sábado, 9 de fevereiro de 2013

Sobre a filosofia do insconsciente


Tobias Barreto 

Texto de 1874, cuja referência é a obra Philosophie des Unbewussten (1869), de K. R. Eduard von Hartmann. Versão atual baseada na edição de Paulo Mercadante e Antônio Paim (BARRETO, Tobias. Estudos de filosofia. In: Obras completas. Rio de Janeiro: Record/INL, 1990, pp. 180-183).

Nota ao fim do texto.


Não posso pressupor que meus leitores tenham conhecimento de Eduard von Hartmann. Se outras figuras mais acessíveis aos nossos meios de observação, se estrelas menos longínquas vão sendo continuamente despercebidas, como imaginar que o autor de A filosofia do inconsciente esteja ao alcance, já não digo do público em geral, porém dos próprios literatos da terra? Mencionar que Hartmann é um célebre filósofo alemão dos nossos dias, ainda moço e esperançoso, seria dizer nada; e, não obstante, já era um grande serviço prestado a muitos professores de filosofia, que todos desconhecem-no, e poderiam tomá-lo, salvo maior dislate, por algum filósofo inglês do século passado.

Posto que pareça, não exagero, não altero, nem numa vírgula, a objetividade dos fatos. Na verdade, que é a filosofia entre nós? Simplesmente o nome de um preparatório, que a lei diz ser preciso para se fazer o curso de certos estudos superiores. Fora disto, ninguém há que se interesse, que tome ao sério qualquer esforço de aplicação e cultura filosófica. O ensino dessa disciplina, público ou particular, é uma coisa mísera, e frívola em sua miséria. Um exemplo basta para confirmá-lo; mas este é decisivo: por que título se distingue o lente de filosofia do Colégio Pedro II? Sob que forma já se manifestou a sua ciência? Quem sabe como ele pensa? Indubitavelmente estas perguntas e suas respostas põem a descoberto, de modo irremediável, uma das faces negras do nosso estado de mendicidade espiritual.

Mas vamos ao assunto, do qual me desviei por amor de um rápido lance de olhos sobre defeitos pátrios. Minha cantiga velha, que nunca esqueço, que sempre me apraz entoar. Dir-se-ia que todos os meus escritos têm uma introdução obrigada: fazer sensível, deixar pintado nas quatro paredes do nosso isolamento, com cores cada vez mais vivas, o papel triste que representamos, pelo lado literário em presença do mundo civilizado. O Brasil padece de uma espécie de prisão de cérebro: tem peçonha no miolo. É preciso sujeitar-se à dolorosa operação da crítica de si mesmo, do despego, do desdém, e até do asco de si mesmo, a fim de conseguir uma cura radical.

A filosofia de Eduard von Hartmann é uma evolução do schopenhauerismo. Eu sei que, me exprimindo assim, corro o risco de não ser compreendido. Quem ignora a existência do fruto, por que meios saberia da existência da árvore que o produz? Mas não há remédio; é preciso ir adiante, sem embargo destas pequenas dificuldades.

Foi lendo uma vez a Introdução à filosofia de Hegel, do italiano Vera, que eu tive o primeiro encontro com o nome do filósofo Arthur Schopenhauer. Ainda hoje sinto o mau efeito da impressão então recebida. Foi uma impressão cômica, provocada pela habilidade, que distingue o fanático hegeliano em prender sempre uma tira de ridículo na casaca dos seus adversários. Reconheço a injustiça com que ele tratou Schopenhauer; e, todavia, não sei que motivo oculto ainda que me afugenta de travar mais íntimas relações com o famoso “Buda da Alemanha”, como o chama Johannes Sherr. Tal o ressábio que me ficou da primeira bebida.

A teoria desse pensador entra na série do desenvolvimento kantesco. Bem como Fries, bem como Herbart, bem como quase todos os filósofos alemães posteriores ao grande gênio de Koenigsberg, Schopenhauer não tinha a pretensão de ser um adversário, mas o verdadeiro intérprete e continuador da filosofia de Kant. Este fenômeno, assinalado por Kuno Fischer, entre os discípulos do velho crítico da razão, é digno de nota, e torna compreensível o juízo de Hermann Hettner, fazendo aplicação de um dito a respeito de Lessing: voltar a Kant é progredir.

Não é aqui o lugar de expor ao público nem mesmo um pequeno quadro da filosofia de Schopenhauer. Para formar-se uma ideia de sua metafísica, e ocorrer destarte às exigências do momento, algumas palavras bastam.

Sob a expressão vontade ele subsumiu a natureza inteira. Atração mecânica, afinidade química, impulso orgânico, a tudo isto, sem distinção, o filósofo intitula vontade de viver. Objetam porém que à semelhança de Hegel, em cujo sistema a ideia tem uma significação estranha, fora do modo de pensar comum, Schopenhauer desnorteou o conceito da vontade, prestando-lhe um sentido anômalo e um alcance exagerado. Julgo entretanto fútil esta objeção, porque repousa sobre um equívoco, e importa um raciocínio que tem o defeito de provar demais. Inquestionavelmente; querendo-se cotejar pelo dicionário a compreensão das palavras, nos diversos sistemas filosóficos, não são somente Hegel e Schopenhauer que se deixam convencer de violência feita à linguagem usual. Neste século, com exceção do pobre espiritualismo francês, todos os grandes filósofos, mais ou menos, se têm afastado do trilho vulgar, em semelhante ponto. Se na doutrina do autor de Die Welt als Wille und Vorstellung a vontade representa um papel novo e inteiramente oposto à intuição dominante, não há razão para muito espanto, desde que se mostram algures vários outros termos e conceitos, cujo valor ordinário a filosofia altera, quando de todo não acaba e destrói. A Vontade de Schopenhauer não é decerto aquela a que estamos habituados, já pelo uso da língua, já pelo ensino da velha psicologia. Mas também o Deus, a alma, o espírito, de que nos falam outros filósofos, tidos em conta de mais sensatos, serão os mesmos que se acham no catecismo, e existem no dicionário? Repito, pois, que a objeção pretendida é uma futilidade.

Afirmei que von Hartmann provinha de Schopenhauer. Sem o deste realmente mal se concebe o sistema daquele. Todavia, seria errôneo supor que entre von Hartmann e o seu antecedente histórico somente dá-se a proporção comum entre discípulo e mestre. É uma descendência filosófica, onde se pede notar alguma coisa de análogo à descendência darwínica do cisne, por exemplo, que saiu do ganso. O schopenhauerismo é uma metafísica da vontade, a quem exclusivamente o filósofo confere o primado universal. Como porém na natureza a vontade opera de uma maneira cega, isto é, sem consciência, e a ideia não aparece para conhecer a sua imbecilidade, senão muito depois, imaginou von Hartmann fazer do inconsciente o objeto de uma filosofia. E com efeito ergueu sobre este plano um verdadeiro monumento do gênero.

Entretanto, o que nos deve mais interessar não é o lado puramente especulativo do sistema, porém aquele que se aproxima da vida e do destino humano, o seu lado prático, se assim podemos dizer; numa palavra, é o pessimismo do filósofo em relação ao que ele mesmo chama a irracionalidade da vontade e a miséria da existência.

Ao invés de alguns críticos de Hartmann, para os quais a sua intuição pessimística é o que há de mais estranho e inteiramente rejeitável na grande obra citada, eu penso que essa parte é justamente a que encerra a maior porção de verdades, cruéis e amargas, sem dúvida, porém sempre verdades. Bem fundada me parece, neste sentido, a opinião de Haeckel, que por sua vez adota a de um certo crítico anônimo d’A filosofia do inconsciente; como todo, como sistema metafísico, o trabalho de Hartmann não se sustenta em frente de uma análise rigorosa. Há completa desarmonia de vistas e desproporção entre as partes; o que aliás não obsta que a obra esteja saturada de germes de pensamentos naturalisticamente preciosos e ricos de consequências. Para mim, porém, o que há de incontestável a tal respeito é que o pessimismo do célebre militar filósofo não encontra como tem encontrado tão renhida oposição senão porque ele desfaz as nossas mais caras ilusões, inclusive as doçuras do amor e o próprio encanto da ciência e da virtude. Assim é só por este lado que considero o lado brilhante do hartmannismo que tenho que explanar-me em algumas páginas de estudo e meditação...* 

Nota 
[*] Vale a observação de Mercadante e Paim: “Ao divulgar o presente estudo, Sílvio Romero acrescentou-lhe a seguinte nota: ‘A promessa não foi cumprida. Nem a vida de Tobias Barreto deixou de ser cheia de penúrias e agitações de toda ordem, que lhe deixassem o lazer preciso à conclusão de todos os seus trabalhos, à realização de todos os seus planos. Releva também ponderar que, quando foi este pequeno artigo escrito, ainda Schopenhauer e Hartmann não estavam traduzidos em francês, nem tinham ainda sido citados no Brasil e Portugal’”.

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