terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Fatos do espírito humano


Tobias Barreto


  Este texto, de 1869, inaugura a historiografia filosófica brasileira, sendo resenha crítica da obra homônima de D. J. Gonçalves de Magalhães (Fatos do espírito humano, Paris, 1858; Rio de Janeiro, 1865), cujo Capítulo VIII apresenta uma teoria da sensibilidade que suscitou vivo interesse em Tobias Barreto porque, pela primeira vez na história da filosofia no Brasil, um autor nacional argumenta fazendo uso dos resultados mais recentes das pesquisas científicas então realizadas por eminentes naturalistas europeus como W. Herschel, Étienne Geoffroy Saint-Hilaire e M. Jean Pierre Flourens (http://textosdefilosofiabrasileira.blogspot.com.br/2013/02/fatos-do-espirito-humano_9.html). [N. do E.]



I

Todos sabem que esta obra, escrita por um homem afeito ao movimento da política e das letras europeias, constitui, ela só — tal é o nosso atraso —, toda a biblioteca filosófica do Brasil. 

Foi uma tentativa louvável do seu autor querer assim, em nome da civilização e do progresso, naturalizar entre nós a filosofia, conceder-lhe direito de cidade; porquanto não havia, antes dele, como não há ainda a par dele, obra digna de atenção.

Discípulo de Mont’Alverne, o célebre orador sagrado que, porém, nada deixou capaz de justificar perante a posteridade exigente, o seu tradicional orgulho de filósofo, o Sr. Magalhães teve a honra, como ele mesmo no-lo diz, de ouvir as lições do melancólico e profundo Jouffroy. Ora, nesta altura, é consequente que o nosso autor se tivesse acomodado às doutrinas então reinantes em Paris.

E vemos com efeito que a sua obra reproduz mais ou menos fielmente todas as vistas críticas e teóricas da escola eclética. Em uma série de quinze capítulos que equivalem a lições, o autor teve a pretensão de expor e desenvolver as magnas questões da ciência.

Não escondemos que pareceu em quase todos os pontos querer investigar a verdade. Mas deixou-se também levar pelo pedantismo comum, pela presunção geral de que se pode facilmente engendrar teorias e dá-las por novas, quando muitas vezes são velhas como a mesma filosofia.

Sem atender ao pequeno círculo que se quis traçar para a exposição de suas ideias, ele defeituou-se consumindo uma boa parte em historiar e criticar doutrinas já usadas. Tâche facile après tout, diz um escritor moderno a propósito de coisa análoga, si l’on veut bien considérer jusq’à quel point l’historien est porté et soutenu par les idées de tant d’hommes de génie.

Não é que nós desamemos a história e a crítica não; mas julgamos que quando um sistema está mais que muito refutado por mestres e sobretudo pelo olvido do século que o não aceita, é uma quase ímpia além de ridícula vaidade vir ainda arrancar do pobre cadáver um ou outro osso descarnado, com o fim de cravar-lhe o mesmo gume de análise, que já não acha o que corte, e à força de repetir-se tem-se tornado banal.

Sentimos ter aqui, mais ou menos, aberto o peito à investida de uma objeção. É que destarte parecemos lavrar sentença condenatória a todo estudo de filosofia antiga e moderna, cujas escolas já tenham sido uma vez discutidas e apreciadas; o que de fato seria sobremodo inadmissível.

Entendamo-nos e façamo-nos entender. Quando se trata de doutrinas como a de Platão e Aristóteles, por exemplo, se tendes força bastante para descobrir um novo ponto de vista em tais filósofos; se podeis separar-vos do modo comum de julgá-los, para esclarecê-los à luz de uma razão mais viva, nada então vos proíbe que comuniqueis ao juízo dos competentes a vossa descoberta. Do mesmo modo que na intuição psicológica, nós admitimos graus na intuição histórica. Isto quer dizer que assim como, pela própria meditação, pode-se juntar novas verdades à psicologia, oferecer-se podem também novos dados à história. Mas querer-se, com ares atléticos, recomeçar a peleja mil vezes pelejada contra Locke e Condillac, não podendo entretanto, no epitáfio de suas doutrinas, escrever uma qualidade de mais ou um defeito de mais, é o cúmulo da sensaboria. Sempre figurou-se-nos uma espécie de quixotismo a arrogância com que certos filósofos empreendem travar luta com a sombra de ilustres defuntos, cujas teorias em todo ou em parte morreram também, e aos quais, ipso facto, não é dado replicar. Há sistemas na verdade que sobrevivendo aos seus autores, passando de século em século, pela influência que ainda exercem, pelos prosélitos que contam, mostram-se dignos de sério exame; porém, neste caso, não se luta diretamente com eles, mas com os seus atuais sectários; e mesmo assim é mister trazer sempre alguma nova força ao combate.

O Sr. Magalhães, nos primeiros capítulos da sua obra, é uma repercussão, atenuada pelas distâncias de estilo e linguagem, das lições de V. Cousin, a quem digna-se muitas vezes de citar textualmente. E o que mais nos faz subir da admiração ao pasmo é ver que o ilustre autor, para quem a Europa científica devera ser bem conhecida, mostrou-se no seu livro o mais alheio que é possível ao estado atual da filosofia. Note-se que a obra foi publicada em 1858; em uma época justamente de transições e revoluções filosóficas na França e na Alemanha. Tudo, porém, o Sr. Magalhães parece ter ignorado. Se falou em Kant, não foi porque o conhecesse diretamente pelo estudo e meditação de suas obras, mas foi tendo ante os olhos a fotografia do filósofo tirada por Cousin.

Os grandes descendentes de Kant, os triúnviros da moderna filosofia alemã, Fichte, Schelling e Hegel, não lhe mereceram um cêntimo de atenção. Jouffroy, o sério e meditativo Jouffroy, o lúcido professor que o Sr. Magalhães diz ter ouvido com respeito, esse Hamlet da filosofia, como por alguém já foi chamado, não lhe valeu também uns momentos de apreciação, uma página de análise.

Era, entretanto, pondo em relevo as verdades e os erros desses nobres espíritos que se acham, por suas teorias, à frente dos lidadores do século; era, dizemos nós, mostrando-se ao mesmo tempo familiar e independente para com eles que o Sr. Magalhães pudera nos deixar melhor ver a sua fisionomia de filósofo.

Descartes, Leibniz, Malebranche, com quem o nosso autor gastou o seu tempo, estavam por demais já conhecidos. Por que razão o filósofo brasileiro não quis inscrever-se na defesa ou no combate dos grandes assuntos da ciência hodierna, que se discutiam ao tempo da publicação do seu livro?

O positivismo na Europa se exprimia por órgãos tais como Littré e Stuart Mill. O hegelianismo era atacado por muitos, sustentado e professado por Vera. Na Itália, onde o nosso filósofo estivera como encarregado de negócios, fulguravam os grandes nomes de Gioberti e de Rosmini. No mundo filosófico fazia-se ouvir o embate das mais fortes discussões movidas pelos mais robustos combatentes. E no entanto o Sr. Magalhães nada ouviu! Não se pode, não se deve desculpar ao ilustre filósofo-poeta-diplomata semelhante indiferença; tanto mais quanto ele, deixando o que melhor importava, ocupou-se muito de refutar o refutado, usando de velhos e debilíssimos argumentos.


II

Foi assim que, lendo com atenção os Fatos do espírito humano, encontramos, no cap. VIII, a exposição de uma doutrina digna de ser examinada. É a sustentação da antiga tese que tira a sensibilidade da alma espiritual para atribuí-la a um princípio diverso. Esta doutrina, que recebeu o nome de duodinamismo, entra no número das que têm muitas vezes ocupado os psicólogos.

Para a solução do grande problema da união e distinção da alma e do corpo, cada filósofo inventou a sua hipótese, e as coisas chegaram ao ponto de se desdobrarem em sistemas diversos que deixamos de referir, para não magoar o ouvido do leitor com uma série de nomes acabados em ismo, desinência fastidiosa que, como é sabido, causava suspeitas a Metternich; e ele tinha razão.

Basta-nos dizer que o Sr. Magalhães pertence à classe dos que consideram a vida não como efeito da alma, nem como efeito do corpo, mas como uma força distinta, à qual ele atribui a sensibilidade.

No capítulo a que nos referimos, o autor começa por determinar a fonte das sensações e estabelecer uma certa ordem hierárquica dos sentidos. Convém citá-lo, para melhor entendê-lo:

“É incontestável [...] que todas as sensações estão a priori na faculdade de sentir, como no germe preexiste o tipo do seu futuro indivíduo ou como estava a Ilíada na mente de Homero, antes de produzi-la; e só carecem de um estímulo para manifestar-se”.

Vê-se por estas palavras que, meio vacilante em sua teoria, ele faz da sensibilidade alguma coisa de substancial, como é o germe; ao passo que também por um desses rasgos de prosaica imaginação que nem esclarecem nem embelecem faz da mente de Homero, que era sem dúvida uma faculdade, o termo comparativo de outra faculdade. 

Obscurum per obscurius.

Quem não sabe como as sensações existem na faculdade de sentir não sabe, tampouco, o modo por que as concepções estão na faculdade de conceber, as produções na de produzir, etc. Filosofar é explicar, e tais comparações nada explicam.

Não queremos obrigar o leitor a seguir-nos em minúcias psicológicas, mas pedimos um reforço de atenção, a fim de melhor fazer-se compreender o que vamos expor.

Disse o nosso filósofo que as sensações preexistentes na faculdade de sentir só carecem de um estímulo para manifestar-se.

Esqueceu-se de que em sua teoria a sensibilidade é uma propriedade vital, e neste caso, como todas as propriedades análogas, não necessitaria de outro estímulo, para atualizar-se, que não o seu próprio desenvolvimento natural.

Com efeito, se o princípio vital é que organiza o corpo, como o autor admite, pois que o organismo conserva-se e desenvolve-se por meio de funções, é claro que estas são dirigidas ou presididas, se não exercidas pelo mesmo princípio. Ora, basta notar que as funções da vida vegetativa são contínuas; a continuidade é sua condição normal, sob pena de produzir-se o desarranjo na economia e dar lugar à doença e à morte; os diversos aparelhos que lhes são destinados existem em um labor incessante. Uma vez começadas, tais funções não carecem de estímulo, salvo no estado mórbido.

Nem se objete a intermitência de certos fatos da vida, que se dão com mais ou menos intervalos. Pois que eles se repetem, há continuidade na mesma repetição.

As propriedades que os fisiologistas dão aos nervos, aos tecidos, etc., não existem, jamais, em estado de indeterminação e mera possibilidade. Não há justeza em dizer que os nervos têm uma contractilidade possível, quando eles têm-na real e atual em qualquer momento da existência. E é esta mesma continuidade dos atos que constitui a vida, é esta mesma indistinção do fenômeno e da propriedade que faz a inconsciência das operações vitais.

Não assim porém, o que diz respeito às operações do espírito; o fenômeno se distingue da propriedade, o ato da possibilidade; e a consciência é justamente marcada pela passagem da propriedade ao fenômeno, da possibilidade ao ato.

Se a uma ideia não sucedesse outra ideia, a um juízo outro juízo; se, em uma palavra, a qualquer fato espiritual não sucedesse um outro fato, a continuidade de uma mesma ideia, ou juízo, ou ato livre, obumbraria a consciência e acabaria por apagá-la de todo. Verifica-se pela experiência. Quando engolfamo-nos na obscuridade de um problema, depois de alguns instantes de meditação, parece que perdemos o sentimento de nós mesmos, e chegamos a um estado em que o nosso espírito não se distingue do objeto que ele estuda. É daí que vem talvez o caráter melancólico e sombrio dos homens meditativos; é por isso que se procuram distrações para as pessoas preocupadas de alguma ideia fatal; como também é provável que nesta mesma lei psicológica se fundem as tendências que em geral os pensadores têm para a loucura.

O homem não só sente como é capaz de sentir.

Nós sabemos que os nervos são capazes de se contrair, porque eles se contraem e enquanto se contraem; mas seria falso dizer igualmente que sabemos que somos capazes de sentir, porque sentimos e enquanto sentimos. Aquele que ao aspecto de um mimoso fruto dirige-se para colhê-lo e saboreá-lo não tem menor confiança no prazer que vai gozar do que terá no prazer gozado. Acontece que em tais casos a imaginação é uma espécie de precursora que se antecipa em começar o gozo mais cedo do que ele realmente começa. E muitas vezes há mais delícia neste intervalo que a imaginação preenche do que nos instantes de fruição atual.

Destarte se mostra que nós temos consciência da sensibilidade não só em ato, mas também em poder, e como a consciência só dá conta das faculdades espirituais, a sensibilidade é uma delas; e não podemos atribuí-las à força vital, se esta não é a mesma alma.

Convém observar que falamos sob o ponto de vista do espiritualismo, empregando propositalmente os dados do método psicológico, para servir-nos das próprias armas do nosso autor, sem que entretanto queiramos fazer profissão de espiritualista sectário dessa filosofia francesa, que o hegeliano Vera designou justamente pelo nome de filosofia popular.

Mas continuemos a expor a doutrina do filósofo que é sumamente curiosa.

Entrando em uma apreciação dos sentidos, ele dá o primeiro lugar ao ouvido, como o mais importante para a inteligência pura.

Fora bom que nos dissesse a tempo o que entendia por inteligência pura para não correr o risco ou de não ser compreendido — o que ser-lhe-ia melhor — ou de parecer disparatado e confuso.

Se a inteligência pura é aos olhos do autor a faculdade de conhecer sem mistura de elementos estranhos, como a razão pura de Kant, sua tese é insustentável, pois que essa faculdade, assim considerada, dispõe de elementos a priori, que não são dados por nenhum sentido; e deste modo o ouvido não é mais nem menos importante.

Se referiu-se à mesma faculdade de conhecer, embora acompanhada de outros dados, nesse grau característico e distintivo do homem, não sabemos ainda que possa justificar-se. É verdade que pelo ouvido, como diz, adquirimos a linguagem articulada; mas não deverá aí esquecer de que há concorrência de benefícios do ouvido e do órgão da palavra; além de que ele não serve somente à inteligência pura, pois que é também um veículo da educação de certos animais, como os papagaios que imitam palavras, os cães que obedecem a um grito, que compreendem um silvo.

Se o Sr. Magalhães se limitasse a dizer que o ouvido é o órgão eminentemente social, que nos põe em mais íntima relação uns com os outros, nada se lhe poderia opor. Mas, fundando-se em aparências, apagar os limites naturais traçados a todos os sentidos e proclamar um deles o predileto da inteligência é não conhecer o jogo recíproco das faculdades, é escrever sem pensar. Os encantos da música mesma não se podem dizer do domínio exclusivo do ouvido; muito menos os da poesia e da eloquência que, se tiram algum valor da harmonia e cadência das frases, quase todo mérito lhes é dado pelo fundo das ideias. A música essencialmente vaga e indefinida dirige-se ao sentimento que nada representa distinto de si mesmo; portanto, o órgão que lhe serve não é o mais importante para a inteligência.

“Mais vezes nos rimos e choramos pelo que ouvimos, do que pelo que vemos.”

O bom senso é bastante para fazer a esta asserção as reservas que a experiência aconselha. O ouvido por si mesmo, reduzido ao seu ofício, é incapaz de tanto. Quando um acontecimento narrado por outrem nos causa o riso ou as lágrimas, este efeito é tanto maior quanto mais viva é a imaginação de quem ouve; a qual representa e exterioriza os seus objetos, sempre sob formas visíveis, isto é, sob a alçada do órgão da vista. Descrevei a um cego de nascença todas as belezas e variados mimos de um sítio pinturesco; lede-lhe uma página épica ou histórica de vivas e brilhantes enargias; e o vosso ouvinte, com mil ouvidos que tivesse, não poderia sentir a menor emoção, porque também não teríeis podido fazê-lo imaginar, sob o esquema de uma visão, as lindas coisas descritas. Isto é concludente contra a preeminência indébita que se quer conferir àquele sentido.

Pela teoria do Sr. Magalhães, não é preciso assistir às representações cômicas; o vizinho que lá foi contar-nos-á todos os lances de espírito, e nós rir-nos-emos à farta; bem como os apreciadores de sereno que rodeiam os teatros líricos em noite de espetáculo compreendem melhor todo o alcance do ouvido e, limitando-se a escutar, são mais psicológicos do que os tolos que pagam para ouvir e ver.

“[...] jamais um quadro, um monumento nos causará tanta emoção e abalo como uma tragédia ou uma comédia.”

Estas palavras revelam um esquecimento completo das condições e limites de todas as artes. Há assuntos que só o pincel embelece, pela facilidade com que pode exprimir simultaneamente muitas circunstâncias diversas quando a beleza certamente resulta desse mesmo agrupamento; ao passo que a poesia, tragédia ou comédia, seria ineficaz por estar sujeita às sucessões da linguagem. Um quadro de tal natureza sempre nos causará maior impressão do que uma cena dramática sobre o mesmo objeto. Os grandes poetas modernos compreenderam esta verdade quando baniram as longas tiradas de poesia descritiva que matam de fastio.

Mas a questão não reside toda aqui. Convinha mostrar, por exemplo, como seria verdade que uma tragédia de Shakespeare devesse mais abalar a Milton cego, do que um quadro de Rafael a Beethoven surdo.

Nós temos no próprio Sr. Magalhães uma refutação de sua psicologia.

O ilustre brasileiro achou em presença dos Alpes, ao aspecto de Roma, nas catedrais da Itália, mais comoções e arroubos do que poderia encontrar em todos os teatros da Europa. Aí estão os seus Suspiros poéticos. Não há um só canto de algum valor que tenha sido inspirado por impressões auditivas.

O notável espanhol Jacques Balmès, que em sua Filosofia fundamental fez uma análise detalhada de todas as sensações, deu também maior importância ao ouvido, mas somente em comparação ao tato.

Vejamos as suas palavras, que se podem ler no livro 2.º, cap. XI, tomo I, da tradução francesa:

“De combien d’objets l’ouïe nous donne connaissance qui sont en dehors des appreciation du toucher! Le galop du cheval qui fond sur nous, le bruit du torrent qui menace de nous engloutir, le tonnerre qui gronde et nous annonce la tourmente, la détonation du salpêtre, la foudre des batailles, le bruit des rues dans les cités populeuses, les cris de la foule, le son du tambour, les glas du tocsin qui sont comme les voix de la fureur populaire, les chants de victoire, les accords qui réveillent de mélancoliques souvenirs, jusqu’au soupir, jusqu’au sanglot qui trahit la souffrance, voilá ce que nous dit l’ouïe; le tact est muet sur toutes ces choses.

Não há quem deixe de admitir esta opinião do filósofo, pondo em relevo as vantagens de um sobre outro sentido, que lhe é de fato inferior.

Mas deste valor relativo ao valor absoluto que lhe dá o Sr. Magalhães, o salto é tão enorme que toma as proporções do disparate.

Lendo-se a argumentação de Balmès e a do autor dos Fatos do espírito humano tira-se, além de outros, um grande proveito: é saber marcar a distância que vai de um filósofo a um diletante.

Continua o Sr. Magalhães nos encômios calorosos ao seu órgão querido, por uma série de argumentos que quando não provam menos, provam mais do que pretendem. Porquanto, se o ouvido tem a magna elevação que se lhe atribui, se é o órgão da inteligência pura, se por ele gozamos do que nenhum outro sentido poderia dar-nos, se ele enfim é digno do grande hino que se lhe tece, desconfiamos que tal soma de méritos não vá desbaratar a tese principal do autor. Dado, pois, que a sensibilidade não seja uma faculdade da alma, como é que um dos seus modos só se presta ao que é puramente da mesma alma pensante, e não concorre em nada com a força vital, a que pertence, para o vasto trabalho da organização do corpo? É uma inconsequência que deverá ser prevenida.

Importa ainda insistir que a predileção do nosso filósofo é contrária aos ensinos da experiência. O ouvido, como meio de conhecimento, favorece a instrução ligeira e superficial; serve porém de embaraço às altas meditações. A solidão anima o estudo, pelo silêncio, e tão somente pelo silêncio, que as solidões escuras não agradam ao pensador. As preleções orais dos maiores mestres nunca puderam fazer os grandes homens; estes se elevam pelos próprios trabalhos de leitura e cogitação. As doutrinas que se entornam pelo ouvido necessitam sempre de um pouco de fé. Fides ex auditu. A teoria do Sr. Magalhães é a face psicológica do tradicionalismo.

Passando à apreciação da vista, comete ainda, a par de algumas verdades sabidas, alguns erros devidos à sua falta de senso psicológico, pela qual engendra muitas vezes induções improváveis. Não sabemos por que deixou de enumerar também com cuidado os muitos méritos desse órgão que mais do que o ouvido auxilia o estudo das ciências. Assim convinha para sair-se bem.

Ei-lo que diz em seguida:

“O olfato é o sentido da vida, e melhor que todos nos revela a existência de uma força vital, que organiza o corpo”.

É admirável! A força vital do nosso filósofo merece mais que uma simples menção da ciência: merece cantos da poesia, já que é uma espécie de fada, silfo ou gnomo que se alimenta de aromas. O achado é imenso.

Rodeemo-nos de flores, banhemo-nos em perfume, que teremos quase segura a imortalidade.

Nós deixamos aos competentes o cuidado de apreciar as regras de clínica traçadas pelo Sr. Magalhães para se curarem as doenças pelo cheiro.

A seu ver, o paladar está para o organismo como o olfato está para a força vital. E assim diz que ele fiscaliza, naturalmente sob a inspeção do olfato, as qualidades de que necessita a vida para renovar continuamente o seu corpo. Esqueceu-se porém de que entre essas substâncias, que mantém a vida, ocupa um dos primeiros lugares a água, que entretanto não tem sabor nem cheiro; e vem destarte perturbar, sobretudo, a sua teoria do olfato.

Além disto, o paladar não exerce unicamente, exclusivamente, o papel que o nosso filósofo lhe confere: ele presta alguns serviços à observação científica. Temos pejo de lembrar ao ilustre pensador que a química recorre também ao paladar para a apreciação dos ácidos e outros compostos.

O Sr. Magalhães ainda erra quando diz que a sensação principal do tato é a resistência que faz supor a impenetrabilidade. A resistência é um fenômeno relativo à ação que nós exercemos sobre os corpos, e o primeiro que nos resiste é o nosso próprio corpo, sem que haja modificação tátil. Daí a célebre teoria de Maine de Biran sobre o esforço; teoria incompleta, é verdade, mas que o filósofo deverá ter em vista, para não cair em velhos erros.

A pobreza da linguagem, como é costume dizer-se, nos faz dar um mesmo nome a coisas distintas. Assim, por tato se entende não só o sentido pelo qual conhecemos algumas das propriedades dos corpos tangíveis, mas também aquele pelo qual conhecemos a presença de certos agentes. Deste sentido que nos dá o conhecimento da temperatura do nosso corpo e do meio ambiente, é erro dizer que a resistência é a sensação principal, pois que no calor ou no frio não se sente coisa alguma resistir a uma ação nossa. Em uma palavra, sem esforço muscular não há resistência, cujos modos constituem a dureza, a tenacidade e o peso dos corpos.

Assim porém considerado, o tato supõe o exercício da faculdade motriz ou motricidade, que apesar de já ter sido classificada como faculdade especial por fisiólogos e até por filósofos anteriores, entre os quais Adolfo Garnier, o Sr. Magalhães parece repreendê-los por uma lacuna que não existe, como o ar de um novo astrônomo que admirado perguntasse por que não se considera o Sol o centro de nosso sistema planetário!...

Mas infelizmente a razão alegada pelo autor prova o contrário do que ele quer; porquanto se hoje é sabido que há nervos especiais para o movimento, longo tempo confundido com a sensibilidade, qualquer criança concluiria que por isso mesmo a motricidade não pertence à ordem dos fenômenos sensíveis, não é um sentido. E ainda adiante o filósofo se destrói, dizendo que “este sentido [...] liga todos os outros sentidos, e os subordina à vontade”. Logo, é uma faculdade sempre ativa, não forma um sexto com os cinco sentidos distintos; não sendo ela mesma, porém sendo por meio dela que a vontade subordina-os.

Acresce que a descoberta fisiológica de nervos motrizes e nervos sensitivos, referida pelo filósofo, não está muito de acordo com a sua doutrina das sensações, que para ele são modos diversos da sensibilidade, ocasionados pelos movimentos dos respectivos nervos.

É inútil, com efeito, aquela diferença, visto que todos os nervos se movem. Se, pois, a sensação é por esses movimentos ocasionada no princípio ou força vital, onde se dá o fenômeno sensível, para que admitir nervos de sensibilidade, distinção que não deve ter valor na teoria do Sr. Magalhães? São confusões indignas de um pensador.

Prosseguindo, encontramos as seguintes palavras:

“Se a sensibilidade estivesse na alma inteligente e livre, de cada vez que ela se lembrasse de uma sensação a sentiria de novo, como de cada vez que se lembra de uma concepção a concebe de novo”.

Eis aqui um daqueles argumentos que se devem perseguir com apupos, como um parasita e como um inimigo, segundo diz Taine. Não viu o nosso autor a futilidade dessa razão que, a ser justa, levaria a tirar-se também da alma inteligente a própria vontade, pois que de cada vez que nos lembramos de uma volição, não queremos de novo? O arrependimento, por exemplo, implica memória de um ato livremente praticado e a vontade de não mais praticá-lo. Admira como coisas tão simples e triviais escaparam à perspicácia do profundo analista.

Insistente na sustentação de sua tese, chega a se exprimir nestes termos:

“Infelizmente em favor do que digo não posso citar a opinião de nenhum filósofo antigo ou moderno; todos de comum acordo atribuem à alma a sensibilidade”.

O filósofo aqui revela uma ingenuidade infantil. Julga-se sozinho para resolver uma questão que não foi resolvida, nem ao menos agitada, diz ele, em nenhuma época da filosofia.

Entretanto, sem remontar à Antiguidade, é notícia vulgar que modernos psicólogos atribuíram a sensibilidade a um princípio diverso da alma, anteriormente ao Sr. Magalhães.

Para sossegar neste ponto as inquietudes do nosso autor, basta referir-nos a um filósofo francês, F. Bouillier, no seu livro intitulado Du principe vital et de l’âme pensant, cap. XIX. p. 295, fazendo a história do duodinamismo contemporâneo, guiado pela tradução de Chancelle, assim se exprime:

“Citons aussi parmi les duodynamistes les plus décidés M. de Magalhaens, philosophe portugais (e esta?!) qui s’est inspiré, à ce qu’il semble, à la fois de M. Ahrens et M. Lordat”.

Seguem-se as palavras de Sr. Magalhães sobre a existência de uma força imaterial que organiza o corpo. Mais adiante acrescenta: “A cette force, comme M. Ahrens, il attribue la sensibilité”.

Note-se que Bouillier é adverso a esta doutrina; não foi, pois, para autorizar, mas simplesmente para historiar que ele fez a citação.

Como é que o Sr. Magalhães assevera que está sem a proteção dos filósofos? Ora, venham cá dizer-nos se não temos razão de considerá-lo, em matéria filosófica, um perfeito diletante.

Todos os argumentos em apoio de sua doutrina são incapazes de gerar a convicção.

A sensibilidade é incontestavelmente uma faculdade da alma pensante, pois assim o requerem a unidade da consciência e a harmonia total da vida do homem. O nosso escritor devera antever e prevenir o transbordamento de absurdos que a sua teoria produz na ordem moral.

De onde vem a virtude de certos atos que custam dores, se a sensação não é psíquica, se estas dores não são da alma?

Cévola deixa queimar a própria mão; é um ato de galhardia feroz, de romanas virtudes; mas onde está aí a magnanimidade, se o princípio que se determinou a queimar não é o mesmo que sentiu o estrago do fogo?

A consciência moral que aprecia os diversos motivos de ação, para julgar com acerto, deve conhecê-los todos em sua natureza, a fim de poder assim preferir uns aos outros. Se na consciência não entra o prazer mesmo, mas apenas a sua noção, como quer o nosso autor, em que se funda a distinção moral do prazer e do dever, bem como a distinção psicológica de prazeres e dores?

Em suma, se o princípio que pensa não é o mesmo que sente; já que a promessa de uma felicidade futura para o espírito está na razão dos árduos triunfos e dolorosas vitórias que ele adquire sobre si mesmo, pelo vigor da vontade, árduos triunfos e dolorosas vitórias, que somente o são para a sensibilidade; já que esta pertence à força vital, a quem não se promete um destino ulterior, podemos dizer desta mesma força o que Byron disse do seu chorado cão: “Nega-se-lhe no céu uma alma que ele teve na terra”.

E no momento de separar-se do seu ingrato irmão, o espírito inteligente, que vai ser grande à sua custa, o princípio da vida poderia dizer com Virgílio: “Hos ego versiculos feci tulit alter honoris”.

O espiritualismo excessivo do Sr. Magalhães e dos que o antecederam nessa doutrina compromete-se a si mesmo.

Um dos grandes defeitos da psicologia, ensinado pela filosofia popular da França, é que, dando muitas vezes como fatos de consciência incontestáveis coisas mais que muito duvidosas, eleva-se a induções forçadas, tira argumentos gerais de exceções ou de experiências que nada autorizam, poetiza, declama e afinal constitui uma ciência imaginária. Tal defeito caracteriza a obra do nosso filósofo.

É para desejar que ele fazendo novas excursões na história e na consciência nos legue teorias mais perfeitas.

Por maior que seja o renome do ilustre brasileiro, nós entendemos que se não pode negar o direito de estudar, nas próprias fontes, os motivos desse renome. Nem todos têm a coragem do Sr. Cônego Pinheiro, para quem Os Mistérios do Sr. Magalhães são preferíveis às Contemplações de Victor Hugo!


Estas coisas, que não é raro ver na crítica literária, são indesculpáveis e deponentes na crítica filosófica.

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