sexta-feira, 1 de agosto de 2008

O Mundo Interior, § 89

Farias Brito


A questão do método: significação e valor da introspecção 
Ao estudo da “coisa em si” ou do espírito, do ser que sente e percebe, do ser que conhece e é o princípio da ação, chamo filosofia: e tal é, da filosofia, a intuição definitiva e exata. E neste sentido a filosofia é também uma ciência especial: é a ciência ou o conhecimento do espírito, em distinção da ciência propriamente dita, que é o conhecimento da matéria. Mas não deixa, por isto, de ser a ciência universal, porque sendo a ciência do espírito, uma vez que o espírito é, como já vimos, a substância e o ser verdadeiro de todas as coisas, segue-se daí que é a única ciência que poderá dar solução ao problema do universo.

 A “coisa em si” ou o espírito, já o vimos também, só pode ser conhecido por observação interior. Isto quer dizer que a filosofia tem o seu método próprio, especial e exclusivo, radicalmente distinto dos métodos próprios da ciência, que todos se resolvem em processos de busca objetiva e em métodos de observação exterior. Ao método da filosofia chamo introspecção. Outros lhe têm dado nomes diversos, em particular, o nome de intuição. Assim, em época anterior, Hamann, Herder, Jacobi; assim nos nossos dias Bergson, Le Roy. Mas por intuição entende-se também o conhecimento derivado imediatamente dos sentidos. É a visão direta, imediata das coisas. E como essa visão, partindo da consciência, toma duas direções opostas, para o interior e para o exterior da consciência, resulta daí que a intuição abrange, não somente o espírito, mas igualmente a matéria. E nós, temos de fato, intuição, não somente das operações da consciência, mas também das mudanças corpóreas. A intuição é, pois, de significação pouco segura, e presta-se a equívocos. Por isto prefiro a palavra introspecção. Não tem por si, esta palavra, o prestígio da novidade, mas é de significação mais clara e mais precisa. Por introspecção entende-se, expressamente, exclusivamente, a observação interior, a observação dos estados da consciência e dos movimentos do espírito. Tal é, pois, com toda a segurança, indubitavelmente, o método próprio da filosofia.

A este método, entretanto, tem-se feito e ainda se continua a fazer, uma oposição formidável. É o que se explica como consequência inevitável, fatal do predomínio do materialismo. E realmente, se tudo é matéria, não se compreende outra espécie de observação, a não ser a observação exterior.

A introspecção fica, pois, excluída em absoluto. Ora, houve um tempo em que o materialismo chegou a impor-se a muitos como a verdade na filosofia. Não se admitia outra filosofia. E para os que se deixaram dominar por este pensamento, era não somente legítima, mas irresistível a exclusão da introspecção, pois não pode haver introspecção desde que se nega o espírito. E tal foi a influência do materialismo e tão longo foi seu domínio, que essa guerra à introspecção levou mais de um século e ainda hoje persiste, se bem que esteja, já agora, completamente desmoronado, tal sistema, tornando-se de reconhecimento universal que se trata aí de uma interpretação absurda da realidade, e se bem que seja de fato, o materialismo, como já fiz sentir (§75), um monstro lógico. Villa, por exemplo, é um pensador de mérito, e mostra aliás, pronunciada tendência para o idealismo, ou, pelo menos, para um certo panteísmo ou monismo idealista, embora seja nisto um pouco vacilante e dúbio, por não poder vencer a influência dominadora do naturalismo. Mas, em todo o caso, repele expressamente o materialismo. Pois bem: tratando da introspecção, assinala o caráter vago e quase místico de todos os trabalhos fundados sobre este método. E dá como exemplo Jouffroy, a quem qualifica como um dos mais notáveis representantes do sistema. E se bem que não chegue a afirmar que a introspecção é coisa contraditória e por conseguinte impossível, como fez, por exemplo, Augusto Comte, contudo diz assim: “O método de introspecção limita as observações a uma certa idade do homem e não pode dar senão resultados pouco precisos. E se não podemos tirar nenhuma indicação da criança ou do louco, ainda menos podemos ter, por este método, uma noção qualquer dos estados psíquicos dos animais. A psicologia da percepção interna fica, por isto, condenada a ficar vaga e estéril. Acreditando seguir o método de observação, os psicólogos do senso íntimo eram levados a ideias que excediam a experiência e tomavam muitas vezes o aspecto de visões místicas. Esta psicologia oferecia sobretudo um encanto literário e o trabalho do observador consistia em notar, em — um jornal íntimo —, todos os pensamentos que lhe passavam pelo espírito, pensamento que podiam sem dúvida oferecer grande interesse, mas de que nada se podia tirar fora do prazer estético. Podemos fazer, destes escritos pseudocientíficos, uma ideia muito exata, pelos romances psicológicos contemporâneos que têm com os mesmos perfeita analogia.[1]

Villa reporta-se a Lange, de quem lembra a crítica fina que foi feita às opiniões de Fortlage. Lange, por seu lado, apóia-se em Kant. E este, considerando impossível a psicologia como ciência, dava como razão para isto a ineficácia da observação interior. E cito somente estes autores para limitar-me aos mais autorizados e, por isto mesmo, aos mais imparciais e insuspeitos.

Kant, sustentando que o estudo de si mesmo é uma comparação metódica das observações feitas sobre nós mesmos, acrescenta que essa comparação apenas fornece ao observador a matéria de um jornal autobiográfico e pode facilmente levar às alucinações e à loucura. Ninguém deverá, pois, ocupar-se, por modo algum, com “o exame, ou por assim dizer, com a redação estudada, da história íntima do curso involuntário de seus pensamentos e de seus sentimentos, porque tal é o reto caminho que leva à confusão do espírito, e pela influência de inspirações superiores e sob a impulsão de forças estranhas à vontade, saídas não se sabe de onde, nos precipita no iluminismo ou em terrores contínuos”.

Manifestando-se por esta forma, parece que o filósofo fundador do criticismo falava sob a impressão dos místicos de seu tempo. É de supor que tivesse em vista Swedenborg que, como é sabido, fortemente o impressionou. Também sobre Swedenborg, particularmente, Kant chegou a escrever um livro sob este título sugestivo e impressionante: Sonhos de um visionário explicados pelos sonhos da metafísica (1766). E é este livro precisamente que marca, segundo Nolen[2], o seu rompimento definitivo com a velha metafísica.

Quem trata, porém, assim da introspecção, mostra desconhecer por completo o sentido real e a significação verdadeira deste processo lógico. Kant confunde introspecção com imaginação. E do mesmo modo Lange. E do mesmo modo Villa. E assim todos os adversários deste método. Não pode haver erro mais grave. Introspecção não é imaginação, e menos ainda visão mística. Decerto abusa-se em alto grau da imaginação, e há muitos trabalhos apresentados como resultado seguro da observação interior que não passam de obra puramente imaginária. Mas verifica-se também a mesma coisa na observação exterior. E há muitos sistemas de filosofia da natureza que não passam de verdadeiros romances. Neste ponto o perigo é comum e os trabalhos fundados sobre a observação exterior não estão isentos do erro, e podem facilmente degenerar em mera fantasmagoria, nas mesmas condições que as especulações de ordem introspectiva. Basta para isto que não haja a necessária segurança na direção da observação, e a necessária precisão e rigor nas deduções, como nas generalizações.

Kant, entretanto, condenando como estéril ou mesmo como prejudicial no homem a observação de si mesmo, admite, não obstante, em cada um a observação dos outros. Esta última espécie de observação é de ordem objetiva, empírica, portanto. E é assim que Kant nega a possibilidade de uma psicologia racional, mas admite a possibilidade de uma psicologia empírica. Estas afirmações, sucedendo a uma negação, são frequentes no filósofo da Crítica da razão pura[3]. Parece que é aí que está a chave mesma do sistema. Mas a razão, em sua significação natural e legítima, não tem o seu fundamento inicial nos sentidos, e não é, em última análise, um como desenvolvimento ou prolongamento da experiência mesma? Para que levantar antagonismos onde no fundo há harmonia e conformidade? Para que cavar um abismo entre coisas que são, em realidade, idênticas senão em sua natureza própria, pelo menos, em consequência dos fatos a que se prendem e pelo fim a que se destinam?... Não pode o homem observar-se a si mesmo; mas pode observar os outros homens. É uma singular distinção, esta. Quer dizer que não pode cada um conhecer o desenvolvimento do espírito em si mesmo, senão pela observação dos movimentos que os outros realizam exteriormente. A introspecção seria ineficaz e é, pois, ainda pela observação externa que devemos apreciar a vida interior. Mas é exatamente o contrário que se dá. Não nos julgamos pelos atos dos outros; pelo contrário julgamos os outros, apreciando os seus movimentos exteriores, como estando sob a dependência de uma consciência e como estando, em ligação necessária, com sentimentos e ideias análogas às nossas. Há, pois, sempre introspecção, embora indiretamente. E sem introspecção, excluída esta absolutamente, seria impossível conhecer qualquer coisa da vida do espírito, quer em nós, quer fora de nós; porque para conhecer qualquer coisa do espírito é necessário sentir, apreender, de modo direto, imediato, interno, o que se passa no ser mesmo, ler no fundo da consciência. Também, a observação interior é que constitui o fundamento e a base de toda a observação; e todos os processos de busca, ainda os mais objetivos e os mais exclusivamente ligados à existência puramente material ou exterior, estão sob sua dependência. E, em rigor, o método introspectivo é que é precisamente o método fundamental; e a observação externa não é senão uma derivação e uma dependência da observação interior, um como prolongamento da observação interior mesma, pois, como é sabido, só podemos observar e conhecer as coisas exteriores pelas impressões que produzem em nós e através dos estados de nossa própria consciência.

A observação interior é sem dúvida difícil, com certeza, mais difícil que a observação externa. Nesta última aplica-se o critério do peso e da medida, submete-se a um cálculo preciso o resultado da observação, faz-se a verificação material dos fatos. Nada disto é possível na observação interior. Aqui os fatos com que se joga são indeterminados e vagos, intangíveis e ocultos. Não há uma forma exterior que se possa por qualquer modo apreender, nem sucessão regular que se resolva em leis invariáveis e certas, à semelhança das leis naturais, objetivas. E se é permitido falar aí de leis no sentido das leis naturais, é somente por analogia e, em rigor, em sentido metafórico. E do mundo exterior para o mundo subjetivo, do mundo da pura fenomenalidade para o mundo da “coisa em si” e da consciência, há uma distinção radical, absoluta, por tal modo que é absolutamente impossível reduzir uma coisa à outra: é que no mundo exterior tudo está subordinado à mais absoluta necessidade, ao passo que no mundo subjetivo domina a liberdade. É o que levava Kant a negar a possibilidade da psicologia como ciência. Mas nisto há apenas um equívoco. É que Kant não admitia ciência senão como sistematização no sentido da causalidade mecânica. Mas há também a causalidade psíquica. É desta que resulta a liberdade. Da causalidade mecânica resulta ao contrário a necessidade. Mas a causalidade mecânica não é talvez senão uma sombra da causalidade psíquica; e o mundo exterior, o mundo da natureza e dos corpos, em aparência se nos representa como um movimento contínuo, por tal modo que tudo nele se resolve em puro mecanismo; mas de fato, como “coisa em si”, que é, como desenvolvimento do espírito, não é simplesmente um movimento contínuo, mas uma ação permanente. E no mundo humano, no mundo em que a subjetividade se faz percebível, realmente, assim é, pois aí o movimento é consciente, e o movimento consciente é exatamente o que se chama ação. E se não podemos isto verificar no mundo exterior, é porque do mundo exterior não podemos penetrar a essência íntima, uma vez que só o podemos observar exteriormente.

Há, pois, uma ciência que se resolve em sistematizações no sentido da causalidade mecânica: é a física, compreendendo a matemática, a física propriamente dita, a química, etc. E há uma ciência fundada na causalidade psíquica: é a psicologia, compreendendo a lógica, a ética e a estética. A primeira tem por objeto a realidade externa; a segunda, a realidade interior. A primeira refere-se ao mundo das aparências, ao mundo da pura fenomenalidade. A segunda refere-se ao real em si mesmo, ao ser íntimo e fundamental que se oculta através dos fenômenos. Daí a supremacia da psicologia. É a ciência fundamental, a ciência das ciências. É também a ciência da “coisa em si”, do ser verdadeiro, e é só a esta ciência que é dado, por assim dizer, entrar no coração das coisas. Mas também, para isto, lhe é necessário um método especial, um método que não se limite a observar a pura fenomenalidade, a forma exterior ou a superfície da matéria, mas que entre no âmago da realidade, de modo a ver o que se passa no arcano mais profundo do ser, onde nenhuma luz exterior penetra: uma como luz interior que penetra nas trevas. Tal é o método da observação interior ou o método introspectivo.

Diz-se, entretanto, que a psicologia é impossível como ciência, não só por se considerar de todo ineficaz a observação interior, como faz Kant; mas ainda por se considerar extremamente difícil, senão impossível, subordinar a vida psicológica, ou o mundo ético-psíquico, ao domínio das leis naturais. É que reina sobre este assunto uma confusão enorme. Lei, na sua significação natural, primitiva, na sua significação histórica, tradicional, é norma de conduta imposta a seres livres. Deste modo só se compreende e só se aplica legitimamente na ordem moral. Mas resulta da lei a harmonia da sociedade. E como há também harmonia na natureza, entende-se que esta igualmente se deveria explicar como tendo o seu fundamento na lei. Desde que é pela lei que se estabelece a ordem na sociedade, deve ser também pela lei que se estabelece a ordem na natureza. E foi assim que a lei passou da ordem moral para a ordem natural. Mas sendo transportada para a natureza, a lei perdeu os seus caracteres próprios. Deixou de ser lei de seres livres e tornou-se lei da matéria bruta: tornou-se, como os movimentos da matéria, necessária, inevitável, fatal. E, tendo adquirido na natureza esses caracteres novos, a lei voltou para a ordem moral, pretendendo estabelecer até aí, o seu domínio, mas voltou, como diz Bergson, na sua linguagem imaginosa, corrompida da viagem. E é assim que se pretende subordinar a ordem moral, que é a ordem própria do espírito, ao mecanismo fatal da natureza; e é assim que se nega a liberdade, pretendendo subordinar também o espírito, que é a liberdade mesma, ao desenvolvimento puramente mecânico e ao determinismo cego da matéria. E realmente para quem interpreta assim a ordem moral, a psicologia é impossível. Daí a subordinação da psicologia à mecânica, da metafísica à física: o que, no fundo, seria equivalente a afirmar que o consciente se explica pelo inconsciente, a luz pela sombra, o ser pelo nada.

O que, porém, mais concorre para agravar este estado de coisas e aumentar a confusão, é a ignorância profunda que reina quanto à verdadeira significação da “coisa em si” em distinção dos fenômenos. Faz-se da própria matéria a “coisa em si”, a única realidade (materialismo); ou nega-se a “coisa em si”, não se admitindo como objeto do conhecimento outra coisa além da pura fenomenalidade (fenomenismo). De toda a forma, desconhecendo-se que a “coisa em si”, o ser verdadeiro, é a existência subjetiva ou o espírito, tudo fica reduzido a aparências exteriores, e neste caso não se compreende, de fato, outra observação, além da observação exterior. Toda essa confusão, porém, desaparece instantaneamente, e a luz logo se faz decisiva e completa, uma vez precisado o conceito da “coisa em si”. Esta é o espírito, o ser sensível e pensante, a existência subjetiva. Desde então compreende-se que só pode ser conhecida por observação interior. E como é aí que está a existência verdadeira, o ser íntimo e profundo de todas as coisas, logo se faz patente a legitimidade da observação interior. E não somente isto. Fica também patente que a observação interior é exatamente a observação mais segura e mais eficaz, o ponto de partida e a fonte primordial de toda a observação, o método único e fundamental para a formação do conhecimento, e do qual a própria observação exterior não é senão uma dependência e um prolongamento.

Seremos então independentes das leis da natureza, e faremos na natureza, nós, homens, ou cada homem em particular, em contradição com o que pretendia Espinosa, “um império no império”? Não. Por um lado, pertencemos também ao mundo da pura fenomenalidade; somos corpos e como tais estamos sujeitos às leis do corpo, às leis físico-químicas; fazemos parte da matéria, estamos sujeitos às leis da matéria. É deste modo que nosso corpo se desenvolve segundo leis independentes de nossa consciência e de nossa vontade; e a sociedade em geral, como cada homem em particular, como cada organismo, depende de um meio físico e de condições naturais que se ligam por laços indissolúveis ao mundo exterior e acompanham o curso normal da natureza e a marcha regular das forças cósmicas. Não formamos, pois, um império no império: somos uma partícula mínima no todo, momentos sucessivos no evolver contínuo do eterno vir-a-ser; e estamos, por conseguinte ligados a esse vir-a-ser mesmo e vivemos, sem dúvida, sob a dependência da lei de causalidade universal e dentro do universal determinismo da natureza. Mas, por outro lado, temos também uma existência subjetiva: não somos somente pura fenomenalidade, não somos somente aparências exteriores; somos também energias vivas. Seres reais e existências verdadeiras. Quer dizer: somos consciências e é neste caráter que formamos o mundo ético-psíquico e este tem também suas leis; mas são leis morais, não leis materiais: o que quer dizer que como consciências, somos nós mesmos que estabelecemos as leis que nos regem. Estas são as leis éticas ou morais, e ligam-se ao espírito mesmo, à existência verdadeira; e são, por isto mesmo, leis reais e concretas, leis que exercem ação como forças. As leis naturais, ao contrário, são simples abstrações em nós, da ordem dos fenômenos. As primeiras são fatos; as segundas são apenas processos lógicos para interpretação da realidade, sínteses de conhecimentos e correspondem apenas a generalizações ou induções científicas: não são, pois, como pretende, por exemplo, Haeckel, “leis eternas, leis de bronze”, a que se tenham de submeter os fenômenos como se estivessem ligados a correntes de aço.

Esta objetivação das leis da natureza é hoje um preconceito muito comum. Faz-se da lei natural um fato, uma realidade objetiva, e dá-se a esse fato uma tal extensão e um domínio tão vasto que se chega a interpretar a própria lei moral como um caso particular da lei natural. É uma espécie de realismo da lei, análogo ao realismo das ideias. A ideia é apenas representação ou interpretação da representação, fato, portanto, puramente mental. Faz-se, entretanto, da ideia a realidade mesma e explicam-se as coisas apenas como modalidades da ideia. Tal é o realismo platônico. Do mesmo modo faz-se da lei natural uma simples generalização ou abstração da ordem dos fenômenos, a força mesma que dá direção ao movimento dos fenômenos e mantém em equilíbrio as energias do cosmo.[4]

 Dadas estas explicações tendentes unicamente a desfazer certas dúvidas que embaraçam a compreensão da verdadeira significação do método próprio da filosofia, e também a compreensão da filosofia mesma, como ciência do espírito, podemos agora, sobre este assunto, fazer, em síntese e com a necessária clareza e precisão, a exposição de nosso pensamento fundamental.

A existência universal tem duas formas fundamentais: uma forma objetiva, e neste sentido é a realidade exterior, o mundo da natureza e dos corpos; e uma forma subjetiva, e neste sentido é a consciência, o ser sensível e pensante, ou, numa palavra, o espírito. No primeiro sentido, é uma sucessão indefinida de fenômenos, ou de aparências exteriores do ser; no segundo sentido, é o ser mesmo, a essência íntima e a substância real de toda a existência. Como realidade objetiva ou como aparência exterior a existência é um vir-a-ser contínuo, e tudo se passa aí à luz do Sol e das estrelas, e talvez se deva explicar em função dessa luz mesma, quer dizer, em função e ao calor da luz externa, dentro da qual tudo se move e se agita. Como realidade subjetiva, a existência consiste em sentir e pensar, perceber e conhecer; é o princípio mesmo do sentimento e do conhecimento, da percepção e da ação; é como uma concentração e penetração contínua; uma energia viva, e sempre ativa: luz interior que irradia do coração mesmo da existência, e está por isto em contato imediato com a mais alta Verdade e tem por lei suprema o amor.

Todas as modalidades da existência objetiva resolvem-se em representações no espaço; logo, em corpos, ou em movimentos de corpos. E como é pela força que se explicam os corpos e o movimento, ou tudo o que se refere à matéria ou ao mundo da pura fenomenalidade exterior, daí resulta que é em função da força que tudo aí se explica: o que quer dizer que na ordem objetiva a mais alta generalização é a força. No mundo subjetivo, ao contrário, a mais alta generalização e o princípio de que tudo deriva, e a que tudo se liga, é a consciência. A consciência e a força — eis, pois, a síntese universal: o que quer dizer que tudo o que existe ou pode ser conhecido explica-se ou como força ou como consciência, compreendendo a força todos os fenômenos objetivos, e compreendendo a consciência a totalidade dos fatos de ordem subjetiva. E coisa que não se interprete nem como força, ou fato explicável em função da força; nem como consciência, ou fato psíquico, explicável em função da consciência; coisa que não entre em nenhuma destas duas categorias fundamentais, não existe, nem pode ser conhecida. Há conceitos deduzidos, não por via empírica, mas por inferência lógica, que parecem escapar a esta regra: o éter, por exemplo, aceito hoje quase universalmente pelos físicos. E há quem chegue a afirmar que o éter é já agora fato experimentalmente verificado. Mas, em verdade, o que justifica esse conceito é principalmente a circunstância de ser ele indispensável para a explicação de certos fenômenos, em particular para explicação da luz e da eletricidade. Mas seja ou não correspondente a alguma realidade objetiva, positiva e certa, a verdade é que o éter não escapa à fórmula “força e consciência”, e entra aí rigorosamente. O éter, é certo, é concebido como uma espécie de matéria imponderável: o que significa, no fundo, matéria sem massa, logo sem força. E assim à primeira vista parece escapar à fórmula “força e consciência”. Mas de fato não é assim, porque o éter, se bem que seja imponderável, todavia é concebido como fonte de energia, e das mais poderosas energias; logo, como força. E como a mais poderosa das forças. Alguns chegam até a considerá-lo como a fonte última de toda a energia, identificando-o com a Divindade mesma. Tal é o caso de Haeckel.

Força e consciência — tal é, pois, a síntese de todo o conhecimento e a fórmula geral do universo.

Mas a força ou a existência objetiva, em todas as suas modalidades, só se manifesta e só é suscetível de ser conhecida, como movimento ou deslocação de corpos no espaço; quer dizer: como corpo e operações do corpo, como matéria e operações da matéria. Isto significa que só pode ser conhecida em suas manifestações objetivas, e como representação exterior no espaço; logo, por observação exterior. É a razão por que da matéria só conhecemos a superfície, pois não dispomos de nenhum meio para penetrar na sua essência íntima. Podemos, entretanto, assegurar que é a força, e a força somente, que constitui o elemento essencial e a realidade própria da matéria: o que sabemos pelo fato de nos oferecer, esta, resistência de tal modo que podemos defini-la em termos claros e precisos — o que ocupa espaço e oferece resistência. Podemos então considerar a força como uma espécie de quarta dimensão do espaço: o que quer dizer que o espaço é apenas a superfície das coisas; e a força como quarta dimensão do espaço vem a ser, neste caso e precisamente, a energia que o enche. Mas esta energia resolve-se sempre em corpo ou em movimento de corpos e não há outro processo para conhecê-la, a não ser a observação exterior.

Quanto à existência subjetiva, não: é o espírito, o princípio do sentimento e do conhecimento, uma como luz interior, de pura concentração e penetração, uma energia interna, íntima e profunda. É, pois, evidente que só pode ser conhecida por observação interior. Por conseguinte, tratando-se da filosofia, cujo objeto é exatamente a existência interior ou o espírito, não pode haver dúvida, pois o fato é de evidência irresistível: o método próprio é a observação interior ou a introspecção.

Sobre este ponto parece-me desnecessário insistir. O fato é claro e decisivo, e negá-lo seria negar a evidência mesma; e com os que negam a evidência seria falta de senso discutir.

Mas a introspecção fornece apenas o dado imediato ou o elemento empírico com que se elaboram os conceitos iniciais. E a partir daí, jogamos, na elaboração do conhecimento, com todos os elementos de prova e com todos os recursos do raciocínio: com a indução e a dedução, com a generalização e a abstração, com a análise e a síntese, etc. E há ainda a distinguir a introspecção direta e a introspecção indireta. A primeira consiste, para cada um, na observação dos fatos da própria consciência. Se não houvesse outra observação psíquica, além desta, o resultado seria o solipsismo, e a psicologia seria então, para cada um, apenas o registro de suas emoções e sentimentos, a história particular de sua vida íntima. E haveria assim tantas psicologias quantos indivíduos sensíveis e pensantes: o que equivale a dizer que a psicologia seria impossível como ciência. Realmente, cada consciência é um todo fechado e impenetrável, um absoluto inacessível a outras consciências. Parece, portanto, que não há meio para observar fatos que se passam em consciências estranhas à nossa. Mas não acontece assim. De uma para outra consciência não há, por certo, comunicação por processo interno. Cada uma é, sob este ponto de vista, um todo isolado e forma a seu ponto de vista o centro do mundo; mas há entre as diferentes consciências comunicação segura, positiva e certa por processo exterior. Tal é, por exemplo, a palavra, a linguagem em geral, como qualquer sinal com que se possa dar expressão ao pensamento. Além disto, os estados da alma refletem-se por sinais evidentes no próprio organismo. Uma emoção profunda comove até às lágrimas. O olhar fala. A raiva empalidece. O hábito do crime e a prática da crueldade dão ao indivíduo um aspecto tenebroso e repelente. A piedade, ao contrário, envolve aquele que a pratica habitualmente, numa como atmosfera luminosa e fantástica, através da qual parece que em tudo nele se reflete, no olhar tranquilo e doce, no gesto humilde e brando, na palavra equilibrada e serena, uma como expressão modesta e suavíssima, mas perene, de simpatia e de bondade. Todos estes fatos autorizam a formar juízo seguro sobre sentimentos e ideias, emoções e paixões a que somos estranhos e que se passam em consciências estranhas à nossa.

Observamos, então, estes sentimentos e ideias, estas emoções e paixões, todas as operações psíquicas possíveis, não em si mesmas, mas nos movimentos exteriores que a elas se ligam e que são delas dependentes. Quer dizer: estudamos a alma dos outros, observando os movimentos exteriores que realizam, em correspondência com sentimentos ou ideias análogas às nossas. Tal é o processo de observação a que dou o nome de introspecção indireta. Trata-se aí de fatos exteriores; mas esses fatos são observados, tendo-se em vista, os nossos estados da alma e como através do espelho de nossa própria consciência. A observação é sempre introspectiva, embora indiretamente.

Além disto, a consciência não é somente a energia produtora do conhecimento: é também o princípio da ação. Não somos simplesmente seres sensíveis e pensantes: somos também forças vivas e agentes, centros de atividade. Deste modo, realizamos movimentos exteriores, agimos sobre as coisas. E os nossos movimentos e ações são fatos externos e como tais suscetíveis de observação exterior; mas a observação é, ainda aí, de ordem introspectiva, pois todos estes fatos se ligam imediatamente a operações da energia psíquica.

O método introspectivo é, pois, extremamente vasto e complexo. E a própria observação exterior entra como elemento nos seus processos de investigação e é mesmo o seu mais poderoso instrumento e o seu complemento mais eficaz e mais decisivo.

O psicólogo estuda pela introspecção indireta as manifestações anormais e patológicas da atividade psíquica. Estuda a psicologia infantil, a psicologia do louco, a psicologia dos povos ainda em estado selvagem. Estuda as diferentes manifestações e os diferentes aspectos da vida psicológica através do reino animal e através das diversas raças humanas. É assim que a psicologia se torna uma ciência imensa e decompõe-se em diversos ramos, compreendendo: a psicologia infantil, a psicologia patológica, a psicologia étnica, a psicologia animal, a psicologia comparada, a psicologia genética. Isto sem falar em outras doutrinas ou sistemas que não são propriamente ramos da psicologia, porém antes orientações quanto ao método relativamente a esta ciência como: a psicofísica, a psicoquímica e a psicofisiologia. E já se começa a incluir entra as ciências psíquicas a metapsíquica ou a metapsiquia, que é ou parece ser uma espécie de substitutivo da metafísica. Todas estas ciências ou todos estes ramos de ciência psíquica, jogando com fatos positivos e, em certo sentido, de realidade concreta, aplicam em larga escala a introspecção indireta, e mesmo a observação exterior propriamente dita. Por onde se vê que são extremamente complexos e variados os processos metodológicos de que dispõe a psicologia: o que é natural e legítimo e facilmente se explica; porque sendo a psicologia, exatamente, a ciência mais complexa e difícil, necessário era que dispusesse de instrumentos mais poderosos e mais variados na elaboração do conhecimento. E realmente assim é e o psicólogo, para penetrar no fundo obscuro da consciência e fazer alguma luz sobre o mistério interior, este que é exatamente o mistério mais profundo, precisa de jogar com todos os elementos de prova e com todas as forças do espírito.

E há ainda a considerar a história. Esta é como o laboratório vivo do espírito. E aí o espírito age como energia criadora e dá nascimento a inúmeras atividades ou sistemas de atividades que não são senão realidades tangíveis e visíveis, pelo menos forças efetivas, que nascem e crescem, que se desenvolvem e exercem funções múltiplas e variadas, como se fossem verdadeiros organismos. São forças sociais, forças humanas, que exercem ação positiva e concreta, que determinam acontecimentos, que dão direção às consciências e orientação às vontades. E são estas forças precisamente que constituem o tecido primordial e o fundamento orgânico do mecanismo das sociedades. Assim as línguas; assim o comércio, as indústrias, as artes; assim a ciência, a filosofia; assim o direito, a moral, a religião. São fatos positivos e certos, suscetíveis de observação, por assim dizer, material: um como prolongamento objetivo do espírito mesmo. E é bem de ver quanta luz não poderá daí sair para esclarecimento dos problemas fundamentais da filosofia. E se na filosofia, em verdade, se pode fazer aplicação de algum método que se possa comparar ao que se chama o método experimental nas ciências da matéria, este só pode ser o método histórico, porque a história não é senão o espírito em ação, e estudar o espírito na história é estudá-lo nas suas obras mesmas e à luz da única experiência que é sobre ele possível. Também não é sem razão que se chama a história a mãe da experiência.

Querer fazer filosofia com experiências de laboratório não é somente cegueira, é insensatez, porque as experiências de laboratório só podem aplicar-se a fatos elementares, jamais ao mundo considerado em sua totalidade, e tal é precisamente o objeto da filosofia. E o espírito, em particular, só pode ser estudado empiricamente, ou em analogia com os métodos próprios da experiência, sendo considerado através do desenvolvimento da história.

As forças vivas desenvolvidas pelo espírito na história e a ação destas forças sobre a marcha e progresso das sociedades são fatos suscetíveis de observação exterior, fatos reais e concretos. Mas como estes fatos se ligam ao espírito e são precisamente criações do espírito, resulta daí que, conquanto possam ser observados exteriormente em seus efeitos objetivos, todavia só podem ser devidamente apreciados em face dos nossos próprios estados de alma; quer dizer: sendo consideradas à luz das operações de nossa atividade psíquica e como através do espelho de nossa própria consciência. Trata-se, por conseguinte, ainda aí, de introspecção. É bem certo que de introspecção indireta. Mas esta depende da introspecção direta. Nem se poderia conceber o contrário. E deste modo, tratando-se dos fatos psíquicos, quer na esfera da consciência individual, quer na esfera da consciência coletiva; quer considerando, cada um, as operações da própria consciência, quer considerando as operações de consciências estranhas, o método próprio para a elaboração do conhecimento é sempre a observação interior ou a introspecção. E quanto à história em particular, pode dizer-se que é uma espécie de introspecção organizada e sistemática. Por onde se vê que na filosofia, quer seja esta considerada em seu sentido restrito, como ciência do espírito, quer em seu sentido mais amplo, como solução ou tentativa de solução do problema da universal existência — de toda a forma, a verdade fundamental, a verdade que é o centro de todo o trabalho do espírito e o princípio mesmo do método, é ainda e será talvez sempre, a que se encerra no velho preceito socrático: Conhece-te a ti mesmo.

Notas

[1] La psychologie contemporaine, IV. 
[2] La critique de Kant et la métaphysique de Leibniz. 
[3] O assunto é discutido, na Crítica da razão pura, a partir de A 341/B 399. N. do E.
[4] Para maior desenvolvimento sobre o conceito da lei natural, veja-se A verdade como regra das ações I.

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