quarta-feira, 10 de março de 2010

A poesia de hoje


SÍLVIO ROMERO

Este texto é o prólogo de Sílvio Romero a seu livro de poemas Cantos do fim do século, (Rio de Janeiro: Tipografia Fluminense, 1878, pp. V-XXII). Sua significação filosófica consiste no registro histórico do uso do saber científico como instrumento de combate político-ideológico, isto é, o cientificismo

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http://textosdefilosofiabrasileira.blogspot.com.br/2010/11/explicacoes-indispensaveis-1.html

I

Um prólogo a um livro de versos é coisa que não se lê, e quase sempre com razão. Ordinariamente é alguma queixa de que a poesia definha, porque o mercantilismo a não deixa florescer, ou algum encômio estragado às excelências da arte que se diz, que se apregoa imortal!...

É mania que já molesta, uma fraqueza que não se deve escutar.

Nem há esse desdém da parte das preocupações positivas da sociedade, nem existe essa imortalidade que fosse agora revelada com todos os seus arrancos para o infinito, como diria um romântico de gênio.

Nem tanto assim, um pouco ápage! Os cismadores se iludem; da natureza da poesia eles são os mais ignorantes. Ela é um fato comum, ordinário, vulgar da vida humana, que não deve ter a pretensão de exigir inviolabilidades, nem martírios para si. Como a linguagem, como a mitologia, como a religião, ela perdeu todos os ares de mistério, depois que a ciência do dia imparcial e segura penetrou, um pouco amplamente, no problema das origens. Este resultado foi devido à alta crítica histórica e filológica, depois que o sopro das ciências naturais a rejuvenesceu. A metafísica, com todo o seu histerismo, bem pouco contribuiu para ele.

A poesia é um resultado da organização humana, nada tem de absoluto, nem de sobrenatural; nada também de desprezível e de repugnante para nós.

Compreende-se, à luz destas ideias, que todos conhecem, menos certa classe de literatos, o valor do desconsolo ou do entusiasmo de que se deixam possuir. Para eles escrevo as páginas que se seguem.

II

No meio das mutações por que hão passado todos os ramos do pensamento humano, qual será o estado a que se deve ter chegado a poesia? Qual o seu caráter de hoje? Esta pergunta não é nova, nem tem sido uma só a resposta a ela dada.

Não creio que seja necessário, posto que escreva no Brasil, o apontar as quatro ou cinco ideias fundamentais, que, firmadas nas ciências positivas, transformaram a intuição crítica de nosso tempo.

A época de Darwin, Moleschott e Büchner, de Lyell, Vogt e Virchow é naturalmente a de Comte, Mill e Spencer, de Buckle, Draper e Bagehot. Estes nomes exprimem a grande transformação das ciências da natureza, invadindo a esfera das ciências do homem. Todos sabem que a religião, a linguagem e a história, o direito, a política e a literatura são agora tratadas por método bem diverso daquele porque o eram, há trinta anos. Esta nova maneira de sentir e de pensar de sábios e filósofos, num tempo como o nosso, não fica incógnita e misteriosa sem ação sobre a massa dos leitores.

A cabalística do século XIX é nenhuma; toda descoberta é logo espalhada aos quatro ventos pela voz dos livros, das revistas e dos jornais. A popularização da ciência é um fenômeno dos últimos tempos, e a melhor conquista da expulsão do sobrenatural. Tudo é relativo no universo e no homem, nada existe que faça medo. Para que, pois, o mistério?

A intuição do grande público vai mudando, como alterada, há muito, se acha a dos homens competentes.

Na evolução de todas as manifestações espirituais a poesia não pode ficar estacionária. Tem-no ficado em grande parte o ímpeto de reformas, pelo menos, não é nada comparável ao arrojo romântico do princípio deste século. Estudada nas cinco grandes pátrias da civilização — Alemanha, Inglaterra, Itália, França e Estados Unidos —, só revela restos do antigo romantismo, ou algumas tentativas, que se decoram de nomes diversos, de pouca esfera.

A reforma dos princípios, há muito que se acha feita nos livros de análise; a poesia quase que tem a antiga toada. É certo que as ironias de Byron, e os pesares de Lamartine há muito que se acham desacreditados. Existe, a par das duas manifestações poéticas indicadas, um lirismo exuberante, desse que em todos os tempos, ainda os mais deteriorados, sobrenada como a salva-guarda da poesia verdadeira.

Os que têm procurado dar nova direção à arte não se acham de acordo. A bandeira de uns é a Revolução, a de outros o positivismo; o socialismo e o romantismo transformado têm também os seus adeptos. São doutrinas que se exageram, ao lado da metafísica idealista de alguns.

Nada disto é a verdade. O valor, a influência da Revolução são muito contestáveis; sem grande alcance na ordem social, esse fato da política francesa resume um punhado de noções agora improducentes; a filosofia de Rousseau e a ciência de d’Alembert são hoje um anacronismo. Compreende-se a magia que esse fenômeno histórico, bastante anormal, pouco estudado, e revestido pelas cores da legenda, possa ainda ter sobre os espíritos. Os nobres, e não raro desajuizados, impulsos dos patriotas de 93 são ainda os votos políticos de muitos, mas noto que não passaram de anelos. A revolução foi parca de ideias; a história francesa dos últimos oitenta anos prova-o de sobejo; sem muita inocência, não pode continuar a ser a tinta em que a poesia vá molhar o seu pincel.

Depois, toda essa literatura vertiginosa e sem ação da romântica europeia o que é senão o embate da onda revolucionária espumosa e vazia? Os princípios de 89 estão reduzidos a quintessência; marcam um grau apenas da evolução moderna; estão agora desfeitos como doutrina.

O positivismo, com ter um motivo profundo para a sua aparição e com valer mais agora do que os desvarios revolucionários, está acabado como sistema; deixou uma boa direção e nada mais. Intumescido de vistas estreitas e compressoras, devidas ao gênio regulador de seu chefe, tem sido abandonado como incompleto e inconseqüente pela parte mais avançada da ciência contemporânea.

Seus méritos e vantagens não são pequenos; a morte da metafísica e a expulsão do absoluto das relações humanas são dessas grandes conquistas que perduram; são fatos consumados e adquiridos. Contribuiu para o esclarecimento da intuição contemporânea, mas a não constitui por si só. A sua falsa ideia sobre a vida, a obstinação em considerar impossível qualquer estudo psicológico, quando aliás, alçava à altura de ciência a sociologia, abriram-lhe brechas que o darwinismo, ao lado de outras ideias, vai corrigindo. Como requerer uma fórmula poética que seja a cristalização de um tal complexo de ideias?

O socialismo é o inimigo da economia clássica; como o sistema acima lembrado o é da Metafísica; não tem, todavia, o sentido altamente filosófico daquele. O movimento socialista foi uma reação necessária, cujos méritos principais foram devidos às novas doutrinas sobre a religião, a filosofia, a história... espalhadas por pensadores estranhos às questões econômicas. Em bem pouco contribuiu para a compreensão total do espírito de hoje.

O que em Proudhon de melhor se lê são vistas gerais independentes das teses de produção, valor e trabalho,... em uma palavra mui distinta do échafaudage econômico. O que é geral não é seu. Como fazer daquilo uma poesia? A arte coletiva e socialista já não é uma novidade, e não é o ideal de hoje.

O romantismo transformado em vista das necessidades futuras indica um atraso de sessenta anos. O romantismo, para a alta crítica, foi um movimento desordenado de admiração pelo passado; desfeito, de pronto, em mensageiro do futuro é uma ingenuidade. O futuro!... todas as inquirições a seu cargo carecem de segurança e, certamente, nada mais incompetente para esclarecê-lo e divulgá-lo do que a poesia, e a poesia romântica! Os que discorrem a respeito da arte do futuro pagam-se de sonhos, senão iludem-se com frases. Admite-se que se indague da religião do porvir, como o hão feito alguns espíritos de nota; estes buscam qual será ela, mas não procuram fazê-la; isto porque a religião, a alguns despreocupados, mostra sintomas de um desaparecimento mais ou menos próximo. A religião primitiva foi um tentame de explicação do universo e do destino humano; é a ideia mais acreditada. Esse duplo alvo tem hoje uma explicação de ordem no todo diversa; a antiga não tem, pois, motivos de perdurar, nem o estímulo da moral é garantia de vida para ela, quando é-lhe bastante independente.

Não assim a poesia; oriunda de faculdades indestrutíveis na espécie humana, sujeita inteiramente à ação do meio em que se desenvolve, tem um caráter completamente contemporâneo da época em que aparece. É impossível para a arte do futuro ainda mais do que seria reproduzir a do passado; mas quando um tal projeto fosse exequível, à luz de que princípios, munidos de que filosofia iriam os espíritos tentá-lo? Com as frases do romantismo? Ora esta!

Os repetidores de Schlegel devem pôr-se um pouco mais a par do movimento científico do dia para não se exporem tão facilmente... A literatura que combato, não teve doutrinas suas; eu não sei qual fosse a filosofia de um Shelley ou a de um Musset. Tão grandes como são, pode ser que muito possuíssem, mas não a deveram certamente às extravagâncias do seu sistema.

Transformado em vista do futuro...” Por que e por quem? Enigma estupendo! Eis uma fórmula vazia, sem alcance e sem critério; nada exprime além do desconhecimento da morte profunda, irremediável que dilacera as entranhas da decrépita doutrina.

O romantismo é um cadáver e pouco respeitado; não há futuro que o salve, nem que pretenda ser o Protheu de alguma mitologia de espécie nova!

Existe um outro modo de poetar na literatura dos últimos tempos sem consistência e princípios, uma espécie de idealismo metafísico, incongruente e vazio, como os sonhos de um histérico. É de nenhuma influência sobre a marcha total dos acontecimentos espirituais, e não tem grandes nomes que o personalizem.

Um fato é para notar: no meio da inconsistência de tantas reformas pretendidas, existiu sempre a beleza das concepções suaves e delicadas da lírica, tão acremente estigmatizada por escritores preocupados de falsas noções. Admira que um dos espíritos mais eminentes da moderna ciência europeia, Ed. Scherer, se mostrasse também animado contra o lirismo, confundindo-o com a melancolia romântica. A distância entre ambos é infinita; o que haverá, eu o pergunto, de mais lírico e menos choroso do que Sara La Baigneuse de V. Hugo, ou The Possession de Lord Lytton?

São fulgores da lírica sempre exuberante desde os velhos tempos da Grécia e da Judeia. Com todo o seu prestígio, porém, não pode encher por si só todo o ambiente literário. Havemos mister, na época de hoje, para a arte, de uma intuição mais vasta e mais segura. Já vimos que nenhum dos fundamentos comumente apontados por fanáticos partidários pode satisfazer àquele empenho; são imposições sistemáticas que, à hora que aparecem, presumem conter o último raio da verdade. A ciência, a literatura, até no grande e completo sentido, têm também suas miragens. Evitemo-las.

A nova intuição literária nada contará de dogmático; será um resultado do espírito geral da crítica contemporânea. Acima dos combatentes, sem dúvida necessários, que, obcecados por uma vista qualquer das novas ideias, falseiam a noção do grande todo, estão os espíritos sem dogma particular, que se empenham em traçar as grandes linhas do edifício moderno; acima de todas as doutrinas está a intuição genérica da crítica.

A poesia não pode se fazer sistemática; conseguirá somente embeber-se dos grandes princípios da filosofia geral.

É possível que se duvide de sua eficácia; os estudos mitológicos e religiosos lançaram-lhe um prejuízo: que nos tempos de diminuta fé ela não pode sobreviver.

Aí anda a confusão da fé religiosa com a fé poética, que, muitas vezes não passa de antítese daquela. Não é verdade que seja necessário um longo embevecimento nas sonhadas delícias do céu para que vibrem as cordas do plectro terrestre. Não raras vezes, estremecem maviosas justamente quando o coração magoado não acha outras ternuras, que o adormeçam, senão os martírios da realidade, ou as afirmativas de uma ciência toda humana. Os críticos abundam em desperdícios de enganos sempre que hão justaposto a poesia às evoluções distintas da religião; e quando, porventura, a ciência, bem ou mal fundada, nega a esta última uma série imutável n’alma humana, ouve-se, como regra, a sentença condenatória das artes. É uma aberração passageira do espírito de nosso tempo. Apesar desse desatino, não deixa de ser muito certo que a poesia ganhou, nesta prova por que a fizeram passar, ao contato fecundo dos grandes estudos da época; reconheceram afinal seu ponto de apoio todo independente e sua tendência e alvo autônomos e livres.

A razão de um livro como De natura rerum não é a mesma de um outro como a Imitação de Cristo; um cântico de Píndaro não tem o mesmo significado de um Mistério de Eleusis. O espírito humano não pode sofrer amputações; n’alma de hoje estão todas as notas fundamentais do teclado primitivo, e mais algumas.

O que disse um novíssimo escritor italiano, historiador, filósofo, da ciência e da religião, a propósito de Comte podemo-lo repetir; “non veniamo a ristorare sotto altra forma il sin là e non oltre, non a risuscitare i misteri. Quando la scienza abdica, a Religione interviene e la sopraffá.” É o que se dá com a poesia: quando ela abdica, a Religião intervém e refaz.

A arte não é agora uma caduquice quando a música rejuvenesceu, e a poesia atende a todas as perplexidades contemporâneas e sente-se possível e fecunda: a arte funda-se hoje na intuição novíssima que a ciência desapaixonada e imparcial vai divulgando. Deve ser uma conseqüência e uma síntese de todos os princípios que até hoje aqui hão agitado o século.

III

Nesta altura, sua primeira obrigação, entre nós, há de ser o completo abandono de meia dúzia de célebres questões, que hão sido o eterno martelar dos autores brasileiros. Por este modo, esquecer-se-á de índios e de lusos para lembrar-se da humanidade; não indagará se é nacional para melhor mostrar-se humana, cumprindo-lhe o maior desprezo de quantas musas imperceptíveis, há cinqüenta anos, trazem de ferro em punho a turba laureada de nossos heróis das letras!

Eu o declaro, porém: qualquer que possa ser a fraqueza e a superficialidade do pensamento brasileiro na hora atual, em matéria literária, é certo que ele se mostra mais despreocupado do que há bem pouco tempo. Não é que tenha conseguido novos e poderosos elementos de vida que só sabe dar a vasta elaboração científica; mas um certo grau de desconfiança há germinado, apesar talvez dos pátrios corifeus, na alma dos moços, e estes querem deixar de jurar na santa palavra dos mestres que os precederam.

É um progresso, sem dúvida, se atendermos à falta de ideias firmes e determinadas que houvera sido em grande escala o apanágio dos nossos doutrinadores. Fazer a classificação, sem bases, da escola mineira, traçar insulsas biografias dos poetas do século passado, citar fora do momento uns versos de Caldas ou Dirceu, tudo aquilo que os críticos românticos entendiam ofertar-nos, tudo isso deve sair da circulação como inútil e cediço. Enumerar as excelências do gênero épico e as propriedades dos gentios para ele, namorar a solidão das selvas seculares e a frescura da primavera eterna do pátrio céu, sonhar o caboclo ou o campônio, pesado de encantos e maravilhas, tudo em que os folhetinistas tinham por bem brindar-nos, tudo isso deve cair por muito estéril ou banal. Estas coisas, se houvessem de pertencer à história, para lá já deveriam ir marchando; estão no domínio das ideias moribundas.

Procuram-se hoje as leis de uma sistematização exata de nossa vida pensante. Sabe-se agora que não somos um povo de alta cultura, não porque nos faltassem frases, que nos sobram; mas por faltar-nos a ciência; não por falharem os trovadores, mas porque não se encontram os artistas. Creio que para alguns já é menor a cegueira — não significa que hajam desaparecido os desorientados do próprio seio dos últimos espíritos.

Ao contrário: o país tem mais a temer de alguns deles do que dos velhos pouco adiantados; são os foliculários desajuizados, obesos de ignorância, que, totalmente avessos aos processos da crítica, não compreendem os homens e muito menos as ideias. Não é raro vê-los proclamarem os antigos chefes, atribuindo-lhes até vistas que nunca lhes pertenceram, à medida que as novas doutrinas se vão espalhando.

Há no seio deles uma fonte exuberante de apreciações desponderadas; é o completo desconhecimento da história do país. Ouviram dizer que os pátrios escritores são uns grandes esfaimados que se nutrem continuamente dos produtos do espírito europeu, e decidiram, desde logo, ignorar quantas influências tenham-se encaminhado para desenhar-lhes o perfil.

Ora, um grande sistema de imitações tem também a sua lei de progredir.

Há sempre um motivo, que importa achar, que atira-nos ora para aqui, ora para acolá. Só o conhecimento de nossa vida espiritual, por mais fundos que sejam os seus delíquios, pode habilitar-nos a encontrá-lo. A falta notada é que os faz andar de contínuo a discutir velhas impossibilidades e a lançar gratuitas afirmações. É assim que não surge um novo livrinho de contos ou versos que se não brade logo: este sim, achou a nota predominante da verdadeira literatura!

Aquele que se encarregasse de apanhar no jornalismo dos últimos trinta anos todas as decisões em que o selo daquele verdadeiro caráter foi lançado, formaria a profusa coleção das teses e antíteses do pensamento nacional. Ali afirmam-se todos os contrários.

Mas, se não existem ainda entre nós avantajadas conquistas sobre o belo e a verdade, não é menos exato que mais algumas desconfianças na grandeza de um passado, ainda mui próximo, é para notar. É, sem dúvida, ainda muito pouco.

Como que a novidade do dia é capaz de desmentir o célebre princípio de Leibniz — le présent est gros de l’avenir.

Não! As novas ideias hão de germinar e propagar-se, arrastando em seu cortejo todos os que podem sentir as necessidades implacáveis do século, que se vai retirando, naquilo que ele tem de realmente sério e duradouro.

Há nos domínios da sociedade brasileira algum germe de convicções maduras e firmes que há de florescer à luz de um novo sol.

Quais as obras melhores da inteligência nacional nos últimos cinqüenta anos? Dois ou três códigos, e dois ou três livros de versos... Eis as manifestações primas da nossa vida no mundo social e na órbita literária!

Não sei se é muito ou se é pouco. – O que todos podem experimentar, se quiserem verificá-lo, é que o pensamento de hoje, chocado por outras necessidades, enlarguecido por outras concepções, dificilmente se pode agüentar naquelas velhas cadeias. Avança, deixando atrás a passada intuição, condenando à impotência os antigos programas literários.

Sobretudo achar-se-á livre de um pesadelo terrível: o célebre debate da nacionalidade literária, feroz Adamastor de espécie nova, que há feito as tormentas dos Gamas do romantismo.

A retórica deve convencer-se afinal de sua ineficácia para soluções que não são de sua alçada. A magnitude das questões que se debatem no velho mundo, por um reflexo necessário, há de lançar o esquecimento sobre o tema predileto do caboclo e seus competidores no problema magno de como será o rosto da musa da pátria!

Uma ideia vem de lá: não há literatura típica, e, muito menos, uma escola, um gênero típico. A alma de um povo é bastante extensa; o espírito de um século assaz compreensivo para dar ninho a oitenta sistemas e força a cem estilos. Sem este dado experimental, alçado à altura de um princípio, a incompreensão da história sempre aparece com seu corolário: - o falseamento da crítica e da arte.

Compreende-se, deste modo, a caprichosa inanidade dos defensores deste ou daquele regime, passe o termo, como o molde primordial de nossas liberdades de fantasia.

Motivo gerador das fórmulas absolutistas, dos catecismos literários, a vista contrária à que defendo desencaminhou-nos largamente.

O romantismo encorajou-a em demasia com sua filha predileta - a poética selvagem, que move-se agora sem o hálito vital. O sistema sente o seu desmantelo pode-se-lhe aplicar a bela expressão da authoress francesa “il parle, il marche, il agit par habitude, par souvenir mais le principe de la vie est depuis longtemps éteint dans sa poitrine”.

Aqui na América hoje a poesia deve assistir, tomando parte, aos nobres labores que a velha Europa sustenta com a sua ciência e nós pressentimos em nossos cânticos. Não será tão exterior, como a antiga poesia clássica, e sua forma tão plástica; nem tão intimamente particular, como as centenas de extravagantes confidências que a romântica francesa espalhou pelo mundo, e sua forma tão desalinhada.

IV

É tempo de dizer alguma coisa deste livro...

A lei da relatividade em todos os fatos naturais e humanos é a base da obra, é o motivo da distribuição à primeira vista caprichosa, de suas peças...

Uma dezena de expressões, totalmente vazias, tomadas às crenças alquímicas medievais, como ondina, fada, gnomo, silfo... ou a angelologia cristã, como anjo, arcanjo, querubim, serafim... foram banidas, como falhas de beleza e de sentido, para a arte...

Para algum juízo, pouco esclarecido, a tese capital, que tenho desenvolvido, poderá ser tomada pelo didatismo poético. Será uma bem grave dissonância. Eu tenho horror à poesia didática...

A poesia indômita, a única que pode viver, é riso, é delírio...

A ciência é toda grave; seu método deve ser o jogo de princípios incontestáveis; a prosa é sua natural expressão... Nada pode emprestar à arte, além da grande intuição do mundo e da humanidade...

O poeta deve ter as grandes ideias que a ciência de hoje certifica em suas eminências; não para ensinar geografia ou lingüística, pré-história ou matemática; mas para elevar o belo com os lampejos da verdade, para ter a certeza dos problemas, além das miragens da ilusão...
11/1878

Enfastiada e sozinha,
A tua vida é mesquinha
Di-lo o mundo, e eu digo: não!
Pois que tu da amarga sorte
Ganhaste os prêmios da morte,
E os lutos da criação.

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