sexta-feira, 11 de junho de 2010

Explicações indispensáveis

Sílvio Romero 


Este texto é o prefácio a Vários escritos, livro póstumo de Tobias Barreto, editado por Sílvio Romero no ano de 1900. Posteriormente, apareceu nas Obras completas do mesmo autor (BARRETO, Tobias. Vários escritos. In: Obras completas. Edição do Estado de Sergipe. Rio de Janeiro: Pongetti, 1926, pp. XI-LVIII). Sua significação filosófica, especialmente na parte II, está no registro histórico do uso das ideias como instrumento de combate político-ideológico.

I

Ainda uma vez sou eu quem há de dizer algumas palavras em mais um livro póstumo de Tobias Barreto.

Não sei se mes amis les ennemis e até mes ennemis les amis mo consentirão.

Não poucos são os letrados e não letrados que me têm levado a mal, não direi a amizade, senão o entusiasmo sempre da minha parte manifesto por aquele espírito de seleção. Não há muito ainda uma completa leva de broquéis viu-se movido contra mim, por haver tido a audácia de comparar o escritor do norte ao majestoso Sr. Machado de Assis. Os devotos deste (a expressão não é minha, é de meu ilustre amigo José Veríssimo) saíram a campo em toda a linha e não houve pancada que me não dessem.

Um Sr. Labieno Rodrigues Pereira, ex-senador do império, ex-conselheiro de Estado, ex-ministro da coroa, ex-plenipotenciário, ex-republicano, disse-me coisas do arco-da-velha, a que não respondi, por duas razões, cada qual mais peremptória: grave moléstia, que me tem levado às portas da morte e só agora vai lentamente passando, e a conveniência de cumprir à risca a primeira regra da boa polêmica — entregar, por tempo indefinido, o adversário maligno ao inferno do esquecimento... Mas Labieno, o filho célebre da família dos Macacos de Queluz, (ele me entende), não perde nada por esperar.

Ajustaremos contas um dia, se Deus me der vida e saúde. Os meus colegas de crítica, Medeiros e Albuquerque, Frota Pessoa e outros, cujos nomes me não ocorrem, consideram o livro um desastre, por ser o método comparativo desusado, senão inaplicável, em coisas literárias; serem os dois escritores entre si inequiparáveis, além da superioridade inconcussa do autor de Páginas recolhidas; o que tudo eu não via, por ter a vista cansada, não ver nitidamente ao perto, não compreender bem os indivíduos, e só enxergar ao longe os grandes fatos, as grandes linhas, a ponto de caracterizar vantajosamente as épocas, as fases longas e seculares da história, notando com acerto o temperamento da raça, do povo, das massas, sob a influência do meio físico e das forças sociais. São esses, mutatis mutandis, os dizeres do mais favorável dos críticos citados, Medeiros e Albuquerque, sob o influxo de uma certa simpatia conservada do tempo em que foi meu discípulo de filosofia, circunstância por mim já descrita no prefácio à segunda edição dos Estudos de direito de Tobias.

Os outros não foram tão gentis, principalmente o Sr. Frota Pessoa, cujas sentenças parecem mais decisivas e dogmáticas do que as do pontífice infalível do Vaticano... E eu que julgava até agora ser o único em posse do privilégio de não ver ao perto, não penetrar nos temperamentos e o único a fazer juízos errados... Santa simplicidade!

Tenho hoje um guapo companheiro. Companheiro? não: companheiros — é que devia dizer.

O Sr Araripe Júnior não veio à liça diretamente por causa de Machado de Assis; mas aproveitou o ensejo para atordoar-me com uma dúzia de estirados artigos, na Revista Brasileira, nos quais sou descrito qual um terrível Roldão, um truculento mata-mouros, o que tudo quer dizer — um temeroso polemista, pura e simplesmente um polemista, porque (Leitor benévolo, tu deves saber ver bem ao perto, saber ler entre as linhas) porque ele sim, ele é que é o crítico, o crítico accompli, que vê tudo, penetra nos temperamentos, sabe fazer psicologia... às direitas. Este privilégio psicológico de penetrar no sistema nervoso dos autores, segundo a frase de Pessoa, não se vá crer uma pertença, um instrumento exclusivo do distinto autor d’O ninho do beija-flor. Seria injustiça: Medeiros, o sábio Pessoa e o meu amigo Veríssimo também são dotados dele...

Eu é que daquilo nasci desarmado, desapercebido.

Os mais todos, a uma, o possuem. Entre parênteses: o título do romance de Araripe, O ninho do beija-flor, lembra-me uma curiosíssima descoberta de Pessoa, que consigno desde já, antes que me esqueça. Disse este ilustradíssimo estético, de quem não sou digno de desatar os sapatos, não poder eu jamais ser crítico, porque me tenho dividido demasiado: tenho feito maus versos e maus ou sofríveis direitos, filosofias, políticas e não sei que mais. Vá que seja: mas, meu caro Pessoa, se tais assuntos tiverem sido assemelhados apenas como auxiliares da crítica?

E, ainda, se forem eles apenas tratados criticamente? Que dizeis a isto?

Não é tudo: vós sabeis, e sabeis melhor, muito melhor do que eu, porque tendes o poder de penetrar no sistema nervoso dos autores, repetindo vossa encantadora frase, e sois mestre na maravilhosa psicologia, coisas que me falecem, em absoluto, sabeis, ia eu dizendo, que Sainte-Beuve, o mestre dos mestres em crítica, e exatamente o pai do método psicológico em tal matéria, fez versos, e não eram lá muito bons, escreveu romances, compôs histórias... logo, não podia ser crítico. Lessing, vulto mais imponente ainda do que o autor de Port-Royal, fez versos, dramas, contos, romances... logo, não podia ser crítico. Taine, o mais original dos críticos conhecidos, o mestre do método sociológico em tais assuntos, escreveu política, história, viagens... Logo, não podia ser crítico. Scherer, o mais lúcido crítico deste século, fez teologia, política, exegese bíblica... logo, não podia ser crítico. E assim Macaulay, Vinet, Bourget, Zola, Lemaitre e tantos outros, que todos escreveram um pouco de tudo... logo, não podiam ser críticos. E, meu caro mestre Pessoa, como vos esquecestes dos romances do ático Araripe? Como é que pecastes, afirmando nunca jamais haver o grande crítico escrito obras de imaginação? Será possível que tenhais olvidado O reino encantado, O ninho do beija-flor, Luisinha, Jacina, A marabá?

J’en passe encore, verbi gratia, um que, se me não engano, chamava-se Chico melindroso... um penetrante e psicológico estudo que haveis, por força, de ter saboreado em tempo.

E o nosso amável José Veríssimo, não será também, este ilustre crítico, autor de contos e de estudos políticos?

Dar-se-á acaso que ignoreis a existência das Cenas da vida amazônica e do volumoso livro O século XIX ? Não creio.

Eu é que tenho o privilégio da ignorância, da alta de vista e de penetração; não mo queirais tomar. Deixai-me com as minhas mazelas.

O nome do amigo José Veríssimo, último referido, leva-me a retomar o assunto em seu princípio, de que me ia desviando um pouco, encantado com a perspicácia de Frota Pessoa. José Veríssimo não acudiu diretamente em defesa de Machado: tomou outras atitudes e usou de outras práticas: atirou ao esquecimento o livro que do autor de Iaiá Garcia escrevi, não se dando dele nunca notícia na Revista Brasileira; redobrou de elogios ao escritor fluminense, de quem, com todas as sílabas, se declara devoto, já ao dizer de Páginas recolhidas, já ao escrever de Dom Casmurro, cujo parentesco com Brás Cubas e Quincas Borba estudou carinhosamente, com vista, penetração e psicologia; finalmente, sempre que ao pobre míope autor destas linhas se refere, entre palavras consoladoras e balsâmicas, não se esquece de umas poucas de reticências no tocante ao seu estilo e linguagem, ao tom polemístico de seu analisar, às deficiências de erudição da sua História da literatura brasileira, à estreiteza de seu critério literário, por Veríssimo reduzido ao simples critério nacionalístico, e alguma vez não deixa de lastimar e ter ficado o dito autor destas páginas preso à péssima escola de Tobias.

Não é aqui o lugar de responder a todos estes meus colegas em crítica, se dão licença a assim falar a um míope-deserudito-nacionalístico-impsicológico-impenetrante-polemístico-pessimístico-briguento-tobiísta-impenitente. Entretanto, timidamente lembrarei duas ou três coisitas de vista curta em réplica às acusações acima assinaladas.

Primeiramente, peço vênia para ponderar o seguinte que não deixa de ter seu valor: sempre e sempre sistematicamente tenho evitado escrever de meus companheiros de crítica, que, todavia, me têm, como se vê, tratado com demasiada sem-cerimônia; e eu é que sou o atacante...

Do Sr. Frota nunca escrevi palavra; do Sr. José Veríssimo quase nada, a não serem algumas referências amistosas; dos Srs. Araripe e Medeiros (Este em crítica dá pelo nome de J. dos Santos) só me ocupei uma vez do último e duas do primeiro, sempre em defesa própria e com a maior moderação possível. E eu é que sou o atacante...

Peço aos espíritos imparciais que tomem nota do fato.

No que diz respeito a Tobias e sua comparação com Machado, que tanto escandalizou os devotos do autor de Helena, não será fora de propósito dizer que o mesmo aconteceu aos devotos do autor dos Estudos alemães, em sentido inverso: eles levaram, por seu lado, a mal o haver eu comparado o fulgurante poeta, o vigoroso crítico do norte ao poeta e romancista do Rio de Janeiro, por o considerarem superior de muito a este último. Ora, aí está o que são as coisas de devotos. Cada qual acha mais milagroso o seu feitiço. Tanto é verdade não ser a supremacia do Sr. Machado de Assis ainda dogma de todo assentado e definido. Pessoa e Medeiros, Araripe e Veríssimo ainda não conseguiram fazê-lo passar em concílio ecumênico sem coisa que dúvida faça.

De acordo, dirão talvez; porém andas errado com os teus processos comparativos, que nem se usam em crítica, nem se podem aplicar aos dois célebres copatrícios.

Tenho certo acanhamento em contestar. A coisa não é tão evidente como lhes parece. O método comparativo tem sido aplicado a todas as criações humanas: religião, moral, direito, mitologia, linguística, arte, e, finalmente, literatura mais do que possam supor. Georg Brandes é um dos pró-homens do gênero, que não é alheio a franceses, como F. Brunetière, L. Teste e outros.

E, pelo que de mais perto se refere a Tobias e Machado, ouso aventar não ser de todo falha a tentativa que usei. Os meus psicólogos censores hão de concordar comigo no seguinte princípio de método: não se comparam duas coisas inteiramente semelhantes, inteiramente idênticas, se é que existem duas coisas de todo idênticas; seria inútil e supérfluo. Muito bem: estão de acordo com este preceito lógico. Devem estar também acordes neste outro princípio: não se comparam duas coisas inteiramente dessemelhantes e antagônicas.

Aceitam, é claro. Devem também admitir esta terceira regra: só se comparam coisas, que, tendo muitos pontos de semelhança e analogia, têm outros de diferença e antagonismo.

Ora, é exatamente o caso dos dois célebres personagens: ambos brasileiros, ambos nascidos em 1839, ambos mestiços, ambos poetas, ambos prosadores, ambos críticos, ambos humoristas, ambos pessimistas, ambos chefes de escola, posto que um tivesse sido, além disso, jurista e outro romancista.

Que impossibilidade haveria de compará-los?

Ora, pelo amor de Deus: o público não é tão tolo como se lhes afigura.

Entretanto, no livro consagrado ao autor de Brás Cubas, que foi todo meditado sem a ideia de comparação, a qual só mais tarde surgiu, a talho de foice no correr da escrita, o malsinado confronto é apenas um mero episódio, que, longe de fazer mal ao ídolo de meu amigo José Veríssimo, ao em vez disto lhe faz bem, com provocar a contestação e aliviar, por assim dizer, o escritor criticado de estar só numa tão demorada berlinda de páginas e páginas. A comparação foi, repito, uma espécie de intermezzo, favorável a Machado, por o desafogar algum tanto do aparelho frio e apertado da crítica.

Quem quiser experimentar, leia o livro, saltando as páginas de comparação e fixando-se apenas nos capítulos exclusivamente referentes ao autor de Quincas Borba.

A figura do ilustre fluminense destaca-se mais nítida, é certo; mas a impressão de seus defeitos é também mais penosa. Espero dar uma edição escoimada do quadro comparativo e ver-se-á.

Como quer que seja, porém, parece-me que, com toda curteza de minha vista, incapacidade psicológica e de penetração no sistema nervoso dos escritores, o estudo a respeito de Machado de Assis não foi de todo inútil, porquanto vejo certas ideias, que fui o primeiro a sustentar dele, hoje aí repetidas e já como de outra procedência. Por exemplo, a demonstração da unidade de sua intuição e de sua obra, outrora geralmente contestada; entre as suas melhores qualidades, senão a melhor, a habilidade em pintar rápidos e exatos quadros nacionalistas, por todos despercebida antes do desastroso estudo. Espero que não serão as únicas.

Não é tudo; venhamos a outros itens.

Frota escreveu em seu evangelho ser eu admirador incondicional do autor dos Dias e noites e Medeiros que eu colocava este escritor acima de todos os escritores nacionais. Ambas as alegações são falsíssimas.

A Frota basta lembrar-lhe não ser ele capaz de mostrar um escrito qualquer meu anterior a 1878, época em que apareceu A filosofia no Brasil, em que eu tivesse falado no nome de Tobias, meu amigo desde dez anos antes, pois o conhecera em 1868. Depois que deixei o Recife, e naquele livro foi que o estudei pela primeira vez e, como se houvesse levantado a gritaria oposicionista, o que se tem seguido depois tem sido somente a necessidade de defesa.

Ainda mais no aludido livro, pág. 139, lê-se esta declaração, apta a evitar quaisquer dúvidas: “Não tenho Tobias Barreto na conta de gênio, nem de notabilidade europeia”.

Evidentemente, não são dizeres de um admirador incondicional. E eu que pensava ser o único a engendrar e escrever falsidades!...

Medeiros ainda é mais desastrado em sua afirmativa. Peço-lhe licença para dizê-lo com toda a isenção; pois considero-o meu amigo e não desejo, por forma alguma, romper com ele.

O autor de Pecados, para ser justo e fazer boa psicologia, não precisa trucar de falso, nem exagerar as coisas. Não é capaz de, com toda a sua vista de ao perto, descobrir uma só página em que eu haja cometido aquele pecadilho.

Como é que, muito em contrário ao que diz e pretende ver, não se lhe deparou a página 328 do estudo sobre Machado de Assis, na qual aponto uns poucos de escritores nossos que julgo superiores a Tobias?

Pois vá à tal página e leia e não venha mais afirmar errôneas capazes de afear seus brilhantes processos psicológicos e empanar sua nítida visualidade.

Este mesmo amigo Medeiros, num rasgo de psicologismo que não sei como qualifique e quero desde já apreciar, antes que me passe, teve a sem-cerimônia de escrever com todas as letras já haver eu “descoberto dois ou três primeiros poetas brasileiros e agora o primeiro romancista!” Eis aqui uma verdadeira tentação: se fosse entre os meus vinte e trinta anos, era agora a ocasião de uma surriada a valer.

Mas esse belo tempo já passou, e, ai de mim! creio que para não mais voltar, e é preciso ser comedido. Não direi, portanto, ser aquilo menos verdade de meu talentoso e ilustrado confrade em crítica e Academia Brasileira; mas é um redondíssimo erro, praticado agora conscientemente e com o fim manifesto de molestar seu velho amigo, colaborando na ação de demolição que lhe movem.

Este ponto não deixarei correr à revelia: o Sr. Medeiros e Albuquerque, cuja amizade prezo desde os tempos de seu velho pai que mo apresentou, não é capaz de citar autênticos e integrais textos meus em que eu tenha dito A é nosso primeiro poeta, e depois B é nosso primeiro poeta, e mais C é nosso primeiro poeta. Não é capaz; tais textos não existem, são meras alucinações da vista penetrante do jovem escritor.

Poderei ter dito A é o nosso primeiro poeta pela imaginativa, B é o primeiro pelo sentimento, C é o primeiro pelo colorido, ou pela profundeza do pensamento, ou pela riqueza do vocabulário, ou qualquer outra qualidade assinalável.

Poderei ter escrito isto ou coisa que o valha, e Medeiros vê bem ser coisa mui diversa. Quanto ao primeiro romancista, o ato descamba até para a pulhice propositalmente acariciada. O Sr. Medeiros e Albuquerque não é, ainda, capaz de citar um trecho meu em que tenha proclamado essa primazia entre os nossos romancistas. A alegação é clamorosamente falsa. Um moço do comércio escreveu um romance, no qual estudou fatos e tipos de sua classe, e disse eu dele: “foi entre nós, que eu saiba, o primeiro a enveredar por esse caminho, e, pelo lado da realidade e veracidade da observação, seu livro é um dos melhores da novelística nacional”. Ora, são coisas bem diversas estas, cá sob as minhas curtas vistas e acanhada penetração no sistema nervoso (Bravos à frase do Pessoa!) dos escritores!... Onde diabo Medeiros ouviu-me falar em primeiro romancista? Ando já a desconfiar das vantagens das tais agudezas psicológicas, que fazem os seus possuidores cometerem tantos descuidos.

E estas decantadas agudezas psicológicas, de que sou falho, puxam-me ao assunto principal: minha tão malsinada defesa de Tobias. Acho inexplicável como tão aguçadas visões cegam os meus amigos críticos a ponto de não lhes deixar ver coisa tão simples. Defender Tobias, será preciso dizê-lo? é implícita e explicitamente defender uma época inteira, uma fase do pensamento nacional, um período histórico, toda uma escola literária. Já vejo que o ver ao longe leva, às vezes, suas vantagens sobre o ver ao perto.

Aos meus amigos críticos — as árvores não deixam ver a floresta, o indivíduo não deixa ver a vida social, a fantástica e presunçosa psicologia empana a sociologia. Maria optimam partem elegit; prefiro o último quinhão e ele seria capaz de me envaidecer, se fosse caso disso.

E não é porque não o tenha dito sem falhar sílaba, não é porque tenha deixado de falar amiúde em escola do Recife, em escola de Pernambuco, em sua prioridade no movimento espiritual brasileiro em certo período de nossa história. Isto tem sido dito e redito à sociedade. Os nomes de Celso de Magalhães, de Vitoriano Palhares, de Castro Alves, de Sousa Pinto, de Clóvis Beviláqua, de Martins Júnior, de Artur Orlando, de Inglês de Sousa, de Farias Neves Sobrinho, de Viveiros de Castro, de França Pereira, de Fausto Cardoso, de Gumersindo Bessa e outros e outros vêm sempre ao bico de minha pena. A psicologia de meus censores é que os não deixa ver.

E o mesmo tenho feito para com outros escritores que, não tendo vivido nunca no Recife, mostraram pronunciada simpatia pelo movimento ali iniciado na fase crítico-filosófica, e ligam-se àquela escola por alguns laços. É o caso de Tito Lívio de Castro, cujo perfil fui até hoje o único a traçar, se me não engano, e cujas obras pedi ao governo provisório da República para publicar, tendo já aparecido o formoso livro A mulher e a sociogenia, contendo como prefácio o aludido perfil. É também o caso de Oliveira Fausto, Estelita Tapajós, Marcolino Fragoso e Trajano de Moura, de quem não me esqueço e sou dos raros a lembrar de quando em vez... É questão de evolução e de agrupamento. E por que podem os meus adversários ser devotos de Machado e não poderei ser admirador de Tobias? Por que podem eles estimar o que se poderia chamar a escola fluminense de Machado, Taunay e outros, e não poderemos eu e meus amigos do norte amar o nosso punhado de combatentes do Recife, principalmente os que ali pugnaram as lutas de decênio máximo, o decênio que iniciou e adiantou a derrocada do velho Brasil católico-feudal, 1868-1878?

E nem sei o que merecerá, por exemplo, mais duros reparos à crítica do futuro: se os meus elogios a Tobias e sua escola, todos provocados pela mania negacionista, pela obsessão irritante de seus adversários: ou a tremenda diatribe de Medeiros e Albuquerque contra Os lusíadas de Camões e os terríveis artigos que tem vibrado contra Rui Barbosa; ou os contra este último escritos pelo Sr. Araripe Junior; ou os encômios, estes é que se poderiam chamar incondicionais, de todos eles ou quase a Machado de Assis e Taunay; ou as censuras severas, fortes, repetidas do Sr. José Veríssimo a vários escritores novos.

E eu que supunha ser o único intratável e o único habilitado por errar e para agredir...

Entretanto, no meu ativo, além do que deixei aqui dito em relação à escola do Recife e seus adeptos, nomeadamente Martins Junior, Celso de Magalhães, Gumersindo Bessa, Viveiros de Castro, Vitoriano Palhares, Luiz Guimarães Junior, Leônidas e Sá e outros, aos quais consagrei artigos de jornais ou páginas de livros; além do que fiz por Tito Lívio de Castro, até hoje, que eu saiba, apenas estudando por mim, e do que pratiquei com Estelita Tapajós, a quem consagrei vasto estudo, publicado em folhas de São Paulo, não é bom esquecer que me cabe também a honra de ter sido o apresentador de João Ribeiro e Múcio Teixeira, dois grandes talentos, ao público fluminense quando, ainda desconhecidos, há bons vinte anos, aportaram a estas plagas. Já não quero lembrar várias reivindicações que se acham nas páginas da História da literatura brasileira, que aos meus olhos me orgulhariam, se tanto valesse a pena neste país, como a de Gregório de Mattos, até então julgado apenas um maldizente desprezível e depois objeto de mais de um estudo, onde ao leitor atento se deve deparar mais de uma ideia já consignada nas páginas daquele livro; a de Laurindo Rabelo, havido apenas por um boêmio de talento, um improvisador de pornografias, um rimador de modinhas, um lírico sofrível e que ali se demonstrou, apesar da falta de vista ao perto, ser o maior de nossos elegíacos e um dos maiores de nossos liristas; a de Teixeira de Melo, reconhecida por Clóvis Beviláqua, nestas palavras: “o autor das Sombras e sonhos, que não teve lenda, ficou ignorado como lirista, até que Sílvio Romero lhe viesse fazer justiça em umas boas páginas de reparo à cegueira injustificável do público”; a de Maciel Monteiro, conhecido somente como diplomata, como galanteador, e muito mal como poeta, até que fosse naquela obra colocado em seu exato lugar de predecessor imediato do romantismo; a de Moniz Barreto, o repentista, só então assinalado em seu posto exato e não como simples poeta de jantares, qual dele assoalhava a psicologia vaidosa; a de Melo Moraes Filho, tido geralmente pelo que nunca foi, um erudito de coisas da história nacional, uma traça de arquivos, quando a verdade é que ele nunca leu patavina dessas coisas, sendo contrário um inspirado e imaginoso lírico; a de José Maria de Amaral, dado por grande jornalista, quando não passou de um delicioso elegista; a de Martins Pena, cujas comédias eu é que colecionei e fiz dar à casa Garnier para as publicar, e cuja característica tracei em estudo especial, que, em análise histórica, social e psicológica, apesar de não haver meio deste pobre diabo penetrar no sistema nervoso de um escritor, conheço muita gente que o não troca por mais de um produto da grande escola dos nossos psicologistas, si vantes. É que esta gente que assim pensa tem vista curta ao perto... Já não preciso lembrar o que deixei escrito no livro do centenário do Brasil a respeito de Teófilo Dias, Raimundo Correia, Alberto de Oliveira, Olavo Bilac, Luiz Murat e peculiarmente Cruz e Sousa, o que tudo seria possível que acabasse por provar não ser o demônio tão feio como o pintam, nem eu si bête como me querem fazer.

Como quer que seja, não estou arrependido da direção que dei às minhas ideias; não renuncio a uma só delas; se tivesse de recomeçar a vida seguiria o mesmo caminho. Bem sei a razão da meia-raiva com que me olham, do falso ódio com que me encaram; digo meia-raiva e falso ódio, porque no fundo não há rancor positivo; são todos eles boas pessoas e, em grande parte, estão de acordo comigo. Não o proclamam alto e bom som por falta de costume, porque se educaram, fingindo-se meus adversários e não querem espantar a galeria, habituada há bons trinta anos a um dos chics de nossos literatos: dizerem mal de mim.

Acho-lhes uma graça inefável, quando julgam que os tomo demasiado à letra, e quando acreditam não ser eu capaz de saber a receita para agradar... Ah! se também eu tivesse querido agradar!...

Por que não poderia ter concorrido com os outros?

A receita foi sempre fácil aos escritores provincianos que têm vindo ao Rio, desde os tempos do primeiro império, tentar fortuna: nada mais do que procurarem a confraria dos chefes da época, fazer-lhes zumbaias, tratar de lhes cair em graça, o que de ordinário se conseguia e se consegue a troco de alguns elogios hábeis, orais ou escritos, sempre mais orais do que escritos. A princípio procuravam-se Januário Barbosa, Cunha Matos, Monte Alverne, Evaristo da Veiga; depois Magalhães, Porto-Alegre, Norberto, Otaviano, Macedo; mais tarde Alencar, Pedro Luiz, Quintino; pouco mais tarde Machado de Assis, Taunay, Ferreira de Araújo, sem querer falar nos núcleos mais recentes.

O autor destas mal alinhavadas linhas poderia acaso procurar cartões de entrada e gozar também da festa; nunca o fez, nunca pertenceu a grupo nenhum, a não ser agora aquela singular corporação eclética e amorfa chamada Academia Brasileira, cujas sessões não frequenta e da qual faz parte da honra da firma.

Preferiu entrar o Rio de Janeiro, trazendo no bolso A filosofia no Brasil, livro de ataque a mais não ser, fazendo-o seguir logo da Crítica parlamentar, ainda mais decisivo no gênero, e de bem perto de A literatura brasileira e a crítica moderna, que não lhes fica atrás na espécie.

Estava a desgraça feita; não poderia haver maior desaso, se o fito do escritor fosse agradar. Mas, Deus louvado, nunca lhe passou pela mente tal desejo: quis mesmo conscientemente lutar, como, durante dez anos antes, tinha feito no Recife, o que importa dizer que as lutas ali travadas foram prosseguidas aqui. Vieram depois o período de transição, representado pelos trabalhos de folclore, (Cantos e contos populares do Brasil. Estudos sobre a poesia popular brasileira) e o período de pacificação, representado principalmente pela História da literatura brasileira, períodos estes uma vez magistralmente descritos por Viveiros de Castro, num belo estudo que tive a honra de merecer à sua inteligente, distinta e honrada pena.

Nem assim a guerra passou: sofro agora os efeitos da reação: esperava-a e não dou o cavaco por isso. Dei ao meu país o que lhe podia dar: algum amor ao trabalho, submissão à verdade e sinceridade nas convicções.

Se o não fiz com talento, a culpa não é minha. Se me fosse possível comparar a um grande nome, diria que em toda história das lutas brasileiras só dois combatentes vieram da província para este Rio de caso pensado para atacar: Gaspar Martins, na política e, oh! leitor, este teu obrigado e criado, na literatura.

Qual tenha sido disto o efeito só o futuro poderá dizer.

E já agora não ponho o ponto final a esta primeira parte deste prólogo, sem fazer mais um reparo.

Os críticos soi-disant psicólogos, Frota que repete, avolumando, o que diz Medeiros, Medeiros que reproduz com clareza o que o amigo Veríssimo diz velada e docemente, Araripe que pensa e escreve galhardamente por sua conta e risco, andam bem longe de estar acordes na psicologia que tenho tido a honra de lhes inspirar: algum deles pinta-me com o temperamento de mero polemista, ao que acode outro, dando-me qualidades filosóficas, como sejam destreza no manejo de ideias e teses gerais e visão nítida dos grandes fatos. São duas características contraditórias, que se excluem e repelem.

Vejam em que ficam.

Demais, a crítica meramente psicológica, que tanto preconizam, este exagerado individualismo, não será um ponto de vista atrasado, diante da crítica sociológica, que se detém principalmente na contemplação da evolução geral das ideias, das doutrinas, dos gêneros artísticos e literários, mostrando mais a sociedade em sua grandeza do que o indivíduo no seu exclusivismo? Ainda mais: fazer a psicologia do povo não será também fazer psicologia? Será verdadeira a inexistência de psicologia nos múltiplos e variados estudos de crítica devidos ao signatário destas páginas?

No que escreveu de Gregório de Matos, Alvarenga Peixoto, Silva Alvarenga, Moniz Barreto, o velho José Bonifácio, Evaristo da Veiga, Maciel Monteiro, Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo, Varela, Laurindo Rabelo, Martins Pena, Machado de Assis, para só citar estes, não haverá psicologia, ao menos naquela proporção em que é indispensável para se compreender a colaboração dos indivíduos na trama social? Ou eu me engano muito, ou meus colegas e êmulos em crítica andam errados nos antipsicológicos que costumam embarcar na frota de Pessoa contra mim. Não me queiram mal, entretanto, e acabemos como bons amigos. Vejo, um pouco tarde parece, que já é tempo de falar do livro do meu saudoso Tobias, por amor de quem tenho sido sempre e sempre um verdadeiro armazém de pancadas.

II

O livro que se vai ler, a que dei o título de Vários escritos, contém diversos artigos, dispostos em ordem cronológica, de 1860 a 1888, exceto os cinco últimos que não guardaram a mesma ordem, por me terem chegado tarde às mãos, quando já ia adiantada a publicação. Os vinte e dois últimos anos da evolução espiritual do autor estão, pois, aí representados.

Dos cinco artigos que não puderem entrar na série cronologia, dois, “A Propósito de Uma Teoria de S. Tomás de Aquino” e “Teologia e Teodiceia não são Ciências”, são de 1868; um, “Uma Luta de Gigantes”, é de 1871; outro, “O Atraso da Filosofia entre Nós”, é de 1872; e, finalmente, outro, “As Artes e a Indústria Artística”, é de 1883.

Devem todos estes e outros artigos do autor ser lidos nesta ordem; porque, só assim se notará a harmoniosa unidade do desenvolvimento espiritual do falecido escritor. Uma edição regular dos seus trabalhos deveria ser feita, separando-se as matérias e dispondo-as na ordem de tempo. Por este modo teríamos a obra do poeta e depois a do crítico de filosofia, de literatura, de direito, de política, de religião e de arte em seu normal desdobramento. Infelizmente não tem sido possível assim proceder; pude, apenas, no que já tem sido publicado, separar as poesias e os estudos de direito. Filosofia, arte, religião, literatura, política têm aparecido promiscuamente sem a conveniente seleção e o indispensável arranjo.

Em todo caso, a crítica imparcial deverá proceder, tendo como norma capital a natureza das matérias e a consideração do tempo, condições estas desastradamente desprezadas, máxime pelos famosos psicologistas recentes.

Este livro poderia sair mais alentado e completo, se me houvessem chegado às mãos diversos escritos do autor. Entre outros, existem: um publicado no nº 5 de junho de 1869 do Jornal do Recife, de que se fala à pág. 20 deste volume, e que erroneamente supus ser “Uma Luta de Gigantes”, que é de 1871, e mais um, “Sobre a Força Motriz”; um, “O Que é Monismo”, publicado n’A Tribuna, em 1882, no Recife; um em apreciação d’As ideias de Francisco Huet; um criticando as Lições de filosofia do atual arcebispo da Bahia, D. Jerônimo Tomé; um denominado “Guizot e a Escola Espiritualista”, e vários mais de que tenho hoje apagada lembrança.

Muitos outros subsídios poderia tirar das coleções de Um sinal dos Tempos, de A Igualdade, de que não pude dispor em absoluto, e das de A Comarca da Escada, O Americano, O Desabuso, Contra a Hipocrisia, O povo da Escada, O Industrial, se as destes me tivessem chegado mais perfeitas e não demasiado truncadas, como foi o fato. É também falha notável neste livro o aparecerem incompletos os artigos “A Província e o Provincialismo”, “O Direito Público Brasileiro”, “As Artes e a Indústria Artística”.

O aparecimento tardio, póstumo, fragmentado dos escritos do crítico e poeta sergipano tem-lhe sido assaz desfavorável. Teria-lhe sido muito mais vantajoso que as condições de sua vida lhe tivessem deixado o lazer e a facilidade de publicar a tempo e propósito os volumes de suas poesias e de seus ensaios de crítica. O inconsciente das coisas não o quis e agora já não há mais jeito a lhe dar.

Uma das razões da incompreensão dos críticos, que hoje se dizem psicólogos e têm a doce ingenuidade de haver feito monopólio desse processo de analisar entre nós, no que diz respeito ao valor, ao merecimento da ação espiritual de Tobias Barreto nas lides do pensamento nacional, provém nesses tão distintos espíritos da falha de senso histórico e sociológico, da incapacidade de ver ao longe.

Têm a vista curta, só veem ao perto; as grandes linhas lhes escapam, voltando contra eles e à rebours a censura que me fazem.

Se eles tivessem uma visão clara da evolução total do espírito brasileiro na poesia, uma visão clara de evolução total do espírito brasileiro em religião, filosofia, política, direito e crítica literária, deveriam saber qual o estado de todas estas coisas nesta terra, em 1862, quando Tobias iniciou no Recife o seu poetar, e em 1868, quando deu começo à sua evolução crítica. A fase poética, com ter valor, não tem a importância e o alcance da fase seguinte. O decênio que vai de 1868 a 1878 é o mais notável de quantos no século XIX constituíram a nossa vida espiritual. Quem não viveu nesse tempo não conhece por ter sentido diretamente em si as mais fundas comoções da alma nacional. Até 1868 o catolicismo reinante não tinha sofrido nestas plagas o mais leve abalo; a filosofia espiritualista, católica e eclética, a mais insignificante oposição; a autoridade das instituições monárquicas, o menor ataque sério por qualquer classe do povo; a instituição servil e os direitos tradicionais do feudalismo prático dos grandes proprietários, a mais indireta opugnação; o romantismo, com seus doces, enganosos e encantadores cismares, a mais apagada desavença reatora. Tudo tinha adormecido à sombra do manto do príncipe feliz que havia acabado com o caudilhismo nas províncias e na América do Sul e preparado a engrenagem da peça política de centralização mais coesa que já uma vez houve na história em um grande país. De repente, por um movimento subterrâneo, que vinha de longe, a instabilidade de todas as coisas que se mostrou e o sofisma do império apareceu em toda a sua nudez. A guerra do Paraguai estava ainda a mostrar a todas as vistas os imensos defeitos de nossa organização militar e o acanhado de nossos progressos sociais, desvendando repugnantemente a chaga da escravidão; e então a questão dos cativos se agita e logo após é seguida da questão religiosa; tudo se põe em discussão: o aparelho sofístico das eleições, o sistema de arrocho das instituições policiais e da magistratura e inúmeros problemas econômicos; o partido liberal, expelido grosseiramente do poder, comove-se desusadamente e lança aos quatro ventos um programa de extrema democracia, quase um verdadeiro socialismo; o partido republicano se organiza e inicia uma propaganda tenaz que nada faria parar. Na política é um mundo inteiro que vacila. Nas regiões do pensamento teórico o travamento da peleja foi ainda mais formidável, porque o atraso era horroroso. Um bando de ideias novas esvoaçou sobre nós de todos os pontos do horizonte. Hoje, depois de mais de trinta anos, hoje, que são elas correntes e andam por todas as cabeças, não tem mais o sabor da novidade, nem lembram mais as feridas que, para as espalhar, sofremos os combatentes do grande decênio. Positivismo, evolucionismo, darwinismo, crítica religiosa, naturalismo, cientificismo na poesia e no romance, folclore, novos processos de crítica e de história literária, transformação da intuição do direito e da política, tudo então se agitou e o brado de alarma partiu da escola do Recife. Tobias foi o mais esforçado combatente, com o senso de visão rápida de que era dotado.

Por que contestar o seu merecimento? Por que amesquinhar o seu esforço? Eis aí o motivo da minha defesa; não o ataquem que me calarei. Amparando-me a ele, defendo meu tempo, minha escola, meu grupo, defendo-me a mim mesmo.

O Sr. Medeiros e Albuquerque (A Notícia, de 24 de março corrente) diz ser o Sr. Machado de Assis um gênio... Com todos os meus exageros quando elogio ou censuro, segundo os conceitos do ilustre crítico, e a despeito de minha curta vista de perto, segundo os mesmos conceitos do mesmíssimo crítico, nunca me animei a dizer tanto de Tobias Barreto, e a todos preveni disso no primeiro estudo que lhe consagrei (vide A filosofia no Brasil, pág. 139 citada).

Não, amigo Medeiros, Machado de Assis não é um gênio, como não o é Tobias, como não é Rui, como não é Patrocínio, como não é Nabuco, e não é Alencar, nem Gonçalves Dias, nem Álvares de Azevedo, nem Castro Alves, nem Bilac, nem Cruz e Sousa, nem ninguém até hoje neste nosso Brasil. O gênio é inventivo por excelência, criador por índole, original em essência no desvendar novas perspectivas e abrir novos caminhos à humanidade.

Nós ainda não tivemos disso. Um bom estilo e boa gramática e mais um regular talento de observar alguns recessos da alma humana, macerado tudo em certa dose de inofensivo pessimismo e quase apagado humor, não dá para fazer um gênio... Agora me lembra que o Frota Pessoa disse ser eu fácil em descobrir gênios e incapaz de os criar!... Este pensamento deve ser forçosamente muito profundo. Basta vir de Frota. Mas confesso que o não entendo bem. Esta história de criar gênios e de os descobrir, não, isso não é comigo. Há engano com toda certeza: meu caro Frota, até hoje não descobri nenhum, nem mesmo aquele malfadado Tobias, que admiro incondicionalmente, segundo dizeis sem razão.

Ide ter com Medeiros, que foi meu discípulo de filosofia e meu mestre de hipnotismo e matérias conexas, que versa e percorre com facilidade e brilho, ide ter com ele, que já descobriu ou criou um gênio — Machado de Assis. Para cá vindes errado, Frota.

Outra razão pela qual tratam ainda injustamente o autor dos Menores e loucos provém de quererem ver nele aquilo que ele não é. Sabendo-se que se ocupou de filosofia, de direito, de literatura, vão atrás de encontrar um tratadista ex-professo, um expositor, um comentador de doutrinas, um desses que fazem os pratos para os vadios e preguiçosos do pensamento.

A desilusão é completa: encontram apenas um crítico, um ensaísta, sempre rápido e como que apressado. Mas é preciso tomar esse singular despertador de ideias, essa sentinela sempre prestes ao rebate como era na realidade e não ao gosto de nossas fantasias.

Este mesmo livro é uma prova do que digo; tudo nele é rápido e sugestivo: pequenos estudos, escaramuças valentes e decisivas da parte de um homem ocupado a ler, a estudar criticamente filosofia, religião, política, arte, direito, literatura e que mal tinha tempo de dar ao público pela escrita o resultado de suas meditações e de seu saber; porque o mais ia-se em lições orais e conversações constantes.

Neste volume há espécimes de sua crítica sob os vários aspectos da religião, filosofia, direito, política, literatura; faltam-lhe, porém, algumas páginas de crítica da arte, isto é, crítica musical, que também cultivava.

O complexo dos trabalhos de análise de meu amigo, pondo de parte os que ainda andam tresmalhados nos jornais e periódicos, pode ser hoje apreciado nos cinco livros Estudos de direito, Estudos alemães, Ensaios e estudos de filosofia e crítica, Vários escritos e Menores e loucos sob a condição de uma leitura por matérias e atendendo às datas, como disse.

Os Discursos e principalmente as Polêmicas, a sair após este volume, ajudarão certamente a completa apreciação do escritor.

Para facilitar aos leitores de Tobias a compreensão de sua obra, darei aqui, por matérias, a indicação de seus principais ensaios, espalhados nos aludidos livros.


CRÍTICA DE RELIGIÃO
A Religião perante a Psicologia”
“Moisés e Laplace”
“Notas sobre a Crítica Religiosa”
“Os Livros Mosaicos ou assim Considerados”
“Uma Luta de Gigantes”
“Uma Excursão de Diletante nos Domínio da Ciência Bíblica”
“Sobre o Dr. Strauss”
“A História do Povo de Israel e o Sr. Oliveira Martins”
“A Irreligião do Futuro”
“Traços da Vida Religiosa no Brasil”

CRÍTICA DE FILOSOFIA
“A Propósito de uma Teoria de S. Tomás de Aquino”
“Teologia e Teodiceia não são Ciências”
“A Religião Natural de Jules Simon”
Fatos do espírito humano, de G. de Magalhães
“O Atraso da filosofia entre nós”
“A Ciência da Alma ainda e sempre Contestada”
“O Häckerismo em Zoologia”
“Notas sobre a Evolução Emocional e Intelectual do Homem”
“Glosas Antissociológicas”
“Recordação de Kant”

CRÍTICA DE LITERATURA
“A Grande e a Pequena Poesia”
“As Flores da Noite”
“Auerbach e Victor Hugo”
“Sobre um Escrito de Alexandre Herculano”
“Socialismo em Literatura”
“A Alma da Mulher”
“Influência do Salão na Literatura”
“Ensaio da Pré-história da Literatura Clássica Alemã”
“O Dia de Camões”
“Traços de Literatura Comparada do Século XIX”
“O Partido das Reações em Nossa Literatura”
“Nota sobre o Romantismo Alemão”
“Nota sobre a Literatura Americana”
“O Romance no Brasil”

CRÍTICA DE DIREITO
“Uma Nova Intuição do Direito”
“Menores e Loucos em Direito Criminal”
“Delitos por Omissão”
“A Tentativa em Direito Criminal”
“Direito Autoral”
“Mandato Criminal”
“Comentário aos Primeiros Artigos do Código Criminal do Império”
“Algumas Palavras sobre a Teoria da Mora”
“A Codelinquência e Seus Efeitos na Praxe Processual”
“Introdução ao Estudo do Direito”
“Fundamento do Direito de Punir”
“Prolegômenos do Estudo do Direito Criminal”
“História do Processo”
“Os Pontos de Direito Romano do Dr. Soriano de Sousa”

CRÍTICA POLÍTICA
“Os Homens e os Princípios”
“Política Brasileira”
“A Questão do Poder Moderador ou o Parlamentarismo no Brasil”
“A Província e o Provincialismo”
“Direito Público Brasileiro”
“A Responsabilidade dos Ministros no Governo Parlamentar”
“Organização Comunal da Rússia”
“Política da Escada”
“Um Discurso em Mangas de Camisa”
“Glosas a Alguns Preconceitos Brasileiros”

CRÍTICA DE ARTE
“Carlos Gomes e a Ópera Salvator Rosa
“Bellini e a Norma
As Últimas Representações do Faust
“Alguma Coisa também sobre Meyerbeer”
“De Novo Alguma Coisa sobre Meyerbeer”
“Um Pedaço de Autopsicologia”

Resta-me agora dizer algumas palavras dos principais artigos desta obra.

III

Deixando de parte os poucos que tratam da crítica de literatura e crítica de direito, pretendo deter-me rápido somente diante dos referentes à crítica filosófica, religiosa e política.

Os escritos de filosofia e religião são aqui, em sua ordem cronológica: “A Propósito de uma Teoria de S. Tomás de Aquino”, “Teologia e Teodiceia não são Ciências”, “A Religião perante a Psicologia”, “Moisés e Laplace”, “Uma Luta de Gigantes”, “O Atraso da Filosofia entre Nós”.

A crítica religiosa, no sentido restrito e próprio de crítica e exegese bíblica, que foi, durante muitos anos, um dos estudos prediletos de nosso filósofo e jurista, está neste livro, dentre os seis artigos acima citados, em “Moisés e Laplace” e “Uma Luta de Gigantes”. No primeiro há notável, além de uma página magistral sobre as origens das cosmogonias, e de outra da análise da exposição bíblica da criação, há notável, dizia, que o autor, depois de repetir as considerações do grande crítico Michel Nicolas, ilustre professor de Montauban, rival de Reuss e Colani, mais profundo que Renan, sobre as duas narrativas diferentes que o Gênesis traz da criação, aduz estas observações que são originais:

“Um tal fenômeno que com muitos outros levou os críticos a admitirem na construção do Pentateuco elementos de procedência diversa, cremos que se prestava a mais sérias e mais fundas conjeturas. Uma comparação das duas narrativas, sob o ponto de vista da forma, descobrirá que a segunda é mais definida e menos vaga, ainda que inferior na pintura de Deus; o que revela na primeira uma poesia de tempos mais remotos.
Ora, sendo somente a segunda que refere em tom de idílio a existência do paraíso em que viveram ditosos os pais do gênero humano, é bem excludente que semelhante história foi escrita em época posterior aos grandes profetas; mesmo porque em seus discursos Adão e Eva não ocupam lugar, quando aliás havia muitas ocasiões de se tirar desse exemplo, se ele fosse conhecido, os argumentos mais poderosos, em mãos daqueles tribunos.”

Em “Uma Luta de Gigantes”, apreciação da discussão travada em 1871 entre Vacherot e o padre Gratry a respeito das coisas religiosas, o nosso crítico vem em auxílio do filósofo contra o padre. A questão era a seguinte. Vacherot, em seu livro A religião (pág. 134) tinha dito que a profecia da ressurreição não está em S. Mateus e S. Marcos e sim apenas em S. Lucas e S. João. Tinha dito mais que naqueles dois primeiros evangelistas o drama da paixão é triste e desanimador e que só nos dois outros Jesus mostra coragem e confiança em sua missão. Gratry quanto à primeira asserção, diz ser justamente o contrário: a profecia da ressurreição está em Mateus e Marcos e não se acha em Lucas e João. Tobias, intervindo, mostrou que a citação feita por Gratry de Mateus, c. 26 v. 3, como encerrando a profecia da ressurreição, é errada; deve-se ler Mateus, c, 26, v. 32, onde realmente Jesus predisse que ressuscitaria, e o mesmo, como quer o padre, em Marcos, C. 14 v. 28; cumprindo, porém, ponderar, acrescenta o nosso crítico, que tais textos não podem prevalecer contra a afirmação de Vacherot, porque repetem palavras proferidas por Jesus antes de começar o drama da paixão, ao qual o filósofo se havia peculiarmente referido.

Não é tudo: se é verdade que em S. João não se leem palavras análogas às de S. Mateus e S. Marcos, pelo que toca à confiança de Jesus em sua ressurreição, o mesmo não se pode dizer de S. Lucas, acrescenta Tobias contra a afirmativa de Gratry, porquanto neste evangelista, c. 22 v. 42 e 43, a respeito de um dos malfeitores, entre os quais Jesus fora crucificado, lê-se: Et dicebat ad Jesum: Domine, memento mei, cum veneris in regnun tuum. Et dixit illi Jesus: Amen dico tibi; hodie mecum eris in paradiso, palavras estas que mostram a consciência que ainda naquele momento extremo Jesus tinha do seu caráter divino, do triunfo completo de sua missão e da glória que o esperava. Já se vê que Vacherot, com atribuir a Lucas alguma coisa da profecia da ressurreição, não andou errado; enganou-se apenas em atribui-la também a João, e se vê, ao demais, que Gratry errou crassamente em negá-la em Lucas, acertando apenas no que diz respeito ao quarto evangelista. Quanto à segunda asserção de Vacherot, isto é, o desânimo de Jesus na paixão, segundo Mateus e Marcos, e a coragem, segundo Lucas e João, o padre Gratry não a rebateu. Tobias, fortificando a opinião do filósofo, escreveu estas belas palavras, que mostram seu conhecimento dos textos:

“O pensamento do autor de A religião, resumido, simplificado e limitado, como o mesmo Gratry concede que seja, é que em S. Mateus e S. Marcos Jesus morre como que baldo de força e de esperança, ao passo que nos dois outros evangelistas ele apresenta uma coragem, uma confiança, uma grandeza divina.
Não há que responder; a evidência ressalta dos textos.
Ali ele exclama: Deus, Deus meus, quid dereliquistis me? (Mat. c. 27 v. 46; Marc. c. 15 v. 34) — Expressão de agonia e desânimo. Aqui porém: Pater, in manus tuas commendo espiritum meum (Luc. c.23 v. 46) — Resignação e firmeza. E mais: Mulier, ecce filius tuus. Deinde dixit discipulo: ecce mater tua. Post ea sciens Jesus quia omnia consummaretur scriptura, dixit sitio... Cum ergo accepisset Jesus acetu, dixit: consummatum est. Et inclinato capite, traditi spiritum (João, c. 19 v. 26, 27, 28, 30). Aqui tudo respira a serenidade e a calma da consciência de um Deus. Jesus morre sem dar um grito ou gemido, voce magna, de que falam os outros evangelistas, grito ou gemido que de um certo modo deturpa a simplicidade e, por assim dizer, a beleza divina daquela morte.”

O crítico faz ainda, afinal, uma observação original nestas palavras:

“É por iguais considerações que também nos parece digna de atenção a divergência que se nota nos mesmos textos sobre a história dos dois ladrões. Nos primeiros evangelhos não há diferença entre eles; ambos insultam a Jesus. (S. Mateus, c. 27), diz: Id ipsum autem et latrones qui crucifixi erant cum eo, improperabant ei. (S. Marcos, c. 15 v. 32), diz: Et qui cum eo cruxifixi erant, conviciabuntur ei. Mas em S. Lucas, um desses crucificados pede a Jesus que se lembre dele. S. João menciona-os, porém não lhes atribui palavra alguma.”

Entretanto, os dois artigos de crítica religiosa, que ocorrem neste volume, não são suficientes só por si para dar plena ideia dos conhecimentos do autor neste gênero de estudos. Devem-se ler os vários escritos consagrados ao assunto noutros livros, a saber: “Uma Excursão de Diletante nos Domínios da Ciência Bíblica”. “Notas sobre a Crítica Religiosa”. “A Irreligião do Futuro”. “Os Livros Mosaicos ou assim Considerados”, “A História do Povo de Israel e o Sr. Oliveira Martins”.

Tobias tinha feito boas leituras de Baur, Strauss, Reuss, Colani, Abraham Geiger, Dörner, Ewald, Michel Nicolas, A. Reville, Chwolson, Scherer e Renan. Foi ele quem primeiro entre nós tratou esses problemas à luz da moderna crítica bíblica e não o Sr. J. de Campos Novaes, no seu livro, aliás excelente, Origens caldeanas do judaísmo, como disse por engano o meu amigo José Veríssimo.

Os artigos relativos à crítica da filosofia geral e de filosofia religiosa, que não se deve confundir com a crítica religiosa propriamente dita, contidos neste livro, os já citados “A Propósito de uma Teoria de S. Tomás”, “Teologia e Teodiceia não são Ciências”, “O Atraso da Filosofia entre Nós”, “A Religião perante a Psicologia”, devem ser lidos, porque são capitais na história do desenvolvimento espiritual do escritor sergipano. O primeiro deles, o mais antigo devido no assunto à sua pena, (1868) comparado ao último, também no assunto devido a ela, “Recordação de Kant”, (1887), o qual se acha nos Estudos alemães mostra-nos a bela unidade, que reinou sempre em sua evolução mental. É sempre o mesmo agnosticismo, a mesma guerra à metafísica do a priori, à metafísica do antigo estilo, o mesmo evolucionismo teleológico, fundado nas lições de Comte, alargado por Schopenhauer, Hartmann, Häckel e Noiré, e cujas bases fundamentais lá se acham na Crítica da razão pura do velho Kant. Só espíritos de todo alheios a este gênero de estudos poderão ignorar o que ao filósofo de Königsberg devem os pensadores citados. Tirando-se deles o que é particular ao sistema individual de cada um, resta em comum a todos o agnosticismo monístico, mecanicista para Häckel, teleologista para todos mais.

Não se deve esperar que venha agora resumir sequer as linhas principais de tais escritos, sobre os quais chamo apenas a atenção do leitor. Não me eximo, porém, de rebater a série de baboseiras, a propósito de um deles — “A Religião perante a Psicologia” — alinhavadas por um tal Sr. J. Pereira de Sampaio, que costuma disfarçar-se sob o pseudônimo de Bruno, num acervo de despautérios publicados com o título de O Brasil mental. É o caso que, havendo Tobias Barreto, num estudo d’A Irreligião do futuro de Guyau, citado um trecho de seu referido artigo “A religião perante a Psicologia” no ponto precípuo da doutrina de Vacherot no que ela tem de aparentado com as ideias do Curso de filosofia positiva de Comte, eu, em nota àquele escrito, publicado nos Estudos alemães, dissera ser ele de valor na vida intelectual do nosso autor, porquanto por várias vezes, e a anos de intervalo, tratando o assunto, sempre voltava àquele trabalho inicial.

Tudo isto é a verdade pura; mas eis que o Sr. Bruno, ou Pereira de Sampaio, sem conhecer o artigo de Tobias, sem o haver lido, pegando as coisas no ar, como é seu costume de trapalhão emérito, saiu-se com esta série de tolices:

“Tobias Barreto, em seu ensaio acerca do volume (Irreligião do Futuro de Guyau) a quem com requintado maneirismo (Ah! paspalhão!) chama calhamaço, reporta-se de um seu precedente escrito. O escrito a que ele se refere, e que Sílvio Romero se lastima de lhe não haver chegado a tempo de o incluir no livro dos Estudos alemães, denomina-se ‘A Religião perante a Psicologia’, e saiu publicado no nº 6 e seguintes de O Americano, periódico que viu a luz de Pernambuco em 1870.
É trabalho decisivo na vida intelectual de Tobias Barreto. Por três vezes diversas, e com longos intervalos, ele voltou ao problema religioso e sempre se baseava sobre aquele estudo: em 1878, nas notas ao ‘Discurso em Mangas de Camisa’, que Sílvio Romero republicou, sob o título ‘Glosas a Alguns Preconceitos Brasileiros’; em 1881 nos ‘Traços sobre a Vida Religiosa no Brasil’; e em 1888, finalmente, neste estudo acerca de Guyau.
Este querido trabalho primacial, sempre lembrado, é uma análise do livro de Vacherot La religion. Pois bem. Tobias Barreto reinvindica em 1888 a glória de haver posto em evidência, ‘há dezoito anos’, diz com orgulho (Sim? meu gaiato!), uma grande descoberta. Foi o caso, combatendo as ideias de Vacherot, cuja filiação no positivismo não me passou então despercebida: demonstrei-a cabalmente.
É fantástico. Positivista Vacherot! (Ah! demônio!) O último dos metafísicos da grande raça em França. Aquele erudito místico da História crítica da escola de Alexandria, tema propositadamente (É falso!) escolhido. O colaborador, com os espiritualistas clássicos (É falso!), como um Amedée Jacques ou Émile Saisset, na propaganda ortodoxa com livrinhos vulgarizadores (É falso!), qual o que debate o suposto conflito entre a ciência e a consciência. O autor do livro fundamental de A metafísica e a ciência, em forma de diálogo, cuja décima quarta palestra, versando sobre a filosofia do século XIX, se emprega precisamente a refutar o positivismo. Vacherot positivista! (O Brasil mental, cap. ‘O Positivismo’).”

Ora, já se viu maior falácia e maior despropósito? Esse sujeito a querer nos ensinar quem foi Vacherot? Vacherot, cujas obras — Histoire critique de l'école d'Alexandrie, La métaphysique et la science ou principes de métaphysique positive, La démocratie, La religion, Essais de philosophie critique, La science et la conscience — andam nas mãos de toda a gente?

Não é verdade que tivesse ele, por tendência própria, elegido o assunto da história da escola de Alexandria; o tema foi fornecido pela Academia e ao concurso sujeitou-se também Jules Simon, cujo livro sobre o assunto é inferior. Não é verdade que o autor de La religion tivesse colaborado com Amedée Jacques e Émile Saisset em manuais de propaganda ortodoxa. Este papel coube ainda a Jules Simon. Não é verdade que em Science et conscience se estabeleça conflito entre as duas.

Não é verdade que Vacherot tivesse sido o último metafísico de raça em França: ele não era superior a Renouvier, Fouillée, Nolen, Sécretan, Tannery, não falando já em Taine, Renan e o próprio Guyau, que muito tinham de metafísicos, por mais que o quisessem esconder.

Não é também verdade que Vacherot não tivesse recebido mais de um influxo da filosofia positiva; para prová-lo não precisa ir além do subtítulo de sua obra capital, o qual reza assim: ou principes de metaphysique positive.

Que diz a tudo isso o impagável Bruno? Não é, finalmente, verdade que Tobias ignorasse o caráter metafísico da filosofia de Vacherot e tivesse feito dele um positivista completo e acabado. Notou pura e simplesmente que, quanto ao problema religioso, o célebre metafísico não tinha feito mais do que repetir, sem citar, a solução do Curso de filosofia positiva. E tal é a verdade. Tobias tinha mais senso crítico e mais orientação do que aos Brunos apraz supor. Ele não fez jamais de Vacherot um discípulo de Comte. Conhecia perfeitamente os dois filósofos, cujas obras capitais estudou com cuidado. Eis aqui as suas próprias palavras para de uma vez calar as gaiatices de Bruno, com o seu insulso estribilho — Vacherot positivista!

Andai, lede, meu trapalhão:

“O alvo principal do nosso filósofo, o seu único ponto de insistência, é mostrar que a religião não tem elementos próprios no fundo da alma humana.
Mistura confusa de fenômenos variados, uma vez decomposta pela análise e tomando cada uma das faculdades o que de direito lhe pertence, a religião fica sendo simplesmente o nome de um grande fato histórico, sem exprimir uma qualidade essencial do espírito. Aqui nos ocorre uma consideração que não deixa de ter importância para bem ajuizar destas ideias.
Vacherot, que, no seu último livro consagrado à exposição e defesa de semelhante doutrina, reuniu e comentou as opiniões dos pensadores, que se ocuparam da matéria, esqueceu-se de mencionar, como devia ao lado de outras, a teoria do tríplice estado humanitário, criada por A. Comte.
Entretanto, nós descobrimos uma real analogia, senão perfeita identidade, entre o que diz Vacherot e o que diz a filosofia positiva. Há somente uma diferença: é quanto ao método; mas isto não infirma as relações que prendem as doutrinas, uma vez que elas chegam, pouco mais ou menos, a resultados idênticos.
A. Comte, procedendo à observação da inteligência humana em seu desenvolvimento histórico, ensina que ela começa pelo estado teológico, passa ao metafísico e atinge finalmente o positivo e científico.
Vacherot sustenta que a religião é um estado transitório do espírito humano, característico de sua infância e mocidade, que deve ceder ao império da reflexão madura e calma, isto é, ao império da filosofia.
Se Comte admite três momentos sucessivos, é que para ele a metafísica não tem positividade, não oferece garantias contra os assaltos da dúvida, não passa de um fascículo de abstrações e inverificáveis hipóteses.
Porém, Vacherot, que a considera rica e fecunda, animada de justas ambições e coroada de verdades, não podia conceber outra fase substitutiva do encanto religioso.
O positivo que para um reside só na ciência, para o outro compreende também a metafísica; mas entre ambos há comum o juízo que formam da religião e os limites que lhe assinam no terreno da história.
Estas mesmas noções de estado religioso e filosofia, transitório e permanente: de que fala Vacherot, são dados próprios da filosofia positiva, que se encontram pela primeira vez nas obras de seu grande chefe a respeito das evoluções intelectuais da humanidade.
É fácil objetar que o autor d’A Religião, sendo um apriorista, um filósofo absorto nas ideias do infinito e do absoluto, não se pode filiar em ponto algum na escola que só admite o relativo e o finito no quadro da ciência.
A objeção parece plausível, mas não pode prevalecer contra a evidência.
Não é que nós queiramos fazer de Vacherot um discípulo de Comte; (Vede, Bruno) o que dizemos e provamos é que ele não criou sobre o caráter religioso do espírito humano uma teoria nova; é que também nele, como em outros, se verifica a exatidão com que Littré afirma flutuarem no ar farrapos de filosofia positiva que cada qual se apropria e acomoda a seus usos.
Confrontemos e vejamos.

‘Assim como na história do indivíduo a imaginação é o primeiro e a razão o último grau de evolução do pensamento; da mesma forma, na história geral da humanidade, o movimento intelectual começa pela religião, acaba pela filosofia, e no próprio desenvolvimento filosófico, termina pela filosofia crítica e positiva.’ (La religion, pág. 314).

Para quem sabe ler, estas palavras não fazem mais que repercutir as seguintes:

‘O ponto de partida sendo na educação do indivíduo precisamente o mesmo que na espécie, as diversas fases principais da primeira devem representar as épocas fundamentais da segunda. Ora, cada um de nós, contemplando sua própria história, lembrar-se-á que foi sucessivamente, quanto às noções mais importantes, teólogo em sua infância, metafísico em sua virilidade.’ (Philosophie positive, I, pág. 11).

Em vez de metafísico, lede filósofo. Tal é a ideia do autor.
Mas ainda concedamos que esta aproximação seja forçada; que não haja em tais palavras laço algum de parentesco entre os dois pensadores. Mesmo assim permanece incontestável que, no modo de julgar o íntimo religioso ou teológico do homem, Vacherot é um positivista.
A fim de evitar enganos, tenhamos sempre em mira que Comte dá o estado metafísico por uma simples modificação do primeiro, sendo que neste ponto não diverge o ilustre autor d’A religião, o qual também rejeitou as abstrações, as entidades e os ídolos da velha metafísica, em nome e sob os auspícios de uma nova que igualmente se decora do título de positiva.
Limitemos porém o plano destas observações e vamos ao que é decisivo.
Vacherot está convencido e quer convencer que o espírito humano, pelos progressos da filosofia e da ciência, tem de largar a plumagem postiça da crença religiosa, com que sói atravessar os mundos imaginários, para só desdobrar no espaço as asas de cem côvados, em que se balança o voo das ideias. A religião é uma espécie de epiderme grosseira, que os séculos hão de arrancar do corpo da humanidade para fazê-la criar uma nova, sutil como o pensamento, diáfana como a verdade.
Não era menor nem diversa a convicção de Augusto Comte. Ele também concebia um estado filosófico de emancipação para os espíritos que fossem atingindo o termo da grande evolução mental; de modo que, diz ele, não é dos filósofos religiosos que se deve esperar uma história racional da religião. Só inteligências plenamente livres podem cumprir esse mister.
Devia pois o nosso filósofo ser mais justo e reconhecido para com o pai do positivismo, que é sem dúvida superior aos desdéns de muito espiritualista acanhado, sem doutrina definida, que adquire facilmente o valor de autoridade.”

O trecho é completo, o castelo de cartas de Pereira de Sampaio voa pelos ares diante da realidade, da veracidade dos acertos do escritor brasileiro.

São sempre neste gosto as críticas de Bruno e seus iguais. E o homenzinho a querer nos ensinar quem foi Vacherot... Impagável!

Por duas vezes, e consta deste livro, o nosso crítico se ocupou do filósofo francês: no artigo citado “A Religião perante a Psicologia” e em “Uma luta de Gigantes”. Eis umas palavras deste último escrito, reveladoras do quanto o autor brasileiro conhecia o grande metafísico:

“Quando Vacherot publicou a sua História crítica da escola de Alexandria, o padre Gratry, que era capelão da Escola Normal, da qual Vacherot era diretor, saiu-lhe à frente com uma série de escritos refutatórios, e de forte discussão entre eles travada resultou que o diretor se demitisse, entregando-se, na solidão e no silêncio à meditação profunda, de onde brotou a grande obra que tem por título A metafísica e a ciência.
Sobre esta obra, que é talvez o maior edifício da filosofia francesa contemporânea (Vede bem, Bruno), sentimo-nos aqui bem acanhados de espaço para emitir um juízo seguro. Podemos, porém, dizer, com Ernesto Bersot, que, se goste ou não de sua doutrina, é forçoso confessar que ali há uma filosofia e um filósofo.
Eis que de novo os contendores voltam à liça e a peleja é digna da expectação do mundo. O livro d’A religião. (O mesmo analisado por Tobias) foi o sinal do combate. A teologia católica sentiu-se ferida e em nome dela o padre Gratry aceitou o desafio.”

Já se vê que o crítico brasileiro andava a par e bem dos livros e das lutas do autor d'A Metafísica e a ciência ou Princípios de metafísica positiva.

O Sr. Pereira de Sampaio pode guardar para si as suas lições.

Algum dia hei de submeter a análise rigorosa, página por página, o regabofe que aí corre sob o nome de O Brasil mental. Bruno está no mesmo caso de Labieno Pereira: não perde nada por esperar.

Então se terá de ver muita coisa interessante, muita gaiatada de matar de riso.

Por enquanto tenho coisa mais séria em que me ocupar.

Resta-me, neste ponto, dizer algumas palavras do crítico de política em Tobias.

Os principais artigos do gênero, que ocorreu neste volume, são: “Os Homens e os Princípios”, “Política Brasileira”, “Política da Escada”, “O Direito Público Brasileiro”, “A Província e o Provincialismo”, “Política da Aldeia”.

Por eles pode-se saber a opinião de nosso jurista a respeito do governo, dos partidos, do imperador, do parlamentarismo, do provincialismo, da vida municipal, da democracia e assuntos conexos no Brasil.

Tal conhecimento, porém, para ser completo, deve também firmar-se em três ou quatro escritos aparecidos noutro lugar. São eles: “A Questão do Poder Moderador”, “A Organização Comercial da Rússia”, “A Responsabilidade dos Ministros no Governo Parlamentar”, “Glosas a Alguns Preconceitos Brasileiros”, publicados nos Estudos alemães. É preciso também consultar vários discursos do autor, nomeadamente o famoso “Discurso em Mangas de Camisa”, animada pintura das misérias gerais da vida política nacional.

O fio cronológico deverá ser o guia nestas leituras: os pensamentos fundamentais do crítico não mudam, mas o seu pessimismo se fortalece e acirra cada vez mais.

Note comigo o leitor algumas de suas opiniões, constantes, aliás, deste mesmo volume.


A ideia fundamental dos escritos políticos do crítico sergipano era que o governo do Brasil deveria ser uma conclusão de sua própria história, alguma coisa de original e próprio, e não uma cópia do parlamentarismo britânico, qual o pretendiam os liberais do império, ou do presidencialismo americano, qual já o sonhavam os sectários da república.

Por isso, escrevia Tobias no seu estudo “A Questão do Poder Moderador”, em 1871:

“O governo do Brasil não pode ser parlamentar, à maneira do modelo que oferece a terra de Pitt e Palmerston; porquanto esse regimen supõe ali uma penetração recíproca do Estado e da sociedade, que em geral nos outros países vivem divorciados. O governo do Brasil não pode ser tal, atento que o sistema inglês é o resultado de um gérmen poderoso deposto pela providência, isto é, pela mesma índole do povo, no largo ventre a sua história. E quem sabe que concurso de circunstâncias influi na marcha ascendente da Constituição da Inglaterra, para que a realeza, por uma espécie de redução ad absurdum, se desenvolvesse no sentido de chegar a quase negação de si mesma, restringindo-se e anulando-se, de modo que o ideal da sua perfeição se confunde com a sua própria destruição; quem sabe disto não deverá vir falar-nos de governo parlamentar. Logo, o único meio de salvar e engrandecer o Brasil, é tratar de colocá-lo em condições de poder ele tirar de si mesmo, quero dizer, do seio da sua história, a direção que lhe convém. O destino de um povo, como o destino de um indivíduo, não se muda, nem se deixa acomodar ao capricho e ignorância daqueles que o pretendem dirigir. É mister um estudo mais profundo da nossa gênese, a fim de dar-se remédio aos males que nos ferem.”

É por isso que no artigo “Os Homens e os Princípios” ele diz:

“É indubitável que importa sobre tudo deixar a sáfara e estéril eiva da discussão indefinida e trabalhar somente por acender todas as tochas da evidência em torno da teoria política mais profunda e mais conforme ao espírito nacional, pela sua maior conformidade aos próprios destinos do espírito humano”.

É por isso ainda que são suas estas palavras:

“Se os nossos escritores de direito público e jornalistas do dia soubessem um pouco mais a filosofia das ciências sociais, como se lhes aplica o método indutivo, não andariam repetindo, a cada passo, mil tolices sobre a Inglaterra e outras tantas sobre os Estados Unidos”.

Os escritos aqui reunidos de crítica política são todos do grande decênio de 1868-78.

Eis como falava de sua coparticipação nas lutas partidárias de seu tempo, ao iniciar sua carreira política em começos de 1870:

“Parece que assim me antecipo em fazer conhecidas as minhas adesões; e, entretanto, eu não sei ainda o que sou, quando venho perguntar o que devo ser à sociedade em que vivo, aos fatos que observo, e a razão que consulto.
Fazendo tabula rasa de meu passado que é simples, de todas as recordações de outros tempos, claras ou sombrias, tristes ou lisonjeiras, firmei-me no propósito de estudar os homens e as coisas e só caminhar sob a direção de minhas próprias convicções. Ser-me-ia fácil atirar-me em busca da ventura, empunhando, eu também, um dos mil turíbulos que se balançam em torno do poder; ser-me-ia fácil dizer à minha razão: não sejas curiosa, não indagues os princípios, vamos aos meios...
Mas tudo isso seria indigno, e tanto bastava para assim não praticar. Por outro lado, não me sinto com disposição de ser simplesmente uma cifra de mais no número deste ou daquele rebanho, limitando-me a expandir os ternos balidos da humilhação e da baixeza. Bem conheço quanta audácia há neste propósito, quanto perigo há nesta audácia: mas obedeço à lógica e aceito as consequências.
Se não tenho forças para vir, da parte da liberdade em face do espírito público, desfolhar o livro de suas fraquezas, de seu criminoso desânimo; se não tenho forças para lançar ao ar este punhado de terra de que falava Mirabeau, de onde nascem os homens de que precisamos, os Mários conculcadores da prepotência indébita; quero ao menos ter o trabalho de preparar eu mesmo o alimento de minhas crenças, quero inebriar-me de meu próprio vinho.”

Tanto mais meritória era esta disposição do poeta e crítico, quanto deve-se saber que, sendo ele originário de uma família ultraconservadora de Sergipe, era natural que seguisse a trilha de seus antepassados, e quanto era verdade estar então de cima aquele poderoso partido. Tobias, bacharelado em direito nos últimos meses do ano anterior, não se deixou influenciar nem pelas tradições de família nem pelas conveniências do momento. Seu espírito liberal, no bom e no alto sentido, atirou-se à causa da democracia. Eis como a definia em seu aludido manifesto — “Os Homens e os Princípios”:

“O verdadeiro solar do liberalismo é a democracia. Ou seja o governo de todos por todos, como se exprime em fórmula absoluta, ou seja, como melhor se compreende, o governo de todos pelos eleitos de todos, o certo é que, racionalmente concebida, a democracia não tolera esta reunião de verdades de princípio e verdades de circunstância, que formam a constituição dos governos mistos.
Uma sociedade com efeito que se diz organizada sobre a base da liberdade e deixa entretanto passar o privilégio concedido a uns poucos que abarcam a governança, a uma sociedade fraca e mentirosa que não tem ânimo de elevar-se à altura de seu destino.
Se o princípio democrático, em sua pureza nativa, é a abolição completa da menor aparência de privilégio, ainda mesmo o que se mostre mais simples e inofensivo; se ele pretende acelerar o progresso para o ponto em que estão duas abstrações, o indivíduo e o Estado, a liberdade e o poder, sobre o que tanto e tão inutilmente se disserta, e que devem concretar-se numa só realidade — o povo engrandecido —, claro está que os democratas, dos quais não distingo os liberais consequentes, não podem jurar sobre a mesma página sagrada nem falar a mesma língua que os conservadores, ainda os mais moderados.
Eu bem sei que aqui se levantam os publicistas que querem fazer da verdade objeto de transações para estabelecer a distinção capciosa e fútil do privilégio social e de privilégio político, segundo se refere à organização da sociedade, ou à organização dos poderes; aquele realmente inadmissível, este porém tolerável e até necessário, conforme a índole popular, o grau de sua instrução e educação...
Verdadeira sorrelfa, perigosa sutileza, que se vai pouco a pouco insinuando como doutrina e ganhando terreno na crença geral.
É preciso fazer justiça, punindo com o desprezo, a estas teorias cambiantes que deixam sempre na incerteza a melhor face da verdade, para assim abrir caminho a logomaquias estólidas em que aliás tanto se comprazem.
O cidadão sem o homem, o homem sem o cidadão, a sociedade abstraída do Estado, o Estado abstraído da sociedade, não passam de categorias lógicas do pensamento especulativo.
Os publicistas mal avisados travam de qualquer destas concepções abstratas e raciocinam sobre ela, como se falassem de uma coisa real, sem saber que desta arte ressuscitam as entidades escolásticas da Idade Média.
O cidadão é a forma social do homem, como o Estado é a forma social do povo; e pois que em toda a natureza as formas são expressões das forças, e as forças não existem sem produzir as formas, é mister que o cidadão exprima o homem, como o Estado deve exprimir o povo; é mister que o homem faça o cidadão, como o povo deve fazer o Estado.
Não sei como se possa sustentar a indiferença das formas a respeito do governo, quando a respeito de tudo mais, não há tal indiferença .
E incontroverso que se todas as coisas fossem entregues à ação de forças idênticas, todas as coisas teriam a mesma forma. Entregai pois todos os povos à ação de sua própria liberdade e vê-los-eis todos em marcha pelo caminho da democracia.
Os Estados monárquicos em geral são formas irregulares da vontade popular, como as pedras brutas e os troncos tortuosos representam as forças atômicas em sua primitiva rudeza. Há nesta comparação mais que o simples propósito de embelecer a frase; há duas verdades que se aproximam e se reconhecem irmãs. Desde a tenebrosa hediondez do governo despótico até a sublime claridade do governo livre, o povo é sempre a matéria que se lança na forja das revoluções em que se moldam os Estados; o próprio despotismo não existe se não pela fraqueza, pela inércia e humilhação popular.
Mas notemos que a ação de se governar a si mesmo, exercida pelos povos, não é para eles menos do que para os indivíduos uma coisa indivisível; não se concede aos poucos. Onde o povo não é tudo, ele torna-se nada.
Há escritores que mostram suma habilidade em exagerar os males que podem provir da democracia exaltada, e tratam de desenhar o governo popular como o mais acessível às paixões, ao desmando e à loucura; pelo que, dizem eles, em todo o caso é preferível o despotismo de um só, ao despotismo de todos!...
Confesso não achar em tais considerações valor algum; antes admiro que tão facilmente se formem juízos e se lavrem sentenças condenatórias daquilo que não foi ainda aplicado, nem há, para justas apreciações, uma dose suficiente de experiência e de estudo.
Não basta ter lido a história da democracia grega ou romana e de tão poucos dados elevar-se logo à noção geral do governo democrático, para estigmatizá-lo e combatê-lo. Não é na observação particular deste ou daquele povo que se pode haurir a ideia do governo em sua universalidade; é no fundo eterno e invariável da natureza humana que se descobrem as leis eternas da existência e desenvolvimento das nações.
Nem se nos venha mais falar de uma democracia antiga e outra moderna, estabelecer confrontações e tirar consequências favoráveis ao descrédito de ambas. Não se diga, com Guizot, que a democracia moderna não aspira ao poder, não quer governar, quer apenas intervir no governo, para que seja bem governada e possa entregar-se à vida doméstica, aos seus negócios privados.
Tais ideias, aparentemente admissíveis, envolvem um subterfúgio, e constituem menos a exata narração de um fato, do que a aspiração de um partido; elas parecem menos uma realidade do que uma sugestão, um conselho maligno dado ao povo pelo gênio da política retrógrada.
O princípio democrático, em sua ideia, não é decerto que todo o cidadão, como tal, exerça funções de governo diretas e imediatas, mas é que todos por sua ação, menos periódica e mais tenaz, possam, como lhes aprouver, mudar e melhorar as peças governativas; é que o espírito popular não esteja de um lado, e os poderes constituídos de outro, é que a representação nacional seja uma coisa séria, expressiva e real, que o menor interesse público tenha sempre um voto que o signifique; é em suma a liberdade, operando como força, e a igualdade operando, como tendência, em todos os átomos do corpo social, para a sua completa harmonia e felicidade.
Disse a igualdade operando como tendência, e não quero deixar passar a frase, desacompanhada de explicação. Pode correr o risco de não ser entendida. Disse-o pois e repito. É neste ponto que separo-me das utopias comuns. A igualdade só pode obrar como tendência, não pode obrar como direito. Se é absurdo que o criado, por exemplo, queira ser igual ao amo, que o operário queira ser igual ao capitalista, não é absurdo, antes natural, que um e outro, como termos de relação, tendam a nivelar-se com o termo correspondente.
Ao passo que a liberdade é uma força individual, força ativa e consciente, a igualdade é apenas, como vimos, um pendor social; e ao passo que as leis da liberdade são subjetivas, as que regulam a igualdade são objetivas e estranhas à vontade do indivíduo.
A democracia sensata que proclama a liberdade como seu magno princípio, não pode prometer a igualdade senão como resultante de todas as forças contrabalançadas no seio da sociedade; não quer bater o cordel na cabeça do povo, não quer passar a régua na superfície dos mares.
Onde está o perigo de semelhante governo?... Onde a inconveniência da realização de sua ideia?...
É mister acabar com estes falsos pressentimentos, com estes manhosos receios da escola do cesarismo.”

O crítico sergipano já em 1870 tinha a clara intuição das grandes mudanças por que estava passando o espírito brasileiro. Estas suas palavras, denunciadoras do mal secreto que nos minava, são de um golpe de vista admirável:

“Por maior que seja atualmente a gritaria dos áulicos, nos festins da realeza, por cima de todos os ruídos e algazarras da época, é possível distinguir alguma coisa de estranho, que vem sobre nós, que se aproxima de nós para salvar-nos ou perder-nos de um modo irresistível.
E como quer que seja, não há dúvida que estamos em uma hora solene e decisiva. O instinto superior do povo atira-se em busca de não sei que nova forma de vida, pela necessidade de uma regeneração social. Bem como as aves que fogem aos rigores do clima os espíritos se lançam atrás da liberdade: é uma espécie de emigração no tempo, que distingue as gerações valentes e ávidas do melhor. As nações como indivíduos, estão sujeitas a enlarguecimentos de crânio, para dar pouso às novas ideias. O Brasil está neste caso. Desgostoso do presente, volve-se de todo para o futuro, e aspira, da abundância da alma, esse grande aliquid, quod pulmo animae praelargus anhelet.
Não dissimularemos que há enormes dificuldades a vencer para vazar os desígnios ferventes de algumas cabeças no vasto molde do pensar de todos! Mas nem por isso é menos certo que o pensamento político do país tem a contar uma evolução de mais.”

Mas ainda então era no povo que estavam as suas esperanças. Eis aqui:

“Se ousadamente não crescemos nos instintos generosos que ainda vicejam no coração popular, faltar-nos-ia sem dúvida o ânimo preciso para afrontar alguma coisa de penoso e arriscado, que sempre se oferece ao escritor político.
Mas felizmente no fundo de muita consciência honesta, como em ninho de ave selvagem, dormem tranquilas as nobres aspirações e vívidas tendências que hão de levar-nos a melhores e mais propícios tempos.
E é somente destes anelos irresistíveis, destes pressentimentos profundos, que se podem conjeturar as mudanças que se aproximam; como de todas essas cores múltiplas jogadas através da atmosfera social mal se combina o quadro das realidades futuras.”

Aqui vão agora as fortes expressões com que caracterizou as duas noções de ordem e progresso, como alvos de dois partidos:

“Tendo em vista menos convencer os outros do que preparar a terra em que se estenda a raiz de minhas convicções, o que me interessa não é o apoio alheio, mas o de minha própria consciência, assegurando-me a posse da verdade.
Repetindo que não são puras modalidades acidentais as diferenças que separam liberais e conservadores, quero por este ponto, que é para mim capital, avivar a linha divisória, já hoje completamente apagada pelos manejos da chicana política.
Sem pretender impugnar os que possam sentir de um modo contrário, eu não tenho as noções de ordem e progresso, sobre que se há quase criado numa tal ou qual doutrina, como bastante claras e inteligíveis, para servirem de bandeira e atraírem espontaneamente as adesões populares.
A concepção destes dois fatos ou destas duas ideias, como uma tese e uma antítese conciliáveis em uma síntese superior, é demasiado filosófica e abstrata, incapaz de cativar a atenção geral.
E os esforços empregados por aqueles, que tentam produzir tal conciliação, ou explicá-la a seu modo, perante o povo descuidoso e pouco refletido, dão apenas testemunho da fatuidade com que certos homens julgam poder empolgar em suas mãozinhas de pequenos estadistas e pensadores pigmeus, o globo de fogo das sociedades políticas.
A ordem e o progresso não são simples instituições que baste enunciar para se compreender. Há nelas uma complexidade, uma combinação de outras ideias que é difícil discernir.
A psicologia e a história são acordes em atestar que essas noções não se oferecem ao espírito humano como princípios diretores de sua inteligência ou de sua atividade; nem posso crer que a personalidade coletiva em sua vida tenha outros móveis de ação que não os mesmos do indivíduo.
Quer em geral, quer em particular, nem o progresso nem a ordem são coisas que se façam ou se deixem de fazer, a sabor de nossas veleidades.
Com efeito o progresso das sociedades, sempre maior que a resistência de um governo, também é sempre maior que a proteção de um partido. Quase que tanto valera ser partidário do movimento assombroso que arrasta o nosso mundo solar a mergulhar-se nos abismos siderais, em busca de destinos desconhecidos!...
Por outro lado, quando se fala de ordem, de ordem social propriamente dita, não é possível deixar de entender por tal expressão não só um complexo de leis respectivas, como também a resultante de sua inteira aplicação, que é a harmonia de todas as forças que elas regularizam na direção de um término, talvez inatingível, mas certamente concebível.
É fácil de deduzir que, assim compreendia, a ordem social não oferece, não pode oferecer as condições de um princípio conservador. Em vez de consistir na permanência de um estado de coisas, ela é pelo contrário uma espécie de ponto ideal das aspirações e tendências sociais.
Imaginai de feito uma nação em que todas as leis do mundo moral, éticas, estéticas, industriais e econômicas, sejam exatamente cumpridas, e vós tereis o tipo, a verdadeira ideia do que seja a ordem social.
Não há pois, mais ridícula pretensão do que a desses homens obcecados pela poeira de velhos prejuízos, que em nome da ordem, isto é, da coesão, da unidade, da harmonia total, comprimem, reprimem, sufocam o espírito popular em seus voos impetuosos para uma melhor esfera, de que tem o pressentimento vivo e inextinguível.
Por uma estranha inversão de ideias, a ordem não é para eles o centro em torno do qual gravitam e para o qual se encaminham todos os esforços individuais, ainda hoje perdidos, dispersos, desagregados na atmosfera da história pelo calor das lutas estéreis, das dissidências inúteis.
A ordem, como eles entendem, é o silêncio e o deserto, é a paz das trevas e a tranquilidade dos túmulos, é a doçura do sonho dormido sob as asas de uma providência factícia que se diz velar pela sociedade!
Não sei como há ainda quem se iluda com estas aparências de reflexão e sensatez que sói arrogar-se o conservantismo de todos os tempos, com estas grosseiras contrafações da ordem pública, expressas nas leis, nas opiniões e até nos costumes em que chegue a preponderar o espírito conservador.”

Mas onde o critério político de nosso crítico se mostrava sobretudo atilado era no seu modo de encarar o papel dos municípios, das províncias e da capital, a corte entre nós.
Convém ouvi-lo nestes pontos:

“A exata observação dos fatos que dão testemunhos do caráter e da índole do povo, isto é, de todos nós, verifica a existência de duas forças inegáveis, igualmente reais, igualmente indestrutíveis. Com efeito, a par do espírito nacional que constitui e anima o Estado pelo sentimento e consciência de sua unidade, revela-se também alguma coisa de mais restrito e não menos poderoso, que é o espírito provincial.
Por maiores que tenham sido os efeitos da centralização, não foram eles ainda bastantes para extinguir este princípio de variedade, que é ao mesmo tempo um princípio de vigor e de beleza no interior e no exterior da nação.
Se é só pelo nacionalismo que o povo se levanta no sentido das grandes emoções sociais, não é menos exato que só essa tendência, a que podemos dar o nome de provincialismo, é capaz de operar o seu desenvolvimento.
Não há dúvida que o espírito nacional é a força única motora dos altos feitos e ações brilhantes que recomendam o Estado diante de outros Estados.
Mas isto não basta para produzir a felicidade interna, pondo em jogo, na direção da utilidade comum, todos os meios ativos de progresso.
E pois que esta é a função adaptada ao nosso espírito provincial, releva combater no intuito de dar à província o lugar que lhe compete, não pelo arbítrio e capricho dos homens, mas pela própria natureza das coisas.
Notar-se-á com razão que tenhamos posto de parte o que diz respeito ao município. Sentimos dizê-lo, mas temos como verdade que entre nós não existe o que merece algures o nome de espírito comunal.
Ora, assim como no indivíduo e na família, também na comuna a liberdade não é o princípio da vida; é uma condição de expandir e prosperar.
Mas a observação mostra que, salvo algumas raras exceções, cujas causas aliás bem indagadas viriam talvez confirmar a regra, as nossas municipalidades são em geral uns verdadeiros cadáveres, meras instituições nominais, que nada fazem, que nada adiantam.
Falta-lhe uma certa índole peculiar, falta-lhe o espírito vivificador.
É fácil objetar que nós aqui tomando o efeito pela causa, não notamos que essa mesma ausência de vitalidade é um resultado da centralização administrativa, que comprime os municípios e tira-lhes a importância.
Pode ser; mas nós não queremos indagar os motivos, queremos verificar o fato; e como tal, é certo que os municípios são entidades inanes. Não se dá órgãos e funções àquilo que não tem vida; nem há meios fáceis de os ressuscitar armados de todas as condições morais e econômicas, necessárias à mantença de um verdadeiro poder.
É muito conhecido o belo pensamento de Tocqueville, que as instituições comunais são para a liberdade o que as escolas primárias são para a ciência. Mas não é menos certo que não basta existir a escola, para haver quem a frequente e aprenda, como não basta existir a comuna, para se auferir o proveito desejado.
Uma e outra coisa pressupõe o gosto e atitude natural, que não se improvisam, que não são factícios. Muitos dos nossos municípios figurariam escolas no deserto.
Tocquerville mesmo nos adverte que na grande união americana, existem não só instituições comunais, mas ainda um espírito que as sustenta e vivifica. Daí se pode tirar a confirmação do que temos opinado, pois que não há entre nós esse primeiro alento da vida municipal, o apego do amor e do interesse circunscrito a uma pequena ordem dos fatos.
Os hábitos e tendências do povo levam-no a inscrever as suas relações políticas em um círculo maior. A própria linguagem, que muitas vezes bem examinada equivale a uma psicologia da alma popular, pode aqui dar-nos algum testemunho.
Em Pernambuco, por exemplo, o nome de pernambucano é uma ênfase de alta significação que em geral se assume, relativa e absolutamente.
É mais que um nome pátrio: tem alguma coisa de gentílico; não designa simplesmente uma porção de terra, mas tem o ar de distinguir uma gente.
Confronte-se agora o homem da província com o homem do município. Vede, ao passo que sobressai o pernambucano, não aparece o olindense, o escadense, o goianense, etc., etc... palavras que pelo desuso assemelham-se a barbarismo.
O exemplo é muito simples; mas não deixa por isso de encerrar uma verdade.
Deixamos dito que entre nós o município não tem força nem vida própria em face da província, cujo espírito é claramente manifesto. O fato é tão incontestável, que não dá lugar à questão seriamente suscitada sobre as altas franquezas municipais.
Conhecemos que o princípio liberal deve estender-se a todas as liberdades; sem o que não passaria de um engodo, mais uma mentira. Conhecemos ainda que a vida comunal é uma premissa fecunda de felizes consequências. Não achamos, todavia, que estas verdades bastem para autorizar-nos a pugnar pela autonomização dos municípios em geral.
Nem há nisto coisa alguma estranhável, que possa ferir de frente as convicções liberais.
Não repugna ao próprio espírito democrático reconhecer a nulidade atual da comuna em quase todas as sociedades modernas e declarar que as mais belas teorias da constituição e organização comunal não podem ser aplicadas em face dos obstáculos acumulados no íntimo da vida pública.
Sirva de prova o testemunho insuspeito de Vacherot democrata, que não duvida confessar a insuficiência do município, a quem faltam certas condições de população e território, para preencher as funções que se lhe destinam.
Não se julgue pois que semelhante problema entende essencialmente com as maiores garantias em nome do liberalismo. É um engano dos que não querem penetrar além da superfície das coisas.
Não entraremos em minúcias que são escusadas para sustentar um fato e refutar um despropósito.
Há quem increpe os autores do Ato Adicional, por não terem levado a ideia de descentralização, que os inspirava, às suas últimas consequências.
A crítica é justa, no sentido de que o intuito exclusivo de dar às províncias uma certa importância, que não tinham, fez deixar no esquecimento os pobres municípios.
Desta arte, quando o art. 1º do Ato Adicional diz que o direito reconhecido e garantido pelo art. 71 da Constituição, será exercitado pelas câmaras dos distritos e pelas assembleias provinciais, era de esperar que se traçassem também, como a respeito da província, os princípios reguladores da municipalidade, no círculo de suas mais simples e naturais atribuições. Esta lacuna é palpável.
Nem vale considerar que esses princípios já estavam firmados pela Lei de 1° de Outubro de 1828. Esta lei que não é má, tem, todavia, o defeito de subordinar as câmaras de eleição popular aos presidentes das províncias, isto é, a subministros ou apêndices do poder executivo; o que é absurdo em um direito constitucional.
Foi o que não quiseram ver os legisladores das Reformas, que entretanto podiam ainda naquele tempo ter tentado a experiência, livrando os municípios do jugo indébito que acabou por desmoralizá-los e torná-los inúteis para as coisas mais insignificantes.
Se assim fora, pouco importava, nestas condições, prendê-los docemente à vigilância única das assembleias provinciais, saídas da mesma fonte e devotadas a igual ordem de interesses.
Não é pois censurável o Ato Adicional, como a alguns parece, pelo que encerra de positivo a respeito dos municípios, mas pelo que tem de negativo, deixando de dar novas bases para a sua direção, e consentindo que, além das assembleias, ainda os presidentes tivessem as câmaras debaixo de suas vistas.
Se não é que se pretenda retrogradar uns oito séculos, e cair em plena Idade Média, nos tempos do direito estatutário, não descobrimos motivo sério, pelo qual se reclamem as franquias comunais em toda a extensão da ideia.
O que há de imediatamente necessário e possível é a franqueza provincial. Lutemos por ela.
O que há no Brasil de aspirações elevadas, de ideias generosas, de vitalidade oculta e aproveitável, estua fervidamente no seio das províncias. Assim o cremos e não tememos dizer.
Costumes, caracteres, tradições, é rara a que não tem tudo isto propriamente seu. Estes gérmens, ou melhor, estes princípios de atividade moral, devidos a circunstâncias naturais ou históricas, são outras tantas forças que entregues a si mesmas, ao seu impulso, podiam fazer em geral de cada província nossa uma entidade brilhante, capaz de ser vista e admirada de longe.
É possível, e nós não duvidamos, que a centralização tenha algures efeitos grandiosos. É possível que, como diz Dupont White, ela signifique, além de uma capital do governo, uma capital do pensamento; e por isso não admira que escritores franceses defendam esta causa, quando eles têm um argumento vivo, um argumento de fogo, a grandeza intelectual de Paris.
Mas entre nós o aspecto é outro. A capital, donde partem as leis e os regulamentos e os avisos e as ordens secretas e todo esse tecido administrativo que nos embrulha, não é uma fonte de ideias, não é uma capital do pensamento.
Em matéria de letras e ciências, as províncias que obedecem à corte do império parecem planetas que gravitassem em torno do centro, por uma espécie de hábito mecânico, mas que recebessem de outra esfera o calor, a vida e a luz.
O Rio de Janeiro é simplesmente uma cidade oficial, onde por conseguinte, o charlatanismo de todos os gêneros, a rabulice de todas as formas, podem conquistar posições e nomeadas. Conquistar!... Dissemos nós; mas é um mau dizer. Ali não se conquista, consegue-se. E os meios são facílimos.
Muito há que entre nós se clama contra a centralização, que se apontam as suas desvantagens, que se amaldiçoam os seus efeitos. Não tomaremos a palavra para repetir o que outros têm dito e dito bem.
Mas é certo que os nobres combatentes encarando exclusivamente o mundo político, só têm visto as consequências imediatas do fato; escapa-lhes alguma coisa de mais longínquo e não menos importante.
Entretanto, a ordem política é solidária da ordem moral e intelectual. Quando as questões daquela só se resolvem no círculo dos cortesãos, pouco falta e pouco admira que todas as outras comecem a ir também lá ter a sua última palavra.
O que na corte é de uma facilidade vulgar, nas províncias é de uma dificuldade medonha. Queremos falar do engrandecimento e notabilidade, que ali assume, sem trabalho sério, qualquer filho do sucesso e da ventura.
A província pode ter seus grandes homens, seus talentos aproveitáveis. Nada importa; não são conhecidos nem falados, enquanto não fazem uma romaria política, ou mesmo literária, a capital do império, de que se pode dizer o que disse Tácito da prostituta dos Césares: Urbem, quo cuncta undique atrocia aut pudenda confluunt celebranturque.
E quando acontece que algum espírito elevado tenha o atrevimento de se fazer notável na província, de falar alto e bonito, por muito tempo, sem receber da corte o decreto que o promova ao grau de capacidade e ilustração do país, ai! dele, que há de espiar, um dia, pelo ridículo, a sua própria grandeza. Não é preciso dizer que tivemos um exemplo em Nascimento Feitosa.
Na corte onde se engendram os ministros e os presidentes de província, onde se decretam os deputados e senadores, é também que se nomeiam os publicistas, os escritores de todos os gêneros. E como sempre sucede, não é sobre o mérito real que se depõem essas coroas.
Desafiamos nas províncias a qualquer espírito mais culto, que resolvendo o cofre de suas ideias, encontre uma só joia de preço que lhe tenha vindo da terra dos estadistas, por intermédio de seus jornais ou de seus livros. Nenhuma, absolutamente nenhuma.
E no entanto não conhecemos outro modo de influência e preponderância moral, que não seja a força das ideias.
Mas é com este mesmo critério que nós indagamos a razão por que se despende tanto trabalho e tanta vida com um centro de governo, com uma capital, inútil para tudo mais, que não seja uma aparência de garantia, sob o rifle do soldado e a pena do coletor...
Então achamos que é ridículo o papel das províncias, em face da cidade oficial, onde muitas vezes as lágrimas do povo esquecido vão cair transformadas em pingos de ouro, para dita de aventureiros.
Desprezamos os idílios do cesarismo; não gostamos também das elegias demagógicas; mas é de lastimar tanta ruindade e tanta humilhação.
Se um dia algum homem de Deus, como não podem mais existir, se levantasse sob a forma de algum homem do povo, como é difícil que entre nós ainda exista, é cheio de consciência, animado do espírito da justiça, rasgasse a sua capa em vinte pedaços, para dá-los a quem bem lhe parecesse, não sabemos qual das tribos permaneceria fiel...
Isto é bíblico, simbólico, e digno de ser meditado.”

Respingando-se nos escritos de Tobias, no correr de vinte anos, encontram-se frases de censura aos três partidos que disputavam na arena política do país: os conservadores — se lhe afiguravam retrógrados, homens do rei, reacionários, compressores; os liberais — contraditórios, fantasistas, incapazes de cumprir o que prometiam, estragados pela fraseologia retórica dos declamadores; os republicanos — incertos, vacilantes entre as parlamentarices francesas e o arrocho norte-americano. Não era isto contradição de sua parte, desde que nunca se filiou em bando algum, como sectário decidido, como partidário submisso, ortodoxo, cabisbaixo ao mando dos chefes. Era um livre atirador; não passou nunca de um crítico, a que os erros inegáveis dos três partidos desgostavam, provocando-lhe a verve cáustica.
Não encontrou neste país quem fizesse a política larga, humana, democrática e nacional, brotada de nossa história, que ele sonhava.
Teve a felicidade de morrer antes de 15 de Novembro de 1889. Se tivesse vivido até o advento de certos grandes homens do atual regímen, e cometesse a simpleza de julgar ainda possível o uso da livre crítica que estava costumado a manejar, teria sido preso e quem sabe se não fuzilado?

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