terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Discurso Preliminar (Obras oratórias, 1852)


Fr. Francisco do Monte Alverne

Notas ao fim do texto
Para uma biografia do autor, consultar Gonçalves de Magalhães:




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Não há coisa mais ordinária, do que escrever, e publicar uma obra. Todos os dias vemos sair do prelo composições literárias, sem que seja necessário ocupar o público com a história, e análise destas produções: mas a natureza do meu trabalho, e a posição especial, em que estou colocado, obriga-me a dizer alguma coisa, em meu favor, e prevenir ou ilustrar o juízo dos contemporâneos, antes que sejam lidos os meus discursos.

Os acontecimentos, que fizeram tão célebres os primeiros anos do presente século, não foram perdidos para o Brasil. O terremoto político, que sacudia a Europa, e abalava seus mais poderosos Estados, forçaram o regente de Portugal a retirar-se com sua augusta família, e toda sua corte para o Rio de Janeiro. Este sucesso, tão fecundo em resultados de toda a espécie, foi para o XIX século, o que tinha sido para XV a passagem do Cabo da Boa Esperança. Se esse majestoso acontecimento não fosse realizado por um Príncipe português, a imprensa gemeria com os elogios consagrados a um feito, destinado a mudar a face moral, e política do universo: porém o mau fado perseguia o neto de D. José I; e a página mais admirável de sua imortal epopeia não foi devidamente apreciada.

A chegada do Príncipe Regente ao Brasil foi saudada como presságio de sua grandeza, e sua futura independência. Os grilhões coloniais estalaram um a um entre as mãos do Príncipe, que a posteridade reconhecerá por o verdadeiro fundador do império do Brasil. As artes, a indústria, e o comércio floresceram à sombra do gênio criador deste monarca generoso, para quem o Brasil era o sonho mais agradável de sua vida. Tudo que o Brasil possui em estabelecimentos de pública utilidade, teve nele sua origem. Arsenais, academias de marinha, teatro, museu, escola e arquivo militar, tesouro, imprensa, biblioteca, praças públicas, tudo é devido à sua beneficência, e à sua solicitude (1). A ação protetora do Príncipe devia exercer nos espíritos uma poderosa influência.

No Brasil tudo é prodígio, tudo é maravilha. Este sol, que fecunda nossos campos, e perpetua nossa primavera, escalda a imaginação de seus filhos; e realiza estes portentos de inteligência, que fazem dos brasileiros um objeto de admiração, e espanto. Os portugueses, descendo em 1808 a margem austral da baía de Niterói, foram tomados de pasmo, encontrando no Rio de Janeiro uma mocidade brilhante, e ávida de saber, que só aguardava os meios de elevar-se à altura, que lhe prometiam seus talentos. A corte viu com assombro homens eminentes nas ciências eclesiásticas, que sem ter saído do seu país, sem os recursos das universidades, e as vantagens, que oferecem os liceus, e as escolas bem organizadas, não receavam mostrar-se, e falar com distinção, e mesmo com superioridade, diante dos doutores, e dos homens, que tinham obtido pergaminhos, com que testificavam sua alta instrução. Nós estamos ainda muito perto dos acontecimentos; nós possuímos ainda um grande número de pessoas, que viram esses dias tão memoráveis, e tão ricos de esperanças. Eles testemunharam o fulgor, que envolvia estes conventos, tão férteis de ilustrações científicas. Eles se lembraram com orgulho deste clero secular, tão distinto por suas luzes, e tão fecundo em virtudes: era o clero instruído, e educado pelo Sr. D. José Joaquim Justiniano Mascarenhas Castello Branco, que sem dúvida seria digno de ser comparado com os bispos dos primeiros séculos da Igreja, se ele não fosse bispo na sua pátria.

Um dos primeiros cuidados do Príncipe Regente, chegando ao Rio de Janeiro, foi realçar o esplendor, e a majestade do culto. Hábil político, o Príncipe sabia, que só à Religião é dado sustentar os impérios, e fortificar as instituições. A fundação da Capela Real do Rio de Janeiro, monumento imortal da piedade do Senhor D. João VI, foi a arena, onde se mostrou em toda a sua pompa o gênio brasileiro. Oradores acostumados aos triunfos do púlpito eram rivalizados, por jovens pregadores, que animados com as suas primeiras vitórias, ardiam por ganhar novas coroas. Era então a época dos grandes acontecimentos; e os sucessos, que se reproduziam dentro, e fora do país, ofereciam amplos materiais à eloquência do púlpito. Nós podemos afirmar com todo o orgulho da verdade, que nenhum pregador transatlântico excedeu os oradores brasileiros. A riqueza da dicção reunia-se à pureza do estilo, e à força da argumentação: e para que não faltasse uma só beleza; a doçura, e amenidade da expressão aumentava os encantos, e a magia da ação. Assim verificou-se este pensamento dum escritor francês (2): Que a língua de Camões, pronunciada por um brasileiro, devia realizar todos os prodígios, e todas as seduções da harmonia. O Senhor D. João VI costumava dizer, que ele possuía no Rio de Janeiro uma seleção de pregadores, que não lhe permitia lembrar os que deixara em Portugal. Quando algum escritor quiser um dia descrever os fatos mais notáveis, que assinalaram aquela época; poderá dizer com o velho Chactas, no sublime episódio de Atalá, falando da sua viagem à França no reinado de Luiz XIV (3), que ele assistiu às festas da corte do Rio de Janeiro, e às orações fúnebres de Fr. Francisco de S. Paio.

No meio de tão agradáveis recordações, um sentimento aflitivo vem pungir o coração; e uma ideia melancólica enluta este quadro tão risonho, e tão encantador. Todas as produções que ilustraram a longa carreira de tontos pregadores, estão sumidas no esquecimento, à exceção de um pequeno número de discursos impressos separadamente, e que apenas se encontram nas mãos de algum amador. Um destino fatal persegue o Brasil, e seus filhos. Suas riquezas naturais, suas mais raras preciosidades, e os inumeráveis escritos, destinados a justificar a maravilhosa inteligência dos brasileiros, parecem condenados à dissipação, e à ruína. Como estes brilhantes insetos, que contentes de ostentar aos raios do sol seu magnífico esmalte de azul, e ouro, brincam, folgam, gozam, morrem sem curarem do futuro, nós trabalhamos por uma glória efêmera; nós nos fatigamos em recolher as ovações do momento, sem nos lembrarmos da posteridade. Uma multidão de parasitas aproveitou-se das fadigas dos mais eminentes oradores: e enquanto recolhe ouro, e aplausos, cospe dos grandes homens, a quem devem sua reputação. É deles que está escrito: — Outros trabalharam, e vós gozais do seu trabalho: Alii laboraverunt, et vos in labores eorum introistis (4). O país tem altamente declarado, que eu fui uma destas glórias, de que ele ainda hoje se ufana. Lançado na grande carreira da eloquência em 1816, como pregador régio, oito anos depois que nela entraram S. Carlos, e S. Paio, Monsenhor Netto, e o Cônego Januário da Cunha Barbosa, tive de lutar com esses gigantes da oratória, que tantos louros tinham ganhado, e que forcejavam por levar de vencida todos os seus dignos rivais. O país sabe, quais foram meus sucessos neste combate desigual: ele apreciou meus esforços, e designou o lugar, a que eu tinha direito entre os meus contemporâneos; pertence à posteridade sancionar este juízo. Arrastado pela energia do meu caráter, desejando cingir todas as coroas, abandonei-me com igual ardor à eloquência, à filosofia, e à teologia, cujas cadeiras professei, algumas vezes simultaneamente, nos principais conventos da minha ordem, e no seminário de S. José desta corte. O resultado de tantas fadigas foi a extenuação do meu cérebro, e a perda irreparável da minha vista. No fim de 1836 terminaram todos os meus exercícios literários; e eu achava-me impossibilitado para empreender o mais insignificante trabalho. Não é dado a algum homem avaliar as agonias do meu coração nesta horrível peripécia da minha vida. Deus chegou aos meus lábios a taça da tribulação; suas fezes talvez não estejam ainda esgotadas... (5) A vontade do Senhor seja feita... (6)

Desde que não foi possível induzir-me a pregar depois da perda de minha vista; um grande número de pessoas se reuniu aos meus amigos, para convidar-me a imprimir os meus sermões. Eles receavam, que os meus trabalhos oratórios tivessem a sorte da preciosa, e vasta coleção do Padre Mestre S. Paio e do Cônego Januário da Cunha Barbosa. Entrando na difícil carreira do púlpito, nunca veio ao meu espírito, que os meus sermões pudessem um dia ser publicados. A dificuldade da impressão, a falta de recursos, a indiferença para toda a sorte de empresas tipográficas, talvez mesmo, a modéstia dos autores, impediam a execução destes projetos, que ilustraram outras nações, e fizeram avultar a massa dos conhecimentos humanos. Todas essas inspirações do gênio, todos esses esforços do talento, essas felizes produções, que faziam o encanto, e admiração dos naturais, e dos estrangeiros, eram destinadas a morrer no mesmo dia de sua aparição, ou quando muito a obter, qual peça de teatro, novas récitas. A posteridade estava fechada para os nossos oradores: as honras da imprensa eram apenas concedidas aos discursos recitados por ocasião de algum grande acontecimento, e cuja publicação convinha àqueles, que os pregavam, ou faziam imprimir. A ninguém lembrou ainda reunir as orações fúnebres de S. Carlos, e de S. Paio, e formar uma coleção, qual os franceses fizeram das orações fúnebres de Bossuet, e Flechier. Estes brios nacionais estão quase extintos: Para nós tudo está materializado: nossa vida é para o dia de hoje, porque a vida dos sentidos é o presente; o futuro pertence à inteligência.

Chamados a uma nova existência, exposto à sentença indeclinável dos literatos, os meus discursos deviam aparecer dignos de justificar a opinião vantajosa, de que gozava o seu autor, e corresponder à expectação pública, que pede, e espera sua publicação com a maior impaciência. Nada estava preparado para este resultado. Prosseguindo a minha educação científica, eu tinha conservado nos altos estudos da filosofia, e da teologia a independência do meu caráter, e os direitos da minha razão. Incapaz de sofrer algum jugo, mas carecendo instruir-me, procurei racionalizar o meu espírito, e aceitar o império da verdade sem humilhação, ou servilismo. Assim foi, que minhas crenças morais, e religiosas, fortificadas com o estudo, e com a reflexão, puderam-me prestar apoio, de que careci, quando a Providencia quis reduzir-me às mais duras provações. A instrução pública nessa época era muito circunscrita. A metrópole não queria homens sábios nas suas colônias: era à custa de esforços inauditos, que os brasileiros podiam distinguir-se. Restava um meio fácil de promover o nosso adiantamento, o estudo da língua francesa: porém ainda em 1807 não havia no Rio de Janeiro um professor público desta língua. Foi para mim um triunfo, digno de igualar-se aos trabalhos de Hércules, aprender sem mestre, e sem o socorro da gramática, este idioma tão rico de escritores eminentes. Entregando-se à cultura da eloquência, o jovem orador brasileiro era condenado a ficar na obscuridade, estudando os oradores portugueses, cujos sermonários eram comuns entre nós; ou procurar na leitura dos pregadores franceses as inspirações, de que carecia para ilustrar o seu espírito, e abrilhantar seus discursos. Havia porém neste estudo um grande inconveniente; e era a corrupção da língua portuguesa. Era preciso responder à glória, que nos chamava; não era possível abnegar os pundonores do amor-próprio; convinha ceder ao nosso entusiasmo. Não havia tempo para ler Freire de Andrade, estudar Frei Luiz de Souza, e o Padre Antônio Vieira. Os galicismos, os termos menos apropriados, e as frases menos corretas deviam necessariamente desfigurar a beleza das nossas produções. Compondo os meus sermões, nunca fui embaraçado com as formas, de que devia revestir o meu estilo. Sabia com Montesquieu (7), ser impossível realizar alguma coisa de importante, desde que fosse mister levar à balança nossos pensamentos. Quando pois eu tinha de exprimir uma ideia, empregava na tradução o termo, que me parecia mais significativo, ou mais sonoro, sem curar de sua precisão, e mesmo da sua existência. Era certamente um grande mal em ordem à literatura; um grande defeito; mas a ideia aparecia com suas cores fortes, e originais: o prestígio da pronunciação conseguia o resto.

Destinados somente para serem recitados, os meus sermões careciam ainda de um sinal que os devia caracterizar, como trabalho literato: era a indicação dos lugares da Escritura Santa, dos Padres da Igreja, e dos autores que tinham auxiliado as minhas composições. É evidente, que uma tal circunstância não é necessária em um discurso, que deve somente ser pronunciado; mas quando uma obra tem de ser lida, a referência dos escritores, de que nos aproveitamos, é muitas vezes indispensável, e quase sempre útil. Além disto, as citações dão uma ideia vantajosa dos nossos estudos, e da extensão dos nossos conhecimentos; e quem tivesse de apropriar-se dos fragmentos de algum autor, sem o ter notado, passaria por um plagiário (8). Compondo os meus discursos, eu usava transcrever separadamente, não só o plano do meu trabalho, mas, todos os materiais, de que carecia, e que podiam facilitar a minha composição. Mas certo, de que meus sermões nunca seriam impressos, contentava-me de indicar o pensamento que me aprazia, sem ocupar-me com o nome do autor, e das suas obras: esta lacuna compreendia os textos da Escritura Santa. Era portanto necessário instaurar, quando fosse possível, as citações, que me pusessem ao abrigo do plagiato, e dessem aos meus discursos o relevo, de que haviam mister. A aplicação mais tenaz, e os recursos da minha memória repararam em grande parte esta omissão (9).

Uma vontade decidida, o amor do trabalho, e o incentivo da glória podiam vencer todas essas dificuldades; mas há embaraços, e resistências, contra os quais não podem lutar os estímulos do pundonor, e as porfias do amor-próprio. Eu não tinha vista: era portanto necessário um colaborador, que dotado de uma certa capacidade, e reunindo alguma habilitação, pudesse prestar-me o auxílio, de que eu não podia prescindir. Era mister um homem, que, votando-se a um serviço obscuro, me consagrasse seu tempo, e suas comodidades. Não era certamente um sábio, de que eu tinha necessidade; eu estava na resolução firme, e inabalável de não repartir com outro a minha glória, nem aproveitar-me de alguma circunstância, para fazer cair sobre quem quer que fosse os defeitos dos meus escritos: convinha-me um amigo, e não um mestre.

Era no claustro, para onde entrara na idade de 15 anos, que eu devia encontrar a pessoa, de que carecia. Era entre aqueles, que lutaram comigo na mesma arena, que sem ódio, sem pretensões, e sem animosidade trabalharam para cobrir de novos louros a corporação, nossa mãe comum, que eu deveria obter os olhos, e as mãos, que me faltavam. Meus amigos tinham morrido. Eu era como o cego Ossian sentado sobre as cinzas do rei de Morven; para qualquer lado, que estendia os braços, tocava os ossos de meus companheiros de armas (10). O silêncio dos túmulos me cercava; a deserção avultava progressivamente; e para cúmulo de desventuras, as trevas mais espessas envolviam este belo céu, onde tinham fulgurado tantos sóis, e tão radiantes estrelas. Diversas tentativas foram empregadas para aplanar as dificuldades, que a cada instante se reproduziam: tudo quanto é capaz de estimular a mais fria indiferença, e animar as aspirações do interesse foi em vão prodigalizado... “Profeta, dizia o Senhor a Ezequiel, vês esta multidão de ossos, com que alvejam estes campos: é a Casa de Israel. Fala a esses ossos ressecados; reveste-os de nervos, e carne; e reanima esses autômatos com o espírito de vida...” (11). Oh! Este tipo eloquente, e magnífico só deverá verificar-se no dia da grande manifestação!

Depois de inúteis esforços, e quando toda a esperança de realizar o meu projeto estava extinta no meu coração; Deus suscitou no Reverendo Padre João Diniz da Silva, o homem, que me convinha; era um amigo; eu tinha conquistado este belo título depois de muitos anos: é à sua amizade, à sua constância, e à sua dedicação, que eu devo a publicação dos meus sermões. Pois que ele teve tão grande parte na execução de um empenho tão afincado; receba também o tributo de louvor, que justamente lhe cabe.

Depois da mais laboriosa aplicação, depois dos mais sérios embaraços, e estorvos quase insuperáveis, está realizada a escolha dos meus discursos. Empreguei toda a severidade possível, excluindo um grande número de sermões. Entretanto minha coleção poderia ser mais rica, se a perfídia, e o mais revoltante abuso de confiança não me tivesse privado de quatro dos meus mais belos sermões. Um deles, é uma oração de ação de graças pela restauração da Bahia na guerra da Independência; e que me fora encarregada pelo Senhor D. Pedro I. Esta oração não tinha sido recitada por circunstâncias extraordinárias, que impediram a solenidade religiosa. O segundo é um panegírico de S. Miguel, no qual afastando-me das ideias geralmente adotadas, coloco o arcanjo à testa dos grandes acontecimentos da Religião, e da humanidade: o protetor da antiga sinagoga continua no cristianismo sua missão augusta, e celeste. Este panegírico é notável em erudição; a nobreza da linguagem parece-me corresponder ao mérito de sua composição. O terceiro dos sermões, que analiso, é um discurso sobre a morte de Santo Antônio: é uma magnífica oração fúnebre. O quarto é um brilhante panegírico da Santa Virgem, ao qual estava reunido um fragmento histórico para a festa de N. Senhora da Lapa. Todos esses discursos pertencem hoje ao domínio da estupidez, e da ignorância. Meus louros ornam a estátua da impostura; mas a sua recitação produzirá no auditório, que os ouvir, a sensação dolorosa, que despertam em minha alma, os numerosos sermões do eloquente Padre Mestre S. Paio, cuja beleza é horrivelmente desfigurada por aqueles, que o repetem. O Poeta de Mântua não pôde ver com indiferença passar a outrem a coroa de glória, que lhe merecia a publicação de um dístico em honra de Augusto. Ele se lastimava contemplando a mediocridade, e a impudência, enfeitadas com a auréola, que lhe pertencia:

“Hos ego versiculos feci, tulit alter honores.”

O despeito inspirou-lhe os quatro bem conhecidos versos:

“Sic vos non vobis nidificatis aves;
Sic vos non vobis vellera fertis oves;
Sic vos non vobis mellificatis apes;
Sic vos non vobis fertis aratra boves.”

Os sermões, que me foram subtraídos, tem certamente mais valor, do que estes dois tão pranteados hexâmetros:

“Nocte pluit tota; redeunt spectacula mane.
Divisum imperium cum Jove Cesar habet.”

Foi na ocasião de corrigir meus sermões, que eu reconheci toda a importância dos conselhos de Horácio, que manda interpor um longo interstício entre a composição, e a publicação (12). O momento de entusiasmo não é certamente o mais apropriado para conhecer os defeitos, que nascem de uma inspiração, muitas vezes falaz, e arrancada pela necessidade, e estreiteza do tempo. É mister aguardar a ocasião, em que esfria o amor, que nos consagramos às nossas composições para proscrever pensamentos, que o gênio havia ditado, mas que uma razão ilustrada condena severamente (13). Apesar do cuidado, que empreguei na correção dos meus discursos, devem ter escapado graves defeitos, erros mesmo. Serei bem feliz, se por ventura, os que lerem as minhas obras oratórias, só tiverem de perdoar-me algumas imperfeições. Non ego paucis offendar maculis (14). Se eu só houvesse consultado a minha consciência, teria entregado às chamas todos os meus discursos; foi mister porém ceder menos à minha vanglória do que a uma necessidade de ferro, que arrojou-me nos perigos de uma publicação. Os que conhecem as críticas acerbas de Aristarco, e Zoilo contra Homero; os que têm lido as censuras feitas às orações fúnebres de Bossuet, e as imputações de plagiato dirigidas contra Flechier; deviam perder o desejo de publicar discursos medíocres, e tão defeituosos, quais os que determinei imprimir.

Há porém uma circunstância, que não deve passar sem observação. Eu não quero deixar a outros uma censura, que forcejo por atenuar. Há em quase todos os meus discursos uma ideia, que parece dominante: há como um pensamento único, de que dimanam todos os outros pensamentos: esta ideia geral, este pensamento comum é a Religião. Entretanto, apesar de sua riqueza, e sublimidade, esta nobre concepção, muitas vezes reproduzida, como quem imprime nos meus discursos uma certa uniformidade de pensamento; e talvez os prive desta variedade, que revela ao mesmo tempo o talento da invenção, e a fecundidade intelectual do autor. Seja porém qual for o reparo, que me caiba, qualquer que seja a inflexibilidade, com que deva ser julgado; é incontestável que todos esses feitos gloriosos, que ilustraram os homens da nova civilização; todos estes milagres de heroísmo, que honraram a espécie humana, e lançaram na arena dos combates todos os sexos, todas as idades, e todas as condições da vida; receberam da Religião sua existência, seu lustre, seu apreço, e sua mais alta consideração. Todos os grandes problemas sociais encontram na sua influência a mais fácil solução; e todos esses cantores da glória, que

agitados do ímpeto divino,
Acesos turbilhões na voz desatam, (15)

receberam em seu archote majestoso o fogo do entusiasmo, de que foram abrasados; e beberam nesta fonte sagrada e inextinguível inspirações, ideias, emoções, e sentimentos. Aí estão Pope, e Milton: Klopstock, e Schiller; Tasso, e o Dante; Chateaubriand, e Bossuet. O cristianismo proclama triunfante, que só Jesus Cristo é o caminho, a verdade, e a vida (16); que sem Ele é impossível empreender alguma coisa nobre, grande, heroica (17). Louvando pois os grandes homens da Religião, celebrando as virtudes dos seus heróis, era só na Religião, que eu podia procurar, e que devia mesmo encontrar a verdadeira origem de sua glória, e os títulos, que lhe deviam assegurar nossos cultos, e nossas homenagens: a Religião não devia pois ser esquecida. Ou fosse uma homenagem dada à verdade, ou um efeito das minhas convicções; ou fosse o predomínio do meu profundo respeito, e da mais alta admiração para o augusto fundador do cristianismo; era impossível não ter constantemente em vista a magnificência da esposa eterna, de quem eu recebia todas as minhas inspirações. Assim podia eu dizer com o Profeta Rei: — Todas as minhas produções literárias sejam abafadas no esquecimento, se eu não me recordar de ti, oh Religião, quando me propuser alguma composição oratória. O brilho, que me cerca seja eclipsado; os louros, que cingem minha testa, caiam murchos, e desfolhados; se por ventura eu procurar fora de ti a reputação, que me tocar em partilha. Si oblitus fuero tui, Jerusalem, oblivione detur dextera mea. Adhaereat lingua mea faucibus meis, si non meminero tui, si non proposuero Jerusalem in principio laetitiae meae (18).

Rio de Janeiro, 25 de Abril de 1852.

Notas
(1). Esta asserção está consignada literalmente no resumo da História do Brasil pelo Sr. [Jean-Ferdinand] Denis, traduzido vulgar pelo Sr. [Henrique Luiz de Niemeyer] Bellegarde.
(2). Cuido ser o Sr. de Beauchamp.
(3). Génie du Christian., vol. 4.
(4). João 4, 38.
(5). Sal. 75, 9-10.
(6). Mat. 26, 40.
(7). Défense de l’esprit des lois.
(8). Pois que falei em plagiato por defeito de citação, procurarei remediar aqui uma falta, que de outra maneira não poderia reparar, por estar quase impresso o 1° volume dos meus discursos. Em um dos parágrafos do meu sermão sobre a Palavra de Deus, depois desta frase: – Sabes, dizia o Senhor ao profeta Ezequiel, sabes, qual é o efeito das verdades, que tens anunciado ao povo? – omitiu-se por distração a seguinte nota, que devia ser colocada com a sua respectiva numeração: – C. F. Neuville, serm. Sur la Parole de Dieu. É incontestável, que nos podemos utilizar das composições modernas, como nos aproveitamos com tanta glória das obras imortais dos antigos, principalmente dos Padres da Igreja. Um escrito depois de publicado pertence ao domínio da inteligência pública; mas convém reconhecer a sua origem, e dar homenagem a seu autor. Em vista destes princípios, e sendo impossível recordar-me agora de todos os livros, que estudei, e ainda menos indicar circunstanciadamente as fontes, donde recolhi a minha instrução; ficam implícita, e virtualmente citados os autores, de quantos extratos, pensamentos, e paráfrases tinham podido servir à composição das minhas obras oratórias, e cujos nomes foram esquecidos.
(9). Na indicação dos livros santos segui o plano adotado na Concordância da Bíblia. Para designar o livro do “Eclesiastes” empreguei esta abreviação “Ecles.”: para assinalar o “Eclesiástico” adotei a seguinte fórmula “Eclesiást.”. Como estes nomes tem quase as mesmas sílabas, e se distinguem apenas na sua terminação, seria impossível abreviá-los de outra maneira para se poderem distinguir, e conhecer.
(10). Génie du Christian, vol 3°.
(11). Ezeq. 37, 1-11.
(12). Epist. ad Pisones, 386-388.
(13). Idem, 19-23.
(14). Idem, 350-351.
(15). M. M. du Bocage.
(16). João 11, 6.
(17). Idem 45, 5.
(18). Ose. 136, 5-6.

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