liberdade de fazer.

Julgo que este magno problema deve ser estudado sob o ponto de vista histórico e social, além do fisiológico. Com, efeito, aquele nos mostra, de um lado, as relações humanas levadas ao máximo grau de complicação, e, de outro, nos ensina a lei da hereditariedade, que é também um dado da ciência biológica. Esta grande lei tem sido descurada, em se tratando dos atos livres. Ora, o homem, por muitíssimos séculos, sendo ensinado sob a noção da liberdade, real ou presumida, e sendo as suas ações dirigidas por móveis os mais variados e obscuros, estes fazem já parte da inconsciência, de modo que sua vontade, ao menos aparentemente, e como um resultado da educação, parece livre e dotada de responsabilidade. Os ataques do professor de Florença, adjuntos aos de Buckle e Quetelet, contra a liberdade, absoluta e radical, são mais que muito producentes. Pode-se, porém, no sentido que indico, aceitar a conciliação, que, à luz das leis matemáticas, quis fazer ultimamente o professor de Lille — J. Boussinesq — entre a liberdade moral e o determinismo científico, no seu recentíssimo escrito inserto na Revista Científica de Paris[125].

Este professor parte do fato das equações de movimento de um sistema de pontos admitirem, por vezes, soluções singulares, e do fato da determinação da prossecução do movimento exigir também, além das leis físicas expressas pelas equações, a intervenção de um princípio diretor especial. Este é que representa a liberdade.

O escrito do matemático de Lille é no gosto do célebre trabalho As matemáticas e o transformismo, do professor de Liège, já, por vezes, aqui citado[126].

À parte certo ar de querer salvar a liberdade com o fim de reforçar o espiritualismo, e certa intenção, pouco transparente, de dar àquela maior esfera do que a realmente sua, a face geral do pensamento do escritor francês pode ser admitida.

A complexidade dos móveis das ações humanas dá a razão, ao menos historicamente, ao seu princípio diretor; tanto mais quanto ele nos assevera que “o fisiólogo pode estender as leis mecânicas, físicas e químicas a toda a matéria, inclusive às moléculas de um cérebro vivo”.

Neste caso, sem ser necessário, acreditar, como ele, no velho dualismo humano, é o ensejo de perguntar: por que pode a matéria produzir a luz, a eletricidade, a vida, a sensação, o pensamento, e não poderá no caminho da evolução humana produzir, um dia, a liberdade?[127]

Passemos a estudar um outro tipo nacional, e nele nos demoremos um pouco mais. É que sou o primeiro escritor brasileiro a fazer justiça ao mérito do autor dos Ensaios e estudos de filosofia e crítica.

X

Avis rara. Sob tais palavras, o Sr. Carlos von Koseritz, o digno autor de Rom vor dem Tribunal des Jahrhunderts, e redator da Deutsche Zeitung de Porto Alegre, deu noticia aos seus leitores de alguns artigos em língua alemã do Dr. Tobias Barreto de Menezes. Avis rara repetimos, por nossa vez, diante do público brasileiro, que, quase totalmente estranho àqueles e outros escritos de nosso compatriota, não deixa, contudo, de votar-lhe uma bem antecipada antipatia! E, digamo-lo desde logo, Tobias Barreto é, justamente na terra em que se elogiam e exaltam tantas mediocridades insignificantes, não o mais desconhecido escritor da nova geração, porém certamente o mais odiado! Isto é um sintoma; as individualidades que se afirmam por alguma coisa de forte e original dão-se mal no centro em que respiram. Dizem os órgãos autorizados da crítica hodierna que a lei dos meios é a mais séria das realidades. Não há contestá-lo, quanto ao meio físico, máxime com relação à marcha geral e lenta das nações; mas cumpre ponderar que a luta aberta por alguns espíritos, exatamente com a sociedade que os cerca, deve merecer alguma atenção e pede ser estudada[128].

Carlyle e Emerson, os dois grandes defensores das individualidades, não deixam de ter, em parte, alguma razão contra Buckle e Draper, os mais tenazes seguidores da ideia adversa.

É certo que o Dr. Tobias Barreto obedece às novas tendências dirigidas pela ciência de seu tempo, é certo ainda que a última guerra alemã [1871] atirou-o nos braços da cultura germânica e transformou de todo a sua velha intuição. São fatos, porém, vigentes no Velho Mundo que nada têm de comum com o círculo em que vivemos, e é sempre a mais profunda verdade afirmar que mui pouco deve ele ao centro em que o atacam, se é que lhe deve alguma coisa. Só se obedece à lei do contraste. Somente por este modo é possível explicar como partem do mesmo ponto, e andam ombreados, os Ensaios e estudos de filosofia e crítica e uns quantos produtos que se não nomeiam por desmerecerem qualquer menção.

Os que sabemos que um escritor é tanto mais venerando quanto mais reage contra os preconceitos e nos ensina alguma coisa de melhor; os que não batemos palmas a qualquer homúnculo que nos repisa as banalidades das ruas e dos cafés, temos aí diante um objeto de estudo e de reflexão. Aquele pequeno volume foi o primeiro pelo autor atirado à publicidade; mas há muito que ele escreve. Há dezesseis anos que o jornalismo tem-no em seu seio sempre rouvinhoso e elevado, sempre descontente e original. Reclama atenção este espírito arroubado e lírico que durante alguns anos trouxe-nos presos nas asas de sua poesia brilhante; merece preitos este pensador exato e seguro, que, há tempos, parece, a certos respeitos, o escritor mais adiantado de seu país! Deixemo-nos de enganos; eu digo com Stuart-Mill: “Few persons are less disposed than I to call hard names”, poucos são menos dispostos do que eu a dizer palavrões, mas as coisas devem ter seu nome: o redator do Deutscher Kämpfer não é ministro, nem deputado; não é lente de Academia, nem já foi conferenciar à Escola da Glória... parece, contudo, a alguns respeitos, o espírito mais culto e adiantado deste país! Note-se que não sou daqueles que têm largamente desenvolvido o senso do monos, e andam assinalando em qualquer coisa a primeira maravilha da pátria... Muito ao longe.

Note-se ainda que não tenho o Dr. Tobias Barreto na conta de gênio e de notabilidade europeia; peço somente que me apontem, a mim que gosto um pouco de estudar imparcialmente a vida intelectual de minha pátria, onde se acham os espíritos brasileiros superiores ao desprezado crítico dos Ensaios e estudos. Não teço elogios, pretendo apreciar os produtos de uma pena brasileira, e fazê-lo pelo moderno método de comparação, que tão bons resultados há trazido à filologia e à ciência das religiões. É possível, como já se o tem feito, aplicá-lo à literatura e à filosofia, e mostrar que, no ermo científico que nos envolve, onde cabeças fartas de clássicas toleimas laboram no vácuo de uma intuição imperfeitíssima do mundo como ele é, e vivem de uma política ferrenha que as devora, o Dr. Tobias Barreto não é só um espírito culto e um crítico acertado, é uma individualidade. Antes de fazê-lo, cumpre notar um pouco a biografia e a psicologia do escritor.

É um abuso da crítica o pegar em um livro qualquer, e, sem indagação alguma sobre as condições em que haja vivido o seu autor, pretender traçar um juízo que suponha definitivo.

Este método, todo apriorístico, não é um processo regular de análise. O crítico exibe as suas opiniões, se não os seus caprichos, e nada de regular sobre a genética e a seriação das ideias do escritor pode sair de um trabalho tão falsamente empreendido. A oposição de ideia à ideia é, além disto, coisa fácil, máxime quando o analista deseja dar amostras de sua suposta ciência, e pôr adiante do escritor, convertido em paciente, a sua honorífica pessoa. Por coerência de lei, o crítico daquela espécie é um inimigo que repreende o seu pretendido rival. Não é este o mister de criticar.

A crítica é um estudo, e não uma arrogância. Não envolve o que digo a defesa do erro que deve ser punido, onde quer que se apresente.

O Dr. Tobias Barreto é, entre nós, o mais completo tipo do escritor provinciano independente. Não fez nunca romarias literárias à capital do Império! É sabido o quanto pesa esta lacuna. Não ter escrito para o Jornal do Comércio, ou para o Diário do Rio, não ter já sido visto por alguns conselheiros e dado o braço ao Sr. Alencar... oh! isto é uma falta imperdoável! Mas o castigo vem logo; nas classificações de poetas e prosaístas, de literatos e oradores, que na tal Corte se fazem como os alistamentos para o serviço militar, o nome do digno filósofo não aparece nunca!

Não sei que autor de romance aventou a ideia da criação de uma literatura do norte, neste país, por oposição à literatura austral. Esta pequena ideia, aliás legítima no seu fundo, não deixou de suscitar certas desconfianças da parte dos pretendidos guardas da integridade de nosso caráter nacional. Creio, todavia, que não existe de fato oposição saliente entre as nossas tendências ao norte e ao sul. Onde eu encontro luta latente e profunda divergência é entre os nossos hábitos provincianos e a degeneração adiantada da vida cortesã em nossa terra. O sul não se opõe ao norte senão nos conceitos da geografia. Ambos eles, porém, divergem consideravelmente, por suas aspirações livres, da aura mórbida e corrupta que se exala da famigerada Corte, em que alguns bem-aventurados falam com o mesmo acento e unção com que falam os crentes na Corte Celeste!... A observação de todos os dias vai nos mostrando esta oposição cada vez mais crescente, e a história econômica e intelectual do país a justifica de todo.

Os homens que no Brasil se hão ilustrado por algum mérito do espírito nada deveram à Corte. Eles se podem classificar em duas categorias: a daqueles que nunca vieram ali; e a dos que lá foram, porém já feitos e com suas ideias já firmadas. Ao contato com aquela gente, estes últimos nada ganharam, se é que não perderam muito. É evidente que os primeiros também não lhe devem coisa alguma. Quanto aos filhos daquele torrão, que se distinguiram por alguma digna qualidade política ou intelectual, são ainda de duas categorias: ou se educaram nas províncias, ou adquiriram suas ideias na Europa. Nada conquistaram ali, a não ser, talvez, o hábito das transações e o desperdício dos nobres incentivos. A nossa vida econômica é também eloquente em denunciar os abusos da grande ladra que se chama — a Corte.

Fôra útil que o que existe de fecundo e aproveitável na mocidade brasileira de hoje, nas províncias, se unisse, em cruzada santa, contra as más tendências de nossa capital, e, pensando por si, repelisse, de uma vez, o jugo vergonhoso. Não se trata de uma ação política, e sim de uma mudança no curso das ideias. O jovem Brasil, tal deve ser o título dos novos voluntários da inteligência, à semelhança da jovem Alemanha, e da jovem Inglaterra, conhecidas na história literária deste século [XIX], só se ocupará da reforma do pensamento. Seu primeiro grito de alarme deve ser contra a falência da metrópole no terreno das letras e das ciências, contra aquela coisa ainda sem um nome em ismo, mas que bem se pudera denominar o alencarismo ou o macedismo, do nome dos dois corifeus que mais hão contribuído para o estrago fluminense. Alguns franceses da decadência, enfatuados por não sei que novo orgulho diante de sua capital, diziam: a França é Paris!

Esta frase vergonhosa, uma das causas da derrota daquele povo, há tido repetidores entre nós. O Brasil é o Rio de Janeiro, dizem os insensatos, incapazes de compreender o espírito de uma nação, e que o enclausuram nas vitrinas da Rua do Ouvidor!...

O Dr. Tobias Barreto já se pronunciou algum tanto neste sentido[129].

Nascido em Sergipe na quase deserta Vila de Campos, a 7 de Junho de 1839, tem sempre vivido a superar embaraços. Seus pais eram mui pobres. Compreende-se facilmente o peso desta situação, não digo numa cidade como o Recife ou o Rio, mas em Sergipe, isto é, nas selvas, e em Campos, isto é, no ermo! Em 1839, ainda mais do que hoje, aquela província era um centro de atraso e de abandono intelectual. Nada de cultura literária e científica; ao muito, era a pátria da modinha com seus versos langues e sua música lasciva, o retiro dos mestres régios e dos professores de latim. Advinha-se qual tenha sido a provisão mental, durante muitos anos, do jovem Barreto: primeiras letras, música e latim. Tão parca, como é, para ser adquirida, foi mister ir colhê-la fora do lugar em que nascera. Campos, a vila agreste, com seus formigueiros areentos e os seus quixabais tristonhos nada lhe forneceu, além do banho folgazão do rio Real. Aos dezessete anos, era completa a proficiência do moço sergipano no latim, em que fez versos então publicados, e de que tirou em concurso uma cadeira[130]. O latinista era também um componista; ainda hoje lá se repetem algumas de suas inspirações musicais.

O que, porém, mais o entretinha era a poesia. Alguns são os seus trabalhos poéticos dos últimos tempos em que viveu na província (1855 —1862). Nunca foram publicados. Revelam um espírito incultamente ousado, quando se desprendia de seus hábitos mais constantes. E sua nota mais vibrada era um lirismo sadio, transpirando um completo prazer da vida.

Por aquele tempo, os nossos civilizados eram uns chorões afetados, como a quarta ou quinta geração de Byron e de Lamartine.

O sergipano era meio selvagem; não conhecia, nem de longe, tais modelos. A musa provinciana era então clássica, no mau sentido da palavra, e ele, por instinto, um perfeito reator, por um modo todo local e apropriado à estreiteza de seu horizonte. Completamente segregado do movimento espiritual do século até 1862, não era de supô-lo ao nível das misérias poéticas que o cercavam? Não foi assim. Os fragmentos existentes do poemeto “O Juízo Final”, escrito em 1858, fragmentos por vezes publicados, dão bem a conhecer a natureza de seu talento entregue a toda a sua espontaneidade[131].

Nota-se neles um certo empolamento que, porém, denuncia grandeza de imaginação e riqnezas de colorido não comuns aos nossos efeminados. A lírica lhe deveu, então, lindíssimos versos; entre outros se destaca a pequena peça “No Banho”, já também publicada. É a pintura dos banhos semipagãos nos rios pinturescos de minha terra, que é também a terra do poeta. Os meninos, já crescidos, são admitidos ao folgazão brinquedo das águas... A severidade deste opúsculo priva-me do prazer que teria, se pudesse mostrar aos olhos dos meus leitores essas jóias da poesia nacional[132].

Dali não transpira o desgosto da vida, que atormentava fingidamente os românticos ingênuos; há todo o sério prazer do mundo, toda a verdade das coisas como elas são.

Não esqueçamos o jovem Barreto. Partiu para a Bahia com destino ao sacerdócio, e logo matriculou-se no Seminário Pequeno, donde saiu, após um só dia de estada, por lhe não agradar a vida beata que ali se passava... Contara os seus colegas de então que aquele pretendente à tonsura levou para o santo retiro os seus hábitos mundanos e que, logo na primeira e última noite que ali passou, no meio do geral silêncio do dormitório puxou por um violão, que conduzira, e abriu o peito a saborear uma de suas modinhas! Avalie-se do alvoroço que uma semelhante novidade deveria ter causado nas almas cândidas do Seminário! Aquele espírito rebelde atirou-se à cidade, que totalmente desconhecia, sem ter onde recolher-se e com a bolsa quase vazia; depois de muitos giros nas ruas e muitas voltas ao miolo, gastou nisto um dia inteiro, tendo à noite bastante sangue frio para entrar no teatro e assistir a um espetáculo! Findo este, novo andar ao acaso, até que foi dar a uma hospedaria, que incendiou-se poucas horas depois de recebê-lo. Demorou-se, com dificuldade, alguns meses na antiga capital brasileira [Salvador], onde, aprendido consigo o francês, travou comércio com Victor Hugo, e assistia às lições de filosofia do célebre professor baiano Fr. Itaparica. Seu talento era naturalmente apropriado à poesia incandescente do notável romântico francês, que ficou sendo o seu ídolo, e adverso às ideias teológicas do frade-lente, cujas preleções deixou de ouvir. Recolheu-se algum tempo à república de estudantes, onde morava, sem frequentar aula alguma. Findo completamente o dinheiro, que levara de Sergipe, dispôs-se voltar para Campos. No auge do desespero, deitado em sua rede sergipana a ler um livro francês, tendo resolvido definitivamente retirar-se e deixar-se de estudos, um dia atirou o livro pelos ares, e este foi cair machucado num canto da sala, e aberto num lugar em que se lia, no começo de uns versos, estas palavras: “Perde-se o futuro por excesso de impaciência”.

Estas expressões ecoaram na alma do proletário como um estímulo de glória. Ele voltou a Sergipe, mas para seguir para Pernambuco, a fazer o curso de direito. Após um ano de hesitações e dificuldades, o pobre professor de latim, o descuidoso poeta chegou ao Recife em Dezembro de 1862. Seu pai, que, havia trinta anos, era escrivão de orfãos no seu atrasado município, não pôde contribuir para a sua formatura, e, todavia, em um ano, o moço estudante fez os seus preparatórios, matriculando-se no curso jurídico em princípios de 1864. Sempre arredio e meio solitário, dedicou-se a fortes estudos de ciências sociais e de filosofia. Os franceses eram seus mestres. A poesia, porém, o trouxe sempre preocupado no período acadêmico em que inaugurou no Recife um lirismo até então ali nunca ouvido e a épica patriótica de que se tornou o corifeu[133].

O período de 1863 a 1869 foi naquela cidade de uma efervescência romântica formidável. Era o tempo da guerra com o Paraguai; as festas patrióticas multiplicavam- se: o teatro, sob o influxo de dignos artistas, estava também numa fase de esplendor, o salão tomara, por outro lado, com o recitativo um brilho novo. Acima de tudo isto, dois espíritos dotados em grau muito elevado do talento poético fizeram escola. O mais velho e fecundo, e seu verdadeiro criador, o Dr. Tobias, introduzia pela vez primeira, de um modo decisivo, entre nós, o estilo de Victor Hugo. O nobre poeta fora, porém, sempre moderado. O outro, Antônio de Castro Alves, seguira-lhe de perto as pisadas com um talento mais que muito apreciável; este, contudo, era mais um homem de imaginação do que de sentimento. Exagerara o estilo, que se tornou moda. Uma turma de anônimos em seguida encarregou-se de transformá-lo ainda mais e produziu essa maneira áspera e retumbante de versejar que de então para cá tem valido por uma aluvião. Ficou criado o regime da bomba, como o apelidaram. Depois, Castro Alves, levava a doutrina para São Paulo, onde fez adeptos e passou por mestre, morreu, e Tobias Barreto, ignorado, atirou-se à crítica de que representa incontestavelmente o melhor quinhão que possuímos. O desaparecimento dos dois poetas rivais, que brigaram, e tinham cada um o seu partido, coincidiu com o incêndio do edifício do grande teatro daquela capital, e com a terminação da guerra e das festas patrióticas... Assim morreu no Recife a poética recitatória que tantos desvarios estéticos produziu, e que, praza aos céus, não mais para ali voltem.

Naquele tempo, a lira sergipana do Dr. Tobias Barreto tomara novas cordas. Além da lírica íntima e da impessoal, a epos patriótica e a filosófica o enlevaram; esta última, infelizmente, poucas vezes. São as quatro manifestações poéticas de seu talento, que perdera, entretanto, um pouco da saúde primitiva ao contato do romantismo choroso, a que sacrificou por sua vez. Mas foi um delquio passageiro. São exemplos das quatro notas primordiais apontadas: Ideia, a Artur Napoleão, À Vista do Recife, e O Gênio da Humanidade, que em Pernambuco quase todos os entusiastas sabem de cor. Como Swinburne, o autor de Bothwell, dois anos mais velho que o nosso poeta, este é um inspirado hugoísta; mas com seiva própria. Sua metrificação é rica e harmônica, seu estilo é cheio e fluente, como o do inglês. Mas aí fica o paralelo. O Swinburne dos últimos tempos transformou-se em chefe de uma poesia social e revolucionária, e o sergipano pouco passou do lirismo romântico em que parece sem superior na América; e, depois dos grandes acontecimentos que trouxeram o incontestável e salutaríssimo ascendente da Alemanha, vimo-lo atirar-se com toda a alma aos braços da crítica e da filosofia germânicas.

Foi já depois do seu bacharelamento em ciências jurídicas e sociais, e tendo abraçado a espinhosa profissão de advogado. Hoje vive arredio de toda e qualquer participação em negócios políticos, pobre e abandonado na pequena cidade pernambucana, a Escada, a treze léguas da capital. Ali tem uma pequena tipografia, onde seu sobrinho, rapazito de dezesseis anos, tem servido de impressor, e ele de paginador de uma boa porção de pequenos periódicos, como Um Sinal dos Tempos, A Comarca da Escada, O Desabuso, e outros, que todos têm profligado a nossa geral ignorância, e os abusos cometidos pela oligarquia daqueles lugares.

Dali, e por aquele esforço, saiu a pequena brochura Brasilien wie es ist in literarischer Hinsicht betrachtet, que vale mais do que muito volumoso in-quarto que anualmente se publica na sábia imprensa da Corte. Sempre repeliu todo e qualquer lugar no funcionalismo brasileiro, apesar de, não poucas vezes, ter sido procurado, pelos influentes da terra, para isto. É odiado pelos supostos grandes e poderosos da política pernambucana; mas adorado pelas massas populares, que o não deixam falar no júri sem os mais frenéticos aplausos. Poderia ter hoje seis ou oito volumes impressos com os seus escritos, disseminados pelos jornais, se não fosse quase um impossível aos homens sem haveres arriscarem-se a empresas tipográficas neste país.

Seus estudos de crítica religiosa e literária, de filosofia e de línguas foram feitos consigo mesmo. No alemão é autodidata, na força toda da palavra, e tanto mais admirável quanto escreve bem este idioma, segundo afirmam os competentes.

O que o autor de Chastelard pretende fazer pela poesia, ele o empreende com a crítica e julgo-o, neste ponto, mais acertado.

Como poeta e como prosador é completo fragmentista; curtos, ligeiros ensaios dirigidos por uma ideia bem determinada e definida, e revestidos de um estilo correto e cheio de movimento, é quanto sai de sua pena. Nunca tentou o drama, o romance, ou qualquer obra de fôlego, a que, certamente, não se presta a natureza de seu talento, que, em todo o caso, não é o herdeiro nem o continuador de quem quer que seja dentre nós.

As agruras de sua terra natal, os solitários areais da pequena aldeia de Campos, e a má fortuna social do poeta influíram, é certo, sobre ele, deixando-lhe no espírito alguma moldura do abandono e da aspereza; mas os proventos da civilização, o comércio constante com os livros alemães, neutralizadas as mórbidas influências do meio que o circunda, o fazem na Escada, entre semibárbaros campônios, um entusiasta consciente da cultura tedesca!

*****

O Brasil é um país de legistas; a formalística nos consome; todas as nossas questões se resolvem pela praxe. Todos os modos de viver, até os intelectuais, estão aqui de antemão determinados; seguir a rotina, que é o mais seguro, é máxima que nossos pais cuidadosamente nos ensinam! O espírito público, de mãos dadas com o poder, pune com o mais duro abandono qualquer tentame de levantamento; os mais empenhados no castigo são os chamados literatos.

Tidos e havidos, na linguagem forense, pelos guias seguros do pensamento brasileiro, são os mais tenazes defensores da rota-batida. Um sistema completo de cativeiro intelectual, tendo a sua base na primeira educação e passando pela escola e pelas Academias, garante o triste resultado. O pior é que a liberdade de pensar parece ter guarida no seio de nossas leis, e tem-na decerto até um ponto; o vício radical, o germe da fatal moléstia vem de longe, está enraizado no âmago de nossos hábitos... Todas as manifestações da vida espiritual brasileira, todos aqueles santos impulsos por que as nações procuram realçar, são vazados em moldes carunchosos; tudo tem um certo ar de senilidade. O fato é, porém, no todo inconsciente; o povo brasileiro possui também seus desejos e suas esperanças de reformas e de verdadeiro progresso; mas são completas veleidades.

É inexato dizer-se que, em regra, nos supomos grandes. Já agora é moda proclamar o contrário, e nada ainda temos conseguido de melhor; nossa pequenez é uma condição imanente à nossa própria vida. Um empenho, que julgamos sério e que nos absorve, é o maior fator de nossa depreciação: é a mania da legalidade, e de tudo o que com ela se parece. A melhor e mais brilhante carreira que, na ideia de todos, pode ter diante de se um moço brasileiro é, como se diz vulgarmente, formar-se em leis; o homem, que se julga com direito a esperanças num grande futuro, põe toda a sua mira em ir ao parlamento exibir-se na sabença da legislação; o indivíduo do povo, em certas circunstâncias, não tendo de que viver, faz-se rábula!... Assim, por toda a parte, é o sonho da lei, por toda a parte, a obstinação da praxe, como o alvo supremo.

É por isso que temos uma biblioteca inteira de pequenos legistas, mas nenhum livro de filosofia; tantos, e, por nós, tão celebrados juristas, mas nunca tivemos um sábio... O espírito que nos anima é um consórcio híbrido de teosofia e de romanticismo sobre a velha crosta legalizante, e, se a isto juntar-se o tão bem achado sestro de palavreado e predileção pela retórica, compreender-se-á por que temos tantos palradores, mas nunca tivemos um crítico... Nossa mesquinha literatura fornece provas abundantes de nossa pobreza e de nossa aversão às pesquisas desinteressadas. Mas nem se faz preciso subir até lá, para indicar a grande anormalidade; apelemos para a experiência de todos os dias. Não sei se haverá entre nós quem se abalance a dizer que neste país se pode fazer vida de escritor; não sei se haverá quem conteste que é logo ferido do geral agouro de ficar isolado e perdido quem ousa avistar-se com os profundos e pestilentos prejuízos que nos deprimem. Fora do funcionalismo não há salvação, é o brado comum atirado aos homens de letras do Brasil.

Ora, pois; nestas condições é que o Dr. Tobias Barreto ousou, segundo sua própria expressão, “por o dedo em cima do aleijão que nos deturpa”[134].

Louvo ainda mais o seu grande desprendimento moral, sua integridade e fortaleza de caráter do que a sua inteligência. É o civismo heróico nas letras; bem haja aos eleitos que o tiverem, e este escritor o tem. Sua índole é própria para arcar com os abusos e afrontar o isolamento; como a Ewald, segundo no-lo informam, distingue-o um certo gosto de lutar, e lhe não têm faltado os inimigos, porém epígonos, anônimos.

Mas cheguemos ao nosso objetivo: o valor exato dos produtos do notável poeta e não menos notável filósofo.

As principaes influências a que tem ele cedido foram, em poesia, o lirismo de Victor Hugo, e, em crítica, a lição dos bons escritores alemães.

Aí mesmo mostrou um rasgo de originalidade; foi o abandono completo dos insignificantes e depreciadores modelos brasileiros, ousando alçar as vistas, por um impulso todo subjetivo, para estrelas mais fulgentes. Ele tem, em dose assaz elevada, o sentimento de seu tempo e sabe facilmente pender para onde o espírito do século irradia mais vivaz. Deixando, por agora e por necessidade do assunto, o que toca à poesia, abramos exclusivamente o pequeno volume que faz o principal objeto desta característica.

É uma coleção, que promete continuar, de seis ensaios em que o escritor fragmentista trata de assuntos de filosofia, de crítica religiosa, e de literatura, no bom sentido da palavra.

Quero ter o prazer de levar o meu leitor aos pontos culminantes do mencionado volume.

Desde logo, o estilo do escritor exige algumas ponderações. A prosa portuguesa é a mais atrasada e imperfeita das línguas neolatinas. Até hoje não tivemos um só prosaísta comparável aos reconhecidos chefes da estilística[135] francesa, italiana e espanhola, sobretudo aos da primeira.

Nossos clássicos mais afamados dos séculos XV, XVI e XVII, em geral ermos de graça e de finezas, não possuíam a grande arte do período. Sua periódica é longa, pesada e fatigante; não se lhes nota o movimento e o brilho dos grandes mestres franceses, por exemplo[136].

Quase o mesmo se dá com os pretendidos guias da língua neste século; estes são de duas categorias: os adeptos do romantismo luso, um Herculano, um Castilho, e os recém-chefes da nova escola literária portuguesa, um Braga, um Coelho, um Vasconcelos. Os primeiros, preocupados com os privilégios inexcedíveis da sublime língua camoniana, tinham paixões arcaicas singulares derramadas nuns períodos retumbantes. Apaixonados pela linguagem de ouro de lei, namorados da retórica, seu estilo foi pouco para imitar-se. Não sei se alguma língua apresentará páginas mais enjoativas, com pretensão aliás a grande prosa, do que as do falecido Visconde de Castilho. Seus escritos originais e suas traduções, não em verso, dão-nos avultados exemplos da especiaria. O próprio Alexandre Herculano, que, incontestavelmente, sabe inspirar algum movimento, alguma vida aos seus períodos, não deixa de ser, não raras vezes, um tanto pesado[137].

Os novos escritores portugueses têm a imensa vantagem de aborrecer e afastar a retórica e a frase; mas não são apreciáveis prosaístas; caíram no extremo oposto ao dos velhos declamadores da romântica. Incorretos, esmorecidos, atrofiados, escapam-lhes os períodos[138]. Não sei se os Srs. Braga, Coelho e Vasconcelos terão a pretensão de ser tão versados nos ásperos e fatigantes estudos da filologia, e nas trabalhosas e áridas pesquisas da erudição, da exegese religiosa e histórica, como um Ernest Renan, por exemplo.

Quero supor que não, e, todavia, dispõem eles daquelas graças e delicadezas de expressão familiares ao ilustre crítico, igualmente distantes da retórica e do chatismo? Quero ainda supor que não. É um engano acreditar que o muito saber, e a gravidade das ideias científicas não se coadunam com o escrever bem; como é um erro grosseiro que só nos histerismos da frase se acham as molduras de um apreciável estilo.

Entre nós os prosaístas estão ainda na velha fase das palavras para efeito. São modelos, que se não devem cotejar. O Sr. José de Alencar, com suas nuvens de rendas, é o mais acabado tipo da espécie[139].

Com Ed. Scherer, o elegante crítico como diz Laurent, acredito que o segredo da prosa está na arte do período, que deve primar pelo movimento e brilho a par da clareza e da simplicidade. São os altos predicados do estilo; ninguém mais do que o escritor mencionado os possui; ninguém melhor do que Tobias Barreto os transportou para a língua portuguesa. Pressente-se que o seu mestre da forma foi exatamente o insigne ex-professor de Genebra.

Lê-se todo o livrinho do autor pátrio e não se tropeça na frase nem na chateza da expressão. Tanto mais singular, quanto, na qualidade de poeta, é um dos mais arrojados na pompa das metáforas, e, como prosador maneja uma língua ainda não muito afeiçoada aos segredos e caprichos das especulações filosóficas. Ele é um vivo exemplo de que se pode aliar uma grande imaginação a uma séria reflexão, sem que uma destas qualidades vá marcar a outra. O romance e a poesia não impedem o espírito severo de Disraeli na prática dos negócios do Estado.

Como prova do que pode o nosso poeta como prosaísta transcrevo para aqui a página seguinte, uma das mais completas da língua portuguesa, sob o ponto de vista da forma. A equação entre o pensamento e a sua natural expressão nota-se aí perfeita:

“Eu já o disse: o defeito capital da psicologia, como ciência de observação, é a falta absoluta de dados para se formarem exatas e profundas previsões. O mundo físico, em seu vasto e intrincado arranjo, pode sempre causar admiração ainda mesmo aos espíritos mais cultos; porém não causa espanto. A ideia da ordem, que é um produto ulterior da inteligência, faz suceder ao primitivo abalo, suscitado pela natureza, o sentimento da harmonia e da razão das coisas. Entretanto, essa ideia não tem tido a mesma força no mundo moral. O espetáculo dos homens, dando a ver, por palavras ou ações, algum novo recanto do seu coração, todos os dias nos assombra. Irrecusável sinal de inteira ignorância, quanto à ordem que reina, e às leis que se executam nos domínios do espírito. Neste meio, o que tem feito a ilusória ciência? Apenas consagrar um sem-número de erros, e autorizar, em seu nome, os mais agros rigores, as violações mais cruéis. Nós vemos diariamente a sociedade, baseada em um suposto conhecimento do homem, arrogar-se o poder de surpreendê-lo no retiro de sua consciência, a fim de assistir a todas as evoluções genesíacas do crime. É destarte que o direito penal decompõe o ato criminoso em elementos sucessivos, partindo da intenção. Manejando os chamados princípios psicológicos, julga ter penetrado na essência da criminalidade. Inúmeras são talvez as vítimas caídas, sob tão fátua pretensão dos legisladores e filósofos. Se há uma razão para explicar por que os cálculos humanos tanto falham, no que interessa às relações sociais, é que as almas nunca chegam a conhecer-se mutuamente, e a psicologia não descobre uma só das leis que determinam a formação do indivíduo. Não canso de repeti-lo: a ciência do eu implica contradição. Abstraído da pessoa e do caráter que a constitui, o eu é coisa nenhuma; nada significa. Mas onde estão as induções científicas, feitas de modo que possam garantir nossos juízos sobre a marcha normal da personalidade alheia? Eu disse alheia, e pudera também dizer própria. Todos sabemos, por experiência, que, as mais das vezes, o que nos desarranja e nos perturba, no curso ordinário da vida, é a ignorância de nós mesmos, da força de nossas paixões, ou da fraqueza de nossa vontade. Não sei qual seja o psicólogo capaz de medir com o olhar da reflexão toda a extensão de seu ser. Não sei quem foi que desceu ao fundo do abismo, e voltou trazendo na boca a palavra do enigma. E já lá vão centenas sobre centenas de anos, depois que a ciência da alma trata de constituir-se e organizar-se! Não obstante, é ainda hoje insuficiente para fornecer ao homem uma noção, menos ambígua, de si mesmo. Tais são por certo as minhas convicções, que me parecem baseadas nos fatos. Com tudo isso, é aqui o momento de advertir que não rejeito absolutamente os trabalhos de observação subjetiva. Julgo aplicável à psicologia o que disse da economia política um jurista francês: ela não é uma ciência, mas apenas um estudo; e eu accrescentaria: um entretenimento. Não contesto se possa adquirir, por este meio, noções mais claras do papel e do jogo mútuo das nossas faculdades. Esse exame de consciência, a que se entregam os psicólogos professos, sem ser de utilidade geral, encerra talvez algumas vantagens pessoais. Pelo menos, o hábito da reflexão é um obstáculo sério aos ímpetos apaixonados. Os místicos servem de exemplo. Não se leva a refletir continuamente sobre a alma e sua natureza, sem acabar por cair-se em uma espécie de indolência e torpor, que neutraliza as sugestões sensíveis. Eu duvido que um pensador, ao jeito de Jouffroy, tenha tempo e disposição para engolfar-se em qualquer doce corrente do mundo visível. Sem ironia, apresso-me em declará-lo: o espetáculo de um homem que empalidece de viver sempre atufado no antro escuro de seu próprio pensamento, respirando apenas por minutos o grande ar da vida comum, tem decerto alguma coisa de tocante. Não é uma vocação, que me pareça invejável; é um nobre esforço, que se pode admirar, juntando à admiração sincera pena de não vê-lo empregado em matéria de mor proveito”.[140]

Esta longa citação foi feita logo com o intento de deixar ver algumas das notáveis ideias do escritor. É pelo conteúdo delas, e sem que devamos jurar em todas, que devo de preferência defini-lo.

Antes de tudo, advém ponderar que ele não foi sempre, qual hoje se mostra, um aproveitado discípulo da ciência livre, que vemos representada no século por Comte, Haeckel e companheiros. Curvou-se também ao extenuado espiritualismo francês nos seus primeiros escritos. Teve por iniciadores em filosofia a Biran, Cousin, Jouffroy, Simon, e ao escolástico e estéril espanhol Balmes. Esta fase primordial foi felizmente bem pouco duradora. Raríssimos artigos, publicados em jornais, são os documentos daquele estádio; o autor foi o primeiro a desprezá-los, jogando-os para fora da reprodução de seus escritos[141].

O belo ensaio “A Ciência da Alma, ainda e sempre Contestada”, o primeiro da coleção que vamos apreciar, é uma tentativa de revolta contra a psicologia, como ciência, qual vemo-la nos livros dos escritores franceses filiados ao moderno ecletismo. O autor não nega a sua possibilidade e vantagens como estudo e entretenimento, segundo já vimos; contesta-lhe, com razão, os foros de uma ciência. Sem ser nova a tese, como ele próprio o reconhece, revestiu as vistas das escolas — crítica e positiva — de argumentos, e ponderações originais. Entre outras, o são as espalhadas na página brilhante sobre a célebre confissão de Jouffroy, quanto à queda de suas crenças. O nosso crítico mostra que o filósofo encomiado fez ilusão sobre todos e sobre si próprio; foi vítima de um achaque romântico junto a uma cegueira psicológica. Não é menos apreciável o que diz sobre a memória e a imaginação no trabalho das pesquisas no mundo psíquico. Ao total, ele não se limita a mostrar que uma genuína ciência da alma é impossível, por sê-lo toda a excursão no domínio dos fatos subjetivos; seu maior esforço é para arredar da filosofia a criação gnômica da alma em prol da materialística fecunda da novíssima escola anglo-germânica.

O estudo a que me refiro satisfaz plenamente os desejos de uma leitura exigente pela variada e amena cultura que se espalha por aqueles períodos. Sente-se que o filósofo é também um escritor, no sentido especial da palavra. Aquelas laudas em resposta a Vacherot, sobre o papel e a importância dos escritos dos poetas e romancistas para os estudos psicológicos, são magistrais.

Quisera que renhida fosse, como a fez, a luta contra o decrépito espiritualismo cartesiano; mas arredado esse trambolho do campo da especulação científica, fora para desejar mais abundantes esclarecimentos no tocante à psicofísica, ou fisiologia cerebral. Sim; desfeita a névoa de uma ciência de um ser espiritual autônomo e independente, o Dr. Tobias, que admite a inquirição no domínio do homem interior como aproveitável estudo, pudera, a exemplo de Bain e Spencer, nos dizer muito do que pensa e do que sabe a respeito de tão grave assunto.

Aquele seu escrito é um verdadeiro ensaio sobre o estado da ciência subjetiva; muito azado era o ensejo para esclarecer-nos ainda mais. Ele, porém, conteve-se no domínio da crítica, sem querer ultrapassá-lo. Neste ponto, um dos seus primeiros encontros é com o “penso, logo existo” cartesiano.

Não só nega-lhe a força e prestígio para um pórtico indestrutível da filosofia, como estigmatiza a dúvida metódica do velho patriarca do espiritualismo. As vistas do escritor são deduzidas com uma ordem invejável. Creio, porém, que dera ao célebre aforismo uma importância que ele não tem, e o combateu, talvez, num sentido que não foi realmente o seu.

Cumpre advertir que o filósofo empregou todo o rigor de sua crítica sobre o referido apotegma, como se ele tivesse o intento e a força de um raciocínio, de um argumento lógico.

O cogito, ergo sum na mente do velho Descartes não teve o sentido que depois lhe deram seus discípulos e continuadores, todos menores do que ele, entre outros Charles Levêque, que o filósofo brasileiro caustica com verdadeira superioridade. É este escritor espiritualista, que, segundo Nerée Quepat, “tem ares marciais, e parece andar sempre fitando um ponto invisível”, um dos que hão concorrido para fazer passar como um princípio, e para mais expô-lo, o célebre dito do ilustre contemporâneo de Richelieu.

Conformo-me com o juízo de Thomas Buckle sobre o autor do Discours de Ia méthode.

Aparecido numa época em que principiavam a sazonar os primeiros e salutares frutos da Reforma, foi o iniciador do livre exame e da independência da razão individual na esfera da filosofia. Seu ceticismo, como o de Chillingworth, foi dirigido, não contra a inteligência humana, cujo poder proclamavam, mas contra os apelos para a autoridade e tradição sem as quais era, até então, suposto que ela não podia eficazmente caminhar. O filósofo produzia um esforço para atacar os prejuízos de seu tempo e livrar-se o mais possível deles: “Não que, para tanto, eu imitasse os céticos, que duvidam apenas por duvidar, e fingem ser sempre irresolutos; pois, ao contrário, todo o meu intuito era tão somente o de me certificar e remover a terra movediça e a areia, para encontrar a rocha ou a argila”, disse-o claramente[142].

Era um arranco de pessimismo que não deixou de ser proveitoso, e que um homem como o Dr. Tobias Barreto não deixará de apreciar. O apotegma cartesiano foi uma fórmula, talvez não muito exata, desse espírito. Com ele o filósofo não quis dar uma prova da existência da alma, ou da sua própria, e sim tornar patente o critério de sua doutrina: a força do pensamento e da razão. Repudiando a tradição e a autoridade teológica, em que foi um dos primeiros a fazer brecha, apelava para o pensamento que é um sinal de vida e de luz.

Depois de falar de um erro de Jobert sobre o reformador francês, diz, com exatidão, o escritor britânico a que me hei referido:

“Erro similar é cometido por aqueles que supõem que seu je pense, donc je suis é um entimema; e tendo isto por certo, voltam-se contra o grande filósofo e acusam-no de desvirtuar a questão! Tais críticos examinam a diferença entre um processo lógico e um processo psicológico; e, no entanto, não veem que esta famosa sentença era a descrição de um fato mental, e não a formulação de um silogismo mutilado”.[143]

A severidade da análise do Dr. Tobias deve, pois, ter sido empregada contra as falsas ilações do coevo ecletismo cousiniano árido e inanido entre as mãos de um diletante como Levêque. Este é um dos que têm falsificado o bom sentido, o que havia de aproveitável, do sistema do nobre pensador, um dos primeiros na Europa que teve a coragem de pronunciar estas palavras memoráveis: “rejeitaremos completamente de nossa filosofia a busca das causas finais”[144]. Fecundo brado que a ciência contemporânea se esforça por verificar.

O Dr. Tobias Barreto, pelas qualidades de seu espírito, é antes de tudo um reator, e esta tendência transparece em sua crítica, fazendo-a ir além de seu alvo.

Ele toma contas aos descendentes de Descartes pelos erros acumulados por eles sobre a cabeça do mestre, e chega até a repudiar o grande pensador, uma das glórias do século XVII. Prefere-lhe, e nisto vai alguma justiça, Espinosa, de gênio mais profundo, ainda que menos variado. Há excesso de desprezo pelo ídolo dos franceses. O motivo oculta-se, sem dúvida, em frases como esta de Levêque: “Ninguém ainda provou a falsidade da equação psicológica, estabelecida por Descartes: eu penso, logo eu sou; a qual significa: eu penso equivale a eu sou pensante”. É inexcedível o desdém do escritor brasileiro diante de tão extravagante declaração.

Palavreados daqueles é que hão desacreditado a filosofia, e munido de razão ao nosso Barreto de Menezes.

*****

O segundo ensaio do livro do autor sergipano se inscreve: “Uma Excursão de Diletante no Domínio da Ciência Bíblica”. Este título denuncia uma grave lacuna no quadro oficial dos estudos neste Império, além da nobre franqueza do escritor.

Ele aí exarou, com toda a sinceridade que o distingue, o seguinte fato que é um dos sintomas da nossa incapacidade: não temos no país um só curso em que o conhecimento das línguas orientais, a par da vasta ciência da exegese religiosa e mitológica possa ser adquirido! A filologia e a crítica religiosa não existem para esta região da América. Os nossos letrados nesse domínio do espírito não passarão, por muitos anos de diletantes. É o que se dá também na esfera da alta especulação filosófica, por lhes faltar, quase sempre, a posse das ciências matemáticas, físicas e naturais.

Destarte, um homem como o ilustre crítico sergipano, com toda a sede de saber de que é dotado, acha-se na grande dificuldade de pisar segura e resolutamente no terreno da ciência. Esta em seus mais altos ramos é de uma aquisição impossível para nós, para todos aqueles que a não podem ir buscar na Europa ou nos Estados Unidos. Quanto distamos até da Índia inglesa e... da Austrália!!... Mas os resultados de uma tão grande anomalia não se fazem muito esperar. Ainda há pouco, atravessamos a fase principal de uma questão religiosa. Os discursos do parlamento, ao lado das publicações do jornalismo político, são um armazém curioso para quem quiser apreciar o deplorável estado de nossa cultura no que é atinente aos debates daquela natureza. Os trabalhos dos Baur, dos Strauss, dos Knobel, dos de Wette, dos Ewald, dos Castren, dos Lassen, dos Müller, dos Stanislas-Julien, dos Burnouf são como non avenus para este país...

Os ortodoxos de cá ainda se decoram com as armaduras de Chateaubriand e Balmes, de Ventura e Auguste Nicolas, e os supostos adiantados não lobrigam além d’A origem dos cultos, de Dupuis e d’As ruínas de Volney...

Assim, nada mais apropriado, para nos caracterizar, do que os escritos de Ganganelli, onde o voltairianismo estéril debate-se com a debilidade da crítica, levando-lhe a vitória. Entretanto, para mais de um espírito de compatriota, eles desvendaram largos e novos horizontes à exegese crítica brasileira... Esta, evidentemente, acha-se ainda no ponto de vista da Dedução Cronológica do padre Antônio Pereira, e de sua Prefação à tradução da Vulgata.

O escritor, que se assina Ganganelli, é, sem contestação, o mais robusto órgão do pensamento livre no Brasil, por dois motivos capitais: porque é o mais lido, o que conta maior número de sectários, e porque para ser um escritor de voz um pouco retumbante neste país não são precisos muitos dotes. Aos homens, como ele, é, todavia, a pátria devedora de lautos benefícios, porquanto não é pouco fazer face à corrupção teológica, que nos consome.

O livro As bíblias falsificadas do General Abreu e Lima, que tanto ruído produziu, nutria-se de igual espírito. Ainda que mais ilustrado que Ganganelli, Abreu e Lima incorporou nas suas páginas de polemista a mesma intuição do oratoriano português. O Dr. Tobias Barreto deu a mão a outros guias: Geiger, Dorner, Chwolson, Reuss, Scherer, Michel Nicolas, além dos grandes mestres reconhecidos da crítica histórica alemã, lhe são familiares.

No ensaio que nos ocupa, seu fito principal é apreciar a célebre característica dos povos semíticos de Renan.

O artigo traz duas datas, 1871 e 1873. Se me não engano, parece que a primeira tenção do escritor fora entrar bem largo no exame crítico de uma das épocas do Velho Testamento, fazendo a análise dos últimos capítulos do Livro dos Juízes.

É este o intuito que transparece das primeiras páginas do artigo até o parágrafo V.

O autor supõe a narrativa da instituição da realeza, por Samuel, escrita por um profeta do tempo dos reis, vidente que para melhor estigmatizá-los pinta a instituição como reprovada pelo seu próprio autor. Aquelas páginas são magníficas, e muito maior brilho adquirem, quando se pondera que foram as primeiras escritas na língua portuguesa no domínio da moderna ciência bíblica. O resto daquele belo ensaio pertence à sua derradeira data, e o escritor, desvirtuando a sua primeira ideia, dirige-se à questão dos predicados geniais dos semitas. Chwolson lhe fornece algumas de suas armas.

Ora, as asserções capitais de Renan, que hão provocado, neste ponto, a contradição, se reduzem a duas: o monoteísmo instintivo daqueles povos, e sua incapacidade para as especulações altamente científicas e para a epopeia.

Estas ideias foram espalhadas em 1858 e 1859 em sua História geral e sistema comparado das línguas semíticas, e em as Novas considerações sobre o caráter geral dos povos semíticos, e em particular de sua tendência para o monoteísmo, e combatidas, desde logo (1860) por Max Müller, que assim se exprime: “Será possível dizer a todas estas nações que adoravam Eloim, Jeová, Sabaô, Moloch, Nisroch, Bimon, Debo, Dagon, Ashtarô, Baal ou Bel, Baal-peor, Baal-zebu, Chemasch, Milcom, Andramelech, Anamelech, Nibaz e Tartak, Ashima, Nergal, Sucô-benô, o Sol, a Lua, os planetas e todos os astros do firmamento?”[145].

O leitor perdoe-nos a terrível nomenclatura de Müller. Muitos outros sábios saíram ao encontro do célebre autor d’A Vida de Jesus no encalço da falsa tese do monoteísmo instintivo dos semitas, para um homem como o assiriólogo Lenormant escrever estas palavras: “A famosa doutrina de Renan a respeito dos caracteres essenciais do gênio da raça semítica, a qual generalizava para toda a raça, qual uma disposição comum, o gênio particular do povo hebreu e o espírito de seu monoteísmo, em que, todavia, deve-se enxergar, pelo menos, um fato historicamente excepcional no meio de todas as populações vizinhas, quando se lhes recuse um privilégio de origem sobrenatural, esta doutrina, digo, foi refutada de um modo completo pelos sábios os mais competentes, e o seu próprio autor não a defende já sem grandes atenuações[146].

Estas palavras denunciam claramente o sentimento do ilustre filólogo sobre o pretendido monoteísmo dos povos semíticos; mas reconhecem-no quanto ao povo hebreu exclusivamente.

Eu creio que nesta última nota se deve fazer alguma redução em seu pensar.

É inegável, e os mais audazes seguidores da ideia do politeísmo de todos os semitas o reconhecem, é inegável que o povo hebreu nunca possuiu uma verdadeira mitologia, mas é preciso dar provas de um completo desconhecimento não lembrar a sua pronunciada tendência para a adoração dos deuses de seus irmãos de origem, tendência tantas vezes sufocada pelo zelo dos profetas, e tantas vezes repetida no curso de sua história.

O fato, historicamente excepcional, da população judia não foi tão completo, como sói parecer. À incapacidade, por outro lado, dos descendentes de Sem para as altas especulações científicas, e para a epopeia, os últimos avanços da assiriologia têm feito a justiça merecida. Aí o escritor, que invoco, mostra-se cheio de razão. Existe todo um ciclo mitológico e épico das crenças e acontecimentos da Assíria e de Babilônia. As inscrições cuneiformes denunciam também um sério arrojo puramente científico na alma dos povos que representaram a brilhante civilização da Ásia Ocidental em épocas em que os árias não tinham ainda transposto os últimos degraus da barbárie.

Não é sem motivo o referir as próprias afirmações de Lenormaut: “As inscrições cuneiformes provam que as ciências figuravam com destaque nas preocupações intelectuais dos babilônios e dos assírios, e que eles trouxeram, ao lado de ideias bizarras, um notável espírito de método”[147].

Isto para as faculdades especulativas; quanto à poesia, diz-nos o sábio francês: “A descoberta de Smith e os fatos que ela permitiu agrupar ao seu redor, confirmando as consequências, deve doravante levantar as dúvidas que subsistiam sobre esse ponto e modificar, pela revelação do ciclo épico da Babilônia, as ideias que ainda prevalecem em muitos espíritos”[148].

O artigo de Tobias Barreto, apreciativo exclusivamente da história e da inteligência judia, nada refere sobre a questão do suposto monoteísmo dos povos congêneres, nem sobre a sua presumida incapacidade para a epopeia; reduz-se, pela circunscrição de seu objeto, à afirmativa de que boas qualidades científicas e literárias couberam ao povo a que mais de perto dirige a sua predileção. Sem desconhecer que os arianos são dotados de maior força imaginativa, e de instintos mais pronunciados de um progresso indefinido, ele lhes aproxima os judeus, e a estes prefere, por algumas qualidades.

Estas, redu-las, louvando-se em Chwolson, a três: a temperança intelectual, que os privou de correr atrás dos enigmas da metafísica; um pronunciado sentimento da individualidade, que os levou às formas democráticas de governo, e à ausência de dogmas religiosos; e finalmente a profundeza e sensibilidade da alma, que os inclinou sempre para o ideialismo elevado. Estas notas são exatas; a sua tônica, porém, me parece a última. Realmente, a ela é que suponho deverem os judeus o privilégio inexcedível de haver, com o cristianismo, conquistado o mundo dos seus rivais, a civilização ocidental ariana.

O escritor sergipano não oculta seu ardor de solene simpatia pela nação israelita. Di-lo com força e verdade:

“É preciso que na alma desse povo tenha havido muita seiva, muito germe de grandeza intelectual e moral, para explicar o movimento, o atraente espetáculo de sua história. Há uma palavra de Herder, que me parece bem fundamentada: ‘Os judeus são o povo mais extraordinário da Terra’. Fora injusto e dificílimo contestá-lo. Quaisquer que sejam as causas que promoveram a queda dessa nação, é bastante honroso para nós outros, filhos da civilização cristã, reconhecer que devemos aos judeus uma boa parte do nosso capital de ideias e sentimentos mais vivos. Eles são um importante fator na história da cultura ocidental, não só pelo lado religioso, mas também pelo lado puramente literário. É tempo de acabar com as ilusões de uma pretendida incapacidade semítica em relação aos altos domínios da inteligência”.[149]

Devemos, todavia, nos premunir contra o exagero que facilmente pode irromper em nosso espírito. É justa a reação contra o amesquinhamento da inteligência semítica, como é exata a denegação de lacunas que lhe não pertencem; mas é preciso não ultrapassar os verdadeiros limites que a ciência manda respeitar. As raças semíticas são bem diferentes das arianas e lhe são, a darmos crédito a alguns naturalistas, alguma coisa inferiores, dessa inferioridade que consiste em estar-se um passo aquém na escala evolucional. A filologia, a história e a antropologia parece aí estarem de acordo. Aquela, apontando nos arianos uma família de línguas mais abundante, mais variada e atualmente de mais vigor e futuro; a história, mostrando o desenvolvimento semítico como anterior ao ariano, e, pela lei da evolução, menos profundo e completo. De fato, por maiores que sejam os esplendores das civilizações da Caldeia, da Assíria, da Babilônia, da Fenícia, da Judeia e da Arábia, por mais que se lhes possa juntar os camitas do Egito, elas não encerram esse espírito progressivo, esse caráter próprio para as transformações do espírito contemporâneo.

A Índia, a Grécia e Roma passaram à Europa de hoje, com a Alemanha à sua frente, e a América com os Estados Unidos adiante, esse aliquid que representa incontestavelmente o futuro da humanidade.

Os semitas são-nos anteriores na ordem histórica e, por isso mesmo, cederam-nos a palma. É anticientífico negar-lhes as altas qualidades que foram capazes de suportar um tão profundo desdobramento de ideias; é um erro não reconhecer nas asas de nosso pensamento aquela que se agita ao sopro dos semitas. Devemo-nos, contudo, curvar à lei do transformismo que no-los aponta como um dado anterior à nossa própria evolução. A antropologia no-los mostra como um grande ramo da raça branca, mas com alguns caracteres específicos.

O desenvolvimento físico e moral do semita é muito precoce e muito rápido; logo, porém, estaciona. Bem cedo as peças anteriores do crânio que contém os órgãos intelectuais, ficam-lhe fortemente presas e seguras. O crescimento ulterior do cérebro torna-se impossível. É o que no-lo afirmam os naturalistas, segundo o testemunho de um sério espírito, ainda que um pouco eivado da mania do helenismo, Émile Burnouf. Nada daquillo, em regra, se nota no ariano, cujos progressos são mais tardios e de um mais esplêndido futuro. Além de tudo, o semita é pertencente ao tipo de povos cujo maior desenvolvimento craniano é na parte posterior; ele é dolicocéfalo occipital, ao passo que os indo-germanicos são dolicocéfalos frontais[150]. Este sinal deve ter algum peso, não para legitimar as afirmações renânicas, mas para prevenir os excessos em contrário.

*****

Nos quatro artigos derradeiros do livro principal do Dr. Tobias encarnou-se uma ideia predominante em seu espírito: a superioridade da cultura alemã sobre a de todos os povos da atualidade e, como ponto oposto, como o nadir daquele Zênite, o lastimável abatimento de Portugal e do Brasil.

A França ocupa um lugar intermédio. Através da variedade de assuntos ali tocados e esclarecidos ressalta aquela nota vibrada de preferência. Fora difícil negar a justeza de semelhante pensar. Não há ali exclusivismo e acanhamento de vistas; o crítico ama a Alemanha, mas seu amor é filho da reflexão. Nenhum país, a seus olhos, como aos olhos de todos os espíritos cultos de hoje, apresenta uma legião tão brilhante de grandes e nobres pensadores. Mas leiam-se com atenção as páginas do crítico brasileiro, e vê-lo-emos inclinar-se diante do inglês Darwin, do francês Comte, do belga Laurent, do russo Turgueniev, do norte-americano Emerson, do dinamarquês Brandès, do italiano Marselli, nomes estes não mui familiares aos ouvidos nacionais.

A polarização é completa; o rigor para com os espíritos medíocres que abundam em Portugal e Brasil está justamente em relação ao grau de entusiasmo excitado pelos vivos luzeiros de outros países. Nenhuma seleção é feita aí; entre portugueses, por exemplo, velhos e moços, Alexandre Herculano e os jovens reformadores, todos são epígonos, aferidos pelo padrão dos grandes vultos europeus. Subscrevo tão sérias verdades. Não posso compreender as distâncias e as diferenças de altura que se notam de um Garrett a um Teófilo Braga. Não é difícil encontrar quem prefira o primeiro, e quem vote pelo último. Penso que um vale o outro, como homens representativos da evolução intelectual do velho reino. Sob esta relação, não tem senso quem fala no adiantamento de Braga e no atraso de Garrett. O que fez este último? Incutir de um modo imperfeitissimo no espírito português as reações que o romantismo, há mais de cinquenta anos, espalhava da Alemanha sobre a Europa.

E o que tem feito Braga? Não mais do que sujeitar- se à mesma lei fatal que coage os escritores de seu país a ficarem mais de meio século atrás da ciência de seu tempo.

Como poeta, é ele ainda hoje um romântico intratável; inconsistente e contraditório sonha com a poesia do futuro, ele que escreveu a célebre epopeia cíclica da humanidade. Fala em romantismo transformado em vista das necessidades futuras e escreve o poema do passado!... Como crítico e historiador, seu fôlego não vai além das inspirações de Schlegel. A grande transmutação, já muito adiantada, produzida em todos os ramos do saber humano pelos pensadores que se acham agora mesmo na frente da história, paira-lhe à altura inacessível[151].

O moço português é um compilador, sem muita filosofia, que se acha para Buckle ou Lazarus, por exemplo, na mesma distância em que Garrett se achou para com Goethe ou Walter Scott. Onde, pois, a sua melhor fortuna?

Seu ar de superioridade não é um predicado seu; é a impressão geral do nosso tempo. Tobias Barreto, que não tem, como o poeta e Literarhistoriker português, tão desenvolvida a bossa da erudição, às vezes indigesta, Tobias Barreto que nunca escreveu a epopeia da história, ou a história da literatura deste ou daquele país, sobrepuja-o, não pouco, em senso filosófico e numa mais inteira consciência de nossa época.

Há entre eles uma enorme diferença: o escritor açoriano parece ligar toda a importância à quantidade; para ele o grande empenho de um autor deve ser multiplicar os volumes muito além do razoável; o sergipano é mais amigo da qualidade; para ele o maior desvelo de um pensador há de estar em apresentar-se escoimado de todos os tropeços que lhe possam embaraçar a ideia. É por demais fatigante o caminho através dos quarenta volumes de Braga; temos por companheiro de jornada um cicerone que nos quer mostrar todas as sinuosidades da estrada, e não raro, nos transvia bem longe e fora de nosso rumo. Sente-se ali um espírito pesado pela erudição mal aplicada, sem grandes faculdades sintéticas, que não consegue no fundo de seus quadros destacar a fisionomia viva das épocas de que vai tratando. Disse bem dele algures o nosso crítico: “Ninguém há, por ali, que melhor autorizasse uma tal qualificação, do que esse moço infatigável no maníaco empenho de produzir, e produzir às mãos cheias. Dir-se-ia que para ele foram talhadas as conhecidas palavras do pessimista judeu: Faciendi plures libros nullus est finis”[152]. A qualificação de que se trata é a de difuso dada por Michaëlis a Garrido. As poesias e os artigos, espalhados pelo autor brasileiro pelos jornais nos últimos quatorze anos, podendo, quando muito, condensar-se em seis ou oito volumes de tamanho regular, nos põem em comunicação com um espírito vivaz, dotado da ótima qualidade de esclarecer o seu leitor em poucas páginas, deixando-lhe, porém, sempre o desejo de continuar a leitura se ele ainda mais se estendesse. Os Ensaios e estudos são uma prova. Devoram-se a grandes tragos sem deixar o leitor aniquilado como a boa constrictor, depois de engolir um boi. O Sr. Teófilo Braga tem este privilégio... É com sobeja razão que, na brochura que estudo, o vejo, de parceria com os seus companheiros de lides, julgado pelo que vale. Portugal está decrépito; as duas gerações mais notáveis de pensadores que, neste século, há produzido: os Garretts, os Herculanos, os Castilhos, e os Bragas, Coelhos e Vasconcelos, não tiveram, e não têm, vigor para o salvar. Há de continuar a seguir o seu fadário: andar em massa mais de um século atrás dos povos inteligentes e produtores, repelindo-lhes as grandes ideias, e, quando melhor inspirado por alguns raros indivíduos, representar o papel de compilador, e este mesmo atrasado sempre uns cinquenta anos, pelo menos. É também o apanágio do Brasil. Este país não tem impulsos originais; o instinto da sequacidade é todo seu; não existe uma só ideia deposta entre os tesouros intelectuais da humanidade que seja oriunda do Brasil.

Quando, entre nós, algum mais bem dotado levanta mais alto a cabeça, é sempre iluminado por luz estranha. Luz própria deste país, eu a não conheço; podemos repetir: Et circumdedit eum Deus tenebris.

Barreto de Menezes teve um grande mérito: resumir em si a consciência da profunda mendicidade do pensamento brasileiro e atirar o fel produzido por um tal estado mental em seus escritos. Aí o crítico cede o lugar ao propagandista. Neste sentido, o Brasilien wie es ist é o nosso apocalipse. O autor prega-nos que, renegado o torpor que nos deprime, robusteçamo-nos na cultura europeia, representada pela Alemanha. Tem sido acusado de antipatriota!...[153]

É o brado do espírito brasileiro se caracterizando ainda mais; é a estultícia nacional, julgando sempre que o patriotismo está em proclamar nossos rios os maiores do mundo, nossa terra a mais produtora, nossas montanhas as mais elevadas, nosso céu o mais esplêndido!... É a célebre descrição do Brasil, em Rocha Pita, transformada em uma ação reflexa do organismo nacional... [154]

O Dr. Tobias Barreto é, ao contrário, um grande patriota. Como poeta, aí estão seus cânticos que tanto entusiasmo produziram no período de nossa última guerra [contra o Paraguai], e muito contribuíram para o voluntariado da pátria em Pernambuco, e, como escritor, não deixa de sê-lo quem faz votos, com prejuízo de seus cômodos pessoais, para que nos ergamos do sono cataléptico em que estamos mergulhados. Neste ponto, o artigo “Auerbach e Victor Hugo” é decisivo. Ao lado da pintura sombria que faz de nossa mesquinhez intelectual, diz:

“não se julgue que descreio da possibilidade e eficácia de uma reação contra a tendência que nos vai levando. Ou seja, porque ainda ilude-me um resto de adolescência crédula e descuidosa; ou seja, porque pressinto, não obstante o céu carregado, a próxima limpidez da atmosfera, o certo é que não posso resignar-me a achar bom tudo o que é nosso, e só porque é nosso; nem comprimir, como mau e antipatriótico, o desejo de ver a mocidade conterrânea, animada do espírito do tempo, deixar a rota batida, e seguir melhor caminho. Espero que mais tarde aí chegaremos”.[155]

Se alguma censura se lhe pode fazer, pelo que aí fica transcrito, é confiar ainda muito no espírito dos nossos moços. Julgo, ao invés, que sempre seremos um povo de quarta ou quinta ordem, quanto às lutas do pensamento, e que só chegaremos à grande cultura com a marcha com que até aqui temos andado, isto é, recebendo um ou outro impulso do exterior apesar nosso.

Fomos um copista de Portugal; depois passamos à França; o moço crítico, que sabe muito bem que somos incapazes de tomar qualquer direção por nós mesmos determinada, aponta-nos para um outro alvo. É preciso estudar um pouco de perto esse anelo. Brada-nos no artigo “Socialismo em Literatura”: “Quebremos as taças em que até hoje saboreamos as mefíticas doçuras da civilização francesa; e volvamo-nos para a Alemanha. No domínio das ideias, no que toca à necessidade de uma reforma intelectual, é o que nos pode salvar”. Este pedaço deve ser entendido habilmente. Em regra, não é um bom exemplo aconselhar a uma nação que siga a outra; mas isto deve se compreender com relação aos grandes povos, àqueles que podem representar um papel original na história. Para com os povos medíocres, ou quase nulos, a coisa muda muito de figura. Eles devem ser compelidos a tomar os avisos salutares, sob pena de perda irremediável. Impróprios para reformarem-se por si, hão mister de uma escola severa fornecida pelo estrangeiro. Mas duas são as grandes manifestações no domínio das ideias: a ciência e a literatura. Quanto à primeira, o Dr. Tobias Barreto é muito ilustrado para pretender que ela seja um patrimônio da Alemanha, como uma inteligência má do seu pensamento tem podido sugerir.

A ciência contemporânea é um coeficiente da civilização ocidental, tendo, é certo, na Alemanha sua sede principal. Não foi, pois, dela especialmente que o autor dos Ensaios e estudos quis falar. Quanto à literatura, ele é muito bom poeta para pretender que o cunho da nacionalidade possa dela no todo ausentar-se. Quer num, quer noutro ramo, ele teve, sem dúvida, em vista a disciplina do pensamento, a severidade da investigação, juntas à sinceridade do sentimento e à exatidão da expressão, que constituem o selo da inteligência tedesca. Quer que contraiamos tão salutares hábitos no estudo severo da ciência e da literatura germânicas, incontestavelmente as mais fecundas da atualidade. É o conselho mais benéfico e proveitoso que se nos pudera hoje dar.

Deixo de acompanhar detalhadamente o nosso autor nos quatro últimos artigos de seu volume, para consagrar algumas linhas a desenhar-lhe os traços gerais de sua fisionomia de escritor. Conquanto ainda não tenham aparecido as outras livrações de sua obra, onde devem ser incluídos os seus belos estudos de direito público, de crítica literária e de filosofia, é possível desde já dar um esboço de sua figura.

O Dr. Tobias Barreto é, antes de tudo, um reator, e, até certo ponto, um propagandista. Na qualidade de reator, lido, como é, em muitos dos ramos da ciência de hoje, investe contra o nosso deplorável atraso, e assume um certo ar de rudeza, não proposital aliás, e indispensável ao bom êxito de suas tentativas.

Sua propaganda é indireta; ele não tem o espírito aberto às relações com a multidão; ama o isolamento e gosta de aparecer no singular. Ainda assim, pela força e disposição incisiva de seu estilo, suas ideias deixam-se abraçar; mas o número dos adeptos é sempre limitado.
Não sei se abuso, dizendo que tenho uma prova disto em sua carreira de poeta. O maior número de seus companheiros de escola o não estimava, entretanto quase todos eram levados pelo capricho de suas inspirações! Não se deve atribuir à inveja os amuos de seus rivais, e repetir com o historiador de Roma invidiam gloria vicisti, não; aquilo era um resultado da própria natureza de seu talento. Levanta em tomo de si a poeira, cria inimigos, para também criar grandes dedicações.

Juntai a isto um delicado senso em apoderar-se das insinuações mais novas e livres da ciência e da filosofia, uma dose ligeira do pessimismo de von Hartmann, mais forte do positivismo de Comte, do darwinismo de Haeckel, sem tornar-se o escravo de nenhum destes sistemas, e aí tendes uma ideia do seu espírito. Dele restará, antes de tudo, o exemplo.

Abandonado, só, desdenhado até, sem parte alguma no ferrenho funcionalismo que tudo estraga e polui neste país, o que não deixa de dar-lhe uma enorme vantagem, ousou avistar-se com os prejuízos, e resistir a todas as facções, apontando essa grande patrícia nossa, a ignorância, tendo assento em toda a parte, desde a tripeça do baixo operário até as altas poltronas da grande administração. Abandonado, só, ousou clamar contra o ingrato exclusivismo da língua portuguesa, e expandir-se nestas fortes palavras:

“Pois bem, não pode haver dúvida de que nós brasileiros tenhamos sido isolados dos centros do movimento espiritual europeu mais pela exclusividade da língua portuguesa do que por nossa localização geográfica, ocorrendo isto apenas em nosso próprio detrimento”. [156]

É uma nobre individualidade, animada do amor do verdadeiro, cujo brilhante exemplo nos poderá levar a melhores posições no caminho das investigações desinteressadas.

Nele estão resumidos, cristalizados os sonhos que é dado brotar na alma brasileira no momento atual. Ali sente-se um como irradiar do futuro. O sergipano, no desenvolvimento brasileiro, na consciência pessimística de nosso atraso, é um ponto central; é um daqueles de que diz Alfred von Wolzogen: “Estes indivíduos compõem os pontos centrais do desenvolvimento”[157].

Conclusão
É este o quadro da filosofia no Brasil. Julgo-o completo, apesar de ter deixado à margem algumas obras de autores nossos, que entendi não dever contemplar. São: o Compêndio de filosofia de Fr. Itaparica, lente de teologia no Seminário baiano e o do Dr. Moraes e Vale, lente de química na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Tais obras são daquelas que estão abaixo da crítica, e não devem figurar num trabalho sério.

Não falei também dos Pequenos ensaios positivistas, e das Conferências sobre o darwinismo dos Srs. Miguel Lemos e Miranda Azevedo; porque não passam de ligeiras tentativas ainda pouco firmes, e destituídas de originalidade. Conquanto os seus autores sejam moços de talento e que fundamentam justas esperanças, os dois produtos a que me refiro não são mais do que reproduções quase servis de ideias alheias[158].

A alma e o cérebro do Sr. Gonçalves de Magalhães, de que já dei uma notícia, é um livro enfadonho, segunda edição dos seus Fatos do espírito humano. Aparecido, como já deixei notado, durante a impressão deste ensaio e quando já estava pronto o capítulo relativo ao seu autor, julguei não dever interromper a minha marcha por amor ao Sr. Visconde, quando era certo que ele nada nos vinha oferecer de novo e de importante[159]. Nenhuma publicação significativa e meritória, pois, apareceu no terreno da filosofia, entre nós, nos últimos dois anos, que deva mencionar. Faz uma honrosa exceção a interessante Carta Aberta à Imprensa Alemã [Ein offener Brief an die Deutsche Press] por Tobias Barreto, aparecida recentemente e que permanece de todo ignorada pelo sublime público da Corte.

Como o Brasilien wie es ist é o que de mais incisivo conheço sobre as nossas fraquezas intelectuais, a Carta Aberta é o que de mais lucidamente terrível tenho lido sobre nosso lastimável estado político e social.

Este pequeno escrito indiretamente é que se prende ao nosso assunto, e por isso dele darei somente uma rápida notícia[160].

O novo trabalho do escritor sergipano foi escrito a propósito, e como refutação, de uma circular, pejada de insensatos encômios aos nossos imperantes e ao nosso país, publicada na Weser-Zeitung por ocasião da última passagem dos nossos monarcas pela Alemanha.

De um homem como o nosso filósofo não se havia de esperar que tomasse a pena somente para desmanchar um tecido de fagueiras falsidades. Ele devia penetrar um pouco amplamente em nossa vida pública e ostentar aos olhos da Europa iludida as nossas misérias de povo semibárbaro.

Foi justamente o que ele fez. Tanto mais insuspeito é o seu juízo, quanto funda-se nos fatos, e o nosso escritor não pertence a nenhum dos partidos políticos que nos dividem. Antes havia escrito:

“Não sou, não posso ser conservador e isto por índole. Liberal, não sei se sou, ao menos entre nós os liberais me repelem, e eu de minha parte os acho sofrivelmente ridículos, desde os chefes que comprometem o partido, até qualquer desses desfrutáveis, quarentaeoitistas que têm na parede o retrato de Nunes Machado abaixo do registro de N. Sª. da Penha, sem falar no resto. E quanto a republicano, teria, não medo, porém pejo de sê-lo. Para ter-se-me em tal conta, por força dos meus escritos, é de supor que se maneje um princípio velho e estragado, o princípio de contradição, que entre nós, e em matéria política, de bípede que era, tornou-se trípode: A, B, C; — o que não é A, é B, o que não é A nem B, é C; quem não é conservador, é liberal; quem não é um nem outro é republicano. Acho eu, porém, que com este côvado não se tomam todas as dimensões. Porquanto não será possível, senão fazer, ao menos pensar política por outro modo? O que eu sou, pois? Talvez uma dessas naturezas problemáticas, a quem nada contenta, senão desmontar todas as peças dos velhos conceitos e pôr tudo em questão; nunca e nunca, porém, um evangelist of waste, na frase de Buchanan”.

Com este preliminar estamos habilitados a ler a obrinha do nosso autor.

Para se fazer uma ideia, ainda que longínqua dos elogios impossíveis aos nossos monarcas exarados na circular confutada por Tobias, basta que o leitor lance os olhos sobre as palavras que lhe vou traduzir. Diz a Weser-Zeitung, falando de D. Pedro de Alcântara: “Entre as ocupações científicas ele concede o maior cuidado às línguas, e à astronomia, e especialmente aplica às línguas mais novas (?) uma grande predileção. Faz avançar a arqueologia, a história e as ciências naturais, e desenvolve, neste ponto, uma assombrosa cópia de conhecimentos. Em assunto algum se lhe pode fazer a censura de superficialidade. Os exercícios corpóreos não são por ele desprezados de modo algum; ao contrário, ainda hoje os aprecia, e mostra-se um destro e temeroso cavaleiro, um habilíssimo jogador de esgrima e de bilhar”[161].

Dirigindo-se à imperatriz, escreve a gazeta alemã: “Ela dá-se todo o trabalho possível para arrancar o belo sexo brasileiro de sua preguiça intelectual e refrear sua inveterada inclinação para os prazeres”[162]. Estas vergonhas, mandadas escrever por penas mercenárias, não podem ter uma resposta séria. O sergipano impôs-se a penitência de dá-la; o ridículo, contudo, essa arma que só sabem manejar os espíritos inteligentes, teve também entrada em seu trabalho. Eis aqui um bom espécime:

“Conta-se de um capuchinho italiano, não familiarizado com a nossa fauna, que ele uma vez informou-se de alguém qual o animal mais feroz do Brasil, com a intenção de enriquecer sua retórica religiosa com feras bravias para efeito aparatosamente ameaçador. ‘A nambu’, respondeu o brejeiro. Ora, a nambu é um pássaro pequeno e tímido, uma espécie darwínica da perdiz. O padre, porém, entendeu por ela um monstro de quatro pés e irresistível, cujo único nome não sem medo os crentes desejariam ouvir, tanto como a simples presença do animal significa uma morta certa. Depois disto convencido, subiu o padre para o púlpito. Mas, oh! desgraça!... Apenas abriu ele a boca e ameaçou os pecadores com as garras e os dentes do monstro, apenas pronunciou o nome terrível, rompeu do auditório uma gargalhada homérica... Ora, pois; mutato nomine de te fabula narratur. É o que acontece aos amigos elogiastas do Imperador com a sua ingenuidade. Porquanto é tão estólido e ridículo proclamar a nambu uma fera monstruosa, como a D. Pedro um monarca sábio e diligente”.[163]

Bem achado e bem dito.

Por não ser Tobias um republicano prático, não é, por isso, um monarquista teórico, e julga do nosso atual estado político com a maior independência. Diz ele:

“Eu não sou um republicano, um devorador de reis à la Gambetta; mas não sou também um amigo de reis; porque não amo, nem detesto a realeza. Eu a tolero apenas. Ela e a Igreja se me antolham como órgãos rudimentares da sociedade humana, os quais, como os órgãos rudimentares do indivíduo, têm de extinguir-se, qual aconteceu à cauda de nossos antepassados pré-históricos”.[164]

Vê-se que a intuição política de Tobias Barreto firma-se no darwinismo, admitindo a monarquia como um orgão social que tende a gastar-se. E quem a substituirá? É ao que ele não responde; mas percebe-se que será um governo, à maneira do governo ideado por Spencer, reunindo em si o menor número possível de funções; por que a maior parte das atualmente exercidas pelo Estado passarão para a sociedade[165].

Ele se insurge contra a mentira que nos devora.

“O grande primum mobile deste país é a mentira: mentira política, mentira poética, mentira religiosa, mentira moral, que se repetem em todas as fases da vida. E sobre tão colossais mentiras oficiosas grava-se a figura do Imperador com seu liberalismo e sua cultura”.[166]

Não se pode dizer melhor; a mentira e o jesuítismo prático têm falsificado as consciências nesta época de transações indecorosas e prejudiciais.

O país atira-se ao desconhecido sem saber o seu caminho, acalentado pelas frases dos retóricos, e pelo atraso dos estadistas, que não sabem da grande mutação científica e social, que a humanidade atravessa nos dias de hoje.

Entretanto devemos nos salvar, apelando para a ciência “sem esperar discursos nem cantos, pois a salvação de um povo não admite demora, nem é questão de música”, para falar com o distinto espanhol Roque Bárcia[167].

Diz Tobias Barreto:

“Os partidos políticos entre nós valem para mim a mesma coisa. Eu busco embalde o que eles significam. Tudo no Brasil: Deus e o diabo, o papa como o imperador, a igreja, o teatro, a bolsa, a monarquia, a república, tudo tem o seu partido... Só a liberdade não tem o seu; digo a liberdade especialmente como sentimento de honra e de dever, e não como deusa, ou fantasma de que tão entusiasticamente falam os nossos liberais”.[168]

Tal é; precisamos justamente da liberdade; mas da liberdade que honra o indivíduo, da liberdade que lhe permite viver como homem de bem, e não asfixiado, por necessidade, nas misérias intelectuais que nos deturpam; da liberdade que deixa a cada um cumprir o seu dever, não o dever bastardo a que uma legislação fóssil obriga; mas o dever que a ciência prescreve. É dessa que necessitamos e não das declamações dos partidários e das posições teatrais do Imperador. Para não deixar de mostrar ao meu leitor todo o pensameute de Tobias Barreto, traduzo mais as linhas que se seguem:

“Quando nos livraremos de semelhante farsa? A já tão velha farsa de um verdadeiro rei liberal, que é alguma coisa de tão contrário à natureza e cheio de impossibilidades como uma árvore de ferro, ou um boi com asas, para não falar com Castelar de um Deus ateu? O que diria o malicioso Metternich, ele para quem um papa liberal, em seu tempo, parecia uma máscara, se tivesse vivido até esta criação fantástica de um liberalismo régio? Um rei como filósofo, um rei como pensador e desprezador das vaidades mundanas não toca só ao absurdo; é para mim inteiramente ininteligível. E, todavia, quer me parecer que deveria ser, em tal caso, a primeira obrigação do Diógenes coroado o renunciar ao trono e ao cetro”.[169]

Tal é o sentido geral, dado rapidamente, da novíssima publicação do autor dos Ensaios e estudos de filosofia e crítica. Pela solidez e elevação das ideias é o que de melhor temos produzido sobre os delíquios e as sombras de nossa vida pública. Dista seu espírito imenso da ideia e da intuição de tudo quanto no assunto estávamos acostumados a ler, como, por exemplo, o declamatório e mesquinho O Libelo do Povo pelo pasquineiro Timandro, que começou demagogo para acabar senador do Império!

Um dos exemplos do modo anticientífico por que entre nós se apreciam as nossas lutas políticas e sociais, temo-lo na maneira por que se têm julgado as nossas pequeninas revoluções anteriores e posteriores à Independência. É ou o elogio desponderado ou a detratação caprichosa a todas elas, conforme os móveis do escritor. É o que acontece, verbi gratia, com O primeiro reinado, livro informe e desconchavado aparecido, há pouco, no Rio de Janeiro. Seu autor amesquinha 1822, Pedro I e os Andradas, pelo que pouco acuso, para depois, elogiar desbragadamente, e sem critério, a 1831 e a Evaristo da Veiga! Feito o balanço, onde os motivos desta predileção acintosa e anticientífica? Percebe-se perfeitamente que o autor desse livro é ainda um daqueles para quem Pedro I foi um herói, J. Bonifácio um sábio, Antônio Carlos um profeta, e Evaristo um gênio! Quis em parte curar-se de semelhante mania quanto aos primeiros; mas a conservou para o último! De forma que não temos tido senão pasquineiros e declamadores. É o que se dá com os juízos sobre o nosso governo de uma parte, e o povo de outra; ou elogiam a ambos, ou um em detrimento do outro. Precisamos de um método mais elevado e justo.

Passando em revista os velhos partidos, Tobias escreveu com força e verdade, e mostrou-se desligado de todos. Mas os que também estamos desligados de todos os bandos políticos do país, e que pertencemos à república oportunista, não ao molde por que se nos a tem proposto, e sim como ela há de ser preparada pela força da história, e fundamentada pela ciência, podemos contar com Tobias Barreto de nosso lado. Ele tem pejo da república, mas da república de Borges da Fonseca e de Barros Bulcão, a república dos pedantes e amaldiçoadores, dos ignorantes e malucos... Dessa livre-nos Deus[170].

Cheguemos ao nosso termo.

O leitor já deve, desde muito, ter percebido as conclusões deste livro, qual a filosofia de seu autor. Tenho mister, contudo, de tocar ainda neste ponto e defender-me de uma objeção pessoal. Esta versa sobre o fato, que aos olhos de alguns equivale a um sinal de incompetência para tratar de assuntos científicos, de ser o autor deste livro poeta e bacharelado em direito. Antes de tudo, cumpre-me ponderar que eu não devo ser julgado a priori e sem ser lido; mas à vista de meus escritos e depois destes meditados. É isto simplesmente coisa a que todo o escritor, grande ou pequeno, tem direito.

Mas que o fato de escrever alguém poesias não o fere com o estigma de incapaz de cultivar outros ramos das manifestações intelectuais, basta lembrar o caso de Goethe poeta e naturalista na Alemanha, de Disraeli poeta e homem de Estado na Inglaterra, de Quinet poeta e historiador em França, de Gubernatis poeta e mitólogo na Itália, de Herculano poeta e historiador em Portugal. Quanto a ser bacharelado em direito, é suficiente não esquecer que se deve distinguir entre o que se aprende nas nossas nulas Academias e o que fora delas se pode estudar. É certo que para dar-se uma direção positiva às ideias, é preciso comprimir e afugentar delas tudo quanto ali se ensina.

Pelo que me toca, há sido a minha vida intelectual uma constante e dolorosa luta para arredar da mente o que nela foi depositado pelo ensino secundário e superior que me inocularam, e substituir tão frágeis e comprometedoras noções por dados científicos. Ora, por ter-se um diploma de direito, em tais circunstâncias, não é isto um empecilho invencível.

Como o não foi para Ed. Lartet ser um dos promotores da moderna paleontologia humana; como o não foi para Rudolf von Ihering transplantar para o direito as modernas noções das ciências biológicas; para Teófilo Braga ser o primeiro historiador crítico da literatura de seu país, e um dos iniciadores do positivismo acolá! E é o que também se dá em nosso país com Tobias Barreto, o nosso primeiro filósofo crítico; com o Visconde do Rio Grande, o nosso primeiro naturalista filósofo; com o Dr. Couto de Magalhães, o nosso primeiro etnólogo. À luz de tais ideias e fatos, bem se compreende a que fica reduzida a objeção pessoal que me pode ser assacada por algum dos nossos médicos e engenheiros, cujos cursos de estudos não são, aliás, melhor organizados, entre nós, do que os cursos de direito. Todavia, eu não me quero dar por mais do que sou em matéria literária e científica, isto é: um simples discípulo, que busca somente ser aplicado e consciencioso, diligente e emancipado. Quem dera que todos os nossos pretendidos savants tivessem esta franqueza.

O meu sistema filosófico reduz-se a não ter sistema algum; porque um sistema prende e comprime sempre a verdade.

Sectário convicto do positivismo de Comte, não na direção que este lhe deu nos últimos anos de sua vida, mas na ramificação capitaneada por Émile Littré, depois que travei conhecimento com o transformismo de Darwin, procuro harmonizar os dois sistemas num criticismo amplo e fecundo[171].

Nem é isto alguma novidade esquisita, quando a tendência filosófica principal na Alemanha, Inglaterra, França, Itália e Espanha na atualidade é justamente este criticismo independente, firmado nos dados positivos, espécie de neokantismo, não por ir pedir ideias a Kant; mas por tomar-lhe o espírito. Neste sentido o moderno “é preciso voltar a Kant” é verdadeiro.

As tendências filosóficas da Alemanha hoje se podem reduzir a três: o pessimismo, o naturalismo monístico e o criticismo. O primeiro é uma continuação da metafísica; o segundo uma reação contra ela, exagerando-se, porém, um pouco como concepção sistemática; o último aproveita as conquistas deste, sendo mais livre e despreocupado[172].

Na França o movimento filosófico apresenta também agora três tendências características: o espiritualismo eclético, o positivismo ortodoxo e o criticismo. O primeiro é um resto da escola de Cousin; o outro uma reação profunda e capital contra a metafísica, exagerando-se, por sua vez, como organização sistemática; o último aproveita-se das conquistas modernas e é mais justo. É o que se dá com a Inglaterra; existe também ali uma tendência crítica, mui distinta do criticismo antigo, e onde se deparam com alguns dos primeiros nomes da ciência moderna, como Huxley, Tyndall, Bain e Lewes.

Entretanto, certos pequenos e emperrados positivistas brasileiros, incapazes de dar-se conta do estado atual do pensamento de tais sábios, alemães e ingleses citados por último, cujos trabalhos de todo desconhecem, julgam que a ciência humana está toda contida no Curso de Comte, e nos livros de Littré[173]. E, quando se lhes diz que o positivismo não é só o deles, e nem é um privilégio seu, porque ele é mais vasto do que o fizeram aqueles dois ilustres franceses, acham o dito de todo exagerado.

Julgam, por exemplo, que a transformação do comtismo pela doutrina darwínica é um fenômeno impossível! A semelhante desconchavo, indigno de pessoas que pensam, não acho que seja preciso subir a uma demonstração detalhada. Basta indicar um fato concreto e salientíssimo, quais são as obras de Herbert Spencer.

Eu não sei se ainda haverá entre homens que se ocupam de filosofia quem ignore que este célebre escritor inglês, que como pensador é mais profundo do que Littré (apesar deste não ser só para mim o que dele disse Michelet), e cujo monumento filosófico tomado no seu todo é mais imponente do que o do próprio Comte, eu não sei se ainda haverá, digo, quem ignore que ele abraçou muitas ideias deste último e repeliu outras, e que também desenvolveu e fecundou a sua doutrina pelo darwinismo de que foi até um dos predecessores. Eis aí a possibilidade da junção harmônica das duas correntes de ideias, sem dúvida alguma, as mais fecundas que nosso século viu surgir.

Sou eu, pois, sectário do positivismo e do transformismo? Sim; entendendo-os, porém, de um modo largo e não sacrificando a minha liberdade de pensar a certas imposições caprichosas que os sistemas possam, por ventura, apresentar[174].

Um ponto em que se pode bem apreciar a diflerença que vai de um tal criticismo científico para os sistemas exclusivos é o célebre debate da origem do universo. Lançando os olhos sobre a filosofia contemporânea, três respostas capitais se deparam sobre tão magna questão: a dos materialistas puros, que continuam a tradição do materialismo seco do século passado [XVIII], que dizem ser tal origem a força; a dos espiritualistas fanáticos, continuadores dos teósofos de todos os tempos, que dizem ser ela Deus; e a dos positivistas clássicos que proclamam estar ela além de nosso alcance intelectual. A primeira resposta é simplesmente pretensiosa; porquanto o que vem a ser a força, e que força é esta existindo no vácuo?

E, se existe adjunta à massa, como querem os geômetras, donde veio esta massa? A questão subsiste de pé. A segunda também é puramente caprichosa em dar-nos Deus como um objeto de ciência, e cuja vida e ação íntimas são tão conhecidas como se determina, por exemplo, o desenvolvimento de um animal ou a marcha de uma moléstia. A terceira é evidentemente um progresso sobre ambas; ninguém dirá, contudo, que esclareceu o debate. “É um oceano que vem até nós e não temos com que navegar”. Muito bem, como meio de resignação e não como um achado científico especial. O criticismo entende que se deve distinguir aí entre a origem e a formação ou desenvolvimento do universo. Esta última é explicável pelas leis descobertas pela ciência moderna, como sejam a imanência, a unidade dos seres, a evolução, a transformação e equipolência das forças... Quanto, porém, à origem, é mister recorrer-se a um princípio superior, qualquer que ele seja, e cuja natureza não pôde ainda ser determinada cientificamente, mas que pode ainda sê-lo de modo incontestável, e que não é nem a força dos físicos, nem a massa dos matemáticos, nem o Deus amesquinhado de certos teólogos.

Aí é que sempre apareceu o Deus vivificante, que sempre alegrou o coração popular.

Quanto à ciência em geral, com seus problemas e as suas trevas, o criticismo não tem presunções. Pelo órgão de Du Bois-Reymond pronuncia sobre muitas questões o ignoramus et ignorabimus. Pelo de Naegeli: “Renunciemos ao impossível, e contentemo-nos, como homens finitos e passageiros que somos, com as vistas humanas, sem querer pretender a um saber divino. Nós poderemos dizer então com toda a confiança: sabemos e saberemos”[175].

Notas
[1] Compêndio de filosofia pelo padre-mestre Fr. Francisco de Mont’Alverne. Rio de Janeiro, 1859.
[2] O livro do Dr. França apareceu em 1854; o de Magalhães em 1858.
[3] Prefácio das Obras oratórias. [Itálicos de Sílvio Romero. N. do E.]
[4] Sobre o caráter superficial e meramente literário da filosofia de Cousin vejam-se os belos artigos de E. Renan nos seus Essais de morale et de critique, e de H. Taine nos Philosophes français du XIXme. siècle.
[5] Nota à pág. 90. [Itálicos e exclamações de Sílvio Romero. N. do E.]
[6] La scienza della storia I, pág. 320.
[7] Pág. 153.
[8] Friedrich Karl Christian Ludwig Büchner (1824-1854).
[9] Adolphe Dassier, Essai de philosophie positive au XIXe. siècle, Première Partie, pág. 3.
[10] Investigações de psicologia pelo Dr. Eduardo Ferreira França, Bahia, 1854, 2 volumes.
[11] Tomo 1, Prefácio, p. VI.
[12] Vol.1, pág. 88.
[13] Podem consultar-se: Rostan, L'organicisme; Delboeuf, La psychologie comme sciencie naturalle; Büchner, Kraft und Stoffpassim.
[14] Idem, ibidem.
[15] Idem, pág. 96.
[16] Cours de physiologie, publié par le Dr. Mathias Duval, deuxième édition, Paris, 1863, pág. 68.
[17] MAGALHÃES, D. J. Gonçalves de. Fatos do espírito humano (Paris, 1858; 2ª ed., Rio de Janeiro, 1865). Edição crítica organizada, com estudo introdutório e Apêndice (“Discurso sobre a História da Literatura do Brasil” e “filosofia da Religião”, do mesmo autor), por Luiz Alberto Cerqueira. Petrópolis: Vozes/ABL, 2004. As citações serão referidas a esta edição. N. do E.
[18] Sílvio Romero concluiu estes estudos sobre a filosofia no Brasil antes da edição de outra obra significativa de Gonçalves de Magalhães, A alma e o cérebro — Estudos de psicologia e fisiologia (Rio de Janeiro, 1876). N. do E.
[19] Das poesias, entre outras, veja-se “Deus e o Homem” nos Suspiros poéticos; e do livro de filosofia o cap. I.
[20] Fatos do espírito humano, pág. 50.
[21] Idem, pág. 49.
[22] Exposition des principes de l’organiscisme, 2me. édition, Paris, 1846.
[23] Fisiologia della volontà, pág. 6.
[24] Médicine et médecins, 2me édition, páginas 355 e 356.
[25] Fatos, pág. 195.
[26] Idem, pág. 186.
[27] Idem, pág. 188.
[28] Idem, pág. 186.
[29] Ibidem.
[30] Lições de fisiologia elementar, trad. de Dally, pág. 210.
[31] Idem, páginas 215-216.
[32] Opúsculos históricos e literários (Rio de Janeiro, Revista Trimestral do Instituto Histórico do Brasil, nº 11, 3º trimestre de 1848).
[33] Natürliche Schöpfungsgeschichte, lição 10ª, Berlim, 3ª ed.
[34] Fatos, p. 200.
[35] Idem, p. 199.
[36] Teoria da afirmação pura, pelo padre Patrício Muniz, Rio de Janeiro, 1863.
[37] Pág. 7.
[38] Páginas 7-10.
[39] Páginas 46-47.
[40] Th. Jouffroy, Nouveaux mélanges philosophiques, 2me. édition, p. 122.
[41] I) Compêndio de filosofia, ordenado segundo os princípios e o método de Tomás de Aquino, Recife, 1867; II) Lições de filosofia elementar, racional e moral, Paris, 1871; III) Considerações sobre a Igreja e o Estado, sob o ponto de vista jurídico, filosófico e religioso, Recife, 1874. Tudo isto pelo Dr. José Soriano de Souza.
[42] Lições de filosofia elementar, pág. 331.
[43] Pág. 117.
[44] La science et les systèmes, questions d’histoire et de philosophie naturelle, par Pedro Américo de Figueiredo e Mello, 2me édition, Bruxelles, 1869.
[45] Ele é filho do Rio Grande do Norte, mas reside, há muito em Pernambuco.
[46] Citação original em francês. N. do E.
[47] Citação original em francês. N. do E.
[48] Páginas 164-165 [no original francês].
[49] Páginas 29-30 [no original francês].
[50] Revue d’Italie.
[51] Pág. 7 [no original francês].
[52] Alex. Bain, Logique, volume I, pág. 302 da tradução de G. Compayré.
[53] Pág. 61 [no original francês].
[54] Büchner, Kraft und Stoff; Haeckel, Natürlich Schöpfungsgeschichte. Também Ed. von Hartmann nos seus escritos como Wahrheit und Irrthum in dem Darwinismus, Die Selbstzersetzung des Christenthums und die Religion der Zukunft, apesar de condenar a intuição mecânica do mundo, consigna as modernas expressões.
[55] Pág. 109.
[56] Pág. 111 [no original francês].
[57] [Ibidem].
[58] Nota 49 [no original francês].
[59] Páginas 117-118 [no original francês].
[60] Em alemão no original. N. do E.
[61] Páginas 111-112 [no original francês].
[62] As três filosofias, pelo Dr. Luís Pereira Barreto, 1º volume, Rio de Janeiro, 1874; 2º volume, Jacareí, [então] província de São Paulo, 1877. Depois de escrito este [meu] trabalho, é que apareceu o 2º volume; este capítulo foi, por isso, reformado.
[63] O seu primeiro livro é datado de Jacareí em 18 de César de 86 (10 de Maio de 1874).
[64] Mill, Auguste Comte et le positivisme, tradução francesa, Prólogo.
[65] Zaborowski-Moidron, De l'ancienneté de l'homme, Préface, páginas XXXIV-XXXV.
[66] Idem, ibid., pág. XLIII.
[67] Veja-se sobre a classificação das ciências de Comte e a de Spencer: Alex. Bain, Logique déductive et inductive, tradução de G. Compayré, vol. I, Apêndice A; o já citado Z.-Moindron, op. cit., Préface. Sobre a psicofísica, J. Delboeuf, La psychologie comme science naturelle, e Wundt, Gründzuge der physiologischen Psychologie.
[68] Veja-se sobre os princípios fundamentais da ciência de hoje, F. Huet, La révolution philosophique au XIXme siècle.
[69] "Méditations et Études Morales", artigo sobre o positivismo.
[70] Revue de Philosophie Positive, julho-agosto de 1873, citada por Z.-Moindron, loco cit.
[71] Kraft und Stoff, Prefácio da 9ª edição, carta ao director do Libero Pensiero.
[72] Veja-se N. Marselli, La scienza della storia, no belo capítulo sobre Comte.
[73] Sobre o estado de dissidência e a falsa posição do positivismo em face do realismo monístico, pode ser consultado o magnífico Prefácio, já citado, de Z.-Moindron.
[74] Em La science au point de vue philosophique Littré diz que “ne fait pas fi du demi-positivisme” de Buckle.
[75] Vol. II, pág. 212.
[76] Cours de philosophie positive, tomo II.
[77] Z.-Moindron, loco cit, pág. IX [no original francês].
[78] Z.-Moindron, loco cit., pág. XXX.
[79] Vol. II, pág. 213.
[80] Büchner, Prefácio da 9ª edição.
[81] Vol. II, páginas 49-51, nota.
[82] Prefácio, citado, págs. VIII-IX.
[83] [Jornal] Deutscher Kämpfer, nº 1, de 2 de Agosto de 1875, Recife [no original alemão].
[84] [As três filosofias], pág. 215 do vol. II.
[85] Idem, pág. 222.
[86] La science.
[87] Veja-se o vol. I, capítulo V, “Inquiry into the influence exercised by religion, literature ando government”, new edition, London, 1872.
[88] O senador Zacarias de Vasconcelos, dito chefe liberal, foi também o chefe dos ultramontanos (!), e votou contra o ventre proletário!!!
[89] Da Tribuna do Povo, pequeno periódico outrora existente na cidade da Estância.
[90] O fim da criação ou A natureza interpretada pelo senso comum, Rio de Janeiro, 1875.
[91] Somente há a poderar que a tenho visto provada em documentos, como um que vou transcrever. Ultimamente escrevia para O Globo, pequeno diário que se publicava na Corte, um engenheiro, residente nos Estados Unidos, dando conta de como foram ali julgados alguns trabalhos de médicos e engenheiros nacionais, os seguintes períodos: “O livro sobre pontes do Dr. Machado, lente da Escola de Engenharia do Rio de Janeiro, é um trabalho de teoria, cheio de fórmulas, que hoje ninguém emprega, e vê-se ter ele sido escrito por quem nunca viu fazer nem ao menos um pontilhão. A caderneta de campos, arranjada pelo Sr. Pereira Passos, que dizem dirige aí um estabelecimento de construção naval, é um trabalho sem valor de espécie alguma, e até com erros de cálculo, e no entanto dizem ter sido impresso com auxílio do governo, o que aqui causou admiração. Um livrinho do Sr. Borges de Castro, tratando de questões profissionais, é pouco menos interessante do que as folhinhas de Ayer. Um folheto do Sr. Câmara, engenheiro hidráulico, que dizem ser, no Brasil, um cidadão de alta capacidade, tem a grande vantagem de não adiantar uma só ideia”. Os dignos americanos só fizeram exceção, pouco honrosa, para dois ou três pequenos trabalhos procedentes deste país. Vid. O Globo de 03/06/1877.
[92] No parlamento, ou no foro, sempre eles dão a apreciar as suas excelentes disposições de espírito. Conheci um que, como advogado, escreveu vinte e tantas folhas de papel almaço para provar o soberbo problema: que a vintena deve ser deduzida do monte e não da terça! Ele foi, depois disto, deputado e Ministro de Estado. Não é presumível que, nesta última qualidade, tenha melhorado, pois já vimos um ministro e um senador, ambos legistas, levarem uma hora discutindo sobre a pronúncia das palavras Pall-Mall!!!...
[93] Pág. 269.
[94] Págs. 532 e seguintes.
[95] Em muitos lugares do livro.
[96] O fim da criação, passim.
[97] Cap. III da primeira parte; págs. 75 e seguintes.
[98] La psychologie comme science naturelle, pág. 105, Bruxelas, 1876 [no original francês].
[99] "Les Mathématiques et le Transformisme, une Loi Mathématique Applicable à la Théorie du Transformisme", inserto na Revue Scientifique, nº 29, de 13/01/1877 [no original francês].
[100] Deutsche Rundschau, Zweiter Jahrgang, Heft 12, September, 1876, pág. 391 [no original alemão].
[101] Histoire de la terre, por L. Simonin, 4me. édition, Paris, 1867, pág. 168.
[102] O fim da criação, págs. 186-187.
[103] Pág. 531.
[104] Pág. 533-534.
[105] Vejam-se: I) "Les Foraminifères de la Barbade", por Van den Broeck, publicados primeiro no Le fond de la mer, e nos Annales de La Société Belge de Microscopie, e analisados na Revue Scientifique de 10/03/1877; II) "La Formation des Météorites et le Vulcanisme", por Tschermack, na Revue Scientifique de 20/11/1875; III) "Les Périodes Glaciaires et les Causes de leur Apparition", por Vezian, na de 02/12/1876; IV) "Les Planètes Intra-Mercurielles", na de 23/12/1876; V) O Traité de paléontologie végétale, por Schimper, analisado na de 28/11/1874 por Zeiller; VI) La Chimie des plantes, por A. Gautier, na de 10/02/1877; VII) "La Détermination des Minéraux Microscopiques des Roches", por Fouqué, na de 16/12/1876. Alguns destes escritos foram publicados depois da obra do nosso autor; mas sobre fatos já conhecidos.
[106] Em livros elementares de astronomia, geologia e filosofia também vem ela exposta. Podem ver: I) Cours élémentaire d’astronomie, por Ch. Delaunay, págs. 614 e ss.; II) Histoire de la terre, por L. Somonin, págs. 155 e ss.; III) Essai de philosophie positive au XIXe. siècle, por Ad. d’Assier, págs. 90 ss.
[107] Pág. 4.
[108] Na segunda parte do livro, passim.
[109] Pág. 9.
[110] Pág. 4.
[111] Pág. 10.
[112] Pág. 9.
[113] "La Formation des Météorites et le Vulcanisme", na Revue Scientifique, de 20/11/1875 [no original francês].
[114] Pág. 11.
[115] Pág. 14.
[116] Pág. 15.
[117] Pág. 19.
[118] "La Formation des Météorites et le Vulcanisme", na Revue Scientifique, nº citado, pág. 497.
[119] Loco cit., pág. 501.
[120] As funções do cérebro, por Domingos Guedes Cabral, Bahia, 1876.
[120a] Não nos foi possível incluir em nossa obra a análise do novo produto do Sr. Domingos de Magalhães, Visconde de Araguaia; porquanto os nossos cinco primeiros capítulos, entre os quais ele tem o seu lugar, há muito, tinham ido para a impressão na sua forma primitiva. Aparecendo recentemente o livro do diplomata será discutido em ocasião oportuna. Os nossos últimos capítulos, escritos como os primeiros, há dois anos, foram agora revistos e editados para dar conta de fatos novíssimos.
[120b] Le peché de vivisection, por Ch. Vogt, na Revue Scientifique de03/03/1877.
[120c] Revue Scientifique de 11/11/1876.
[120d] No original em francês.
[121] As funções do cérebro, pág. 117 ss.
[122] Artigo de Sir G. H. Lewes inserto na Revue Scientifique de 02/01/1877.
[123] Págs. 10-14.
[124] As funções do cérebro, págs. 197-213. Tomamos a liberdade de fazer ligeiros cortes nas págs. transcritas, para não alongar por demais a citação. As omissões feitas, porém, não prejudicam em nada o sentido das opiniões do autor.
[125] Número de 14/04/1877.
[126] "Les Mathématiques et le Transformisme, une Loi Mathématique Applicable à la Théorie du Transformisme", por J. Delboeuf; Revue Scientifique de 13/01/1877.
[127] A filosofia crítica, que é inimiga de todo o dogmatismo pretensioso, nem por isso bane as expressões: Deus, Providência, espírito, imortalidade, liberdade... “tanto como as boas velhas palavras, um pouco deselegantes talvez, que a filosofia interpreta num sentido cada vez mais refinado; mas que jamais as substituirá com vantagem”, para repetir as célebres palavras de Renan. O criticismo não repele tais expressões, nem contesta os fatos que elas exprimem; o que faz é explicá-las de um modo novo, e original. Assim, Deus é a grande origem, ainda não demonstrada cientificamente; a Providência são as leis estabelecidas pelas ciências e que governam o universo; o espírito é o ideal das expansões humanas; a imortalidade é um atributo do universo; a liberdade é como o pensamento, a sensação, a eletricidade, o movimento, um predicado da matéria devidamente organizada para produzir estes fenômenos. Tais são as soluções que a filosofia crítica pode dar a tão numerosos problemas, inspirada na ciência, e sem, todavia, ter a mínima pretensão de tê-las por definitivas.
[128] Ora em análise, de Tobias Barreto: Ensaios e estudos de filosofia e crítica, 1ª livração, Recife, 1875; Brasilien wie es ist literarischer Hinsicht betrachtet, eine Skizze, Escada, Pernambuco, 1876; Um Sinal dos Tempos, periódicos, Escada, 1874; Deutscher Kämpfer, Zeitungsblatt, Recife, 1875.
[129] Veja-se, entre outros, o seu artigo “Misérias do Império e sua Corte”, publicado no periódico A Comarca da Escada de 10/06/1875.
[130] Anos depois ainda fez publicar, em desacordo ao Compendium philosophiae de Pestalozzi, o seu artigo “Theologia rationalis, confutatio”, n’A Crença de 30/05/1870, no Recife.
[131] Veja-se o periódico do Recife, A Crença, em maio de 1870, e A Província daquela cidade de 08/11/1875.
[132] A poesia “No Banho” foi, pelo autor, inserida na característica que fez do escritor sergipano, publicada n’A Província de Pernambuco e reproduzida n’O Rio Grandense.
[133] Esta expressão épica patriótica pede um reparo: ela não existe na língua, onde só temos a palavra epopeia, ou poema épico. Eu emprego aquele substantivo no mesmo sentido em que o empregou Disraeli, por exemplo, quando denominou um de seus livros Revolutionary epic, significando cantos que têm um caráter épico, sem, todavia, de forma alguma, se confundirem com a epopeia, no clássico sentido desta palavra. O mesmo fazem os alemães que, aliás, usam também do termo Epos em idêntico sentido.
[134] Um Sinal dos Tempos, nº 5, de 22/08/1874.
[135] Esta palavra, estilística, foi pelo autor dos Ensaios e estudos entre nós introduzida, bem como outros indispensáveis alemanismos: jornalística, romântica, periódica... os quais estão para estilo, jornalismo, romantismo, período... na mesma relação em que se acham os já existentes neologismos também indispensáveis: característica, métrica, genética, para caráter, metro, gênese, estas palavras significando a coisa e aquelas a teoria, o sistema, a organização.
[136] Sobre vistas gerais quanto ao estilo, podem ser consultadas as ideias interessantes a respeito emitidas pelo mesmo escritor no belo artigo “Ideias sobre os Princípios da Estlística Moderna”, publicado em Um Sinal dos Tempos.
[137] Quando isto se escreveu ainda vivia o notável historiador. Permaneço no meu juízo.
[138] Falo dos novos escritores portugueses que tomaram parte naquele estéril, e um tanto ridículo, movimento, que se chamou a reação, e depois a Escola Coimbrã, cuja maior vantagem foi achar-se em luta com individualidades literárias ainda menores que os pequenos inovadores. Caracterizava a nova escola uma palavrosidade, um campanudismo de linguagem sem rival na história intelectual do velho reino. Todavia, cumpre dizê-lo passado o primeiro momento, e renegados certos desconcertos pueris, alguns dos moços rebeldes tomaram uma mais vantajosa direção, e hoje vemo-los, no encalço da verdade, inimigos dos palavrões.
[139] Quando foram estas palavras escritas ainda vivia o célebre romancista; a crítica imparcial, porém, que visa as obras e não as pessoas, não é daquelas que têm uma linguagem para os vivos e outra para os mortos.
[140] Ensaios e estudos, pág. 31. [Trata-se do artigo “A Ciência da Alma Ainda e Sempre Contestada”, parte VI. N. do E.]
[141] Eram, porém, artigos inspirados por um espiritualismo heterodoxo, cheio de vistas tomadas das ciências, e influenciado pelo “positivismo”, justamente à maneira de Vacherot. Os principais são: “A Força Motriz”, a propósito de Ad. Garnier; “Fatos do Espírito Humano”, sobre a obra de Gonçalves de Magalhães; “A Religião Natural”, sobre o livro de Simon, e “O Atraso da filosofia entre Nós”, a propósito de um dos livros do Dr. José Soriano de Souza. No artigo “Moisés e Laplace” já se revelava sectário do monismo científico, em 1870; e influenciado pelas nobres ideias da crítica religiosa nos escritos: “Notas sobre a Crítica Religiosa”, e “A Religião perante a Psicologia”, publicados n’O Americano, de Pernambuco, no mesmo ano.
[142] Citado por H. T. Buckle, Civilization in England, vol. II. Veja-se toda a característica de Descartes neste volume, págs. 77-96 [no original em francês].
[143] Vol. II, pág. 87 [no original em inglês].
[144] Principes de la philosophie, parte I, seção 28; Oeuvres de Descartes, vol. III, pág. 81; citado por Buckle [no original em francês].
[145] Artigo reproduzido nos Chips from a german workshop, traduzidos em francês por George Harris, sob o título Essais sur l’histoire des religions, pág. 469.
[146] Artigo “Le Déluge et l’Épopée Babylonienne”, publicado no Correspondant em janeiro de 1873 e reproduzido no livro Les premières civilisations, pág. 115 do vol. II.
[147] Pág. 114, vol. II [no original em francês].
[148] Idem, pág. 117.
[149] Ensaios e estudos, pág. 71 [a frase de Herder em alemão].
[150] Émile Burnouf, La science des religions, Paris, 1872; págs. 318 ss.; Z.-Moindron, De l’ancienneté de l’homme, 2me. partie, pág. 48.
[151] Assim me expressava antes de ter Teófilo Braga, par um tour de force, começado a ocupar-se de filosofia e a revelar-se sectário do positivismo. O antigo discípulo de Schlegel em crítica literária, e que sofrera, até certo ponto, a influência de Victor Hugo em poesia, de Michelet nas suas ideias sobre o desenvolvimento do direito e da poesia popular, e a de Taine em certas vistas, de história literária, renegada, sem dúvida, algumas das suas opiniões favoritas, depois que Littré lhe dirigiu umas palavras de animação, passou-se para a escola positivista. Vai nisto, a meu ver, um não pequeno progresso. Braga resgatou assim alguns de seus defeitos.
[152] “Carolina de Michaëlis e a Nova Geração Literária em Portugal”, artigo publicado n’A Província do Recife.
[153] Entre outros, em mísero artiguinho aparecido no desfrutável periódico ilustrado do progresso da idade, intitulado "O Novo Mundo", que se publica em Nova Iorque.
[154] "Revelações fisiológicas inconscientes do organismo nacional", diria o Professor Mantegazza.
[155] Ensaios e estudos, pág. 78.
[156] Deutscher Kämpfer, nº 2, de 31/08/1875 [no original em alemão].
[157] No original em alemão.
[158] A propósito de uma notícia que do livrinho de Miguel Lemos deu E. Littré na Revue de Philosophie Positive, Alberto de Carvalho, advogado fluminense, dirigiu àquele sábio uma carta em língua francesa, carta que é uma das maiores vergonhas intelectuais deste país. A Lettre à Mr. Littré ultrapassou, em disparates de todo o gênero, ao célebre Droit au Meurtre dirigido a E. Renan! Entretanto, estas duas misérias espirituais brasileiras foram aplaudidas pela imprensa do Rio de Janeiro como verdadeiras maravilhas!
[159] Sobre a última obra do Sr. Visconde de Araguaia apareceram no Rio de Janeiro dois pequenos folhetos: um sofrível pelo Sr. Teixeira e Sousa, moço estudante de medicina, que tem mais de sonhador do que de filósofo, e outro devido à pena do Sr. Dr. Herculano Bandeira Filho, empregado público do ministério da Justiça, opúsculo onde não se pode bem determinar em que o seu autor mais pobremente exibiu-se, se no desmantelo da forma, ou na triviahdade do fundo... Não sei quem lhe incutiu no ânimo a vaidade de ocupar-se de tais matérias?!
[160] Não é que eu julgue os assuntos políticos e sociais fora da alçada da filosofia. Ao contrário, sei bem que hoje a verdadeira filosofia, aquela que se funda nas ciências particulares, é a sociologia, essa imortal criação de Comte. Como, porém, entre nós, tais assuntos, bem como os religiosos, não têm sido tratados com método e rigor científicos, e sim à luz de ideias preconcebidas ditadas pelos partidos, as obras que deles têm-se ocupado foram jogadas fora do nosso quadro. É assim que, entre outras, na ordem social: O socialismo, por Abreu e Lima, A província, por Tavares Bastos, O catecismo constitucional, por Agesilau, e na ordem religioso-política, As bíblias falsificadas, por Abreu e Lima, A Igreja e o Estado, por Saldanha Marinho, e Rom vor dem Tribunal des Jahrhunderts pelo teuto-brasileiro Carlos von Koseritz não foram apreciadas neste escrito para sê-lo em outro livro meu, As ciências sociais e políticas no Brasil. O opúsculo de Tobias, prendendo-se a esta ordem de escritos, contém vistas tão gerais e filosóficas, que me forçam a contemplá-lo desde logo. No mesmo espírito são seus novos artigos “Na Igualdade”, e seu “Discurso” no Clube Popular Escadense.
[161] Ein offener Brief, por Tobias Barreto de Menezes, Escada, 1878, págs. 11-13.
[162] Idem, pág. 21.
[163] Idem, pág. 34.
[164] Idem, pág. 10.
[165] Herbert Spencer, Principles of sociology, passim.
[166] Ein offener Brief, pág. 20.
[167] La Justicia Federal, de Madrid, 08/06/1873 [no original em espanhol].
[168] Ein offener Brief, pág. 36.
[169] Idem, págs. 37-38.
[170] Eu não sei se o leitor conhece Borges da Fonseca e Barros Bulcão. São dois bacharéis infelizes, partidários da república universal, residentes em Pernambuco, não sei se já falecidos, e que foram por muitos anos a encarnação a mais perfeita da velha democracia brasileira.
[171] Diz o Sr. Miguel Lemos, nos seus Pequenos ensaios positivistas, que a obra do Dr. Luís Pereira Barreto foi o que primeiro se publicou no Brasil sobre o positivismo. É certo como livro; mas em jornais, pelo que pude colher e posso asseverar, os primeiros escritos em que vi exposto aquele sistema, em língua portuguesa, foram uns artigos de Tobias Barreto publicados n’O Correio Pernambucano em 1869. Desde esse tempo comecei também a estudar e a escrever sobre esta ordem de ideias. Veja-se o meu escrito “A Prioridade de Pernambuco no Movimento Intelectual Brasileiro”.
[172] Os promotores deste criticismo podem-se considerar os célebres naturalistas, dos mais conspícuos de nosso tempo: Helmholtz, Du Bois-Reymond, Virchow e C. von Naegeli. Veja-se do primeiro: O pensamento em medicina, e mais A liberdade acadêmica nas universidades alemãs; do segundo: Darwin contra Galiani, História da ciência, A história da civilização e as ciências naturais, e também o Ensaio sobre os limites da ciência; do terceiro: A liberdade da ciência no estado moderno; e do quarto: Os limites da ciência. Estes escritos são conferências públicas destes sábios em algumas cidades da Alemanha.
[173] Assim me exprimindo, não me refiro ao Dr. Luís Pereira Barreto, cujos artigos últimos, por exemplo, a respeito do retrógrado e medíocre conselheiro J. Bonifácio são das melhores críticas objetivas que tenho lido neste país.
[174] Vide Silvério Lagreca, O naturalismo em medicina.
[175] Carl von Naegeli, de Munique, “Os Limites da Ciência”, inserto na Revue Scientifique, de Paris, nº de13/04/1878 [no original em alemão].

Nenhum comentário: