quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Sermão XXVII (da série Maria, Rosa Mística) - Liberdade e Escravidão

Padre Antônio Vieira

Iosias autem genuit Iechoniam et fratres eius in transmigratione Babylonis. Et post transmigrationem Babylonis, Iechonias genuit Salathihel. Mt. 1, 11-12.



"O domínio de um homem sobre outro homem só pode ser no corpo, e não na alma […] A liberdade é um estado de isenção que, uma vez perdido, nunca mais se recupera; quem foi cativo uma vez, sempre ficou cativo, porque ou o libertam do cativeiro ou não: se o não libertam, continua a ser cativo do tirano; se o libertam, passa a ser cativo do libertador." Padre Antônio Vieira


I
Uma das grandes coisas que se vê hoje no mundo, e nós pelo costume de cada dia não admiramos, é a transmigração imensa de gentes e nações etíopes que da África continuamente estão passando a esta América. A armada de Enéias, disse o príncipe dos poetas, que levava Troia à Itália — Illium in Italiam portans [1] —, e das naus que dos portos do Mar Atlântico estão sucessivamente entrando nestes nossos, com maior razão podemos dizer que trazem a Etiópia ao Brasil. Entra por esta barra um cardume monstruoso de baleias, salvando com tiros e fumos de água as nossas fortalezas, e cada uma pare um baleato: entra uma nau de Angola e desova no mesmo dia quinhentos, seiscentos, e talvez mil escravos. Os israelitas atravessaram o Mar Vermelho e passaram da África à Ásia, fugindo do cativeiro: estes atravessam o mar oceano na sua maior largura e passam da mesma África à América, para viver e morrer cativos. Infelix genus homimum (disse bem deles Mafeu) et ad servitutem natum [2]. Os outros nascem para viver, estes para servir. Nas outras terras, do que aram os homens, e do que fiam e tecem as mulheres, se fazem os comércios: naquela o que geram os pais, e o que criam a seus peitos as mães, é o que se vende e se compra. Oh trato desumano, em que a mercancia são homens! Oh mercancia diabólica, em que os interesses se tiram das almas alheias, e os riscos são das próprias!

Já se depois de chegados olharmos para estes miseráveis, e para os que se chamam seus senhores, o que se viu nos dois estados de Jó é o que aqui representa a fortuna, pondo juntas a felicidade e a miséria no mesmo teatro. Os senhores poucos, os escravos muitos: os senhores rompendo galas; os escravos despidos, e nus; os senhores banqueteando, os escravos perecendo à fome; os senhores nadando em ouro e prata; os escravos carregados de ferros; os senhores tratando-os como brutos, os escravos adorando-os, e temendo-os, como deuses; os senhores em pé apontando para o açoite, como estátuas da soberba e da tirania; os escravos prostrados com as mãos atadas atrás como imagens vilíssimas da servidão, e espetáculos da extrema miséria. Oh Deus! Quantas graças devemos à fé que nos destes, porque ela só nos cativa o entendimento para que à vista destas desigualdades reconheçamos contudo vossa justiça e providência. Estes homens não são filhos do mesmo Adão e da mesma Eva? Estas almas não foram resgatadas com o sangue do mesmo Cristo? Estes corpos não nascem e morrem como os nossos? Não respiram com o mesmo ar? Não os cobre o mesmo céu? Não os aquenta o mesmo Sol? Que estrela é logo aquela que os domina tão triste, tão inimiga, tão cruel?

E se as influências da sua estrela são tão contrárias e nocivas, como se não comunicam ao menos aos trabalhos de suas mãos, e como maldição de Adão às terras que cultivam? Quem pudera cuidar que as plantas regadas com tanto sangue inocente houvessem de medrar, nem crescer, e não produzir senão espinhos e abrolhos? Mas são tão copiosas as bênçãos de doçura que sobre elas derrama o céu; que as mesmas plantas são o fruto, e o fruto tão precioso, abundante e suave, que ele só carrega grandes frotas, ele enriquece de tesouros o Brasil e enche de delícias o mundo. Algum grande mistério se encerra logo nesta transmigração, e mais se notarmos ser tão singularmente favorecida e assistida de Deus, que não havendo em todo o oceano navegação sem perigo e contrariedade de ventos, só a que tira de suas pátrias a estas gentes, e as traz ao exercício do cativeiro, é sempre com vento à popa e sem mudar vela.

Estas são as considerações, que eu faço, e era bem que fizessem todos sobre os juízos ocultos desta tão notável transmigração e seus efeitos. Não há escravo no Brasil, e mais quando vejo os mais miseráveis, que não seja matéria para mim de uma profunda meditação. Comparo o presente com o futuro, o tempo com a eternidade, o que vejo com o que creio, e não o posso entender que Deus, que criou estes homens tanto à sua imagem e semelhança, como os demais, os predestinasse para dois infernos, um nesta vida, outro na outra. Mas quando hoje os vejo tão devotos e festivais diante dos altares da Senhora do Rosário, todos irmãos entre si como filhos da mesma Senhora, já me persuado, sem dúvida, que o cativeiro da primeira transmigração é ordenado por sua misericórdia para a liberdade da segunda.

De duas transmigrações faz menção o nosso Evangelho: uma, em que foram levados os filhos de Israel da sua pátria para o cativeiro de Babilônia — In transmigratione Babylonis (Mt. 1, 11) —, e outra em que foram trazidos do cativeiro de Babilônia para a sua pátria — Et post transmigrationem Babylonis (Mt. 1, 12). A primeira transmigração, e do cativeiro, durou setenta anos; a segunda, e da liberdade, não teve fim porque chegou até Cristo. E como ordenou Deus a primeira transmigração para a segunda? Assim como ordenou que de Josias nascesse Jeconias — Iosias autem genuit Iechoniam, et fratres eius (Mt. 1, 11). Em todo este Evangelho, quando ele historialmente diz que um patriarca gerou outro patriarca, quer dizer no sentido místico que da significação do nome de pai nasceu a significação do nome do filho. Baste por exemplo o primeiro, que se nomeia no mesmo Evangelho, que é Davi. Davi, diz a série das mesmas gerações, que gerou a Salomão — David autem rex genuit Salomonem (Mt. 1, 6). E que quer dizer que Davi gerou a Salomão? Davi significa o guerreiro, Salomão significa o pacífico, e nascer Salomão de Davi, quer dizer que da guerra havia de nascer a paz, e assim foi. Do mesmo modo diz o Evangelho que Josias gerou a Jeconias no cativeiro de Babilônia — Iosias autem genuit Iechoniam in transmigratione Babylonis. Saibamos agora qual é a significação destes dois nomes, Josias do pai, e Jeconias do filho. Josias significa ignis Domini, o fogo de Deus; Jeconias significa praeparatio Domini, a preparação de Deus. Diz pois o texto, ou quer dizer, que na transmigração de Babilônia o fogo de Deus gerou a preparação de Deus. Por quê? Porque o fogo queima e alumia, e no cativeiro de Babilônia não só queimou Deus e castigou os Israelitas, mas também os alumiou; e porque os castigou e alumiou no cativeiro da primeira transmigração — In transmigratione Babylonis —, por isso, e com isso, os dispôs e preparou para a liberdade da segunda — Et post transmigrationem Babylonis.

Eis aqui, Irmãos do Rosário Pretos (que só em vós se verificam estas significações), eis aqui o vosso presente estado, e a esperança que ele vos dá do futuro: Iosias autem genuit Iechoniam et fratres eius. Vós sois os irmãos da preparação de Deus e os filhos do fogo de Deus. Filhos do fogo de Deus na transmigração presente do cativeiro porque o fogo de Deus neste estado vos imprimiu a marca de cativos, e posto que esta seja de opressão, também como fogo vos alumiou juntamente porque vos trouxe à luz da fé e conhecimento dos mistérios de Cristo, que são os que professais no Rosário. Mas neste mesmo estado da primeira transmigração, que é a do cativeiro temporal, vos estão Deus e sua Santíssima Mãe dispondo e preparando para a segunda transmissão, que é a da liberdade eterna. Isto é o que vos hei de pregar hoje para vossa consolação. E reduzido a poucas palavras será este o meu assunto: que a vossa Irmandade da Senhora do Rosário vos promete a todos uma carta de alforria com que não só gozeis a liberdade eterna na segunda transmigração da outra vida, mas também vos livreis nesta do maior cativeiro da primeira. Em lugar das alvíssaras que vos devera pedir por esta boa nova, vos peço me ajudeis a alcançar a graça com que vos possa persuadir a verdade dela. Ave Maria, etc.

II

Enquanto desterrados filhos de Eva, todos temos, ou nos espera, uma universal transmigração, que é de Babilônia para Jerusalém, e do desterro deste mundo para a pátria do céu. Vós, porém, que viestes ou fostes trazidos das vossas pátrias para estes desterros, além da segunda e universal transmigração, tendes outra, que é a de Babilônia, em que mais ou menos moderada continuais o vosso cativeiro. E para que saibais como vos deveis portar nele, e não sejais vós mesmos os que o acrescenteis, vos quero, primeiro que tudo, explicar qual ele é e em que consiste. Procurarei que seja com tal clareza que todos me entendais. Mas quando assim não suceda (porque a matéria pede maior capacidade da que podeis ter todos) ao menos, como dizia Santo Agostinho na vossa África, contentar-me-ei que me entendam vossos senhores, e senhoras, para que eles mais devagar vos ensinem o que a vós, e também a eles, muito importa saber.

Sabei pois, todos os que sois chamados escravos, que não é escravo tudo o que sois. Todo o homem é composto de corpo e alma, mas o que é e se chama escravo não é todo o homem, senão só a metade dele. Até os gentios, que tinham pouco conhecimento das almas, conheceram esta verdade e fizeram esta distinção. Homero, referido por Clemente Alexandrino, diz assim: Altitonans Jupiter viro, quem alii servire necesse est, aufert dimidium [3]. Quer dizer que aqueles homens, a quem Júpiter fez escravos, os partiu pelo meio e não lhes deixou mais que uma metade que fosse sua, porque a outra metade é do senhor, a quem servem. E qual é esta metade escrava, e que tem senhor ao qual é obrigada a servir? Não há dúvida que é a metade mais vil, o corpo. Excelentemente Sêneca: Errat, si quis existimat servi tutem in totum hominem descenderes: pars melior ejus excepta est [4]. Quem cuida que o que se chama escravo é o homem todo, erra, e não sabe o que diz: a melhor parte do homem, que é a alma, é isenta de todo o domínio alheio, e não pode ser cativa. O corpo, e somente o corpo, sim: Corpus itaque est, quod domino fortuna tradidit. Hoc emit, hoc vendit: interior illa pars mancipio dari non potest. Só o corpo do escravo (diz o grande filósofo) é o que deu a fortuna ao senhor: este comprou, e este é o que pode vender. E nota sapientissimamente que o domínio que tem sobre o corpo não lho deu a natureza, senão a fortuna — Quod domino fortuna tradidit —, porque a natureza, como Mãe, desde o rei ao escravo, a todos fez iguais, a todos livres. Falando S. Paulo dos escravos, e com escravos, diz que obedeçam aos senhores carnais: Obedite dominis carnalibus (Ef. 6, 5). E que senhores carnais são estes? Todos os intérpretes declaram que são os senhores temporais como os vossos, aos quais servis por todo o tempo da vida; e chama-lhes o apóstolo senhores carnais porque o escravo, como qualquer outro homem, é composto de carne e espírito, e o domínio do senhor sobre o escravo só tem jurisdição sobre a carne, que é o corpo, e não se estende ao espírito, que é a alma.

Esta é a razão por que os escravos entre os gregos se chamavam corpos. Assim o refere Santo Epifânio, e que o uso comum de falar entre eles era, não que tal ou tal senhor tinha tantos escravos, senão que tinha tantos corpos. O mesmo diz Sêneca que se usava entre os romanos. E é erudição que ele ensina a seu discípulo Lucílio, porque ainda que a notícia dos vocábulos é de todos, saber a origem deles é só dos que sabem as coisas, e mais as causas: Quando quidem dominium corporibus dominatui, et non animis, propterea servos corpora vocaverunt, ut usum corporum ostenderent [5]: “Sabes, Lucílio, por que os nossos maiores chamaram aos escravos corpos? Porque o domínio de um homem sobre outro homem só pode ser no corpo, e não na alma.” Mas não é necessário ir tão longe como a Roma e à Grécia. Pergunto: neste vosso mesmo Brasil, quando quereis dizer que fulano tem muitos ou poucos escravos, por que dizeis que tem tantas ou tantas peças? Porque os primeiros, que lhe puseram este nome, quiseram significar sábia, e cristãmente, que a sujeição que o escravo tem ao senhor, e o domínio que o senhor tem sobre o escravo, só consiste no corpo. Os homens não são feitos de uma só peça, como os anjos e os brutos. Os anjos e os brutos (para que nos expliquemos assim) são inteiriços: o anjo, porque todo é espírito; o bruto, porque todo é corpo. O homem não. É feito de duas peças, alma e corpo. E porque o senhor do escravo só é senhor de uma destas peças, e a capaz de domínio, que é o corpo, por isso chamais aos vossos escravos, peças. E se esta derivação vos não contenta, digamos que chamais peças aos vossos escravos, assim como dizemos, uma peça de ouro, uma peça de prata, uma peça de seda, ou de qualquer outra coisa das que não têm alma. E por este modo ainda fica mais claramente provado que o nome de peça não compreende a alma do escravo, e somente se entende, e se estende, a significar o corpo. Este é o que só se cativa, este o que só se compra e vende; este o que só tem debaixo de sua jurisdição a fortuna, e este enfim o que levou de Jerusalém à Babilônia a transmigração dos filhos de Israel, e este o que traz da Etiópia ao Brasil a transmigração dos que aqui se chamam escravos e aqui continuam seu cativeiro.

III

De maneira, irmãos pretos, que o cativeiro que padeceis, por mais duro e áspero que seja, ou vos pareça, não é cativeiro total, ou de tudo o que sois, senão meio cativeiro. Sois cativos naquela metade exterior e mais vil de vós mesmos, que é o corpo; porém na outra metade interior e nobilíssima, que é a alma, principalmente no que a ela pertence, não sois cativos, mas livres. E suposto este primeiro ponto, segue-se agora que saibais o segundo, e muito mais importante, e que eu vos declare se essa parte ou metade livre, que é a alma, pode também por algum modo ser cativa, e quem a pode cativar. Digo pois, que também a vossa alma, como as dos mais, pode ser cativa, e quem a pode cativar não são vossos senhores, nem o mesmo rei, nem outro algum poder humano, senão vós mesmos, e por vossa livre vontade. Ditosos de vós, aqueles que de tal modo se compuseram com a sorte do seu meio cativeiro, que se sirvam da sua própria servidão, e se saibam aproveitar do que nela, e com ela podem merecer! Mas o mal, e a miséria, que totalmente vos fará miseráveis, é que fazendo-vos a vossa fortuna cativos só no corpo, vós muito por vossa vontade cativeis também a alma. Dois casos notáveis se viram na transmigração de Babilônia. Houve uns daqueles cativos e desterrados, que tendo licença e liberdade para tornar para a pátria, quiseram antes ficar no seu cativeiro; e houve outros, e quase todos, que sendo aquele cativeiro só do corpo, eles se não contentaram com ser meios cativos, mas para o ser inteira e totalmente, cativaram também as almas. Com grande fundamento se pode pôr em questão se para a natureza humana se sujeitar, e precipitar os vícios, é maior tentação a liberdade ou o cativeiro? O certo é que nesta mesma ocasião mostrou por experiência o cativeiro, não só ter maiores forças para tentar, senão também para vencer. Porque entre todos os cativos, que foram muitos mil, só um Tobias se achou que não cativasse a sua alma. Assim o diz e celebra dele por grande maravilha a Escritura Sagrada: In captivitate tamen positus, viam veritatis non deseruit [6]. Tão ordinária, e universal miséria é, que os meio cativos não sejam só cativos de meias, senão totalmente, e em uma e outra metade cativos: cativos no corpo, e cativos juntamente na alma.

E se me perguntardes, como deveis perguntar, de que modo se cativam as almas: quem são os que as vendem, e a quem as vendem, e por que preço? Respondo, que os que as vendem, é cada um a sua; a quem as vendem, é ao demônio; o preço por que as vendem, é o pecado. E porque a alma é invisível, e o demônio também invisível, e estas vendas não se veem; para que não cuideis, que são encarecimentos, e modos de falar, senão verdades de fé, sabei, que assim está definido por Deus, e repetido muitas vezes em todas as escrituras sagradas. S. Paulo, aquele grande apóstolo que foi levado em vida ao céu, e depois tornou do céu à terra para ensinar aos homens o que lá vira e aprendera, falando desta venda da alma, diz assim: Lex spirituales est. Ego autem carnalis sum, venundatus sub peccato [7]. Sabeis, diz S. Paulo, como os homens vendem a sua alma? Ouvi-me com atenção, eu vo-lo direi: Lex spiritualis est — a lei é espiritual — Ego autem carnalis sum: e o homem é carnal. A lei é espiritual porque ordena o que convém ao espírito, e à alma; o homem é carnal porque naturalmente apetece o que pede a carne, e o corpo. Da parte da lei está Deus mandando que seja obedecido, e prometendo que aos que a guardarem dará depois o céu; da parte da carne está o demônio aconselhando, que se não guarde a lei, e prometendo ao homem que logo, e de contado, lhe dará o gosto, ou interesse, que pede o seu apetite. Posta pois a alma, como em leilão, entre Deus e o demônio, entre a lei e o pecado, que faz a vontade e o livre alvedrio, que é o senhor de todas as nossas ações e resoluções? Em vez de receber o lanço de Deus, aceita o do demônio, e tanto que consentiu no pecado, ficou a alma cativa, e rematada a venda: Venundatus sub peccato. É o que diz Santo Agostinho na exposição deste mesmo Texto: Unusquisque peccando, animam suam Diabolo vendit, accepta, tanquam pretio, dulcedine temporalis voluptatis [8]. A primeira venda, e o primeiro leilão de almas, que se fez neste mundo, foi no paraíso terreal. De uma parte estava Deus, mandando que se não comesse da fruta vedada; da outra parte estava a serpente instigando que se comesse. E que sucedeu? Eva, que representava a carne, inclinou à parte do demônio; e porque Adão, que fazia as partes do alvedrio, em vez de obedecer o preceito de Deus, seguiu o apetite da carne, ali ficaram vendidas ao demônio as duas primeiras almas, e dali trouxe sua origem a venda das demais.

Dizei-me, brancos e pretos, não condenamos todos a Adão e Eva? Não conhecemos que foram ignorantes, e mais que ignorantes; loucos, e mais que loucos; cegos, e mais que cegos? Não somos nós os mesmos, que lhes lançamos pragas e maldições pelo que fizeram? Pois por que fazemos o mesmo, e vendemos as nossas almas, como eles as venderam? Ouçam primeiro os brancos um exemplo, em que vejam a sua deformidade, e logo mostraremos outro aos pretos, e que vejam a sua. De el-rei Acab afirma a História Sagrada que foi o mais mau rei que houve entre todos os de Israel, porque pecando, e para pecar, se vendeu: Non fuit alter talis sicut Achab, qui venundatus est, ut faceret malum [9]. O mesmo lhe disse o profeta Elias na cara. Perguntou-lhe o rei: Num invenisti me inimicum tibi? (3 Rs. 21, 20) — “Porventura, Elias, achaste em mim alguma coisa, pela qual tenhas para ti, que sou teu inimigo?” — “Sim, achei”, respondeu o profeta, “porque achei que és tal que te vendes para ofender a Deus”: Inveni, eo quod venundatus sis, ut faceres malum in conspectu Domini (ibidem). Não se queixou Elias das ofensas que lhe tinha feito Acab, mas das que fazia contra Deus; nem se queixou de não ser o rei amigo do seu profeta, senão de que sendo rei, se vendia, e fazia escravo: Eo quod venundatus sis, ut faceres malum.

E que males e pecados eram aqueles em que Acab se vendia? Dois principalmente refere a escritura: um geral, com que obrigava os súditos a que adoras sem os ídolos de ouro de Jeroboão, proibindo que não fossem ao templo do verdadeiro Deus; e outro particular, em que naquela ocasião tinha consentido que falsamente fosse condenado à morte Nabot, para lhe confiscar e tomar a sua vinha. Vede se é bom exemplo este para os régulos do nosso recôncavo. É possível que por acrescentar mais uma braça de terra ao canavial, e meia tarefa mais ao engenho em cada semana haveis de vender a vossa alma ao diabo? Mas a vossa, já que o é, vendei-lha ou revendei-lha embora. Porém as dos vossos escravos, por que lhas haveis de vender também, antepondo a sua salvação aos ídolos de ouro, que são os vossos malditos e sempre malogrados interesses? Por isso os vossos escravos não têm doutrina, por isso vivem e morrem sem sacramentos, e por isso, se lhes não proibis a Igreja, com sutileza de cobiça que só podia inventar o diabo — para que o diga na frase do vulgo — não quereis que vão à porta da Igreja. Consentis que os escravos e escravas andem em pecado, e não lhes permitis que se casem, por que dizeis que casados servem menos bem. Oh! razão — quando assim fora — tão digna do vosso entendimento como da vossa cristandade! Prevaleça o meu serviço ao serviço de Deus, e contanto que os meus escravos me sirvam melhor, vivam e morram em serviço do diabo. Espero eu no mesmo Deus, que terá misericórdia da sua miséria e das suas almas; mas das vossas almas, e desta vossa, que também é miséria, não tenho em que fundar tão boas esperanças.

Passemos ao exemplo mais próprio dos escravos, os quais por nenhum respeito devem vender a sua alma, ainda que lhes houvesse de custar a vida. Depois que el-rei Antíoco, por sobrenome o Ilustre, saindo da Grécia com poderoso exército, dominou a Jerusalém, e com ela a todas as relíquias que tinham escapado da transmigração de Babilônia — que nem sempre os homens levam consigo o cativeiro aos desterros, mas talvez o mesmo cativeiro os vem buscar à sua casa — mandou o bárbaro e insolente rei que em toda Judeia se não guardasse a lei de Deus, senão somente as suas, e que os deuses, a quem se oferecessem os sacrifícios, fossem os da gentilidade, que ele adorava [10]. Que vos parece que fariam em um tão apertado caso os miseráveis cativos? Mal fiz em lhes chamar miseráveis indistintamente. Uns foram miseráveis, fracos e vis, outros fortes, constantes e gloriosos. Os miseráveis, fracos e vis, diz o texto, que por ganhar a graça dos senhores obedeceram, e, fazendo-se gentios, venderam as suas almas: Et juncti sunt nationibus, et venundati sunt ut facerent malum [11]; pelo contrário, os fortes, constantes e gloriosos, por não venderem as almas, perderam animosamente as vidas, que da graça dos senhores nenhum caso fizeram. Bem se viu aqui que os corpos somente são os cativos, as almas não. Eram os senhores tão tiranos, que lhes cortavam os dedos das mãos e dos pés, que lhes atrancavam os olhos e as línguas, que os frigiam e torravam vivos em sertãs ardentes, e com outros esquisitos tormentos lhes tiravam as inocentes vidas, mas eles antes queriam padecer e morrer, que vender as almas. Julgai agora vós, que vos achais na mesma fortuna de escravos, quais destes obraram melhor: se os que venderam as almas para agradar aos senhores, ou os que quiseram antes perder a vida que cativar a alma? Não estais dizendo todos, que o valor e constância destes é digna de eternos louvores? Sim. Pois a estes vos digo que imiteis. Por graça e mercê grande de Deus, ainda que escravos e cativos, não estais em terra onde vossos senhores vos hajam de obrigar a deixar a fé. Mas é certo que, sem se perder nem arriscar a fé, se pode perder e vender a alma. E no tal caso — que pode acontecer muitas vezes — tende bem na memória o exemplo que acabastes de ouvir, para que não falteis à vossa obrigação. Se o senhor mandasse ao escravo, ou quisesse da escrava, coisa que ofenda gravemente a alma e a consciência, assim como ele o não pode querer nem mandar, assim o escravo é obrigado a não obedecer. Dizei constantemente que não haveis de ofender a Deus, e se por isso vos ameaçarem e castigarem, sofrei animosa e cristãmente, ainda que seja por toda a vida, que esses castigos são martírios.

IV

Temos visto que, assim como o homem se compõe de duas partes, ou de duas metades, que são corpo e alma, assim o cativeiro se divide em dois cativeiro: um cativeiro do corpo, em que os corpos involuntariamente são cativos e escravos dos homens, outro cativeiro da alma, em que as almas por própria vontade se vendem e se fazem cativas e escravas do demônio. E porque vos prometi que a Virgem, Senhora nossa do Rosário, vos há de libertar, ou forrar como dizeis, do maior cativeiro, para que conheçais bem quanto deveis estimar esta alforria, importa que saibais e entendais primeiro qual destes dois cativeiros é o maior. A alma é melhor que o corpo, o demônio é pior senhor que o homem, por mais tirano que seja; o cativeiro dos homens é temporal, o do demônio eterno; logo, nenhum entendimento pode haver, tão rude e tão cego, que não conheça que o maior e pior cativeiro é o da alma. Mas como a alma, o demônio e este mesmo cativeiro, como já disse, são coisas que se não veem com os olhos, onde acharei eu um meio proporcionado à vossa capacidade, com que vos faça visível esta demonstração? Fundemo-la no mesmo cativeiro, que é a coisa para vós mais sensível. Pergunto: se Deus nesta mesma hora vos libertara a todos do cativeiro em que estais, e de repente vos vísseis todos livres e forros, não seria uma estranha e admirável mercê que Deus vos faria? Pois muito maior é, e de muito maior e mais subido valor, a mercê que a Senhora do Rosário vos fará em livrar vossas almas do cativeiro do demônio e do pecado. No nosso Evangelho o temos.

Faz repetida menção o Evangelho do cativeiro de Babilônia, e do cativeiro do Egito nenhuma memória faz. O cativeiro de Babilônia sucedeu no tempo de Jeconias, o do Egito no tempo de Judas; pois assim como diz o evangelista: Jechoniam, et fratres ejus in transmigratione Babylonis, por que não diz também: Judam, et fratres ejus in captivitate Aegypti [12]? O reparo e a resposta é de S. Crisóstomo, por estas palavras: Cur sicut captivitatis Babylonicae meminit, non autem desconsus in Aegyptum? Quia illuc non propter peccata abducti fuerant: huc vero oh scelera translati sunt [13]. No tempo dos mesmos patriarcas que se referem na genealogia de Cristo, sucedeu o cativeiro do Egito, e também o de Babilônia, e se quereis saber por que o evangelista, na mesma genealogia, faz menção do cativeiro de Babilônia, e passa em silêncio o cativeiro do Egito, a razão é, diz Crisóstomo, porque os do cativeiro de Babilônia foram lá levados por pecados, em castigo das grandes maldades que tinham cometido na sua pátria; porém, os do cativeiro do Egito não foram ao Egito por pecados, senão chamados por seu irmão José, e depois cativos pela tirania de faraó. E como o cativeiro do Egito foi só temporal e dos corpos, cativos não por pecados próprios, senão pela tirania alheia, e o cativeiro de Babilônia, pelo contrário, foi cativeiro espiritual e das almas, cujos pecados as tinham feito escravas do mesmo pecado e do demônio, por isso este só cativeiro se refere na genealogia de Cristo, o qual não veio libertar os homens do cativeiro temporal e do corpo, senão do espiritual e da alma. Excelentemente por certo assim ponderado como respondido.

E se buscarmos o princípio fundamental por que Cristo, sendo Redentor do gênero humano, só veio remir e libertar os homens do cativeiro das almas, e não da servidão dos corpos, o fundamento claro e manifesto é porque para libertar do cativeiro dos homens, bastavam homens; para libertar do cativeiro do demônio e do pecado, é necessário todo o poder de Deus. Estes mesmos filhos de Israel, de que falamos, foram muitas outras vezes cativos de diversas nações: cativos logo em seu nascimento dos egípcios; cativos depois dos mesopotâmios; cativos dos amonitas, cativos dos cananeus, cativos dos madianitas, cativos dos filisteus. E de todos estes cativeiros os livrou sempre Deus por meio de homens. Do cativeiro dos egípcios por Moisés; do cativeiro dos mesopotâmios por Otoniel; do cativeiro dos amonitas por Aod; do cativeiro dos cananeus por Barac; do cativeiro dos madianitas por Gedeão; do cativeiro dos filisteus por Jefté [14]. Assim que, para libertar do cativeiro de homens, bastam homens. E se me instardes que os cativos da transmigração de Babilônia não só eram cativos dos babilônios, senão também cativos do demônio e do pecado, como acabamos de ver, e que contudo os libertou um homem, que foi el-rei Ciro, agora entendereis o mistério, porventura até agora não entendido, das palavras de Isaías, falando deste mesmo cativeiro e desta mesma liberdade.

Vere tu es Deus absconditus, Deus Israel, salvator [15]: Verdadeiramente, ó rei Ciro, em ti está escondido Deus, e não só escondido como Deus, senão como salvador e libertador de Israel. Pois se Isaías fala da liberdade do cativeiro de Babilônia, e Ciro, como rei da mesma Babilônia, foi o que libertou aos filhos de Israel daquele cativeiro, por que diz que Deus, como libertador de Israel, estava escondido no mesmo Ciro? Porque no cativeiro de Babilônia havia juntamente dois cativeiros, pelos quais os mesmos filhos de Israel eram dobradamente escravos: um cativeiro temporal e dos corpos, pelo qual eram cativos de el-rei Ciro, e outro espiritual e das almas, pelo qual eram cativos do demônio e do pecado; do cativeiro dos corpos libertou-os o rei homem, que como homem bastava para os libertar, e como rei podia; do cativeiro do demônio e do pecado, como os não podia libertar nenhum homem, foi necessário que concorresse também Deus como libertador: Deus Israel, salvator por que só Deus os podia libertar daquele cativeiro. E por que acrescentou o profeta que Deus estava escondido em Ciro: Vere tu es Deus absconditus? Porque assim como um cativeiro era oculto, e o outro público, assim foram os dois libertadores, um público, outro escondido. O cativeiro dos corpos era público, e como público libertou Ciro os cativos publicamente; porém o cativeiro das almas e do demônio era oculto e invisível, e como oculto e invisível os libertou também Deus oculta e invisivelmente, e por isso escondido: fere tu es Deus absconditus, Deus Israel, salvator

Em suma, que é tal e tão imensamente maior que toda a infelicidade o cativeiro das almas escravas do demônio e do pecado, que só Deus por si mesmo as pode resgatar e libertar de tal cativeiro. E isto é, como dizem Santo Agostinho, S. Jerônimo, Santo Hilário e os mais Padres, o que Isaías quis ensinar historialmente no cativeiro de Babilônia, e profeticamente no de todo o gênero humano, resgatado e libertado, não por outrem, senão pelo mesmo Filho de Deus em pessoa, quando com o preço infinito de seu sangue nos remiu na cruz. Os discípulos de Emaús, e os outros mais rudes da escola de Cristo, cuidavam que a sua vinda ao mundo fora para libertar os filhos de Israel da sujeição e cativeiro dos romanos: Nos autem sperabamus quia ipse esset redempturus Israel [16] — mas por isso mereceram o nome de homens néscios, e de tardo e baixo coração: O stulti, et tardi corde [17]. Porventura, para libertar os filhos de Israel do jugo dos romanos, faltava-lhe a Deus uma vara de Moisés, uma queixada de Sansão, uma funda de Davi, uma espada do Macabeu? Mas estas armas e estes braços só bastam para libertar do cativeiro dos corpos; porém para o cativeiro das almas, e para as libertar do jugo do demônio e do pecado, só tem forças e poder o mesmo Deus, e esse com ambos os braços estendidos em uma cruz. Vede, vede bem, quanto vai de cativeiro a cativeiro, de resgate a resgate, e de preço a preço. Com admirável energia o ponderou S. Pedro, como se falara convosco, vendidos e comprados por dinheiro.

Scientes quod non corruptibilibus auro vel argento redempti estis, sed pretioso sanguine quasi agni immaculati Christi [18]. Exorta o apóstolo a todos a que tratem da salvação de suas almas e de as conservar em graça, e para isso diz que consideremos que não fomos resgatados com ouro, nem com prata, senão com o preço infinito do sangue do Filho de Deus. Nas quais palavras é muito digno de ponderar que não só nos manda S. Pedro considerar o preço por que fomos resgatados, senão também o preço por que não fomos resgatados. O preço por que não fomos resgatados, que é o ouro e a prata: Non corruptibilibus auro vel argento e o preço porque fomos resgatados, que é o sangue do Filho de Deus: Sed precioso sanguine quasi agni immaculati Christi. Pois se para tratarmos com todo o cuidado e vigilância da salvação de nossas almas, o único e maior motivo é a consideração de que Deus as resgatou com o sangue de seu próprio Filho, por que ajunta o apóstolo na mesma consideração o preço com que não foram resgatadas, que é o ouro e a prata? Porque o seu principal intento, nestes dois preços que nos manda considerar, foi para que da diferença dos resgates conhecêssemos a diferença dos cativeiros. Para resgatar do cativeiro do corpo, basta dar outro tanto ouro ou prata, quanto custou o escravo vendido. Mas para resgatar do cativeiro da alma, quanto ouro e prata será bastante? Bastará um milhão? Bastarão dois milhões? Bastará todo o ouro de Sofala, e toda a prata de Potosi? Oh! vileza e ignorância das apreensões humanas! Se todo o mar se convertera em prata, e toda a terra em ouro, se Deus criara outro mundo, e mil mundos de mais preciosa matéria que o ouro e mais subidos quilates que os diamantes, todo estes preço não seria bastante para libertar do cativeiro do demônio e do pecado uma só alma por um só momento. Por isso foi necessário que o Filho de Deus se fizesse homem, e morresse em uma cruz, para que com o preço infinito de seu sangue pudesse resgatar e resgatasse as almas do cativeiro do demônio e do pecado. E deste cativeiro tão dificultoso, e tão temeroso, e tão imenso é que eu vos prometo a carta de alforria pela devoção do Rosário da Mãe do mesmo Deus.

V

Para prova desta carta de alforria me perguntareis vós com razão, e também os que têm mais letras que vós, como pode isto ser? Respondo que pelo mesmo modo com que o Filho da mesma Senhora, Cristo, libertou do mesmo cativeiro do demônio e do pecado a todo o gênero humano. E se me instardes ainda que vos diga mais declaradamente qual é este modo, digo que não é dando a Senhora aos escravos a escritura da liberdade, senão tirando das mãos do demônio a escritura do cativeiro. Ouvi um texto tão grande como o mesmo assunto: Delens quod adversus nos erat chirographum decreti, quod erat contrarium nobis, et ipsum tulit de medio, affigens illud crusi: et expolians principatus, et potestates [19]. São palavras de S. Paulo, nas quais diz que quando Cristo morreu na cruz, despojou os demônios, tirando-lhes das mãos a escritura que tinham contra nós, e que depois de apagar quanto nela estava escrito, a afixou na mesma cruz. Agora resta saber que escritura era esta? E posto que os Santos Padres e intérpretes declaram variamente o literal dela, todos uniformemente vêm a dizer que era escritura de venda, pela qual o homem, pelo pecado, entrega a sua alma ao demônio e fica obrigado por ela às penas eternas que a justiça divina lhe tem decretadas. E assim como, paga a dívida, nenhuma força nem vigor tem já a escritura que o credor tinha em sua mão, assim Cristo, morrendo na cruz, com o mesmo sangue com que pagou a dívida do pecado, apagou juntamente a escritura, pela qual o homem tinha vendido a sua alma ao demônio e se tinha feito seu escravo: Delens quod adversus nos erat chirographum. De maneira que, para Cristo libertar o homem do cativeiro do demônio, não deu ao homem nova escritura de liberdade, mas tirou ao demônio a escritura de cativeiro, pela qual o mesmo homem se lhe tinha vendido. E isto é o que a Virgem, Senhora nossa, faz, como agora veremos.

Os pecados, pelos quais os homens se vendem ao demônio, como notou S. João, são três, em que se compreendem todos[20]: soberba, cobiça, sensualidade. E em todos três temos a prova das escrituras de cativeiro, que a Mãe de Deus, como seu Filho, tira das mãos do demônio, para pôr em liberdade os que lhe venderam as almas. É famoso e celebrado de todos os padres antigos o caso de um chamado Teófilo, o qual, vendo-se afrontado por um falso testemunho, e não achando meio lícito com que se restituir à opinião e honra perdida, por intervenção de um feiticeiro se valeu do demônio, e, depois de renegar de Deus e da Virgem Maria, lhe passou um escrito de sua letra e sinal, em que se lhe entregava por perpétuo escravo. Tanto pode com os soberbos a vã estimação da própria honra. Outro, que refere o beato Alano, vendo-se em grande miséria de pobreza, e não lhe aproveitando nenhuma indústria para ser rico, como insanamente desejava, recorreu também ao demônio, e depois da mesma cerimônia herética e blasfema, com que renunciou a Deus e a sua Mãe, lhe passou na mesma forma escrito de perpétua servidão. A que sacrilégios não precipita os ânimos mortais a execranda fome da cobiça? Finalmente outro, referido por Torselino, depois de empregar e empenhar sem efeito na conquista de uma mulher honesta e constante todos aqueles extremos de que se costuma servir em semelhante desatino a cegueira e loucura do amor profano, acudiu por último remédio, ou por último precipício, aos poderes do demônio, ao qual com as mesmas cláusulas do seu formulário infernal, se vendeu e cativou para sempre. Ainda fizera mais, se mais lhe pudera pedir um escravo de sensualidade.

Todos estes escravos do demônio, em confirmação do pacto com que se tinham vendido, conseguiram o que o mesmo demônio lhes prometera: o soberbo, o crédito perdido; o cobiçoso, a riqueza desejada; o sensual, a torpeza resistida. Mas, depois que o ardor do apetite esteve em todos satisfeito, e por isso já menos cego, que fariam as tristes almas, vendo-se vendidas? Maior era agora a força do arrependimento, do que tinha sido a fúria do mesmo apetite. E não se descuidando o demônio em mostrar a cada um a sua firma e o seu escrito, pouco faltou que daquele infelicíssimo estado não caíssem todos no último da desesperação. Recorrendo, porém, todos, por extraordinária luz e mercê do céu, ao único patrocínio da Mãe de misericórdia, com gemidos, lágrimas, penitências e contínuas orações, ainda assim era justo que achassem fechadas as portas da misericórdia em Deus, e na Mãe de Deus, os que tinham negado a ambos. Mas qual vos parece que seria o fim, não de um, senão de três casos tão dificultosos e horrendos? De dois ladrões na cruz, um se salvou para exemplo da misericórdia, e outro se condenou para exemplo da justiça. Porém onde entra vossa soberana mão, ó Virgem piedosíssima, não há essas exceções, nem piedade de meias. A todos três restituiu a poderosíssima Senhora as suas escrituras, tirando-as por força das mãos do demônio, e entregando-as outra vez aos mesmos que as tinham escrito, para que metessem e apagassem no fogo as letras com que eles se tinham condenado ao fogo que se não apaga. É o que fez Cristo na cruz: Delens quod adversus nos erat chirographum [21]. E é a proporção que achou entre Cristo e sua Mãe o antigo Geômetra, quando elegantemente chamou à mesma Senhora: Spongiam nequitiae nostrae adversus diaboli scripturam [22].

Este foi o modo com que a Virgem Senhora nossa, à imitação de seu Filho, não fazendo, senão desfazendo escrituras, deu carta de liberdade a estes três escravos do demônio. E eles, que fizeram? Todo o resto da vida empregaram em louvar e dar graças por tão singular e extraordinário benefício à soberana Autora dele. O escravo da cobiça, que foi em tempo de S. Domingos, rezava o Rosário; o escravo da soberba, que foi muito antes de haver Rosário, sem essa ordem, mas com perpétuas repetições, saudava a Senhora com a Ave-Maria; o escravo da sensualidade, que recebeu o seu escrito na mesma casa sagrada  hoje chamada do Loreto — onde o anjo começou a sua embaixada, dizendo: Ave Gratia plena, repetia o mesmo infinitas vezes. De sorte que todos três rezavam o Rosário, só com uma diferença: que no primeiro era o Rosário enfiado, nos outros desenfiado. E este exemplo devem tomar os pretos, para quando a força da ocupação ou do trabalho lhes não permitir enfiarem as suas Ave-Marias pela ordem dos mistérios, invocando, porém, sempre a mesma Senhora, para que os ajude no seu trabalho. E têm mais alguma coisa que imitar? Sim, e a maior. Pela carta de liberdade que receberam os três escravos do demônio, não se trataram como forros, senão como cativos de quem os libertou. Assim fizeram, e assim o deviam fazer, porque este é, não só o primor, senão a obrigação de todos aqueles a quem Deus livra do cativeiro do demônio e do pecado.

Quando Cristo morreu na cruz, já vimos como nela apagou as escrituras de todos os que em Adão e depois dele se tinham vendido ao demônio. Agora notai que depois de ressuscitado, quando subiu triunfante ao céu, ao modo dos triunfadores romanos, levou diante de si todos os que até então tinha tirado das masmorras do mesmo cativeiro. Assim o canta Davi, mas por termos em que, parece, nega o que celebra, e desdiz o que quer dizer. No texto da Vulgata diz que, quando Cristo subiu ao céu, cativou o cativeiro: Ascendisti in altum, cepisti captivitatem [23]; na versão de S. Paulo diz que levou os cativos: Ascendens in altum captivam duxit captivitatem [24]. Pois se o Senhor não levou no seu triunfo senão os que tinha libertado, e porque os tinha libertado eles foram todo o despojo das suas vitórias, e eles a maior pompa, ostentação e majestade do mesmo triunfo, como diz Davi que então cativou o cativeiro, e levou diante de si os cativos, não livres, senão cativos? Porque a mesma liberdade, com que Cristo os libertou, foi novo cativeiro, com que os tornou a cativar; e porque os levava libertados e livres, os levou novamente cativos. A liberdade é um estado de isenção que, uma vez perdido, nunca mais se recupera; quem foi cativo uma vez, sempre ficou cativo, porque ou o libertam do cativeiro ou não: se o não libertam, continua a ser cativo do tirano; se o libertam, passa a ser cativo do libertador. E isto é o que sucedeu a todos os que Cristo libertou na cruz, apagadas as escrituras do seu cativeiro. Antes da liberdade cativos, e depois da liberdade também cativos; antes da liberdade cativos do demônio, a quem se venderam, depois da liberdade cativos de Cristo, que os resgatou; antes da liberdade cativos do pecado, depois da liberdade cativos de Deus, como diz o apóstolo: Liberati a peccato, servi autem facti Deo [25]. 

Desta maneira se mostraram agradecidos à sua carta de alforria aqueles três cativos, cativando-se de novo e fazendo-se escravos da mesma Senhora que os libertara. E o mesmo devem fazer todos os que se acham ainda no cativeiro de Babilônia, e querem sair dele. Cativem-se para se libertarem, e façam-se escravos da Senhora do Rosário, para não serem escravos do demônio, se ainda o são, ou para se conservarem livres, se já estão fora do cativeiro. Apaguem a marca do demônio, que é marca de cativos, e ponham em seu lugar a marca do Rosário, que é marca de livres. E se quereis saber qual é a figura desta marca, digo que uma rosa. Conta-se no Segundo Livro dos Macabeus [26] que aos cativos de Jerusalém mandou o tirano marcar com uma folha de hera, para se professarem escravos do deus Baco, a quem era dedicada aquela planta. E que marca mais própria dos escravos do Rosário, que uma rosa, não só como ferrete glorioso do seu novo cativeiro, mas como público sinal e selo da sua carta de alforria? Os que sois, ou fostes marcados, trazeis uma marca no peito, outra no braço. Assim quer que tragais a sua marca a Senhora do Rosário: Pone me ut signaculum super cor tuum, ut signaculum super brachium tuum [27]. As voltas de contas que trazeis nos pulsos e ao pescoço — falo com as pretas — sejam todas das contas do Rosário. As do pescoço, caídas sobre os peitos, serão a marca do peito: Pone me ut signaculum super cor tuum; e as dos pulsos, como braceletes, serão a marca do braço: Ut signaculum super brachium tuum; e uma e outra marca, assim no coração como nas obras, serão um testemunho, e desengano público para todos, de que já estão livres vossas almas do cativeiro do demônio e do pecado, para nunca mais o servir: Et post transmigrationem Babylonis

VI

Livres por estes modo do maior e mais pesado cativeiro, que é o das almas, ainda ficais escravos do segundo, que é o dos corpos. Mas nem por isso deveis imaginar que é menos inteira a mercê que a Senhora do Rosário vos faz. Que seja poderosa a Senhora do Rosário para livrar do cativeiro do corpo se tem visto em inumeráveis exemplos dos que, estando cativos em terra de infiéis, por meio da devoção do Rosário se acharam livres, e depois de oferecerem aos altares da mesma Senhora os grilhões, e cadeias do seu cativeiro quebradas, como troféus do seu poder e misericórdia, as penduraram nos templos. Quando Deus desceu a libertar o seu povo do cativeiro do Egito, por que cuidais que apareceu a Moisés na sarças [28]? Porque a sarça, como dizem todos os santos, era figura da Virgem Senhora nossa, e quis Deus já então fazer manifesto ao mundo que a mesma Virgem Santíssima não só era o instrumento mais proporcionado e eficaz da divina onipotência, para libertar os homens do cativeiro das almas — que por isso a escolheu por Mãe, quando veio remir o gênero humano —, senão também para os libertar do cativeiro dos corpos, qual era aquele que padecia o povo no Egito debaixo do jugo de faraó. Assim que poderosa era a Mãe do Redentor para vos livrar também deste segundo e menor cativeiro. Mas é particular providência de Deus, e sua, que vivais de presente escravos e cativos, para que por meio do mesmo cativeiro temporal consigais muito facilmente a liberdade eterna.

Somos chegados à segunda parte da alforria, que vos prometi, e a um ponto no qual só vos falta o conhecimento e bom uso do vosso estado, para serdes nele os mais venturosos homens do mundo. Sobre esta matéria só vos hei de alegar com os dois príncipes dos apóstolos, S. Pedro e S. Paulo, os quais a trataram muito de propósito em vários lugares, falando com os escravos tão seriamente, como se falariam com os imperadores de Roma, e tão alta e profundamente, como se falaram com os sábios da Grécia. Para que não cuidem os que desprezam os escravos que estes assunto — e mais em terra onde há tantos — sejam menos digno de se empregarem nele com todas as forças de eloquência, e com toda a eficácia do espírito, os maiores pregadores do Evangelho. Fala pois o apóstolo S. Paulo com os escravos, e diz em dois lugares: Servi, obedite per omnia Dominis carnalibus, non ad oculum servientes, quasi hominibus placentes, sed in simplicitate cordis, timentes Deum. Quodcumque facitis, ex animo operamini sicut Domino, et non hominibus, scientes quod a Domino accipietis retributionem haereditatis. Domino Christo servite (Col. 3, 22 e seg.; Êx. 6, 5 e seg.). “Escravos”, diz S. Paulo, “obedecei em tudo a vossos senhores, não os servindo somente aos olhos, e quando eles vos veem, como quem serve a homens, mas muito de coração; e quando não sois vistos, como quem serve a Deus. Tudo o que fizerdes, não seja por força, senão por vontade, advertindo outra vez que servis a Deus, o qual vos há de pagar o vosso trabalho, fazendo-vos seus herdeiros. Enfim, servi a Cristo: Domino Christo servite”. 

Deixando esta última palavra para depois, só pondero agora aquelas: Scientes quod a Domino accipietis retributionem haereditatis. Duas coisas promete Deus aos escravos pelo serviço que fazem a seus senhores, ambas não só desusadas, mas inauditas, que são paga e herança: Retributionem haereditatis. Notai muito isto. Quando servis a vossos senhores, nem vós sois seus herdeiros, nem eles vos pagam o vosso trabalho. Não sois seus herdeiros porque a herança é dos filhos, e não dos escravos; e não vos pagam o vosso trabalho porque o escravo serve por obrigação, e não por estipêndio. Triste e miserável estado servir sem esperança de prêmio em toda a vida, e trabalhar sem esperança de descanso, senão na sepultura! Mas bom remédio, diz o apóstolo — e isto não são encarecimentos, senão fé católica. O remédio é que, quando servis a vossos senhores, não os sirvais como quem serve a homens, senão como quem serve a Deus: Sicut Domino, et non hominibus porque não servis como cativos, senão como livres; nem obedeceis como escravos, senão como filhos. Não servis como cativos, senão como livres, porque Deus vos há de pagar o vosso trabalho: Scientes quod accipietis retributionem; e não obedeceis como escravos, senão como filhos, porque Deus, com quem vos conformais nessa fortuna que ele vos deu, vos há de fazer seus herdeiros: Retributionem haereditatis. Dizei-me: se servísseis a vossos senhores por jornal, e se houvésseis de ser herdeiros da sua fazenda, não os serviríeis com grande vontade? Pois servi a esse mesmo que chamais senhor, servi a esse mesmo homem, como se servísseis a Deus, e nesse mesmo trabalho, que é forçoso, bastará a voluntária aplicação deste como: Sicut Domino: como a Deus — para que Deus vos pague como a livres; e vos faça herdeiros como a filhos: Scientes quod accipietis retributionem haereditatis

Isto diz S. Paulo. E S. Pedro, que diz? Ainda levanta e aperta mais o ponto. E depois de falar com os cristãos, de todos os estados em geral, se dilata mais com os escravos, e os anima a suportarem o da sua fortuna com toda esta majestade de razões: Servi, subditi estote in omni timore dominis, nos tantum bonis et modestis, sed etiam dyscolis (1 Pedr. 2, 18): Escravos, estais sujeitos e obedientes em tudo a vossos senhores, não só os bons e modestos, senão também maus e injustos. Esta é a suma do preceito e conselho que lhes dá o príncipe dos apóstolos, e logo ajunta as razões dignas de se darem aos mais nobres e generosos espíritos. Primeira: porque a glória da paciência é padecer sem culpa: Quae enim est gloria, si peccantes, et colaphizati suffertis [29]? Segunda: porque essa é a graça com que os homens se fazem mais aceitos a Deus: Sed si hene facientes patienter sustinetis, haec est gratia apud Deum [30]. Terceira, e verdadeiramente estupenda: porque nesse estado, em que Deus vos pôs, é a vossa vocação semelhante à de seu Filho, o qual padeceu por nós, deixando-vos o exemplo que haveis de imitar: In hoc enim vocati estis: quia et Christus passus est pro nobis, vobis relinquens exemplum ut sequamini vestigia ejus [31]. Justissimamente chamei a esta razão estupenda, porque quem haverá que não pasme à vista da baixeza dos sujeitos com quem fala S. Pedro, e da alteza da comparação altíssima a que os levanta? Não compara a vocação dos escravos a outro grau ou estado da Igreja, senão ao mesmo Cristo: In hoc enim vocati estis, quia et Christus passus est, Mais ainda. Não para aqui o apóstolo, mas acrescenta outra nova e maior prerrogativa dos escravos, declarando por quem padeceu Cristo, e para quê: Quia et Christus passus est pro nobis, vobis reliquens exemplum. Sempre reparei muito da diferença daquele nobis e daquele vobis. A Paixão de Cristo teve dois fins: o remédio e o exemplo. O remédio foi universal para todos nós: passus est pio nobis; mas o exemplo não duvida S. Pedro afirmar que foi particularmente para os escravos, com quem falava: vobis relinquens exemplum. E por quê? Porque nenhum estado há entre todos mais aparelhado no que naturalmente padece, para imitar a paciência de Cristo, e para seguir as pisadas do seu exemplo: Vobis relinquens exemplum, ut sequamini vestigia ejus

Oh! ditosos vós, outra e mil vezes, como dizia, se assim como Deus vos deu a graça do estado, vos der também o conhecimento e bom uso dele! Sabeis qual é o estado do vosso cativeiro, se usardes bem dos meios que ele traz consigo, sem acrescentardes nenhum outro? É um estado, não só de religião, mas uma das religiões mais austeras de toda a Igreja. É religião segundo o instituto apostólico e divino, porque se fazeis o que sois obrigados, não servis a homens, senão a Deus, e com título nomeadamente de servos de Cristo: Ut servi Christi, facientes voluntatem Dei ex animo, cum bona voluntate servientes, sicut Domino, et non hominibus [32]. Notai muito aquela palavra cum bona voluntate servientes. Se servis por força, e de má vontade, sois apóstatas da vossa religião; mas se servis com boa vontade, conformando a vossa com a divina, sois verdadeiros servos de Cristo: Domino Christo servite. Assim como na Igreja há duas religiões da redenção de cativos, assim a vossa é de cativos sem redenção, para que também lhe não faltasse a perpetuidade, que é a perfeição do estado. Umas religiões são de descalços, outras de calçados: a vossa é de descalços e despidos. O vosso hábito é da vossa mesma cor, porque não vos vestem as peles das ovelhas e camelos, como a Elias, mas aquelas com que vos cobriu ou descobriu a natureza, expostos aos calores do Sol e frios das chuvas. A vossa pobreza é mais pobre que a dos menores, e a vossa obediência mais sujeita que a dos que nós chamamos mínimos. As vossas abstinências mais merecem nome de fome, que de jejum, e as vossas vigílias não são de uma hora à meia-noite, mas de toda a noite sem meio. A vossa regra é uma, ou muitas, porque é a vontade e vontades de vossos senhores. Vós estais obrigados a eles, porque não podeis deixar o seu cativeiro, e eles não estão obrigados a vós, porque vos podem vender a outro quando quiserem. Em uma só religião se acha este contrato, para que também a vossa seja nisto singular. Nos nomes do vosso tratamento não falo, porque não são de reverência, nem de caridade, mas de desprezo e afronta. Enfim, toda a religião tem fim e vocação, e graça particular. A graça da vossa são açoites e castigos: Haec est gratia apud Deum [33]; a vocação é a imitação da paciência de Cristo: In hoc vocati estis, quia et Christus passus est [34]; e o fim é a herança eterna por prêmio: Scientes quod accipietis retributionem haereditatis. Domino Christo seivite [35]. E como o estado ou religião do vosso cativeiro, sem outras asperezas ou penitências mais que as que ele traz consigo, tem seguro, por promessa do mesmo Deus, não só o prêmio de bem-aventurados, senão também a herança de filhos, favor e providência muito particular é da Virgem Maria que vos conserveis no mesmo estado, e grandes merecimentos dele, para que por meio do cativeiro temporal consigais, como vos prometi, a liberdade ou alforria eterna.

VII

Crede, crede tudo o que vos tenho dito, que tudo, como já vos adverti, é de fé, e sobre esta fé levantai vossas esperanças, não só ao céu, senão ao que agora ouvireis que lá vos está aparelhado. Oh! que mudança de fortuna será então a vossa, e que pasmo e confusão para os que hoje têm tão pouca humanidade que a desprezam, e tão pouco entendimento que a não invejam! Dizei-me: se assim como vós nesta vida servis a vossos senhores, eles na outra vida vos houveram de servir a vós, não seria uma mudança muito notável, e uma glória para vós nunca imaginada? Pois sabei que não há de ser assim, porque seria muito pouco. Não vos diz Deus que quando servis a vossos senhores não sirvais como quem serve a homens, senão como quem serve a Deus: Sicut Domino, et non hominibus? Pois esta grande mudança de fortuna que digo não há de ser entre vós e eles, senão entre vós e Deus. Os que vos hão de servir no céu, não hão de ser vossos senhores, que muitos pode ser que não vão lá; mas quem vos há de servir é o mesmo Deus em pessoa. Deus é o que vos há de servir no céu, porque vós o serviste na terra. Ouvi agora com atenção.

Antigamente, entre os deuses dos gentios havia um que se chamava Saturno, o qual era deus dos escravos, e quando vinham as festas de Saturno, que por isso se chamavam saturnais, uma das solenidades era que os escravos naqueles dias eram os senhores que estavam assentados, e os senhores os escravos que os serviam em pé [36]. Mas acabada a festa, também se acabava a representação daquela comédia, e cada um ficava como dantes era. No céu não é assim, porque tudo lá é eterno, e as festas não têm fim. E quais serão no céu as festas dos escravos? Muito melhor que as saturnais, porque todos aqueles escravos, que neste mundo servirem a seus senhores como a Deus, não são os senhores da terra, os que os hão ele servir no céu, senão o mesmo Deus em pessoa o que os há de servir. Quem se atrevera a dizer nem imaginar tal coisa, se o mesmo Cristo o não dissera? Beati servi illi quos, cum venerit Dominas, invenerit vigilantes (Lc. 12, 37): Bem-aventurados aqueles escravos a quem o Senhor no fim da vida achar que foram vigilantes em fazer sua obrigação. E como lhes pagará o mesmo Senhor? Ele mesmo o diz e afirma com juramento: Amen dito vobis, quod praecinget se, et faciet illos discumbere, et transiens ministrabit illis (ibid.): Mandará assentar os escravos à mesa, e ele, como escravo, cingirá o avental e os servirá a ela. Por este excesso de honra declara Cristo quanto Deus há de honrar aos escravos no céu, se eles servirem a seus senhores como se servissem a Deus. Servistes a vossos senhores na terra como a mim? Pois eu que sou o Senhor de vossos senhores, vos servirei no céu como vós a eles. S. Pedro Crisólogo: En pavenda conversio servitutis: quia parumper servus astitit in Domini sui expectatione succinctus: et cui ut talionem redderet, dissimulat se in ipsa divinitate divinitas [37]: Oh! mudança de servidão — diz Crisólogo — não só admirável e estupenda, mas tremenda! Que, porque o escravo serviu e esperou a Deus um pouco de tempo, se dissimule a divindade dentro em si mesma, e o mesmo Deus no céu sirva ao escravo! E isto faz Deus — diz elegante e discretamente o Santo — porque assim como na terra há lei de talião para os delitos, assim no céu tem Deus lei de talião para os prêmios: Ut talionem redderet.

Mas por que não pareça que excede os termos da rigorosa teologia, dizer que servirá Deus como escravo no céu aos escravos que serviram a Deus na terra, ouvi ao príncipe dos teólogos, Santo Tomás, sobre este mesmo texto do Evangelho: Deus omnipotens sanctis omnibus in tantum se subjicit, quasi sit servus emptitius singulorum, quilibet vero ipsorum sit Deus suus [38]: O Deus onipotente de tal maneira se sujeita a todos os que santamente o serviram, como se Deus fora escravo comprado de cada um, e cada um dos que assim o serviram fora Deus do mesmo Deus. Vede, vede se vos está melhor servir a vossos senhores como a Deus, ou servi-los como a homens. Depois de os servirdes toda a vida como a homens, o mais que podeis esperar deles na terra é uma esteira de tábua por mortalha; e se os servirdes como a Deus, o que haveis de alcançar dele no céu é que vos servirá e honrará por toda a eternidade, como se vós, aqui miserável escravo, fôsseis seu Deus, e ele vosso escravo comprado: Quasi sit servus emptitius singulorum, quilibet vero ipsorum sit Deus suus

E para que do mesmo que experimentais e gozais na terra, julgueis o que será no céu, ponde os olhos naquele altar. O mesmo benigníssimo Senhor, que no desterro e no cativeiro vos põe consigo à mesa que muito e que no céu vos sirva a ela? Foi questão entre os filósofos antigos se era justo e decente que os senhores admitissem consigo à mesa e pusessem a ela os seus escravos? Os estóicos, que era a seita mais racional, e entre os gentios a mais cristã, ensinava que os senhores deviam admitir os escravos à sua mesa, e louvavam a humanidade dos que isso faziam, e se riam da soberba dos que se desprezavam de o fazer. Servir sunt? dizia o maior mestre da mesma seita — servi sunt? Iriso homines. Servi sunt? Imo contubernales. Servi sunt? Imo humiles amici, Servi sunt? Imo conservi. Ideoque rideo istos, qui turpe existimant cum servo suo coenare [39]. Todas estas razões de Sêneca se reduzem a uma, que é serem também homens os que são escravos. Se a fortuna os fez escravos, a natureza fê-los homens: e por que há de poder mais a desigualdade da fortuna para o desprezo, que a igualdade da natureza para a estimação? Quando os desprezo a eles, mais me desprezo a mim, porque neles desprezo o que é por desgraça, e em mim o que sou por natureza. A esta razão forçosa em toda a parte se acrescenta outra no Brasil, que convence a injustiça e exagera a ingratidão. Quem vos sustenta no Brasil, senão os vossos escravos? Pois, se eles são os que vos dão de comer, por que lhes haveis de negar a mesa, que mais é sua que vossa? Contudo, a majestade ou desumanidade da opinião contrária é a que prevalece, e não só não são admitidos os escravos à mesa, mas nem ainda às migalhas dela, sendo melhor a fortuna dos cães que a sua, posto que sejam tratados com o mesmo nome. Que importa, porém, que os senhores os não admitam à sua mesa, se Deus os convida e regala com a sua? O res mirabilis exclama Santo Tomás, e com ele toda a Igreja — O res mirabilis, manducat Dominum pauper, servus et humilis! O escravo pobre e humilde não só come à mesa com seu Senhor, mas come ao mesmo Senhor! Comparai agora mesa com mesa, e senhor com Senhor, e ride-vos com Sêneca dos que ainda neste ponto se não descem da autoridade de senhores: Rideo istos qui turpe existimant cum servo suo coenare

E se Deus, sendo escravos, vos põe à sua mesa na terra, que muito é que, tendo-o prometido e estando vós já livres do cativeiro, vos haja de servir à mesa no céu, sendo a mesa não outra, senão a mesma? Todos os reparos que podia ter esta admiração, já Cristo os deixou desfeitos na instituição do mesmo sacramento. Antes de Cristo instituir o soberano mistério do santíssimo sacramento, preparou-se a si, e preparou os discípulos. E quais foram as preparações? Duas em uma só ação, que foi o lavatório dos pés. A sua, servindo-os como escravo, e a dos discípulos, obrigando-os a que se deixassem servir como senhores. E se Cristo serviu aos homens como escravo, porque os havia de pôr à sua mesa na terra, que muito haja de servir aos escravos já livres, quando os tiver à sua mesa no céu: Faciet illos discumbere, et transiens ministrabit illis [40]? Esta é a mudança sobre toda a admiração estupenda, com que então vereis trocada a vossa fortuna, cá servindo aos homens, e lá sendo servidos do mesmo Deus. Mas o que agora importa é que de nenhum modo falteis à obrigação com que só se promete a felicidade desta mudança à presente miséria de vossa fortuna. E qual é, se não estais bem lembrados? É que vós também mudeis a intenção, e troqueis os fins do vosso mesmo trabalho, fazendo-o de forçoso voluntário, e servindo a vossos senhores como a Cristo, e, debaixo dos homens a Deus: Sicut Domino, et non hominibus. Domino Christo servite. Desta maneira ficareis duas vezes forros e livres: livres do cativeiro do demônio pela liberdade das almas, e livres do cativeiro temporal pela liberdade eterna, que são os dois cativeiros da primeira transmigração de Babilônia, e as duas liberdades da segunda: In transmigratione Babylonis. Et post transmigrationem Babylonis [41].

VIII

Tenho acabado o meu discurso, e parece-me que não faltado ao que vos prometi. E porque esta é a última vez que hei de falar convosco, quero acabar com um documento tirado das mesmas palavras, se muito necessário para vós, muito mais para vossos senhores: Jechoniam, et fratres ejus in transmigratione Babylonis. Este Jeconias e estes seus irmãos, quem foram? Todos foram reis e filhos de reis, e reis do reino de Judá, fundado pelo mesmo Deus, e o mais famoso do mundo, e nada disto bastou para que não fossem levados cativos a Babilônia, e lá tratados como vilíssimos escravos: um carregado de cadeias, outro com grilhões nos pés, outro com os olhos arrancados, depois de ver com eles matar em sua presença os próprios filhos. Em significação deste cativeiro, andava o profeta Jeremias pelas ruas e praças de Jerusalém com uma grossa cadeia ao pescoço [42]. E a esta acrescentou depois outras cinco, as quais mandou aos reinos e reis confinantes, pelos seus embaixadores, que residiam naquela corte. Uma ao rei de Edom, outra ao rei de Moab, outra ao rei de Amon, outra ao rei de Tiro, outra ao rei de Sidônia, porque todos no mesmo tempo haviam de ser cativos, como foram, pelos exércitos dos caldeus. Pois, se os cetros e coroas não livraram do cativeiro a tantos reis, e depois de adorados dos seus vassalos se viram escravos dos estranhos, estas voltas tão notáveis da roda da fortuna vos devem consolar também na vossa. Se isto sucede aos leões e aos elefantes, que razão podem ter de se queixar as formigas? Se estes, nascidos em palácios dourados e embalados em berços de prata, se viram cativos e carregados de ferros, vós, nascidos e criados nas brenhas da Etiópia, considerai as grandes razões que tendes para vos compor com a vossa fortuna, tanto mais leve, e levar com bom coração os descontos dela. O que haveis de fazer consolar-vos muito com estes exemplos, sofrer com muita paciência os trabalhos do vosso estado, dar muitas graças a Deus pela moderação do cativeiro que vos trouxe, e sobretudo aproveitar-vos dele para o trocar pela liberdade e felicidade da outra vida, que não passa, como esta, mas há de durar para sempre.

Este foi o documento dos escravos. E os senhores terão também alguma coisa que tirar deste cativeiro de Babilônia? Parece que não. Eu — está dizendo cada um consigo — eu, por graça de Deus, sou branco, e não preto; sou livre, e não cativo; sou senhor, e não escravo; antes tenho muitos. E aqueles que se viram cativos em Babilônia, eram pretos ou brancos? Eram cativos ou livres? Eram escravos ou senhores? Nem na cor, nem na liberdade, nem no senhorio vos eram inferiores. Pois se eles se viram abatidos ao cativeiro, sendo necessário para isso descer tantos degraus, vós que com a mudança de um pé vos podeis ver no mesmo estado, por que não temeis o vosso perigo? Se sois moço, muitos anos tendes para poder experimentar esta mudança, e se velho, poucos bastam. Introduz Macróbio em um diálogo dois interlocutores, um chamado Pretextato, grande desprezador dos escravos, e outro que os defendia, chamado Evangelo [43]. Este, pois, que só uma letra lhe faltava para Evangelho, disse assim a Pretextato: Si cogitaveris tantumdem in utrosque licere fortunae, tatu tu illum videre liberam potes, quam ille te servum: Se considerares, ó Pretextato, que tanto poder tem a fortuna sobre os escravos como sobre os livres, acharás que este, que tu hoje vês escravo, amanhã o podes ver livre, e que ele, que hoje te vê livre, amanhã te pode ver escravo. E se não, dize-me: de que idade era Hécuba, Cresso, e a mãe de Dario, e Diógenes, e Platão, quando se viram cativos? Nescis qua aetate Hecuba sei-vire coepit, qua Craessus, qua Darii mater, qua Diogenes, qua Plato ipso?

Senhores, que hoje vos chamais assim, considerai que para passar da liberdade ao cativeiro não é necessária a transmigração de Babilônia, e que na vossa mesma terra pode suceder esta mudança, e que nenhuma há no mundo que mais a mereça e esteja clamando por ela à divina justiça. Ouvi um pregão da mesma justiça divina, por boca do evangelista S. João: Si quis habet aurem, audiat (Apoc. 13, 9): Quem tem ouvidos, e não é surdo aos avisos de Deus, ouça. E que há de ouvir? Poucas palavras, mas tremendas: Qui in captivitatem duxerit, in captivitatem vadet (Apoc. 13, 10): Todo aquele que cativar será cativo. Olhai para os dois polos do Brasil, o do Norte e o do Sul, e vede se houve jamais Babilônia nem Egito no mundo, em que tantos milhares de cativeiros se fizessem, cativando-se os que fez livres a natureza, sem mais direito que a violência, nem mais causas que a cobiça, e vendendo-se por escravos. Um só homem livre cativaram os irmãos de José, quando o venderam aos ismaelitas para o Egito, e em pena deste só cativeiro cativou Deus no mesmo Egito a toda a geração e descendentes dos que o cativaram, em número de seiscentos mil, e por espaço de quatrocentos anos. Mas para que é ir buscar os exemplos fora de casa, e tão longe, se os temos em todas as nossas conquistas? Pelos cativeiros da África cativou Deus a Mina, Santo Tomé, Angola e Benguela; pelos cativeiros da Ásia cativou Deus Malaca, Ceilão, Ormuz, Mascate, Cochim; pelos cativeiros da América cativou a Bahia, o Maranhão e, debaixo do nome de Pernambuco, quatrocentas léguas de costa por vinte e quatro anos. E porque os nossos cativeiros começaram onde começa a África, ali permitiu Deus a perda de el-rei D. Sebastião, a que se seguiu o cativeiro de sessenta anos no mesmo reino.

Bem sei que alguns destes cativeiros são justos, os quais só permitem as leis, e que tais se supõem os que no Brasil se compram e vendem, não dos naturais, senão dos trazidos de outras partes; mas que teologia há ou pode haver que justifique a desumanidade e sevícia dos exorbitantes castigos, com que os mesmos escravos são maltratados? Maltratados, disse, mas é muito curta esta palavra para a significação do que encerra ou encobre. Tiranizados, devera dizer, ou martirizados, porque serem os miseráveis pingados, lacrados, retalhados, salmourados, e os outros excessos maiores, que calo, mais merecem nome de martírios que de castigos. Pois estai certos que vos não deveis temer menos da injustiça destas opressões, que dos mesmos cativeiros, quando são injustos; antes vos digo que mais vos deveis temer delas, porque é muito mais o que Deus as sente. Enquanto os egípcios somente cativavam os filhos de Israel, dissimulou Deus com o cativeiro; mas finalmente não pôde a divina justiça sofrer a sua mesma dissimulação, e depois das dez pragas, com que foram açoitados os mesmos egípcios, acabou de uma vez com eles, e os destruiu e assolou totalmente. E por quê? O mesmo Deus o disse.

Vidi afflictionem populi mei in Aegypto, et clamorem ejus audivi propter duritiam eorum qui praesunt operibus (Êx. 3, 7): Vi — diz Deus — a aflição do meu povo, e ouvi os seus clamores, pela dureza das opressões com que os carregam e rigores com que os castigam os que presidem às obras em que trabalham. Notai duas coisas: a primeira, que se não queixa Deus de faraó, senão dos seus feitores: Propter duritiam eorum qui praesunt operibus porque os feitores muitas vezes são os que mais cruelmente oprimem os escravos. A segunda, que não dá por motivo da sua justiça o cativeiro, senão as opressões e rigores com que, sobre cativos, os afligiam: Vidi afflictionem populi mei. E acrescenta o Senhor que ouviu os seus clamores: Et clamorem ejus audivi que é para mim um reparo de grande lástima, e para Deus deve ser uma circunstância que grandemente provoque a sua ira. Estão açoitando cruelmente o miserável escravo, e ele gritando a cada açoite, Jesus, Maria, Jesus, Maria, sem bastar a reverência destes dois nomes, para moverem à piedade um homem que se chama cristão. E como queres que te ouçam na hora da morte estes dois nomes, quando chamares por eles? Mas estes clamores, que vós não ouvis, sabei que Deus os ouve; e já que não têm valia para com o vosso coração, a terão, sem dúvida, sem remédio para vosso castigo.

Oh! como temo que o oceano seja para vós Mar Vermelho, as vossas casas como a de faraó, e todo o Brasil como o Egito! Ao último castigo dos egípcios precederam as pragas, e as pragas já as vemos, tão repetidas umas sobre outras, e algumas tão novas e desusadas, quais nunca se viram na clemência deste clima. Se elas bastarem para nos abrandar os corações, razão teremos para esperar misericórdia na emenda; mas se os corações, como o de faraó, se endurecerem mais, ainda mal, porque sobre elas não pode faltar o último castigo. Queira Deus que eu me engane neste triste pensamento, que sempre aqui, e na nossa corte, os mais alegres são os mais cridos. Sabei, porém, que é certo — e fique-vos isto na memória — que se Jeconias e seus irmãos creram a Jeremias, não seriam cativos [44]; mas porque deram mais crédito aos profetas falsos que os adulavam, assim ele, como seus irmãos, todos acabaram no cativeiro de Babilônia: Jechoniam, et fratres ejus in transmigratione Babylonis.

Epígrafe
E Josias gerou a Jeconias, e a seus irmãos, na transmigração de Babilônia. E depois da transmigração de Babilônia, Jeconias gerou a Salatiel (Mt. I, 11 e seg.).

Notas
[1] Virgílio, Eneida I.
[2] Infeliz raça humana, nascida para servir.
[3] Homero. Clemente de Alexandria.Strom. fib.4.
[4] Sêneca, De benef., I, cap. 10.
[5] Sêneca, Epist. 47.
[6] Não obstante encontrar-se no cativeiro, não abandonou o caminho da verdade (Tob. 1, 2).
[7] A lei é espiritual, mas eu sou carnal, vendido para estar sujeito ao pecado (Rom. 7, 14).
[8] Quem peca quem peca vende a própria alma, aceitando como preço a doçura de u m prazer temporal.
[9] Não houve outro tal corno Acab, que se vendeu para fazer o mal (3 Rs. 21, 25).
[10] 1 Mac. 1,43 e seg.
[11] E juntaram-se com as nações, e venderam-se para fazerem o mal (1 Mac. 1, 16).
[12] A Jeconias, e a seus irmãos, na transmigração de Babilônia (Mt. 1,11) 
 - A Judas, e a seus irmãos, no cativeiro do Egito.
[13] Chrysost. Homil. 4 in Manhaeum. 
[14] Êx. 1, 10; Jz. 3, 8; Jz. 3,14; Jz. 4,2; Jz. 6, l; h. 10, 7; SI. 76,21; Jz. 3,9; Jz. 3,15; Jz. 4,6 e seg, Jz. 7, 20 e seg.; Jz. 11, 32 e seg
[15] Tu verdadeiramente és um Deus escondido, o Deus de Israel, o salvador (Is. 45, 15).
[16] Ora, nós esperávamos que ele fosse o que resgatasse, a Israel (Lc. 24, 21).
[17] Ó estultos e tardos de coração (Lc. 24, 25).
[18] Sabendo que haveis sido resgatados, não por ouro nem por prata, que são coisas corruptíveis, mas pelo sangue precioso de Cristo, como de um cordeiro imaculado (1 Pdr. 1, 18 s).
[19] Cancelando a cédula do decreto que havia contra nós, a qual nos era contrária, e a aboliu inteiramente, encravando-a na cruz, e despojando os principados e potestades (Col. 2, 14 s).
[20] 1 !o. 1, 16.
[21] Cancelando a cédula do decreto que havia contra nós (Col. 2,14).
[22] Esponja de nossa iniqüidade contra a escritura do demônio.
[23] Subiste ao alto, fizeste escrava a escravidão (SI. 67, 19).
[24] Quando ele subiu ao alto, levou cativo o cativeiro (Et. 4, 8).
[25] Livres do pecado, feitos servos de Deus (Rom. 6, 22).
[26] Diz a Vulgata: Obrigavam-nos a ir pelas ruas coroados de hera (2 Mac. 6, 7).
[27] Põe-me a mim como um selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço (Cânt. 8, 6).
[28] Êx. 3.2.
[29] Por que que glória é se, pecando vós, tendes sofrimento, ainda sendo esbofeteados (1 Pdr. 2, 20)?
[30] Mas se, fazendo bem, sofreis com paciência, isto é o que é agradável diante de Deus (ibidem).
[31] Porque para isto é que vós fostes chamados, posto que Cristo padeceu também por nós, deixando-vos exemplo para que sigais as suas pisadas (ibid. 21).
[32] Como servos de Cristo, fazendo de coração a vontade de Deus, servindo-os com boa vontade, como ao Senhor, e não como a homens (Ef. 6, 6 s).
[33] Isto é o que é agradável diante de Deus (1 Pedr. 2, 20).
[34] Para isto é que vós fostes chamados, posto que Cristo padeceu também por nós (ibid. 21).
[35] Sabendo que recebereis o galardão da herança. Servi a Cristo, o Senhor (Col. 3, 24).
[36] Macrobrius, Saturnal. lib. 1. 
[37] Petr. Chrys. Serm. 24 de Serv. vigil.
[38] D. Thomas, opúsculo 63, § 3.
[39] São escravos? Antes, são homens, são companheiros, são amigos humildes, tão escravos quanto nós. Por isso me rio dos que julgam humilhante admitir os escravos à própria mesa (Sêneca, Epist. 47, 1).
[40] E os fará sentar à mesa, e, passando por eles, os servirá (Lc. 11, 37).
[41] Na transmigração de Babilônia. E depois da transmigração de Babilônia (Mt. 1, 11 s).
[42] Jer. 27.2 e seg.
[43] Macrobr. Saturnal, 1.
[44] Jer. 37, 2. 18.


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